O Levali 24 Horas nasceu de uma tentativa de Edy Carlos Ramos Cerqueira de criar uma alternativa de transporte para a população de Irará, na Bahia.
Antes de começar a operação, ele trabalhava como ajudante de pedreiro e já havia tentado implementar um serviço de mobilidade na região. Entretanto, a primeira iniciativa não teve a aceitação esperada.
A decisão de tentar novamente veio após um período de dificuldades pessoais.
Edy conta que sua fé teve um papel importante na retomada do projeto. Depois de um período de oração e jejum, recebeu um pedido de transporte que o fez reconsiderar a possibilidade de trabalhar com corridas.
Um vizinho precisava de alguém para levar uma passageira até uma comunidade rural, depois que ela havia embarcado no veículo errado e desembarcado em um local diferente do destino pretendido.
Durante o trajeto, Edy decidiu que tentaria novamente criar um serviço de transporte.
“Fui pensando no caminho e falei: ‘Pô, vou tentar aqui de novo para ver se vai dar certo’”, relembra.
Primeiros dias começaram com três corridas
Sem uma plataforma própria, Edy começou a divulgar o serviço nas redes sociais.
Criou imagens promocionais, publicou anúncios e passou a receber solicitações de pessoas interessadas em contratar corridas.
O movimento inicial foi pequeno, mas aumentou gradualmente.
“No primeiro dia deu três corridas. No segundo deu quatro, no terceiro deu cinco. E aí foi pegando embalo, pegando embalo”, conta.
Com o crescimento da demanda, ele percebeu que não conseguiria atender sozinho todos os passageiros.
Foi então que convidou um amigo para trabalhar com ele.
Posteriormente, precisou ampliar a equipe para dar conta das solicitações.
Transporte começou pelo WhatsApp
O atendimento inicial do Levali 24 Horas era realizado integralmente pelo WhatsApp.
Os passageiros entravam em contato, informavam onde estavam e solicitavam um veículo para o deslocamento.
Conforme a procura aumentou, o atendimento manual começou a exigir mais tempo e pessoas.
A dificuldade de organizar as solicitações levou Edy a considerar a adoção de uma tecnologia específica para transporte por aplicativo.
A sugestão também veio de um irmão que morava em Salvador.
“Meu irmão falou: ‘Por que você não coloca um aplicativo? Vai te ajudar bastante, vai reduzir os gastos com atendente’”, relata.
A partir disso, o gestor decidiu contratar uma plataforma que permitisse aos passageiros pedir corridas diretamente pelo celular.
Aplicativo encontrou resistência entre passageiros
Apesar da expectativa inicial, a implantação do aplicativo não trouxe os resultados esperados.
Segundo Edy, um dos principais problemas foi a dificuldade de parte dos moradores em utilizar os mapas e informar corretamente os endereços.
O gestor explica que, em cidades do interior, muitas ruas e localidades são conhecidas por nomes populares que não correspondem exatamente aos registros presentes nos aplicativos de mapas.
Isso dificultava a solicitação das corridas, principalmente entre passageiros que não tinham familiaridade com plataformas digitais.
“Eles conhecem, por exemplo, como Rua da Mangabeira. Mas no aplicativo já aparece Fazenda Mangabeira, R1. São esses detalhes mínimos que eles não têm conhecimento”, explica.
A empresa chegou a produzir vídeos demonstrativos e orientar os passageiros individualmente.
Mesmo assim, a resistência continuou.
“Muitos usuários preferiam continuar solicitando veículos pelo WhatsApp, serviço com o qual já estavam acostumados”, afirma.
Gestor decidiu interromper aplicativo anterior
Após insistir na divulgação da plataforma e tentar ampliar seu uso, Edy decidiu interromper a operação do aplicativo.
Segundo ele, o número de passageiros que utilizavam a ferramenta não era suficiente para justificar os custos mensais de manutenção.
O gestor ressalta que a dificuldade estava principalmente na adaptação dos usuários à tecnologia.
“Não chegou a ser uma quantidade que suprisse a necessidade de manter o aplicativo. Até porque a gente tem que pagar a mensalidade”, afirma.
Diante disso, decidiu buscar uma alternativa diferente.
O plano agora é desenvolver uma plataforma própria, construída de acordo com as necessidades da população atendida.
O nome Levali 24 Horas será mantido.
