O Chama Elas surgiu da experiência de Michelle Cristina Reis Rocha como motorista de aplicativo e das dificuldades que enfrentou ao trabalhar em um setor predominantemente masculino.

Natural de Boa Esperança, em Minas Gerais, Michelle mudou-se ainda criança para Poços de Caldas, onde construiu sua trajetória profissional.

Antes de ingressar na mobilidade urbana, trabalhou como executiva de vendas da Avon.

Sua entrada no transporte por aplicativo aconteceu em 2017, após uma amiga sugerir que começasse a trabalhar como motorista.

Na época, Michelle não possuía veículo próprio e decidiu alugar um carro para iniciar a atividade.

Foi durante esse período que passou a enfrentar situações que considerava desrespeitosas com as profissionais da categoria.

“Eu senti muito preconceito em relação a nós, mulheres. Porque mulher tem que fazer isso, mulher tem que fazer aquilo. Não. Mulher faz aquilo que ela quiser”, afirma.

A experiência a levou a buscar alternativas para oferecer melhores condições de trabalho às motoristas.

Conflitos em aplicativo local motivaram criação do negócio

Depois de começar a trabalhar em plataformas como Uber e 99, Michelle passou a realizar corridas por um aplicativo regional de Poços de Caldas.

Segundo ela, a empresa inicialmente oferecia condições atrativas aos profissionais, mas a relação com a gestão se deteriorou ao longo do tempo.

Michelle relata que passou a enfrentar cobranças excessivas e situações de desrespeito, principalmente quando questionava decisões relacionadas à segurança dos passageiros.

Em uma ocasião, afirma ter recusado uma solicitação para transportar sete pessoas em um veículo que não comportava aquela quantidade de ocupantes.

Entre os passageiros estavam crianças e uma mulher grávida.

“Eu falei: ‘Levanta da sua cama, pega seu carro de sete lugares e vem buscar o passageiro. Ou eu chamo outro carro. Mas sete pessoas dentro do meu carro eu não vou levar’”, relembra.

Segundo Michelle, a discussão provocou conflitos com o gestor e contribuiu para seu afastamento da plataforma.

A empresária afirma que essas experiências fortaleceram sua decisão de construir um ambiente de trabalho no qual as motoristas pudessem ter maior autonomia.

Grupo de apoio às motoristas deu origem ao aplicativo

Antes de criar o Chama Elas, Michelle organizou um grupo de WhatsApp chamado Mulheres de Garra.

A iniciativa tinha como objetivo aproximar motoristas de diferentes aplicativos e criar uma rede de apoio entre as profissionais.

Segundo ela, uma das principais preocupações era a segurança durante as viagens, especialmente depois de relatos de assaltos envolvendo motoristas da cidade.

Michelle conta que o grupo passou a ser utilizado para compartilhar informações sobre situações de risco e permitir que outras pessoas acompanhassem ocorrências.

Em um dos episódios relatados, uma motorista teria conseguido pedir ajuda durante uma viagem suspeita, utilizando o contato com os integrantes do grupo.

A experiência reforçou a importância de manter uma rede de comunicação entre os profissionais.

“Eu falei para elas: ‘Vamos montar esse grupo para a gente se fortalecer e se ajudar. A gente precisa trabalhar, mas também precisa que todo mundo fique bem’”, relata.

Foi nesse ambiente que surgiu a proposta de criar uma plataforma de transporte voltada ao público feminino.

A ideia foi apresentada por uma amiga de Michelle, e as duas começaram a procurar empresas capazes de desenvolver a tecnologia.

Aplicativo começou a operar em 2023

O Chama Elas foi lançado em agosto de 2023, após um processo de estruturação que envolveu dificuldades financeiras e problemas com fornecedores.

Segundo Michelle, a equipe contratou inicialmente uma empresa para desenvolver o sistema, mas o resultado não correspondeu ao serviço que havia sido negociado.

A gestora afirma que o episódio gerou prejuízos e motivou medidas judiciais.

Posteriormente, a operação foi transferida para outra fornecedora de tecnologia, que possibilitou a continuidade do projeto.

O investimento inicial informado por Michelle foi de aproximadamente R$ 10 mil.

Além disso, o aplicativo recebeu cerca de R$ 15 mil em ações de divulgação, incluindo campanhas publicitárias.

“Todo mundo acha que é muito fácil montar um aplicativo. A gente só sabia o lado do motorista, não sabia ainda o lado do dono de uma plataforma”, afirma.

Apesar dos obstáculos, Michelle decidiu manter o negócio em funcionamento.

Atualmente, a plataforma já consegue cobrir despesas como tecnologia, contabilidade e parte da estrutura de marketing, mas ainda não gera lucro para a gestora.

Empresa reúne mais de 13 mil passageiros cadastrados

O Chama Elas ultrapassou a marca de 13 mil passageiros cadastrados em aproximadamente três anos de funcionamento.

Segundo Michelle, a plataforma também já registrou mais de 30 mil corridas desde o lançamento.

A operação está concentrada em Poços de Caldas, onde a gestora pretende fortalecer a marca antes de ampliar sua presença para outros municípios.

“Apesar da quantidade de cadastros, a empresa enfrenta dificuldades para manter um número suficiente de profissionais disponíveis. Há mais de 400 motoristas cadastradas, mas somente cerca de 40 trabalham regularmente”, relata. 

A baixa disponibilidade é mais perceptível à noite e nos finais de semana.

Segundo ela, muitas profissionais dividem o tempo entre outros aplicativos, atividades profissionais e responsabilidades familiares.

