Criado em Lavras, no Sul de Minas Gerais, o Bora Lá? nasceu da experiência de Daniel Carvalho com tecnologia, viagens a trabalho e conversas frequentes com motoristas de aplicativo. Natural de Santo André (SP), ele se mudou ainda criança para Lavras, cidade onde cresceu, trabalhou com informática, teve loja própria e, anos depois, decidiu empreender no setor de mobilidade urbana.

O aplicativo foi lançado em 2019, inicialmente com 10 motoristas, após Daniel identificar que havia espaço para uma plataforma regional mais próxima de condutores e passageiros. Em cerca de um mês e meio, segundo ele, o Bora Lá? já havia se tornado o principal aplicativo de Lavras. Hoje, em uma cidade com aproximadamente 100 mil habitantes e cerca de 20 aplicativos de mobilidade, a plataforma segue ativa, com média de 500 a 700 corridas por mês, cerca de 90 motoristas ativos e mais de 100 mil downloads acumulados ao longo dos anos.

A operação trabalha com corrida mínima de R$ 12, taxa de 11% mais R$ 0,45 por corrida para motoristas exclusivos e 12% mais R$ 0,45 para quem roda também em outros aplicativos. O faturamento médio da empresa gira em torno de R$ 30 mil a R$ 40 mil por mês, enquanto o volume movimentado em corridas para motoristas fica entre R$ 400 mil e R$ 500 mil mensais, segundo Daniel.

“Para mim, o que importa são pessoas. Isso eu levo para minha vida”, afirma o gestor.

Da informática à mobilidade urbana

Antes de entrar no mercado de aplicativos, Daniel Carvalho construiu sua trajetória na área de tecnologia. Começou trabalhando com informática, redes de computadores e manutenção. Também teve uma loja em Lavras, que manteve até por volta de 2011.

Depois, continuou atuando como autônomo no setor, realizando serviços de informática e viajando com frequência para atender clientes. Nessas viagens, passou a usar aplicativos para se deslocar entre aeroportos, hotéis e compromissos profissionais.

Foi dentro dos carros que começou a se interessar pelo mercado. Daniel conversava com motoristas, perguntava como funcionava a rotina, se o ramo era interessante, quais eram os ganhos e quais eram os desafios.

“A gente ficava muito tempo dentro do carro. Então eu sempre perguntava como era, como funcionava, se era um ramo legal ou não. Ali veio despertando essa vontade de iniciar o aplicativo”, conta.

Apesar do interesse, ele não entrou diretamente como gestor. Primeiro, decidiu testar a rotina como motorista para entender o mecanismo por dentro.

“Para fazer, eu tenho que saber como funciona”

Daniel afirma que sempre teve uma postura de aprender o ofício antes de empreender. Na informática, queria dominar a área para conseguir orientar funcionários e resolver problemas. Com o aplicativo, adotou a mesma lógica.

Em 2019, começou a fazer corridas em horários de folga para entender melhor o funcionamento da mobilidade por aplicativo. Na época, Lavras tinha apenas um app regional em operação. Daniel passou a rodar nessa plataforma e, além de dirigir, começou a criar parcerias para ela.

Procurava empresas de festas, autopeças e postos de combustível para tentar oferecer benefícios aos motoristas. A iniciativa chamou atenção de seu pai, que o acompanhava em muitas viagens de trabalho.

“Meu pai falou: ‘Se você está fazendo tanto por esse aplicativo, por que não abre um para você?’”, relembra.

Inicialmente, Daniel resistiu. Depois de já ter tido loja e funcionários, não queria voltar a ser dono de negócio. Mas a fala do pai pesou. Segundo ele, sempre que ignorou conselhos do pai, acabou se dando mal. Por isso, decidiu tentar.

O nascimento do Bora Lá?

A ideia do Bora Lá? começou a sair do papel entre agosto e setembro de 2019. Daniel conversou com um motorista conhecido, que também estava em outra plataforma regional tentando iniciar operação em Lavras. Aquele aplicativo, segundo ele, vinha de Divinópolis, mas não oferecia suporte aos condutores locais.

