Em um mercado dominado por grandes plataformas de transporte, iniciativas locais e humanizadas buscam atender demandas específicas que os aplicativos tradicionais não conseguem suprir. Em Santos (SP), a Mamy Driver nasceu com foco no transporte seguro de crianças, adolescentes e idosos, operando exclusivamente com mulheres motoristas e atendimento personalizado. 

Nesta entrevista, Catia Morethes, fundadora e gestora da operação, conta sua trajetória profissional, explica por que abandonou o modelo de aplicativo e defende que, quando o assunto é transporte de famílias, confiança e relacionamento humano valem mais do que tecnologia.

Para começar, queria saber onde você nasceu, onde cresceu e como foi sua trajetória profissional até chegar ao empreendedorismo.

Catia: Sou de São Paulo, nasci e vivi a vida inteira lá. Estudei, me formei e trabalhei em empresas na capital. Tenho 51 anos e, quando eu era criança, esse mercado de mobilidade por aplicativo nem existia. Sempre tive um perfil muito empreendedor. Trabalhei para outras pessoas até cerca dos 28 ou 30 anos e depois decidi empreender.

Comecei a trabalhar cedo, aos 16 anos. Atuei principalmente nas áreas financeira e de cobrança. Sou formada em Tecnologia da Informação e fiz pós-graduação em Finanças. Trabalhei muitos anos como analista financeira, de crédito e cobrança, e tudo isso eu aplico hoje na gestão da minha própria empresa.

Você se imaginava trabalhando com mobilidade urbana ou transporte de pessoas?

Catia: Não exatamente, mas as coisas foram acontecendo. Em 2010, comecei a trabalhar com transporte de crianças em São Paulo, principalmente em regiões como Jardins, Vila Olímpia e Alto de Pinheiros. Na época, eu prestava serviço diretamente para uma executiva que era superintendente da Abril e da MTV. Depois, por indicação, outras famílias começaram a me procurar.

Não foi algo planejado como um “negócio de aplicativo”. Foi uma demanda que surgiu naturalmente na minha vida.

Você chegou a rodar em aplicativos como Uber ou 99? Essa experiência influenciou sua visão sobre segurança?

Catia: Sim, cheguei a rodar um pouco quando a Uber chegou, por volta de 2016. Mas foi por pouco tempo. Me senti insegura em algumas situações e logo parei. Essa questão da segurança, tanto para quem dirige quanto para quem entra no carro, sempre me incomodou muito.

Acho que isso influenciou diretamente o modelo que eu desenvolvi depois, focado em mulheres, crianças, adolescentes e famílias.

Em que momento surge a ideia da Mamy Driver?

Catia: Chega uma fase da vida em que você busca qualidade de vida. Eu sempre quis morar no litoral e decidi me mudar para Santos. Foi aí que resolvi estruturar o serviço de forma mais profissional e criar a Mamy Driver.

Em 2019, cheguei a adquirir um aplicativo, tentando automatizar a operação e seguir todas as exigências fiscais e legais. Mas percebi rapidamente que, quando se trata de transporte de crianças, os pais não querem falar com máquina, aplicativo ou chatbot. Eles querem falar com pessoas.

Você tentou manter o modelo de aplicativo por quanto tempo?

Catia: Tentei algumas vezes, inclusive novamente em 2023. Também investi em chatbot, automação, mas nada disso funcionou. As mães não aceitaram. Hoje a operação é totalmente humanizada, com atendimento direto via WhatsApp.

Então como funciona, na prática, a operação da Mamy Driver?

Catia: Funciona como uma central de transporte. As mães entram em contato pelo WhatsApp e fazem o agendamento, que pode ser pontual, mensal ou até anual. Não existe grupo com as mães, é atendimento individual. O único grupo que temos é com as motoristas.

As atendentes organizam os roteiros, horários e deslocamentos. Como Santos é uma cidade pequena, isso facilita bastante a logística. Tudo é muito próximo e personalizado.

Que tipos de serviço vocês oferecem hoje?

Catia: Não é só transporte escolar. Atendemos atividades extracurriculares, como esportes e natação, deslocamentos para casa de familiares, amigos, festas, além de adolescentes em horários mais tarde, quando as mães não querem buscar.

Também fazemos viagens, aeroportos e deslocamentos especiais. Tudo é feito com agendamento prévio, justamente para garantir organização e segurança.

Quem são as motoristas da Mamy Driver?

Catia: Só mulheres. São carros particulares, como Onix, Sandero, modelos comuns. É como um Uber Comfort, mas voltado para crianças, adolescentes e idosos.

Hoje temos cerca de 30 motoristas que realmente vestem a camisa. Já cheguei a ter mais de 80 quando usava aplicativo, mas é muito difícil manter esse volume competindo com Uber e 99, porque as motoristas querem giro rápido e dinheiro imediato.

Quantas famílias vocês atendem atualmente?

Catia: Temos cerca de 300 famílias cadastradas. Em média, realizamos cerca de 120 corridas por dia, considerando todos os tipos de serviço. Algumas famílias usam diariamente durante o período escolar, outras de forma pontual.

Quais foram os maiores desafios desde o início da operação?

Catia: Sem dúvida, manter motoristas ativas. Cliente vem fácil, porque o projeto agrada muito as mães. O grande desafio sempre foi o motorista, principalmente quando tentei operar via aplicativo.

Elas acabavam priorizando Uber e 99, e não ficavam online no nosso sistema. Foi isso que me fez abandonar de vez o modelo de aplicativo.

Hoje, quais são os principais desafios do negócio?

Catia: Os desafios sempre vão existir. Motoristas que tentam pegar cliente por fora acontece em qualquer empresa. Já tive situações desagradáveis, inclusive de gente tentando montar algo parecido dentro da minha operação.

Hoje eu prefiro trabalhar com um grupo menor, de confiança. Não dá para controlar tudo, o mercado é assim.

Como funciona a remuneração das motoristas, incluindo a comissão por corrida e o valor da tarifa mínima?

Catia: Isso é uma informação confidencial, prefiro não comentar.

Você trabalha com metas de crescimento?

Catia: Não. Prefiro crescer de forma orgânica, um passo de cada vez. Não crio metas rígidas para não me frustrar. O negócio cresce no ritmo que ele comporta.

Como você enxerga o futuro dos aplicativos regionais no Brasil?

Catia: Sinceramente, não vejo muito futuro para pequenos aplicativos. As grandes plataformas engolem os menores. Elas têm dinheiro para propaganda, incentivos e bônus para motoristas.

O maior problema é a falta de paciência e comprometimento dos motoristas com projetos menores. O sistema pode ser excelente, mas sem fidelização, não se sustenta.

Por fim, que legado você quer deixar com a Mamy Driver?

Catia: Quero deixar um trabalho humano, baseado em confiança. Não quero ser uma grande empresa. Quero continuar aqui em Santos, oferecendo segurança para as mães e uma renda justa para as motoristas.

Tem motorista que é médica, enfermeira, dentista, advogada, que usa a Mamy Driver como renda complementar. Poder ajudar mulheres e famílias é o que mais me orgulha.

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Giulia Lang

Giulia Lang é jornalista formada pela Fundação Cásper Líbero e há três anos cobre o mercado de mobilidade urbana e delivery pelo 55content.