A história do Rota 66 começou com a mudança de José Rodrigues para Catalão, em Goiás. Natural de Brasília, ele vive na cidade há quase oito anos, embora já conhecesse o município havia mais tempo por causa da família da esposa. A decisão de sair do Distrito Federal veio da busca por mais qualidade de vida, longe da rotina acelerada da capital.

Ao chegar a Catalão, José encontrou uma cidade em crescimento, com cerca de 113 mil habitantes, mas sem grandes plataformas de transporte por aplicativo.

“Nós vimos uma oportunidade aqui. Era uma cidade em ascensão, muito boa, mas não tinha aplicativo. Na época, a mobilidade urbana dependia principalmente de táxi, mototáxi e ônibus com operação limitada”, conta.

Ideia nasceu depois de experiência como motorista

Antes de criar o próprio aplicativo, José tentou contato com a Uber para saber se havia previsão de entrada em Catalão, mas recebeu resposta negativa. Pouco depois, uma plataforma regional de Uberlândia iniciou operação na cidade, e ele se cadastrou como motorista parceiro.

José rodou por essa plataforma de fevereiro a julho de 2019. No dia de seu aniversário, em uma comemoração com amigos que também trabalhavam no aplicativo, surgiu a ideia de criar uma operação própria.

“Nós tivemos a ousadia de começar a querer criar o aplicativo. Daí veio a ideia do Rota 66”, afirma.

Nome foi inspirado na rota norte-americana

O nome Rota 66 foi inspirado na famosa estrada dos Estados Unidos. Segundo José, a ideia já nasceu com um sentido de expansão: atravessar o Brasil e alcançar diferentes estados.

No início, o projeto tinha quatro sócios. Com o tempo, José comprou a parte dos demais, e hoje a operação é conduzida por ele e pela esposa. O aplicativo completou sete anos de atuação em Catalão em agosto.

Primeiros passageiros vieram pelo boca a boca

A captação inicial foi feita principalmente no boca a boca. Como Catalão ainda não tinha hábito de usar aplicativo, José e os parceiros precisaram ensinar a população a baixar, cadastrar e chamar corridas pelo sistema.

“Depois, a operação passou a usar redes sociais, como Instagram e Facebook, mas a indicação entre amigos foi o que mais ajudou a consolidar a base de quase 30 mil passageiros”, afirma. 

Falta de ônibus e táxi caro abriram espaço

O Rota 66 nasceu para resolver uma dor clara da cidade: a falta de opções acessíveis de transporte. Segundo José, o ônibus já operava de forma limitada, com poucos horários, enquanto o táxi tinha preço alto para boa parte da população.

“Nesse cenário, o aplicativo entrou como uma solução mais prática, rápida e barata para a locomoção das pessoas”, diz. 

Investimento inicial foi de R$ 10 mil

Para colocar o Rota 66 em operação, o investimento inicial foi de cerca de R$ 10 mil. O valor incluiu plataforma, acesso ao sistema e ações de divulgação. José afirma que começou com cautela, sem gastos exagerados.

Na divisão atual da rotina, a esposa cuida mais do dia a dia com motoristas e finanças. José fica responsável por marketing, redes sociais, cadastro de motoristas e operação do aplicativo.

Chegada da 99 foi o momento mais difícil

Após sete anos de operação, José afirma que o momento mais difícil foi recente, com a chegada da 99 a Catalão. Segundo ele, a entrada da plataforma trouxe instabilidade pela diferença de poder financeiro e pelo volume de benefícios oferecidos a passageiros e motoristas.

Apesar disso, ele diz que o Rota 66 conseguiu reagir com trabalho local, valorização dos motoristas e atendimento mais próximo.

“Com a Uber, nós não tivemos problema. Com a 99, tivemos um desafio bem grande, mas estamos vencendo com trabalho sério e motoristas que abraçam a causa”, afirma.

Ensinar o passageiro a usar o app foi desafio inicial

No começo, a principal dificuldade foi mudar o hábito dos passageiros. Muitas pessoas queriam chamar motoristas por WhatsApp ou telefone, como já faziam com taxistas e mototaxistas.