Daniel propôs então aos 10 motoristas que estavam tentando fazer aquela operação funcionar que migrassem para um novo projeto. Todos aceitaram. Foi assim que o Bora Lá? nasceu, já com uma base inicial de 10 condutores.

O nome veio de uma expressão que Daniel já usava naturalmente quando fazia corridas.

“O passageiro entrava no carro e eu falava: ‘Para onde a gente vai? Então bora lá’. Era uma coisa que eu sempre falava”, conta.

Mais tarde, ao produzir uniformes, foi alertado sobre a importância de registrar a marca. Daniel entrou com o processo e conseguiu registrar o Bora Lá?, com ponto de interrogação, o que dá ao nome um tom mais convidativo.

Começo com água, bala, bolsa térmica e atendimento diferenciado

Desde o início, Daniel tentou posicionar o Bora Lá? como um aplicativo com atendimento superior. As corridas eram mais caras que em alguns concorrentes, mas havia diferenciais.

Os carros começaram com bolsa térmica, água, balas personalizadas, placas luminosas e, em alguns casos, uniforme. Daniel também chegou a fornecer saquinhos de enjoo, pensando em passageiros que saíam de festas ou haviam bebido demais.

“Se for fazer, vamos fazer com excelência”, afirma.

Para ele, no mercado de mobilidade urbana, o principal diferencial é o atendimento. O carro, por si só, cumpre a função de levar o passageiro de um ponto a outro. O que faz alguém voltar é a forma como é tratado.

“O único diferencial que existe é atendimento. Carro por carro, todos são carros. Eles vão te levar em qualquer lugar”, diz.

Entrevista com motoristas e cuidado com quem entrava

No início, Daniel fazia questão de conhecer de perto os motoristas. Chegava a ir à casa deles, conhecer a família e entender quem estava entrando na plataforma.

A ideia era reduzir riscos e formar uma base confiável. Esse cuidado, segundo ele, era mais viável no começo, quando havia poucos condutores. Com o crescimento da operação e a expansão do mercado em Lavras, tornou-se impossível manter o mesmo filtro de forma tão próxima.

Hoje, a cidade tem cerca de 1.200 a 1.300 motoristas credenciados para aplicativos, além de condutores clandestinos. O Bora Lá? trabalha com cerca de 90 motoristas ativos, mas Daniel reconhece que não consegue mais acompanhar cada um da forma como fazia nos primeiros anos.

Ainda assim, mantém a preocupação com qualidade, atendimento e postura dos condutores.

Santo André, Lavras e o basquete

Daniel nasceu em Santo André, em São Paulo, mas se mudou para Lavras aos 10 anos. O pai trabalhava na Cofap e foi transferido para ajudar na implantação de uma fábrica na cidade mineira.

A mudança, segundo ele, foi positiva. Lavras, por ser uma cidade menor, oferecia uma criação mais tranquila do que a região metropolitana de São Paulo.

Na juventude, Daniel também foi jogador profissional de basquete. Atuou em equipes como Corinthians, Trianon Jacareí e Estrela do Oeste, de Divinópolis. Chegou a cursar Educação Física, embora a vida profissional tenha acabado levando-o para a informática e, depois, para a mobilidade.

Seu maior sonho profissional, no entanto, era ser policial rodoviário federal. Ele chegou a passar em concursos da Polícia Federal e da Polícia Rodoviária Federal, inclusive dentro das vagas em 2021, mas teve Covid antes do teste físico e ficou debilitado, não conseguindo aprovação no TAF.

“Os caminhos não deixaram eu entrar na polícia. Então a gente foi achando brecha para tentar”, afirma.

Uma plataforma mais próxima de passageiro e motorista

A principal falha que Daniel enxergava em outros aplicativos regionais era a falta de proximidade com motoristas e passageiros. Segundo ele, o dono de uma plataforma anterior em Lavras não fazia propaganda, não criava parcerias e não estava próximo dos condutores.

Para uma cidade pequena, isso fazia diferença. Em Lavras, o passageiro muitas vezes quer saber quem é o gestor, quer ter acesso direto e quer confiar em quem está por trás do serviço.

