O Pop69 nasceu com a proposta de levar mobilidade acessível a cidades que ainda não eram prioridade para as grandes plataformas e surge a partir da experiência prática do gestor no setor de transporte. Fundado por Marcos Oliveira, ex-motorista de ônibus, o aplicativo começou de forma simples, com investimento enxuto e muito trabalho direto nas ruas, enfrentando resistência e desafios que marcaram sua implantação.
Hoje, o Pop69 opera nas cidades de Tangará da Serra e Cáceres, no Mato Grosso, atendendo principalmente estudantes e moradores que dependem do transporte diário. Com uma atuação focada na proximidade com a população, no fortalecimento da economia local e em um modelo que valoriza tanto motoristas quanto passageiros, o aplicativo se consolidou como uma alternativa forte mesmo diante da chegada de grandes concorrentes.
Nesta entrevista, Marcos Oliveira conta como surgiu a ideia de criar o próprio aplicativo, relembra os desafios enfrentados no início da operação, explica o funcionamento do Pop69 atualmente e compartilha sua visão sobre os próximos passos do negócio em um cenário econômico desafiador.
Me conta um pouco da sua trajetória. O que fazia antes de criar o aplicativo?
Marcos: Eu já era do ramo de transporte, mas eu era motorista de ônibus interestadual. Eu viajava o Brasil todo e, quando me desliguei da empresa que eu estava, acabou surgindo a oportunidade de entrar no mundo dos aplicativos.
Como surgiu a ideia de criar o próprio app?
Marcos: Na época, já existiam as demais potências que estavam à frente, mas que tinham dificuldade de chegar no interior. Então, levamos essa informação e sempre deixamos clara a praticidade do modelo de trabalho de aplicativo e como poderia realmente ser inserido na sociedade. Essa foi na verdade a grande campanha ao chegar na cidade para falar sobre o aplicativo e sobre o mundo moderno que já estava se vislumbrando por aí.
Quais foram os primeiros passos para a criação da empresa? E o investimento?
Marcos: Eu lembro que fizemos 5 mil panfletos para chegar lá. Entramos dentro do carro, eu e meu amigo, gastamos R$ 650 para se deslocar até lá e começamos a empresa. Na época, a engenharia acho que foi R$ 1.800, um valor baixo até. Mas tínhamos coragem. Dividi a mesma marmita com ele algumas vezes, mas acreditava muito, porque a experiência que eu tive aqui em Cacoal foi suficiente.
Quais foram os desafios iniciais?
Marcos: No início de tudo, em toda cidade que se começava havia aquele grande transtorno para ter aceitação. A princípio não sabia se ia dar certo, porque parece que tudo era muito difícil quando se tratava de um aplicativo de mobilidade urbana. Era um embate muito grande. Teve várias situações que achei que não ia dar certo. A concorrência realmente trabalhou muito para não dar certo, mas o que a gente fez foi muito mais forte do que eles fizeram para dar errado. A nossa luta no dia a dia era muito constante.
Teve cidade, por exemplo, que com três dias foi tanta muvuca, apreensão de veículos, carro preso, tentaram de todo jeito conduzir a gente para situações bem difíceis. Em Cáceres foram várias ameaças de que tudo ia dar errado, que iam acabar com o sistema e acabar com a gente. Teve situações de sair de madrugada, meia-noite, escoltado pela polícia para voltar para Rondônia, porque senão não sabia nem se eu voltava mais. Então assim, não foi fácil em Tangará, não foi fácil em Cáceres, mas o sistema realmente deu muito certo.
Onde o Pop69 opera hoje?
Marcos: A gente está hoje em Tangará da Serra e Cáceres, no Mato Grosso.
Você já conhecia as cidades antes de abrir o app?
Marcos: Nunca tinha ido, não sabia nem para que rumo ficava, mas falei “vamos usar o GPS”.
Você pensam em expandir para outras cidades?
