Criado por Jeremias Barbosa, o Seg Mobilidade nasceu em Camaragibe, na Região Metropolitana do Recife, a partir de uma dor local: a falta de acesso suficiente a transporte por aplicativo em alguns bairros da cidade. Mesmo com a presença de grandes plataformas, Jeremias afirma que a demanda não era totalmente atendida.

“Começou por falta de condições de acesso aqui no nosso bairro, na nossa cidade. Mesmo as gigantes que existem não conseguem cobrir o necessário da demanda”, afirma.

Ao contrário de muitos gestores de aplicativos regionais, Jeremias não veio da direção. Ele é contador de profissão e entrou no setor pela percepção de oportunidade e pela vontade de criar uma alternativa local.

Caminho começou com erros de tecnologia

A trajetória até chegar à operação atual foi marcada por problemas com fornecedores. Jeremias conta que contratou sistemas que não funcionaram como deveriam, passou por empresas no Rio de Janeiro e em São Paulo e, depois, por outras plataformas que não entregaram o nível de informação e suporte necessário.

“Sem experiência, você vai se atrapalhando”, diz.

Depois de sair e voltar para a empresa atual, Jeremias afirma que encontrou uma versão mais atualizada do sistema, com recursos que antes faziam falta para competir com grandes plataformas.

“Para você concorrer, principalmente com a gigante, tem que ter no mínimo segurança para o passageiro, segurança para o motorista e outras informações necessárias”, afirma.

Aplicativo atua com foco em Camaragibe

O Seg Mobilidade está disponível para operar em diferentes cidades, mas o foco principal hoje é Camaragibe, onde a empresa está sediada. A plataforma também pode atender cidades próximas, como São Lourenço da Mata, Recife, Carpina, Surubim, Jaboatão, Olinda e Paulista.

“A cidade que estamos dando mais ênfase é Camaragibe, que é a nossa cidade. Depois a gente vai caminhando para outras cidades”, explica.

Segundo Jeremias, o objetivo é fortalecer primeiro a presença local para, depois, avançar para outros mercados.

Diferencial é preço e repasse ao motorista

O principal diferencial defendido por Jeremias é o equilíbrio entre valor para o passageiro e remuneração para o motorista. Ele afirma que o Seg Mobilidade busca trabalhar com preços menores que os grandes aplicativos, mas sem sacrificar o profissional.

“O nosso diferencial é valores, tanto para motorista quanto para passageiro. A gente tenta equilibrar o máximo”, afirma.

Jeremias reconhece, porém, que competir com grandes marcas é difícil. Enquanto aplicativos nacionais investem em campanhas amplas, com celebridades e mídia de massa, o regional trabalha com recursos menores e prospecção local.

“Eles fazem de forma nacional, em campo de futebol, com cantores. A gente faz dentro da cidade, em painel de LED, da forma mais simples possível”, compara.

Captação foi feita um a um

A captação dos primeiros passageiros e motoristas foi uma das partes mais difíceis. Jeremias afirma que muitas pessoas ainda têm resistência a aplicativos regionais e desconfiam quando descobrem que a plataforma é local.

“As pessoas não dão credibilidade à regionalidade. A gente tem que mostrar que funciona”, diz.

Para isso, ele passou a incentivar as pessoas a procurarem o aplicativo diretamente nas lojas da Apple e do Android, como forma de comprovar que a plataforma era real.

A divulgação também passou por panfletagem, que, segundo Jeremias, funcionou melhor do que redes sociais pagas no início da operação.

Jeremias toca a operação sozinho

Juridicamente, Jeremias é o único sócio do Seg Mobilidade. Ele afirma que há pessoas interessadas em entrar na sociedade, mas a decisão depende de capital, fôlego financeiro e alinhamento sobre o modelo de crescimento.

“Depois de mais de três anos de luta, estou analisando se vale a pena colocar um sócio”, diz.

A busca por capital é uma das prioridades atuais. Segundo ele, o aplicativo precisa de investimento para ganhar escala, ampliar divulgação e avançar em cidades onde ainda é pouco conhecido.