“O contato direto com o cliente é muito importante. O cliente saber quem é o dono do aplicativo e ter acesso a ele é um diferencial”, diz.

Foi nessa lacuna que o Bora Lá? cresceu: oferecendo atendimento direto, presença local, parcerias e categorias adaptadas à realidade da cidade.

Bora Ladies, Pet, Mercado e Rural

Ao longo dos anos, o Bora Lá? passou a implementar categorias específicas. Uma delas é o Bora Ladies, voltado ao transporte de mulheres por motoristas mulheres. A plataforma também criou categoria pet, para transporte de animais, e a categoria mercado, ligada especialmente ao transporte de passageiros com compras de supermercado.

Outra frente é a categoria rural, pensada para corridas em estradas de terra, já que a região tem fazendas e sítios.

Segundo Daniel, a cultura de Lavras é diferente da realidade de grandes capitais. Muitos passageiros pedem telefone de motoristas, querem chamar diretamente depois e criam relação de confiança com os condutores.

“Em Lavras, o passageiro você não acha na rua, você acha dentro de casa”, afirma.

Ele conta casos em que o motorista chega e o passageiro ainda está tomando café. Para Daniel, esse tipo de comportamento mostra como a mobilidade regional exige adaptação à cultura local.

Lavras universitária ajuda a movimentar o aplicativo

Lavras tem forte presença universitária. Segundo Daniel, só a UFLA reúne algo entre 20 mil e 30 mil estudantes, o que cria um público flutuante. A cada semestre, muitos alunos chegam e muitos vão embora.

Isso impacta diretamente a base de usuários. O Bora Lá? já acumula mais de 100 mil downloads ou usuários que passaram pelo aplicativo, mas Daniel ressalta que esse número não significa clientes ativos permanentes. Como há histórico de corridas e registros, não é possível simplesmente limpar a base.

A presença universitária também ajuda a movimentar a noite. A cidade tem muitas festas, repúblicas e eventos, o que contribuiu para o crescimento inicial do aplicativo.

Lançamento coincidiu com a chegada da Uber

Um episódio marcante aconteceu antes mesmo do lançamento. Poucas horas depois de Daniel pagar pela criação do aplicativo na primeira plataforma, a Uber anunciou que chegaria a Lavras.

“Foi questão de horas. Eu paguei e, uma ou duas horas depois, apareceu no Instagram que a Uber estava chegando”, relembra.

Ele chegou a pensar que, se soubesse disso antes, talvez não tivesse iniciado o Bora Lá?. Mas decidiu seguir. Com o tempo, percebeu que a Uber não teve a adesão esperada entre todos os motoristas, principalmente por causa das taxas cobradas.

A 99, por outro lado, chegou mais recentemente e, segundo Daniel, vem causando mais impacto porque não cobra nada do motorista nesse início, atraindo condutores e passageiros.

Experiência frustrada na Grande Vitória

Em 2022 ou 2023, Daniel tentou expandir o Bora Lá? para a Grande Vitória, no Espírito Santo. A operação chegou a sete cidades, incluindo Vitória e Vila Velha, e alcançou quase 2 mil motoristas cadastrados.

Ele passou meses na região, conversando com motoristas, fazendo reuniões e tentando estruturar a operação. Mas, segundo Daniel, quando Uber e 99 perceberam o crescimento do Bora Lá?, passaram a oferecer promoções agressivas para motoristas.

As plataformas prometiam bônus por metas de corridas, como fazer 100 viagens e receber R$ 2 mil. Depois, ofereciam novas missões, com mais corridas e mais bônus. A estratégia desmobilizou a base do aplicativo regional.

Daniel ficou cerca de cinco meses na região, mas decidiu encerrar a operação e manter o Bora Lá? apenas em Lavras.

“Chegou um ponto em que eu falei: não dá para continuar assim. Vou manter em Lavras, e para mim está bom demais”, afirma.

