Criado por Pedro Chaves, Marcos Chaves e Felipe Procópio, o Pedemoto nasceu em 2022, em São João del-Rei, no Campo das Vertentes, em Minas Gerais. A ideia surgiu a partir da experiência dos sócios com delivery, pizzaria e atendimento ao público, além da percepção de que o mercado de mototáxi ainda funcionava de forma pouco padronizada na cidade.

Segundo Pedro, antes do aplicativo, os mototaxistas cobravam valores diferentes e o passageiro nem sempre sabia quanto pagaria ou em quanto tempo seria atendido. “A gente viu a oportunidade de criar o aplicativo com o preço que os clientes poderiam saber o valor certo que pagariam e o tempo de chegada”, afirma.

A ideia foi construída pelos três sócios. Marcos já havia trabalhado em outro aplicativo que estava começando na cidade e, a partir das conversas entre os três, eles decidiram testar o próprio projeto. “Foi nós três mesmo, conversando. O meu irmão trabalhava em outro aplicativo que estava começando na cidade também. Aí a gente falou: ‘vamos tentar?’”, relembra Pedro. O aplicativo completa quatro anos em outubro.

Três sócios e funções divididas

A gestão do Pedemoto é dividida entre os três fundadores. Pedro fica mais à frente do marketing e da parte jurídica. Marcos atua no contato com os mototaxistas, no cadastramento e no suporte aos profissionais. Já Felipe cuida mais da parte de desenvolvimento, acompanhando melhorias, problemas e ajustes no aplicativo.

Pedro reforça que o aplicativo nasceu de uma decisão conjunta. No começo, os próprios sócios também atuavam na linha de frente, fazendo corridas e atendendo clientes diretamente.

Até hoje, em horários de pico ou em momentos de falta de mão de obra, eles ajudam na operação para garantir o atendimento. “A gente trabalha até hoje na linha de frente. Tem certos horários do final de semana, os horários de pico, que a gente sempre passa uma necessidade de falta de mão de obra”, diz.

Os três primeiros mototaxistas eram os próprios sócios

No início, os três primeiros motoqueiros do aplicativo eram os próprios sócios. Pedro conta que, em alguns dias, eles ficavam disponíveis o dia inteiro e apenas uma corrida tocava.

“No começo, fomos nós três. Os três primeiros motoqueiros éramos nós mesmos. Às vezes ficava o dia inteirinho e tocava uma corrida”, afirma.

A virada começou com investimento em tráfego pago, influenciadores e apoio de amigos da cidade, que ajudaram a fortalecer a marca. Com o crescimento da demanda, o aplicativo recebeu o primeiro mototaxista de fora da sociedade: Lucas, citado por Pedro como uma peça importante na trajetória da empresa.

“O Lucas foi muito importante na nossa trajetória. Ele aguentou as pontas com a gente no começo e tinha pouca corrida. Ele deixou de trabalhar em outros lugares confiando no projeto”, conta.

Conforme o número de mototaxistas aumentou, os sócios foram saindo aos poucos da linha de frente para que os profissionais cadastrados pudessem ter seus próprios ganhos.

Marketing, influenciadores e boca a boca

O marketing foi uma peça importante no lançamento. Pedro afirma que, no começo, os sócios faziam reuniões para analisar números, entender de onde vinham os retornos e medir quais influenciadores geravam resultado.

“A gente sentava, conversava, fazia várias reuniões para analisar os números, de onde estavam vindo os retornos. A gente focou bastante na influência dos divulgadores da cidade”, explica.

A empresa também fez panfletagem e apostou em tráfego pago. Depois que a base inicial foi formada, o boca a boca passou a ter peso maior. Até hoje, o aplicativo pergunta aos novos clientes como conheceram a plataforma.

Segundo Pedro, o atendimento foi essencial para transformar usuários em divulgadores espontâneos da marca. “O ponto mais forte é esse: o boca a boca. É o atendimento que é o diferencial”, afirma.

Retorno veio após um ano e meio

O aplicativo começou a dar retorno de verdade cerca de um ano e meio depois, especialmente após a troca de plataforma. Até então, boa parte do dinheiro era reinvestida em marketing e na própria estruturação da operação.

Pedro explica que o Pedemoto já tinha concorrência forte em São João del-Rei, o que aumentou a necessidade de investimento para conquistar clientes e mototaxistas. Para ele, quando uma empresa é pioneira, a entrada é mais simples. Quando já existe concorrência consolidada, o custo de marketing é maior.

“Quando você já vem com a concorrência muito forte, você gasta muito mais em marketing”, afirma.

Quando os mototaxistas passaram a viver do app

Para os sócios, o momento em que o Pedemoto mostrou que estava dando certo foi quando as contas começaram a se pagar e os mototaxistas passaram a sustentar suas famílias somente com o aplicativo.

