A experiência de Thaís Diaz como motorista de aplicativo em Belo Horizonte foi o ponto de partida para a criação do Destino Delas, uma plataforma de mobilidade voltada exclusivamente para mulheres. Após deixar o setor bancário, a empreendedora passou a atuar nas ruas e identificou lacunas relacionadas à segurança e ao atendimento dentro do transporte por aplicativo. A partir disso, começou a construir uma rede própria de clientes e motoristas, inicialmente operando via WhatsApp.
Ao longo desta entrevista, Thaís detalha os desafios de estruturar o negócio sem investimento externo, o crescimento orgânico da operação e os planos para o lançamento do aplicativo, que aposta em segurança, atendimento humanizado e na criação de um ecossistema de mobilidade feminina.
Como surgiu a ideia da Destino Delas e qual é a sua trajetória até a mobilidade urbana?
Thaís: Eu sou a Thaís, tenho 31 anos e moro em Belo Horizonte. Sou formada em Museologia pela UEMG, então, inicialmente, minha trajetória profissional era voltada para museus e patrimônio cultural. Só que, na época em que eu estava me formando, entrou a pandemia, e eu precisei migrar para outra área. Fui trabalhar em home office e acabei entrando no setor bancário, mais especificamente em prevenção a fraudes.
Fiquei alguns anos nessa empresa, mas cheguei a um ponto de estafa. Estava trabalhando demais e precisei mudar de rota. Foi aí que comecei a rodar como motorista de aplicativo. No começo, apanhei muito da rua e também da lógica dos aplicativos, para entender algoritmo, dinâmica de corrida, horários, comportamento de passageiras e tudo mais. Mas, com o tempo, fui montando uma clientela muito legal, principalmente de mulheres que me chamavam para eventos, aeroportos e deslocamentos mais recorrentes.
Em determinado momento, pensei: “Vou começar a gravar vídeos na internet para ver se consigo mais clientes”. Comecei a mostrar meu dia a dia como motorista, e isso trouxe não só mais passageiras, mas também outras mulheres interessadas em trabalhar comigo. Eu já usava o nome Destino Delas na página, e o projeto começou a ganhar identidade.
Foi então que surgiu o Henrique, meu sócio, que é desenvolvedor. Ele olhou para aquilo e falou: “Vamos fazer um aplicativo”. E foi assim que a ideia nasceu. A gente começou a pensar em uma plataforma que ajudasse as mulheres a se movimentarem com mais segurança e também gerasse oportunidade para outras motoristas.
Hoje você é a gestora do aplicativo?
Thaís: Sim. Hoje eu sou gestora do projeto junto com o meu sócio, o Henrique.
Quando vocês começaram a operar e como funcionou esse início?
Thaís: A operação começou entre outubro e novembro do ano passado, ainda de forma manual, pelo WhatsApp. O aplicativo mesmo está em fase final e deve ser lançado agora, muito em breve. A gente acredita que o aplicativo web entra no ar ainda esta semana.
Esse começo pelo WhatsApp foi muito importante porque nos permitiu validar a operação, entender melhor a demanda e começar a construir uma base de motoristas e passageiras antes de escalar de vez pela tecnologia.
Como vocês conseguiram captar as primeiras motoristas e passageiras?
Thaís: As primeiras motoristas vieram muito por causa dos vídeos que eu gravava. Essas mulheres começaram a chegar até mim, interessadas em trabalhar de uma forma mais segura e mais organizada. No começo eram umas dez só. Depois, essas próprias motoristas começaram a indicar outras. Como muitas participam de vários grupos, esse boca a boca ajudou bastante.
As passageiras vieram de várias formas. No início, eu deixava cartãozinho com o nome Destino Delas para as mulheres que pegavam corrida comigo. Depois, isso foi crescendo por indicação. Hoje também chega muita gente pelo Instagram e pelo TikTok. Tem até pessoas de outros estados que descobrem a gente pelas redes sociais e acabam fazendo reserva.
Em quais cidades a Destino Delas atua hoje?
Thaís: Hoje a operação está concentrada em Belo Horizonte. Mas a gente já tem uma previsão bem concreta de iniciar também em Florianópolis. Tenho uma outra sócia, a Vanessa, que está lá e vai assumir essa frente.
A nossa ideia agora é começar o cadastro nacional de motoristas. A partir do momento em que a gente atingir um número mínimo de motoristas em determinada cidade, vamos liberando essa cidade também para o cadastro de passageiras.
Então, por enquanto, Belo Horizonte está operando, e Florianópolis é a próxima.
O aplicativo já foi lançado oficialmente?
Thaís: Ainda não. A operação já existe, funciona via WhatsApp, já temos corridas acontecendo e uma base formada, mas o aplicativo em si ainda vai ser lançado agora.