Cerca de 1 mil motoristas cadastrados

O Seg Mobilidade tem cerca de 1 mil motoristas cadastrados, considerando Camaragibe e cidades próximas.

“É pouco. Principalmente porque muitos motoristas não ficam online conosco. Eles têm várias outras opções”, comenta.

Para se cadastrar, o motorista envia documentos, fotos e certidões. Após a conferência, a liberação é feita o mais rápido possível.

Motoristas ficam com 100% das corridas

Atualmente, o Seg Mobilidade não cobra taxa, mensalidade ou depósito dos motoristas. O condutor cadastra o Pix e recebe 100% do valor das corridas.

“Se ele tiver uma corrida de R$ 10, R$ 10 vai ser dele. R$ 50 vai ser R$ 50. Estamos fazendo essa promoção dando tudo para o motorista”, afirma.

A estratégia, segundo Jeremias, é fazer a plataforma ficar mais conhecida e conquistar a confiança dos condutores. Por enquanto, o aplicativo é mantido com capital próprio.

“Estou aplicando o meu capital. Enquanto estou suportando, estou deixando para a plataforma ficar mais conhecida”, diz.

Caso passe a cobrar no futuro, Jeremias afirma que a taxa seria de 10%, abaixo dos percentuais praticados por grandes plataformas.

Bônus de R$ 50 para motoristas

Além do repasse integral, Jeremias afirma que o Seg Mobilidade já fez campanhas de incentivo para motoristas, como bônus de R$ 50 no Pix após duas corridas. Para ele, esse modelo é mais simples e vantajoso do que promoções que exigem centenas de viagens para liberar valores maiores.

“Faça duas corridas e ganhe R$ 50 no Pix. Terminou, está entrando R$ 50”, afirma.

Na visão dele, muitos motoristas não analisam a vantagem percentual dessas ações e acabam priorizando promoções mais difíceis de cumprir em outras plataformas.

Preço médio busca equilíbrio

Jeremias não informou uma corrida mínima fixa, porque o valor varia conforme a distância e a região. Segundo ele, o cálculo médio gira em torno de R$ 1 por quilômetro, buscando equilibrar o que o passageiro quer pagar e o que o motorista espera receber.

“O passageiro quer preço para baixo. O motorista quer preço para cima. Tentar equilibrar isso é complicado”, afirma.

A plataforma ainda não aplica dinâmica de forma ativa, mas Jeremias pretende implementar o recurso em horários de maior demanda, à noite e em dias de chuva, para beneficiar motoristas.

“Eu tenho que pensar num todo. Preciso, em um momento de dinâmica, beneficiar também os motoristas”, diz.

Categorias incluem mulher, elite, moto e pet

O Seg Mobilidade tem várias categorias, incluindo carro comum, executivo, elite, categoria exclusiva para mulheres, moto, moto entrega e pet.

A categoria mulher foi criada para que passageiras possam chamar apenas motoristas mulheres. A adesão, porém, ainda é baixa tanto entre condutoras quanto entre passageiras.

“Fizemos essa categoria específica para mulher, mas ainda não conseguimos avançar. As mulheres motoristas não se cadastram, poucas se cadastram”, afirma.

A categoria elite, por sua vez, é voltada a carros mais luxuosos, especialmente para empresários ou passageiros que buscam um serviço superior ao comum.

Quase 4 mil passageiros já baixaram o app

O Seg Mobilidade já chegou a ter cerca de 4 mil passageiros cadastrados, embora Jeremias afirme que houve uma queda após mudanças e renovações no sistema.

O volume de corridas ainda é baixo. Em alguns dias, a plataforma registra entre 10 e 50 corridas. Para o gestor, a dificuldade está na distância entre motoristas online e passageiros que solicitam viagens.

“O passageiro chama, o motorista está longe e ele desiste. Então ele vai para outra plataforma”, explica.

Por isso, a estratégia atual é concentrar esforços em Camaragibe, para manter mais motoristas disponíveis na cidade e aumentar a chance de atendimento rápido.

Camaragibe tem desafio de ladeiras

Um dos obstáculos operacionais é a própria geografia de Camaragibe. Jeremias afirma que a cidade é formada por muitas ladeiras, o que afasta parte dos motoristas, especialmente iniciantes.