Na entrevista, Edy esclareceu que o aplicativo anterior já não estava funcionando e que pretendia criar um novo sistema do zero.
Operação chegou a mais de 10 cidades
Durante o período em que utilizou a plataforma anterior, o Levali 24 Horas chegou a ser disponibilizado em mais de dez cidades.
Segundo Edy, a empresa procurou ampliar a atuação para municípios vizinhos, mas a quantidade de corridas solicitadas diretamente pelo aplicativo permaneceu baixa.
A operação chegou a reunir aproximadamente 30 motoristas e entre 2 mil e 3 mil clientes cadastrados na ferramenta digital.
Entretanto, a base geral do serviço de transporte é maior.
Atualmente, o gestor afirma contar com mais de 15 mil clientes, considerando a trajetória do negócio e os atendimentos realizados fora do aplicativo.
O número não corresponde exclusivamente aos usuários da plataforma digital.
“No primeiro dia, já percebi que estava dando certo”
Questionado sobre quando percebeu que seu negócio poderia funcionar, Edy não mencionou um número elevado de corridas nem um faturamento específico.
Ele destacou a mudança que o transporte provocou em sua rotina.
Antes de trabalhar com passageiros, atuava como ajudante de pedreiro, atividade que exigia esforço físico intenso.
Ao realizar as primeiras corridas, percebeu que havia encontrado uma nova possibilidade de trabalho.
“No primeiro dia eu ganhei pouco, mas pelo menos não peguei peso nenhum. Me senti totalmente satisfeito só de não pegar peso”, relembra.
A experiência reforçou sua decisão de continuar investindo na atividade.
Com o crescimento das solicitações, o serviço deixou de depender exclusivamente de Edy e passou a contar com outros profissionais.
Corrida mínima era de R$ 10
Durante o funcionamento do aplicativo, a corrida mínima era de R$ 10.
O valor cobria deslocamentos de até aproximadamente 3 quilômetros.
Segundo Edy, a plataforma também oferecia recursos voltados ao atendimento de empresas e convênios.
Entre as possibilidades estavam contratos com clientes que preferiam realizar pagamentos mensais, em vez de pagar individualmente por cada viagem.
O gestor afirma que a ferramenta possuía diferentes funcionalidades, mas que a baixa utilização pelos passageiros acabou impedindo o desenvolvimento dessas modalidades.
Taxa para motoristas chegou a 5%
Para estimular a adesão dos condutores, Edy inicialmente permitiu que trabalhassem sem pagar taxas à plataforma.
Posteriormente, segundo sua lembrança, a cobrança foi configurada em aproximadamente 5% do valor das corridas.
O objetivo era incentivar os profissionais a utilizar o aplicativo e ampliar a disponibilidade de veículos.
O gestor explica que o sistema também possuía um mecanismo de cobrança posterior, com notificações sobre os valores devidos.
“Quando o motorista atingia o vencimento sem regularizar o pagamento, determinadas funções da plataforma ficavam bloqueadas”, afirma.
Entretanto, Edy não informou quanto a empresa arrecadava mensalmente com essas taxas.
Segundo ele, os valores recebidos eram reduzidos e precisavam ser considerados junto às despesas da atividade.
Motoristas chegaram a faturar R$ 600 em um dia
Embora não tenha informado uma média mensal de faturamento dos profissionais, Edy relatou que alguns motoristas conseguiram alcançar valores mais elevados em períodos de grande movimento.
“Na época de festa foi quando eu vi que a galera teve um faturamento bom. Teve motorista que chegou a ganhar até R$ 600 em um único dia”, afirma.
O valor representa um resultado pontual relatado pelo entrevistado, não uma média diária dos motoristas.
Edy também não especificou quanto desse faturamento permanecia com os profissionais após os custos operacionais.
Corridas por fora não são a principal preocupação
Diferentemente de gestores que apontam as corridas particulares como um dos maiores problemas do setor, Edy trata essa situação como parte da realidade do mercado local.
Segundo ele, desde o início da operação existiam pessoas que realizavam transporte de passageiros sem utilizar sua estrutura.
O gestor considera que o surgimento de novos profissionais era esperado, especialmente porque havia demanda por transporte na cidade.
“Aonde passa um rio, qualquer um que jogar sua rede vai pegar seu peixe”, afirma.
Na avaliação de Edy, quando uma atividade começa a apresentar oportunidades, outras pessoas naturalmente passam a oferecer serviços semelhantes.