Investimento inicial de cerca de R$ 10 mil

Daniel estima que o investimento inicial para colocar o Bora Lá? no ar tenha ficado em torno de R$ 10 mil. A plataforma em si não era tão cara, mas houve gastos com conta da Apple, Google, outdoor, rádio, bolsas térmicas, água, balas, materiais promocionais e outros itens de implementação.

Como ele já tinha computador, estrutura em casa e carro próprio, não precisou gastar tanto com escritório ou estrutura física.

O retorno veio rapidamente. Como Daniel também rodava no aplicativo, conseguiu recuperar o investimento em cerca de dois ou três meses.

“Eu fiquei uns oito meses com o aplicativo ligado 24 horas. Dormia picado o dia todo”, conta.

Ele lembra que passava madrugadas fazendo corridas, voltava para casa, cochilava de uniforme e acordava com o toque do aplicativo para sair novamente.

Apoio da família e de motoristas do início

Ao falar sobre quem foi essencial para a sobrevivência do negócio, Daniel cita principalmente a família e alguns motoristas que permaneceram no aplicativo nos momentos mais difíceis.

Entre os nomes lembrados estão Regiane e Adriana, motoristas que estão com o Bora Lá? desde o começo e seguem trabalhando na plataforma.

“Alguns motoristas vieram roer o osso com a gente”, afirma.

O apoio familiar também foi decisivo. Hoje, Daniel administra a operação e sua esposa, professora universitária na Universidade Federal de Lavras, ajuda na parte de publicidade. A filha e a enteada também colaboram em algumas ações.

Sem escritório e com gestão enxuta

O Bora Lá? já tentou ter escritório físico e central telefônica, mas Daniel percebeu que a demanda era baixa. Passageiros raramente iam ao local, exceto em casos de objetos perdidos. Motoristas usavam o espaço para água, banheiro ou café, mas o custo não compensava.

Hoje, a operação é enxuta. Daniel e a esposa conduzem a gestão, com apoio eventual de influenciadoras e familiares em campanhas.

A rotina, no entanto, continua intensa. Daniel não faz mais corridas comuns na rua, mas segue acompanhando a operação pelo WhatsApp praticamente 24 horas por dia. Se acorda de madrugada e vê mensagem, responde. Se um motorista tem problema, tenta ajudar.

Ele também ainda atua nas entregas de supermercado, uma operação que exige mais esforço físico e que muitos motoristas não gostam de fazer.

Contrato com supermercado e impacto social

Uma das frentes do Bora Lá? é a parceria com supermercados, especialmente com o ABC, rede presente em Minas Gerais. O cliente que faz compra mínima de R$ 200 pode pedir a entrega por R$ 5. O Bora Lá? busca o passageiro e leva suas compras para casa.

Segundo Daniel, a maioria das pessoas que usa esse serviço é de baixa renda. Ao entregar as compras, ele passou a entrar em casas e ver de perto realidades difíceis, o que trouxe crescimento pessoal.

“A gente sai impactado da casa. É uma miséria muito grande”, afirma.

Ele diz que pretende levar as filhas para fazer entregas com ele em algum momento, para que entendam melhor a realidade de outras famílias e valorizem o que têm.

90 motoristas ativos e mais de 100 mil downloads acumulados

Atualmente, o Bora Lá? tem cerca de 90 motoristas ativos. Já teve mais, mas Daniel afirma que, quando a base cresce demais, a qualidade fica mais difícil de controlar.

Lavras tem hoje cerca de 1.200 a 1.300 motoristas credenciados em aplicativos, além de clandestinos. A concorrência é grande, com aproximadamente 20 aplicativos na cidade.

Do lado dos passageiros, a base acumulada passa de 100 mil downloads ou usuários que já passaram pela plataforma. Daniel ressalta que Lavras é uma cidade universitária, com público flutuante. Por isso, muitos usuários entram e saem da cidade sem necessariamente continuar usando o aplicativo.

Média de 500 a 700 corridas por mês

Hoje, o Bora Lá? realiza em média de 500 a 700 corridas por mês. A plataforma já chegou a registrar mais de 1.000 ou 1.500 corridas mensais, mas o volume foi diluído ao longo dos anos com o aumento da concorrência e a saída de motoristas para novos aplicativos.