“Foi num momento em que as contas se pagavam e o faturamento dos motoqueiros já sustentava a família somente com o aplicativo. Já não era uma renda extra”, afirma Pedro.

Esse também é um dos pontos de maior orgulho dos gestores: mesmo com concorrência, chegada de multinacionais, tarifa zero no transporte público de São João del-Rei e dificuldades do mercado, a empresa segue crescendo e mantendo mototaxistas com renda mensal relevante.

“A nossa cidade tem tarifa zero, ônibus de graça, você roda todo dia à vontade. E, mesmo com essas dificuldades, a gente ainda consegue manter um crescimento mensal”, diz.

Operação em São João del-Rei, Lavras e Ipatinga

O Pedemoto atua em São João del-Rei, Lavras e Ipatinga. A matriz e principal força da operação estão em São João del-Rei. Em Lavras, segundo Pedro, o aplicativo já se consolidou como um dos maiores do segmento de moto. Em Ipatinga, a operação ainda está em fase inicial.

“A matriz principal e a nossa força maior é São João. Mas em Lavras também a gente já está chegando num ponto que somos um dos maiores aplicativos de moto lá”, afirma.

Ao todo, a plataforma reúne entre 350 e 400 mototaxistas. Em São João del-Rei, são cerca de 195 profissionais. Em Lavras, aproximadamente 85. Em Ipatinga, por volta de 57. A base de passageiros cadastrados nas cidades atendidas chega a cerca de 32 mil pessoas.

Até 52 mil corridas mensais

O Pedemoto realiza entre 49 mil e 52 mil corridas finalizadas por mês nas três cidades. O número de solicitações é maior, já que há corridas canceladas e não atendidas.

Só em São João del-Rei, a movimentação mensal em corridas chega a cerca de R$ 436 mil. Em Lavras, o valor informado durante a entrevista foi de R$ 60 mil movimentados no painel consultado naquele momento.

Mensalidade em São João e taxa de 12% em Lavras e Ipatinga

O modelo de cobrança varia conforme a cidade. Em São João del-Rei, o Pedemoto cobra mensalidade fixa de R$ 350 dos mototaxistas. Com isso, o profissional paga o valor e fica com tudo o que fizer nas corridas.

Já em Lavras e Ipatinga, o modelo é por porcentagem. Nessas cidades, o aplicativo cobra 12% sobre o valor das corridas. Pedro explica que a escolha depende da cultura de cada praça e do modelo já praticado no mercado local.

“Vai de cada cidade. Algumas cidades a porcentagem não funciona. É a cultura da cidade”, afirma.

Corrida mínima começa em R$ 6,30

A corrida mínima também varia por cidade. Em São João del-Rei, o valor mínimo é de R$ 7 para os dois primeiros quilômetros. Em Lavras, a mínima é de R$ 8. Em Ipatinga, começa em R$ 6,30. Depois dos dois primeiros quilômetros, o valor adicional é de R$ 1,50 por km.

Segundo Pedro, o objetivo é manter um valor competitivo para o passageiro, mas sem derrubar a remuneração do mototaxista.

Mototaxistas ganham em média de R$ 2,70 a R$ 3 por km

A remuneração média dos mototaxistas fica na faixa de R$ 2,70 a R$ 3 por quilômetro rodado. Pedro compara esse valor ao que costuma ser pago por multinacionais, que, segundo ele, podem ficar cerca de R$ 1 abaixo.

“A gente tenta valorizar”, afirma.

O aplicativo também permite que o mototaxista consulte o histórico de ganhos e veja quanto recebeu por quilômetro em cada corrida.

“A gente deixa liberado para ele dar uma olhada. Ele vai no histórico de ganhos e consegue ver quanto ganhou naquela quilometragem”, explica.

Ganhos médios ficam entre R$ 4 mil e R$ 7 mil

Os mototaxistas que trabalham com o Pedemoto costumam faturar, em média, de R$ 4 mil a R$ 7 mil por mês. Há profissionais que fazem mais e outros que usam o aplicativo como renda extra, com ganhos mais baixos, na faixa de R$ 2 mil a R$ 3 mil.

“A média mesmo é de R$ 4 mil a R$ 7 mil. Tem uns que fazem muito mais e tem os de renda extra, que fazem R$ 2 mil, R$ 3 mil”, afirma Pedro.

Pedro também cita casos de mototaxistas que chegaram a faturar R$ 7 mil por mês e, mesmo assim, migraram para concorrentes. Para ele, esse tipo de situação mostra uma das dificuldades do mercado: parte dos profissionais nem sempre enxerga o esforço da plataforma para valorizar a categoria.

“Um cara no mercado fazendo R$ 7 mil e ter um pensamento desse te leva a crer que é isso”, diz.

São João tem tarifa zero e chegada da 99

Um dos desafios específicos de São João del-Rei é a existência de tarifa zero no transporte público. Segundo Pedro, a cidade tem ônibus gratuito, o que aumenta a concorrência para o transporte por aplicativo.