Como é dividido o trabalho entre vocês?
Thaís: O Henrique cuida totalmente da parte tecnológica. Ele é o responsável pelo desenvolvimento da plataforma. Eu fico com a operação: captação de motoristas, atendimento, construção do clube de benefícios, relacionamento com passageiras e também a comunicação do projeto.
A Vanessa, que vai entrar como sócia, vai cuidar especialmente da frente B2B, ou seja, parcerias com empresas. Porque a gente quer, além da passageira comum, atender também empresas interessadas em oferecer deslocamento mais seguro para mulheres do quadro de funcionários.
Vocês receberam investimento para começar?
Thaís: Não tivemos investimento externo até agora. O que existe foi muito investimento do meu bolso e um esforço muito enxuto para fazer tudo acontecer. A gente está construindo o projeto com o mínimo possível.
Eu gastei, mais ou menos, cerca de R$ 4 mil no início. Foi com coisas como material, servidor e o básico para a estrutura começar a funcionar. Esse valor já foi recuperado, sim.
A operação via WhatsApp já se pagou?
Thaís: Sim, já se pagou. Em corridas intermediadas, da última vez que fiz a conta, a gente estava em torno de R$ 17 mil movimentados. Então já tivemos retorno, sim.
Qual foi o momento em que você percebeu que a operação estava dando certo?
Thaís: Acho que foi quando pais e mães começaram a procurar a gente com força, principalmente em janeiro. Alguém comentou sobre a Destino Delas em grupos de escola e, nesse dia, mais de 30 pessoas vieram atrás da gente para transporte de filhos.
Ali eu percebi que o nome já tinha começado a circular, que as pessoas estavam confiando na proposta. E isso é muito importante, porque a gente não quer ser só uma corrida comum. A gente quer trabalhar com categorias específicas, como Kids, Teens e Senior, e isso exige muita confiança.
Quais categorias vocês pretendem oferecer no aplicativo?
Thaís: A gente quer oferecer categorias pensadas para necessidades específicas. Vamos ter, por exemplo, a categoria Senior, para idosas que precisam de mais acompanhamento, de espera e de mais cuidado. Também vamos ter Kids e Teens, com protocolo de segurança para buscar e entregar a criança ou adolescente.
Além disso, teremos agendamento e agendamento recorrente. Então, se uma criança tem aula de tênis toda terça-feira, por exemplo, isso já fica programado no aplicativo, com motorista definida, tudo mais organizado. A ideia é facilitar a vida da família e aumentar a segurança.
Qual foi a maior dificuldade até agora?
Thaís: A maior dificuldade foi colocar o aplicativo de pé. Ele está pronto, mas faltavam recursos para contratar servidor, estrutura financeira, algumas ferramentas essenciais. O Henrique já trabalha com tecnologia, mas não exatamente com aplicativo de mobilidade, então também houve uma curva de aprendizado.
Então o grande desafio foi transformar a ideia em algo tecnicamente viável e pronto para lançar.
Como é a sua rotina hoje como gestora? Você ainda roda como motorista?
Thaís: Sim, eu ainda rodo. Hoje minha rotina começa no WhatsApp, organizando e repassando corridas para as motoristas. Depois eu saio para fazer meus próprios atendimentos pela Destino Delas. Atualmente, quase não rodo mais em outros aplicativos, estou focada na operação da Destino Delas.
Durante o dia, entre uma corrida e outra, eu falo com clientes, com pais, fecho contratos, organizo demandas e vou mantendo a operação funcionando. À noite, faço esse mesmo acompanhamento de novo. É bem cansativo, por isso acredito que com o aplicativo tudo vai ficar muito mais fácil.
Do que você mais se orgulha nessa trajetória?
Thaís: Eu acho que é de ter continuado. Porque eu tive muitas chances de desistir. A gente não tinha aplicativo no ar, não tinha verba, não tinha estrutura ideal, e ainda assim as pessoas acreditaram em mim e no projeto.
Foram chegando parceiras, clientes, motoristas, gente disposta a construir junto. Então o que eu mais me orgulho é de ter sustentado essa ideia mesmo quando ela ainda não parecia tangível. Agora a gente está começando a colher os frutos.
Quantas motoristas e quantas passageiras vocês têm hoje?
Thaís: Hoje temos 83 motoristas e mais de 300 clientes na base. Essa base de clientes começou lá atrás, quando eu ainda atendia mais sozinha, e foi crescendo com a operação.
Quantas corridas vocês fazem por mês?
Thaís: Ainda é muito recente, mas no último mês foram cerca de 45 corridas. A nossa expectativa com o lançamento do aplicativo é subir bastante esse volume rapidamente.
Qual é o valor da corrida mínima?