Ainda assim, Daniel considera a média relevante diante da quantidade de plataformas em Lavras.

Segundo ele, muitos motoristas saem, criam seus próprios aplicativos e acabam levando parte dos passageiros, fenômeno comum no mercado regional.

Taxa de 11% ou 12% mais R$ 0,45 por corrida

O modelo atual do Bora Lá? é baseado em percentual por corrida. Motoristas que trabalham apenas no Bora Lá? pagam 11% mais R$ 0,45 por corrida. Quem roda também em outros aplicativos paga 12% mais R$ 0,45.

A plataforma já testou cobrança semanal, quinzenal e mensal. Em determinado momento, chegou a cobrar R$ 100 por semana, o que permitia ao motorista fazer quantas corridas quisesse. O modelo beneficiava os condutores que faturavam mais, mas prejudicava quem rodava pouco ou apenas em horários específicos.

Por isso, Daniel voltou ao percentual, que considera mais democrático.

“Se você fez muito, paga muito. Se fez pouco, paga pouco”, explica.

Há, porém, um valor mínimo: o motorista precisa gerar pelo menos R$ 200 de comissão mensal ao aplicativo. No dia 25, Daniel fecha o relatório. Se o motorista ficou abaixo desse mínimo, a diferença é lançada no saldo dele, que precisa regularizar até o fim do mês.

Corrida mínima de R$ 12 e km médio de até R$ 2,70

A corrida mínima do Bora Lá? é de R$ 12 para o passageiro. Mesmo com promoções, o valor não cai abaixo disso. Quando há cupom de desconto, a plataforma arca com a diferença para não reduzir o ganho do motorista.

Se uma corrida de R$ 12 recebe desconto de 10%, por exemplo, o passageiro paga R$ 10,80, e os R$ 1,20 entram como saldo para o motorista no aplicativo.

A corrida mínima cobre menos de 1 km; por volta de 800 metros, o valor já começa a subir. A base de cálculo do quilômetro é de R$ 2,50, mas, somando tempo e demais componentes, o motorista recebe em média entre R$ 2,60 e R$ 2,70 por km.

Daniel afirma que esse valor é importante porque Lavras tem muitos morros, o que aumenta o desgaste dos veículos.

Motoristas recebem direto do passageiro

Em Lavras, a maior parte dos pagamentos é feita por Pix ou dinheiro diretamente ao motorista. Alguns condutores também usam maquininhas de cartão dentro do carro.

O Bora Lá? trabalha com sistema pré-pago de créditos para cobrança da taxa. O motorista coloca saldo no aplicativo e, conforme realiza corridas, a comissão vai sendo descontada.

Segundo Daniel, no início a cobrança era posterior, mas isso gerava problemas. Por isso, o pré-pago se tornou a forma mais segura para a operação.

Média de R$ 3 mil por mês por motorista, com casos de até R$ 12 mil

Daniel estima que, se um motorista trabalhasse apenas no Bora Lá?, a média de faturamento mensal ficaria em torno de R$ 3 mil. Quem fica abaixo disso geralmente divide sua rotina entre três, quatro ou cinco aplicativos.

Ele afirma que há motoristas que conseguem faturar R$ 7 mil, R$ 8 mil, R$ 10 mil ou até R$ 12 mil por mês, dependendo da dedicação e da quantidade de corridas realizadas.

Para Daniel, muitos motoristas não percebem que, ao se dividir entre várias plataformas, acabam trabalhando mais e ganhando menos.

“Se você trabalhasse só em um, trabalhava menos e ganhava mais. Mas eles não conseguem enxergar isso”, afirma.

Bora Lá? movimenta até R$ 500 mil por mês em corridas

Segundo Daniel, o Bora Lá? movimenta entre R$ 400 mil e R$ 500 mil por mês em corridas pagas aos motoristas. O faturamento da empresa, considerando a parte que fica com a plataforma, gira em torno de R$ 30 mil a R$ 40 mil mensais.

Esse valor não é lucro líquido. A operação ainda precisa pagar custos com tecnologia, mapas, servidores, Google, HERE, banco de dados e demais despesas.