Marcos: Não. Nossa proposta é sempre essa: aproveitar as oportunidades que vierem, mas sabendo das limitações. Não estamos mais em 2019, estamos em 2026 e muita coisa já mudou nesse percurso. Hoje o que se faz é esperar uma oportunidade para ver se é viável ou não “andar mais”. Tem a questão financeira também, é um sistema complexo. Às vezes, hoje, nem com o dinheiro é fácil chegar onde já existe o sistema, então isso acabou limitando.
E você é do Mato Grosso mesmo?
Marcos: Na verdade eu sou de Rondônia, da cidade de Cacoal. Eu e minha família somos da Bahia, mas eu cheguei em Cacoal eu tinha 2 anos de idade e moro aqui até hoje.
Hoje tenho o meu filho, que mudou pra cidade [Tangará da Serra] e está mais próximo lá. Mas por cinco ou seis anos sempre fui eu que, mesmo de longe, estive por perto. O sistema sempre foi tão fortalecido que mesmo a distância eu consegui manter o negócio funcionando. De vez em quando eu ainda vou lá, porque no interior funciona assim: as pessoas gostam de te ver, falar um oi. Então eu sempre passo por lá e fico uns dois ou três dias pra ver como as coisas fluem.
E por que não abriu o Pop69 na cidade de Cacoal?
Marcos: O sistema que está aqui é muito forte. É um sistema que começou pequeno, se tornou grande e a população também abraçou muito isso. Eu fazia parte quando iniciou, fui um dos primeiros motoristas dessa empresa e com meu jeito de falar, a organização e brigar por algumas situações, eu também fiz com que esse sistema desse certo aqui na minha cidade.
No começo tentamos o app aqui, mas não dá para brigar com um sistema que eu mesmo também comecei a trabalhar nele.
Você tem sócios?
Marcos: Hoje a gente trabalha com quatro pessoas envolvidas diretamente no aplicativo. Eu e a minha esposa, Eliete, fazemos parte de um lado da equipe. E aí tem um amigo meu, o Valci, que começou comigo e também faz parte junto com outro parceiro, o Robson. O Valci é amigo de infância que a vida veio trazendo, conquistamos tudo juntos. Sempre fomos eu e ele os que comandam o app, aí depois minha esposa entrou para ajudar na parte administrativa e o Robson veio dar um auxílio.
Qual o público principal de vocês lá no Mato Grosso?
Marcos: Nas duas cidades em que atuamos, as faculdades são número um. É o que movimenta a cidade. São pessoas que vêm de outra cidade para estudar e, às vezes, a locomoção ficava em torno de mototáxi e táxi. E de repente veio o aplicativo que facilitou a vida deles. Hoje se tornou muito fácil, porque antes o estudante que gastava R$ 30, R$ 40 para andar 2 km de táxi, hoje consegue se locomover com R$ 10, R$ 15 ali no dia a dia. Eu falo que, através deles, o aplicativo realmente deu muito certo.
Quantos motoristas vocês tem?
Marcos: Acredito que nas duas cidades deve ter uns 170 motoristas mais ou menos.
E quantos passageiros tem cadastrados?
Marcos: No dia a dia, acredito que umas 1.500 pessoas usam o sistema lá no interior.
Quantas corridas vocês estão fazendo nas duas cidades?
Marcos: Em Tangará da Serra tem por volta de 1.200 corridas diárias, depende do fluxo. Por ser uma cidade do interior, com cerca de 120 mil habitantes, eu considero uma demanda muito boa. Cáceres tem uma média de 300 e 400 corridas por dia. Cada cidade é uma situação. Tangará é um pouco mais avançado que Cáceres.
Os estudantes têm uma categoria específica para eles?
Marcos: Não temos categoria própria para o estudante, mas, por exemplo, o estudante que anda hoje com o Pop69 na cidade de Cáceres, ele têm um desconto favorável e não importa a forma de pagamento. Eles têm um código de desconto para usar e ter essa comodidade.
Existe algum tipo de cadastro especial para esses estudantes?