“A estratégia reforçar as vantagens do aplicativo: nome do motorista, placa, cor do carro, trajeto, tempo estimado, segurança e preço menor do que nas chamadas particulares. Nós fomos quebrando esse paradigma de que era melhor usar o aplicativo do que o WhatsApp”, conta.

Orgulho é gerar renda para famílias

José diz que o maior orgulho da trajetória é ver famílias sustentadas pela plataforma. Segundo ele, há motoristas que deixaram empregos CLT para viver exclusivamente do aplicativo.

“O Rota 66 se tornou mais do que uma empresa de mobilidade: virou uma fonte de renda importante dentro do município”, relata. 

Gestor ainda roda em momentos de pico

José também dirige pelo próprio aplicativo. Hoje, ele afirma que não depende da atividade como antes, mas ainda entra em operação em momentos de pico, quando a demanda está alta ou quando passageiros conhecidos pedem ajuda.

Segundo ele, esse contato direto mantém a gestão mais humanizada.

“Eu gosto muito desse corpo a corpo, dessa coisa mais humanizada com as pessoas. Então, a gente ainda faz corrida”, diz.

Operação voltou a focar só em Catalão

O Rota 66 chegou a entrar em Paracatu, Caldas Novas e Xinguara, no Pará. No entanto, José afirma que a operação fora de Catalão teve desafios, especialmente em cidades turísticas, onde parte dos motoristas tentava retirar passageiros da plataforma para negociar serviços mais caros por fora.

Por isso, o aplicativo hoje está concentrado em Catalão, com planos de voltar a expandir a partir do próximo ano.

Mensalidade substituiu cobrança por percentual

Uma das principais mudanças recentes foi a troca do modelo de cobrança. Antes, o Rota 66 cobrava percentual por corrida: 15% de motoristas com adesivo ou testeira e 20% de quem não usava identificação da marca. Agora, o aplicativo passou a cobrar mensalidade.

O valor é de R$ 199 para motoristas que usam adesivo ou testeira da empresa e R$ 249 para quem não usa. A partir disso, todo o valor das corridas fica com o condutor.

“Eles pagam uma taxa e eu não cobro mais nada por corrida. Tudo o que entra na mão deles é livre”, explica.

Mudança aumentou ganho dos motoristas

José afirma que a mudança para mensalidade ainda é recente, mas já trouxe resultados. Segundo ele, a aceitação de corridas aumentou porque os motoristas passaram a enxergar vantagem em atender viagens que antes poderiam recusar por causa da taxa percentual.

O ganho dos condutores, segundo o gestor, já subiu de 15% a 25% após a mudança.

“Eles estão buscando corridas que antes não buscavam, porque agora compensa. Já pagaram a mensalidade e não têm desconto por viagem”, afirma.

Rota 66 tem quase 30 mil passageiros

O Rota 66 tem quase 30 mil passageiros cadastrados e cerca de 150 motoristas na base. O nome da marca também atrai cadastros de fora, já que “Rota 66” é usado por diferentes empresas em outros estados, segundo José.

Atualmente, a plataforma realiza cerca de 20 mil corridas por mês em Catalão.

Corrida mínima é de R$ 9,99

A corrida mínima do Rota 66 é de R$ 9,99 e cobre, em média, entre 1,9 km e 2,1 km. Na prática, José afirma que, ao dividir o valor total movimentado pela quantidade de corridas, o ticket médio de uma viagem mínima sai entre R$ 13 e R$ 14.

O valor médio do quilômetro fica em torno de R$ 3,30 a R$ 3,36.

Pagamento vai direto para o motorista

O Rota 66 não intermedeia o dinheiro das corridas. O motorista recebe diretamente em dinheiro, Pix ou maquininha própria. A plataforma trabalhava em um sistema pré-pago, no qual o condutor faz uma recarga e roda.

Para José, esse modelo ajuda o motorista a ter dinheiro disponível imediatamente para abastecimento, manutenção, problemas no carro ou necessidades familiares.