“Nossa cidade estatisticamente é 80% de ladeira. Tem motorista que não gosta de rodar em Camaragibe devido a isso. Prefere ir para Recife, que é mais plano”, diz.

Ele também cita regiões como Aldeia, onde o motorista pode levar passageiro em determinado horário e não encontrar corrida de volta.

Botão de pânico para segurança

Um dos recursos destacados por Jeremias é o botão de pânico. Caso o motorista esteja em situação de emergência, pode acionar o recurso. O alerta aparece para motoristas em um raio de 50 km e também para a central da plataforma.

“Se tentarmos entrar em contato e não conseguirmos, vamos pedir para a polícia ir até o local”, afirma.

Para Jeremias, esse tipo de ferramenta é essencial para dar segurança ao motorista e aproximar a experiência do app regional do que passageiros e condutores encontram em grandes plataformas.

Pagamento em até 48 horas no cartão

Nas corridas pagas por Pix, o dinheiro vai direto para o motorista. No cartão de crédito, a proposta do sistema é liberar o valor em até 24 horas, podendo chegar a 48 horas conforme o banco.

O motorista pode sacar o dinheiro da carteira a qualquer momento, com limite de até R$ 1 mil por saque. Jeremias afirma que o limite existe por segurança e organização financeira, não para prender o dinheiro do condutor.

“Se o camarada roda e quer ganhar dinheiro, o dinheiro passar um mês para entrar é complicado”, diz.

Tecnologia é o que motiva Jeremias

Apesar das dificuldades, Jeremias afirma que segue motivado pelo gosto por tecnologia e pela possibilidade de prestar um bom serviço. Ver os carros se movimentando na tela e o sistema funcionando é algo que o fascina.

“Eu sou contador, mas gosto de tecnologia. Ver os carrinhos andando em tela, uma pessoa chamando, o sistema avisando, isso me fascina”, afirma.

A contabilidade ainda é seu principal sustento e, segundo ele, também sustenta a Seg Mobilidade neste momento.

“A contabilidade é meu carro-chefe. É ela que me sustenta e sustenta a Seg Mobilidade. Espero que a Seg Mobilidade possa daqui para frente caminhar sozinha”, diz.

De office boy a contador

Jeremias nasceu no Recife e se mudou para Camaragibe aos cinco anos. Começou a trabalhar como office boy e, aos poucos, foi aprendendo contabilidade. Apesar de ter sonhado em ser odontólogo, acabou seguindo a área contábil.

Fez curso técnico, obteve CRC e depois cursou faculdade de contabilidade. Hoje, mantém escritório próprio fora de casa, depois de ter enfrentado dificuldades para separar a rotina profissional da vida doméstica.

Meta é conseguir capital

Para este ano, a principal meta é conseguir capital e novos parceiros. Jeremias afirma que já recebeu contatos de pessoas interessadas em entrar na sociedade e até propostas de compra da empresa, mas, até agora, não decidiu vender.

“Eu preciso de capital para que a empresa possa expandir mais. O meu capital está limitado”, afirma.

Ele também cita o desejo de ampliar a visibilidade da marca com patrocínios maiores, mas diz que os valores ainda são altos para uma empresa em fase de crescimento.

Legado: fazer a “prata da casa” ser reconhecida

Jeremias acredita que o brasileiro, muitas vezes, dá mais credibilidade a marcas de fora do que a iniciativas locais. Com o Seg Mobilidade, ele quer provar que um aplicativo regional pode oferecer segurança, bom atendimento, preço justo e melhor remuneração ao motorista.

“Parece que o brasileiro não gosta da prata da casa. Eles gostam das coisas de fora”, afirma.

O desafio, agora, é fazer Camaragibe reconhecer e usar mais o próprio aplicativo.

“Ainda não estão reconhecendo o Seg Mobilidade, mas um dia vão reconhecer”, conclui.

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Giulia Lang

Giulia Lang é jornalista formada pela Fundação Cásper Líbero e há três anos cobre o mercado de mobilidade urbana e delivery pelo 55content.