Marcos: Não tem um cadastro diferente, mas podemos dizer que quem mais usa o aplicativo é o estudante e na maioria das vezes você pega ele na faculdade e leva pra casa ou vice-versa. Não costumamos pontuar muito isso, até porque numa cidade de 100 mil habitantes todo mundo se conhece e os próprios motoristas já tem uma ideia da rotina do estudante.
Quais são as categorias disponíveis no Pop69?
Marcos: Temos a categoria tradicional, que é a comum, temos a categoria luxo, a categoria de motorista mulher e de porta-mala grande. O estudante tem desconto em qualquer categoria, não é só na comum.
Tem outros aplicativos de mobilidade em Tangará e Cáceres?
Marcos: Em Cáceres devo ter ali uns seis aplicativos. Mas a população tem um carinho especial pelo Pop69, porque iniciou ali, e a gente vem conseguindo se manter à frente do sistema, mesmo com outros aplicativos ganhando espaço. Em Tangará, a Uber tem tentado espaço, mas não tem conseguido desenvolver.
Como é feita a cobrança do motorista?
Marcos: Hoje trabalhamos com mensalidade fixa para o motorista. Gira em torno de R$ 430 a R$ 480 a mensalidade. E aí, o valor da corrida é totalmente do motorista.
Para o passageiro, qual o valor da corrida mínima?
Marcos: Hoje a corrida mínima está em R$ 12 nas duas cidades.
Qual o diferencial do Pop69?
Marcos: Eu falo para você que o diferencial maior realmente foi o que se criou em torno da Pop 69. Claro que tem o interesse financeiro da empresa, da nossa mudança de vida também, mas a proposta sempre foi melhorar a vida das pessoas. Eu fui usuário dos concorrentes, sei como é andar com eles. Então, além de estar no sistema que você acredita, você entende que pode fazer o bem para alguém, e isso é o mais importante.
O sistema cresceu justamente porque quem fortalece o sistema é quem precisa dele. Se é benéfico, se é bom, a população abraça. E eles abraçaram. Em Tangará e em Cáceres, a população tem um carinho muito grande pela Pop69 pela história, pela forma como a gente chegou e permaneceu quando muitos queriam que a gente fosse embora.
E a maior propaganda hoje do aplicativo é o cliente, é o serviço bem feito que o motorista presta. Porque se o cliente está com você todos os dias, essa é a maior propaganda e se você está fazendo o seu serviço muito bem, certamente não tem o porquê ele escolher outro app.
Qual o maior desafio da Pop69 atualmente?
Marcos: O maior desafio hoje é manter o que foi feito. É uma luta diária. Você tem que estar buscando toda hora novidade, você tem que estar fazendo algo diferente o tempo todo, porque não é só você mais.
Quais são os próximos passos e metas para 2026?
Marcos: O Brasil hoje está numa instabilidade muito grande, ninguém está vislumbrando muita coisa, mas também não podemos nos abater com o que está acontecendo. A gente não pode parar o sistema, tem que continuar. É muito complexo, mas eu quero muito que esse 2026 venha para estabilizar.
Meu propósito é que realmente as coisas melhorem ainda mais como empresa. E o que me faltar de experiência, eu venho adquirindo no meu dia a dia. Eu peço a Deus sabedoria todos os dias para que a gente consiga realmente seguir em frente. Se tiver que inovar, vamos inovar, se tiver que mudar, vamos mudar também.
O que o Pop69 significa pra você?
Marcos: Foi um sucesso e continua sendo, graças a Deus. Foi uma mudança de vida realmente em todos os aspectos, financeiramente e no mundo em geral. Foi uma transformação de vida, na verdade. Eu tive uma transformação nos últimos 7 anos. Eu comecei com 33 anos, estou com 40 nesse momento, e esses 7 anos para mim foram realmente uma mudança de chave em todos os aspectos da minha vida.
Através da empresa Pop 69 eu consegui atingir outros objetivos e só tenho a agradecer pela oportunidade que foi dada e que a gente realmente abraçou a causa. Porque não é só você comprar o aplicativo e ter essa engenharia funcionando. Na verdade, por trás de tudo isso teve um desafio muito grande.