Por isso, ele não considera a existência de concorrentes uma surpresa.
Passageiros que não pagam são uma das dificuldades
Ao comentar os problemas enfrentados na operação, Edy destacou as situações em que passageiros solicitam corridas, mas não realizam o pagamento.
Segundo ele, esse tipo de ocorrência prejudica o motorista, que já teve despesas para atender a solicitação.
“Dependendo da situação, a empresa deixa de oferecer novas oportunidades ao cliente que não cumpre o pagamento combinado. A inadimplência representa uma dificuldade concreta de quem trabalha diretamente com transporte de passageiros”, diz.
Tecnologia precisa considerar a realidade do interior
Como afirmado anteriormente, uma das principais críticas de Edy aos aplicativos de mobilidade está relacionada à forma como os passageiros informam seus destinos.
Segundo ele, as plataformas normalmente utilizam mapas padronizados que nem sempre refletem os nomes populares de ruas, bairros e comunidades rurais.
O resultado é que passageiros podem conhecer perfeitamente o endereço para onde desejam ir, mas não conseguem encontrá-lo na ferramenta.
O gestor defende que os aplicativos regionais tenham mais flexibilidade para adaptar os mapas à realidade local.
“Se tivesse um aplicativo em que os nomes fossem conhecidos como as pessoas conhecem, facilitaria. Ou alguma permissão para que os administradores cadastrem referências usadas pela própria comunidade”, afirma.
Essa adaptação é uma das necessidades que pretende considerar na criação da nova plataforma.
Pedido de corrida precisa ser tão simples quanto uma conversa no WhatsApp
Para Edy, um aplicativo regional não precisa apenas oferecer funcionalidades semelhantes às grandes plataformas.
É necessário que o passageiro consiga utilizá-lo sem dificuldades, mesmo que tenha pouca experiência com tecnologia.
O gestor acredita que a solicitação de viagens deveria funcionar de maneira mais intuitiva.
“Para melhorar, deve facilitar o modo de a pessoa pedir o carro. É tipo uma conversa simples como o WhatsApp. A familiaridade dos moradores com o aplicativo de mensagens é uma vantagem que poderia ser incorporada aos sistemas de transporte”, defende.
Custos dos motoristas no interior preocupam gestor
Edy também chamou a atenção para as despesas enfrentadas pelos motoristas que trabalham em cidades pequenas e regiões rurais.
Segundo ele, as condições das estradas podem aumentar os gastos com manutenção dos veículos, especialmente em locais com buracos e trechos não pavimentados.
O gestor considera que tarifas muito baixas tornam difícil cobrir essas despesas.
“Às vezes, o carro quebra e o motorista ganha muito pouco por aplicativo. Não é aquele preço que dá para dizer: ‘Vou ganhar dinheiro e, se o carro quebrar, consigo consertar e rodar de boa’. Não dá”, afirma.
Para Edy, os valores das viagens precisam considerar a realidade das regiões atendidas.
Ele destaca que uma corrida aparentemente curta pode representar um custo elevado para o profissional, dependendo das condições da estrada.
Identificação dos veículos é importante para a segurança
Outro aspecto valorizado pelo gestor é a identificação visual dos veículos que trabalham na operação.
Segundo Edy, os carros vinculados ao serviço costumam utilizar adesivos com a marca da empresa.
A medida ajuda os passageiros a reconhecer os profissionais e também evita confusões durante os deslocamentos.
“É importante a pessoa ir com a imagem da empresa para não ser confundida”, explica.
O gestor afirma que a identificação pode ser especialmente relevante em determinados trajetos da região, onde existem preocupações relacionadas à segurança.
“O legado já está aí. Eu iniciei”
Ao falar sobre seus planos para o futuro, Edy demonstrou uma visão diferente da apresentada por muitos gestores de aplicativos regionais.
Em vez de estabelecer metas de expansão ou faturamento para os próximos anos, ele destacou a importância de já ter iniciado um serviço que não existia na cidade.
Segundo o gestor, outras pessoas poderão contribuir para a continuidade e o desenvolvimento da atividade.
“O legado já está aí. Eu iniciei. O outro que chegar vai empurrar o barco”, afirma.
Embora ainda pretenda desenvolver uma plataforma própria, Edy considera que sua principal contribuição foi abrir caminho para uma nova alternativa de transporte na região.