Além disso, a 99 chegou ao município, criando mais pressão sobre a operação. Mesmo com essas adversidades, os sócios afirmam que o Pedemoto mantém crescimento mensal.

A meta atual é manter crescimento de pelo menos 5% ao mês. Diante da turbulência provocada pela chegada de concorrentes, os gestores avaliam que, mesmo se ficarem no “zero a zero” em alguns períodos, o importante é atravessar a fase inicial e preservar a operação.

“A meta é manter pelo menos o crescimento de 5% ao mês. Mas, se a gente manter no zero a zero, pela turbulência inicial de novidade na cidade, já conta muito”, afirma.

Suporte humanizado e CRM forte

Pedro afirma que um dos diferenciais do Pedemoto é o suporte humanizado. A equipe trabalha com CRM para entender onde estão os problemas, ouvir passageiros e corrigir falhas.

“A gente tem um CRM muito forte. Isso ajuda bastante a descobrir onde estão os erros, os problemas”, diz.

Segundo ele, a empresa observa os buracos deixados por outros aplicativos e tenta fazer o oposto, com atendimento mais próximo tanto para o passageiro quanto para o mototaxista.

“A gente tenta pegar os erros das multinacionais e fazer totalmente o oposto”, afirma.

Corridas por fora preocupam gestores

O Pedemoto também enfrenta o problema de corridas feitas por fora do aplicativo, especialmente nas cidades onde o modelo é por porcentagem. Em São João del-Rei, onde há mensalidade fixa, Pedro acredita que isso acontece menos.

A empresa alerta os mototaxistas de que a segurança deles depende da corrida ser solicitada pelo aplicativo. Com a viagem registrada, há histórico, trajeto e dados do passageiro.

“A segurança de vocês está a partir do momento que a corrida é solicitada pelo aplicativo. Ali a gente tem todo o histórico, trajeto e quem solicitou”, afirma.

Pedro cita casos de mototaxistas que fizeram corridas por fora e sofreram acidentes.

“Já tivemos esse problema de motoqueiro nosso ser pego com passageiro com drogas e ser liberado justamente porque a corrida tinha sido feita pelo aplicativo”, conta.

Mesmo quando a corrida não está registrada, os gestores tentam prestar suporte por uma questão humana, mas reforçam que a plataforma não consegue garantir a mesma proteção fora do sistema.

União dos mototaxistas é chave para fortalecer os regionais

Na visão dos gestores, os aplicativos regionais precisam da união dos mototaxistas para conquistar mais espaço frente às multinacionais.

Pedro afirma que os profissionais costumam reclamar que os custos sobem, mas os valores pagos pelas plataformas não acompanham. Para ele, quando os mototaxistas priorizam plataformas locais abertas a sugestões e que buscam valorizá-los, o mercado melhora.

“Os motoqueiros sendo unidos, entendendo que a plataforma local está aberta a opiniões e sugestões, a gente vai conseguir ter ainda mais crescimento”, afirma.

A lógica, segundo ele, é simples: sem atendimento dos profissionais, nenhuma plataforma funciona, seja a corrida barata ou cara.

“Se os motoristas pararem de atender, você pode ter a corrida mais barata ou a mais cara que não vai ter atendimento”, diz.

Legado: dinheiro girando na cidade, segurança e bom atendimento

O legado que os sócios querem deixar passa por fortalecer a economia local. Pedro afirma que o dinheiro gerado pelo aplicativo gira dentro da própria cidade, entre mototaxistas, parceiros e comércio local.

“O dinheiro que nós adquirimos aqui gira aqui na cidade, rodando entre motoqueiros e dando preferência para quem dá preferência para nós”, afirma.

Além disso, o foco é oferecer bom atendimento, segurança e suporte próximo. Para os gestores, o passageiro pode até experimentar um serviço pelo preço, mas só volta quando se sente bem atendido.

“A gente tenta focar mais na segurança do passageiro, no bem-estar e no bom atendimento”, diz Pedro.

A proposta do Pedemoto é construir uma relação mais humana, em que o mototaxista entenda o cliente como pessoa, não apenas como uma corrida.

“Além da pessoa pedir, tem que fazer ela voltar a pedir. Esse é o maior problema”, conclui.

Para os próximos anos, os sócios querem encontrar parceiros em outras cidades e ampliar a presença do Pedemoto. Pedro acredita que o mercado de mototáxi no Brasil ainda é frágil e pouco explorado.

“O mercado de mototáxi no Brasil ainda está muito frágil, muito no início. É um mercado a explorar demais”, afirma.

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Giulia Lang

Giulia Lang é jornalista formada pela Fundação Cásper Líbero e há três anos cobre o mercado de mobilidade urbana e delivery pelo 55content.