Thaís: Para a tarifa normal, a corrida mínima é de R$ 15, cobrindo os dois primeiros quilômetros.
Na categoria Kids e Teens, a tarifa mínima é de R$ 45, cobrindo os quatro primeiros quilômetros, justamente porque envolve um protocolo diferente, mais cuidado e uma estrutura mais específica.
Como funciona a cobrança para as motoristas?
Thaís: Hoje a cobrança prevista é de 25% sobre o valor da corrida. Como a gente se entende como um SaaS de mobilidade, queremos oferecer muito mais do que corrida. Vamos criar um ecossistema com benefícios, descontos e parcerias.
Já estamos cadastrando benefícios em Belo Horizonte, como lava-jato, oficina e escola. A ideia é oferecer vantagens reais para as motoristas e, futuramente, também para as passageiras.
Mas esse modelo ainda está aberto a ajustes. Fizemos um formulário para ouvir as motoristas e queremos que elas participem dessa construção. Conforme a operação do aplicativo for rodando de forma mais estruturada, podemos revisar esse formato.
E na operação pelo WhatsApp, como funciona o pagamento?
Thaís: Hoje o pagamento é feito diretamente para a empresa, e depois eu repasso para as motoristas. Como ainda não estamos com o aplicativo no ar, essa operação é toda manual.
Quanto, em média, uma motorista consegue ganhar?
Thaís: Ainda é cedo para falar em uma média muito consolidada, mas temos o caso da Marina, por exemplo, que já deve ter faturado mais de R$ 1.500 com a gente em cerca de um mês.
A gente também trabalha com preços mais altos do que a média das plataformas comuns em algumas categorias, especialmente porque o serviço é segmentado. No geral, a corrida não fica por menos de R$ 3 por quilômetro.
Qual é a projeção financeira para 2026?
Thaís: A gente fez uma projeção inicial de 300 corridas por mês, com ticket médio estimado em R$ 130 em alguns casos, muito por causa dos pacotes mensais, principalmente para transporte de crianças.
Com isso, a projeção para 2026 era de cerca de R$ 130 mil em corridas intermediadas e uma receita da empresa em torno de R$ 32,5 mil. Mas isso era uma conta conservadora. Com o lançamento do aplicativo, a nossa expectativa é melhorar esse número.
Quais eram seus medos antes de lançar o projeto?
Thaís: Acho que meu maior medo era flopar, sinceramente. Mas isso faz parte de qualquer coisa nova. Só que, ao mesmo tempo, eu sempre senti que a proposta era necessária.
Como você vê o futuro dos aplicativos regionais de mobilidade?
Thaís: Eu acho que os trabalhadores por aplicativo estão começando a entender melhor a lógica das grandes plataformas. A gente está entendendo o valor do nosso trabalho, do nosso patrimônio, da nossa presença ali na ponta.
E quanto mais isso acontece, mais espaço existe para aplicativos menores, regionais, que colocam o motorista no centro da operação. Eu acompanho muita empresa pequena pelo Brasil e vejo muita iniciativa dando certo, principalmente no Nordeste. Então eu acredito, sim, nesse futuro.
Na sua opinião, o que os aplicativos regionais precisam fazer para crescer?
Thaís: Eu acho que precisam crescer com presença humana. A tecnologia é importante e alcança qualquer lugar, mas o cuidado humano é o grande diferencial.
As grandes empresas escalam pela tecnologia, mas nem sempre conseguem sustentar esse cuidado próximo com quem trabalha e com quem usa. Os regionais podem crescer mostrando rosto, proximidade, escuta e construção conjunta.
O que mais te incomoda no mercado de mobilidade hoje?
Thaís: O que mais me incomoda é a precarização do trabalho. Algumas plataformas pagam muito pouco por quilômetro e, mesmo assim, concentram uma quantidade enorme de motoristas. Isso cria um ciclo vicioso, porque o motorista continua ali, mesmo sendo mal remunerado, e isso vai achatando o mercado.
É uma concorrência desleal, porque as plataformas grandes têm muita força, mas nem sempre devolvem isso para quem está trabalhando.
Qual legado você quer deixar com a Destino Delas?
Thaís: Eu quero que a Destino Delas ajude a tornar a mobilidade mais segura para as mulheres e também abra espaço de trabalho em um setor onde a mulher ainda não é totalmente bem-vinda.
A gente quer transformar a mobilidade urbana em Belo Horizonte, em Florianópolis e em outras cidades em um espaço onde as mulheres possam se locomover com tranquilidade e também trabalhar com mais dignidade.
Nosso objetivo é ser a maior plataforma de mobilidade feminina do Brasil e, mais do que uma empresa de corridas, ser um ecossistema de apoio.

