“Eu acho que não tinha ideia até viralizar.” Aos 19 anos, Samuel Soares desconhecia o impacto de suas ações. Natural do Rio Grande do Sul, criado em pequenas cidades do interior e hoje morador de São José (SC), na grande Florianópolis, ele conta que, antes de um post sobre ele se tornar viral nas redes sociais, não esperava que sua trajetória pudesse inspirar outras pessoas. Apesar da pouca idade, as adaptações e a relação dele com o trabalho começaram bem mais cedo.

Filho de marceneiro e de família comerciante, Samuel recorda que, ainda criança, ajudava nas iniciativas dos parentes e desenvolveu um gosto por vender e negociar: “Eu sempre tive vontade de empreender”. Foi também na infância que surgiu outro desafio que o acompanharia durante o resto da vida: ele descobriu uma má formação vascular na perna, condição que, ao longo dos anos, reduziu a mobilidade dele e fez com que passasse a usar cadeira de rodas.

Ainda na adolescência, mudou-se para a região de Florianópolis quando o pai recebeu uma oportunidade de trabalho. Pouco depois de completar 18 anos, Samuel decidiu morar sozinho. Para lidar com aluguel e demais contas, ele buscou o primeiro emprego formal, que foi como operador de caixa em supermercado. Depois disso, seguiu com a experiência no varejo, incluindo períodos em que chegou a trabalhar jornadas exaustivas para conseguir pagar as contas, conforme relata. Hoje, inclusive, o rapaz continua dividindo a rotina com um emprego em loja.

Uma história que viralizou

Mas os rumos de Samuel mudaram no início de 2026. Já cadastrado como entregador do iFood, ele decidiu começar a fazer entregas usando a cadeira de rodas mesmo. Isso chamou a atenção de quem passava, e, em uma das primeiras corridas, uma cliente o fotografou durante uma coleta de pedido e enviou para uma página local nas redes sociais. O conteúdo viralizou.

Em poucos dias, a história do jovem entregador alcançou centenas de milhares de pessoas. O perfil dele nas redes sociais, que tinha menos de cem seguidores, passou a receber milhares de visitas. Além disso, a repercussão abriu portas: um empresário do setor de mobilidade entrou em contato e ofereceu um triciclo elétrico para ajudá-lo nas entregas. Samuel conta que o equipamento ampliou seu alcance e permitiu que ele enxergasse novas possibilidades dentro do mercado.

O nascimento do Samuka Entregas

Foi nesse momento que o desejo antigo de empreender encontrou um caminho concreto. “Eu pensei: ‘Vou aproveitar a viralização para focar nisso’.” Samuel já havia iniciado uma pequena operação de delivery fora das grandes plataformas, pelo WhatsApp, e começou a estudar formas de transformá-la em empresa. O sonho inicial era desenvolver um aplicativo próprio, mas ele diz que os custos estavam muito acima da realidade financeira de quem ainda conciliava emprego formal e entregas. 

A solução veio por meio da aquisição do direito de operação de um sistema já existente, que serviria como base tecnológica para o lançamento da plataforma. O aplicativo recém-lançado com o nome “Samuka Entregas”, pretende atender inicialmente a cidade de São José, mas a ideia, segundo o jovem, é conectar restaurantes, comércios, clientes e entregadores locais, oferecendo uma alternativa regional em um mercado dominado por plataformas de alcance nacional e internacional.

Samuel acredita que o diferencial dos aplicativos locais está justamente na proximidade com a comunidade e na capacidade de criar soluções específicas para a realidade da região: “Eu acredito que é possível chegar ao nível das grandes plataformas, mas não dá para tentar crescer fazendo igual eles, porque todo mundo já conhece o iFood ou a Uber. Então, tem que ter algum diferencial para que faça as pessoas escolherem o aplicativo regional”.

Empreender para promover inclusão: projetos futuros

Com isso em vista, entre as ideias que pretende implementar, estão funcionalidades voltadas à acessibilidade e à inclusão, como a identificação de clientes com deficiência ou mobilidade reduzida para facilitar o atendimento dos entregadores. Ele também estuda formas de ampliar a participação feminina com entregadoras nas operações da plataforma.

“Quero botar uma categoria para idosos e para pessoas com alguma deficiência. Assim, na hora que o entregador estivesse indo, o cliente já saberia da situação da pessoa.”

Mesmo antes do lançamento oficial, Samuel já tinha começado a reunir entregadores e estabelecer contatos com comerciantes interessados em participar do projeto. O objetivo inicial é consolidar a operação em São José e, nos próximos meses, expandi-la para Florianópolis. Mais para o futuro, ele sonha em levar o negócio para outras cidades, outros estados e, quem sabe, para fora do Brasil.

Acima dos planos de expansão, porém, existe um propósito pessoal. Ao olhar para a própria trajetória, Samuel diz que o principal legado que deseja deixar é mostrar que limitações não precisam definir destinos. A viralização nas redes sociais transformou sua história, mas ele prefere enxergar isso como uma lembrança para continuar tentando. “Não conheço a palavra ‘limite’”, afirma.