A chegada da 99 a Lavras dificultou a criação de metas para 2026. Daniel afirma que o aplicativo entrou em um modo de sobrevivência, já que a cidade agora conta com Uber, 99, inDrive e diversas plataformas regionais.

Lei municipal e dificuldade de fiscalização

Outro desafio recente é a regulamentação municipal. Segundo Daniel, a prefeitura de Lavras passou a exigir que motoristas façam exame toxicológico, curso de taxista e credenciamento local, mesmo para quem dirige na categoria B.

O problema, segundo ele, é que motoristas que não conseguem se regularizar acabam rodando em plataformas como 99 e Uber, que não exigem os mesmos procedimentos localmente. Isso gera desequilíbrio competitivo.

“Eles falam que vão fiscalizar, mas a gente não vê a fiscalização”, afirma.

Daniel diz que já participou de reunião com o prefeito e tenta buscar soluções, mas ainda enfrenta dificuldades para garantir que todos operem sob as mesmas regras.

O orgulho de ter ajudado famílias

Ao olhar para sua trajetória, Daniel afirma que seu maior orgulho é ter ajudado famílias a atravessarem momentos difíceis. Durante a pandemia, por exemplo, motoristas de vans escolares ficaram sem poder trabalhar. Muitos migraram para o Bora Lá? e conseguiram sustentar suas casas por meio do aplicativo.

“O que mais me deixa feliz é quando alguém fala: ‘Se não fosse o Bora Lá?, eu não sei o que seria da minha família’”, afirma.

Para ele, bens materiais poderiam vir de qualquer trabalho. O que realmente importa é o reconhecimento, a gratidão e a possibilidade de fazer algo pelas pessoas.

Futuro dos apps regionais depende de cada cidade

Daniel acredita que o futuro dos aplicativos regionais será diferente em cada município. Em algumas cidades, ainda não há plataformas locais e o mercado pode crescer. Em outras, os regionais já enfrentam saturação, ônibus gratuitos, forte presença de táxis ou chegada das grandes empresas.

Ele também acredita que Uber, 99 e outras plataformas nacionais estão avançando para cidades pequenas para tentar dominar o mercado.

“Eu acho que os aplicativos grandes estão começando a ir para as cidades pequenas para realmente dominar tudo”, avalia.

Por isso, Daniel vê os próximos anos com cautela. Em conversas com a esposa, já comenta que talvez o setor não esteja igual daqui quatro ou cinco anos.

Atendimento será o diferencial dos regionais

Mesmo diante da concorrência, Daniel acredita que os aplicativos regionais só conseguirão sobreviver se apostarem no atendimento. Para ele, esse é o único diferencial real.

“Não é o carro mais cheiroso, não é o carro mais bonito. O que vai definir quem vai sobreviver ou não é a qualidade do atendimento”, afirma.

Na visão dele, o passageiro pode até testar a opção mais barata, mas volta para o aplicativo regional se sentir que recebe um tratamento melhor. Em cidades menores, onde a cultura local é forte, essa relação pesa ainda mais.

O legado do Bora Lá?

O legado que Daniel quer deixar em Lavras é o de um aplicativo lembrado pelo atendimento de excelência. Ele quer que passageiros e motoristas associem o Bora Lá? a cuidado, proximidade e respeito.

“Se tem um aplicativo que atende bem, é o Bora Lá?. É isso que eu quero que as pessoas pensem”, afirma.

Nos treinamentos e conversas com motoristas, Daniel reforça sempre o mesmo ponto: o atendimento precisa ser melhor. O carro pode ser o mesmo que atende outras plataformas, mas a experiência no Bora Lá? precisa ser diferente.

“O seu carro atende na 99 e atende no Bora Lá?. Ele vai escolher o mais barato. Mas, se tiver atendimento diferenciado aqui, ele vai preferir aqui”, conclui.

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Giulia Lang

Giulia Lang é jornalista formada pela Fundação Cásper Líbero e há três anos cobre o mercado de mobilidade urbana e delivery pelo 55content.