“Às vezes ele precisa abastecer, comprar um remédio, uma fralda, resolver um pneu. Então o dinheiro já entra direto na mão dele”, afirma.

Motoristas fazem em média R$ 5 mil a R$ 6 mil por mês

O faturamento dos motoristas varia conforme a dedicação. Segundo José, a média mensal fica entre R$ 5 mil e R$ 6 mil. O recorde citado na entrevista foi de R$ 12 mil em dezembro.

“Quanto mais o motorista trabalha, mais ele ganha. Ele é o patrão dele”, diz.

Plataforma movimenta cerca de R$ 1,5 milhão por ano

Somando os valores pagos pelos passageiros aos motoristas, o Rota 66 movimenta cerca de R$ 1,5 milhão por ano em corridas. Antes da mudança para mensalidade, o faturamento da empresa ficava em torno de R$ 60 mil a R$ 70 mil, segundo José.

Como a mudança de cobrança começou há pouco tempo, ele ainda não projeta um faturamento exato no novo modelo. O foco atual é aumentar o número de corridas, melhorar a aceitação das viagens e ampliar a base de motoristas.

Plano é chegar a seis estados

Para os próximos cinco anos, José quer levar o Rota 66 a pelo menos mais seis estados e alcançar cerca de 2 mil motoristas rodando. A expansão deve seguir o novo modelo de mensalidade, sem desconto por corrida.

Falta de união é o que mais incomoda

Para José, o principal problema do mercado não são apenas as corridas por fora, embora ele reconheça que isso ainda acontece. O que mais o incomoda é a falta de unidade entre os motoristas.

“ Muitos condutores se deixam levar por bônus temporários de plataformas que chegam de fora, mesmo quando isso pode diluir e dividir o ganho da própria categoria no longo prazo. Isso não vai durar para sempre”, afirma, ao reproduzir o alerta que faz aos motoristas.

Mensalidade reduz incentivo para corrida por fora

Com o novo modelo de mensalidade, José acredita que a prática de corridas por fora diminuiu, porque o motorista não precisa esconder viagens para evitar desconto. Mesmo assim, ele reconhece que esse tipo de comportamento não desaparece totalmente.

“Agora eles podem usar o próprio aplicativo para ver as corridas. Eu não ganho nada a mais por isso, mas eles estão usando a plataforma”, afirma.

Tecnologia melhorou, mas ainda limita regionais

José afirma que os aplicativos regionais ainda perdem para as grandes empresas em tecnologia, embora a diferença tenha diminuído.

Segundo ele, algumas ferramentas que poderiam ajudar na operação ainda são difíceis de implementar, como sistemas mais avançados de benefícios por recorrência de passageiros.

Para crescer, regionais precisam se unir

Na visão de José, aplicativos regionais precisam se unir para conquistar mais espaço.

“Tanto motoristas quanto donos de plataformas ainda olham muito para o próprio negócio, quando poderiam fortalecer o setor de forma coletiva”, opina. 

Futuro ainda tem espaço para regionais

José acredita que os aplicativos regionais têm tendência de crescimento, mas defende que esse avanço aconteça com parceria e valorização do que é local. Segundo ele, muitas vezes as pessoas valorizam mais o que vem de fora e deixam de apoiar negócios da própria cidade.

Para o gestor, ainda há uma fatia grande do mercado dominada por grandes empresas, mas os regionais podem conquistar mais espaço se trabalharem juntos.

Legado é mostrar que pequenos também podem crescer

O legado que José quer deixar com o Rota 66 é a mensagem de que empresas pequenas também podem chegar longe. Pastor, ele associa a trajetória a fé, trabalho sério, honestidade e valorização do Brasil.

“Não são somente as grandes empresas que podem chegar a algum lugar. As pequenas também podem, com trabalho sério, honestidade e acreditando no nosso Brasil”, conclui.

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Giulia Lang

Giulia Lang é jornalista formada pela Fundação Cásper Líbero e há três anos cobre o mercado de mobilidade urbana e delivery pelo 55content.