Por isso, aumentar a quantidade de motoristas ativas se tornou uma das prioridades da gestão.

Aplicativo realiza cerca de mil corridas por mês

O volume de viagens do Chama Elas varia conforme a demanda dos passageiros e a disponibilidade de motoristas.

Michelle afirma que a operação costuma realizar aproximadamente mil corridas mensais, embora alguns períodos tenham apresentado resultados inferiores.

Segundo ela, houve meses em que o aplicativo registrou cerca de 900 viagens.

A gestora relaciona a redução da demanda à concorrência com outras plataformas e à sensibilidade dos passageiros aos preços.

“Tem muito aplicativo. O passageiro, muitas vezes, não busca a qualidade do serviço, busca o preço. E eu não trabalho com preço, eu trabalho com qualidade”, afirma.

Michelle considera que a proposta do Chama Elas envolve um atendimento diferenciado, que precisa ser acompanhado por uma remuneração compatível com os custos das profissionais.

Corrida mínima parte de R$ 10 e taxa é de 18%

O Chama Elas trabalha com diferentes categorias de transporte, cada uma com suas próprias tarifas.

Michelle informou uma referência de corrida mínima de R$ 10 para trajetos de até aproximadamente 3 quilômetros.

Entretanto, explicou que determinadas modalidades possuem valores mínimos superiores, como R$ 12,20.

A plataforma cobra uma taxa de 18% sobre as corridas.

Segundo a gestora, a empresa procura estabelecer preços que garantam uma remuneração adequada às motoristas.

“Jamais vou deixar uma motorista ganhar menos de R$ 10 numa corrida, porque não tem condições. Só quem trabalha na rua sabe como funciona”, afirma.

Michelle também informou que, após a distância coberta pela tarifa mínima, a cobrança pode chegar a R$ 3 por quilômetro, conforme a modalidade.

Os valores variam entre as categorias oferecidas pela plataforma.

Motoristas utilizam carteira virtual pré-paga

O pagamento da taxa do aplicativo funciona por meio de carteira virtual.

As profissionais adicionam créditos e utilizam o saldo para pagar os valores devidos à plataforma conforme realizam corridas.

Michelle informou que a recarga mínima regular é de R$ 30.

Para novos cadastros, a gestora mencionou uma recarga inicial de R$ 75, embora a taxa de adesão anteriormente cobrada tenha sido retirada.

A empresa também chegou a considerar um modelo de mensalidade fixa.

Entretanto, Michelle decidiu manter a cobrança por corrida porque muitas motoristas trabalham apenas em determinados horários ou dias da semana.

Segundo ela, uma mensalidade poderia ser desvantajosa para profissionais que utilizam a plataforma com menor frequência.

Atendimento é voltado principalmente às mulheres

O Chama Elas foi criado com a proposta de oferecer viagens realizadas por motoristas mulheres.

Segundo Michelle, a preferência por esse modelo está relacionada à sensação de segurança e ao atendimento especializado.

A gestora afirma que algumas passageiras procuram a plataforma justamente porque desejam viajar com outra mulher ao volante.

“Hoje mesmo fui buscar uma cliente que olhou minha foto e achou que era um homem. Ela ficou assustada. Quando expliquei que na categoria Elas só trabalham mulheres, ela ficou mais sossegada”, relata.

A empresa também oferece modalidades voltadas a crianças, animais de estimação e pessoas com necessidades específicas.

Michelle considera que a diversificação dos serviços ajuda a atender públicos que nem sempre encontram opções adequadas nas plataformas convencionais.

Transporte de crianças inclui acompanhamento até a escola

Entre os serviços oferecidos pelo Chama Elas está o transporte de crianças e adolescentes.

Segundo Michelle, as motoristas podem realizar o deslocamento até a escola e acompanhar a chegada ao estabelecimento.

A gestora explica que algumas profissionais enviam informações aos responsáveis para confirmar que os passageiros chegaram ao destino.

“Às vezes, a motorista espera a criança entrar na escola e tira uma foto dentro do portão, caso a mãe precise comprovar que ela chegou”, conta.

Michelle afirma que o procedimento faz parte do atendimento prestado às famílias que utilizam essa modalidade.

O serviço também é realizado por meio de contratos particulares, principalmente com responsáveis que precisam de transporte recorrente.

Plataforma também oferece transporte de animais

Outra modalidade disponível é o transporte de animais de estimação.

A proposta atende passageiros que precisam levar seus animais a clínicas veterinárias, parques e outros destinos.

Michelle explica que as motoristas podem escolher se desejam realizar esse tipo de atendimento.

“As profissionais que aceitam essas viagens precisam adotar cuidados específicos com a limpeza do automóvel”, afirma. 

Segundo ela, a higienização é importante porque o veículo também será utilizado posteriormente para transportar pessoas.

A gestora conta que utiliza materiais de proteção no próprio carro para facilitar a limpeza após o atendimento.

“O valor da corrida nessa modalidade pode ser diferente do transporte convencional, considerando as características do serviço”, explica a gestora. 

Inclusão de pessoas com deficiência faz parte da proposta

O Chama Elas também possui uma modalidade voltada ao atendimento de pessoas com deficiência.

Segundo Michelle, a intenção é oferecer auxílio aos passageiros que precisam de apoio adicional durante o embarque e o desembarque.

“As motoristas procuram colaborar com o transporte de objetos e equipamentos, como cadeiras de rodas, dentro das possibilidades do veículo e do serviço contratado”, afirma. 

Para ela, a proposta está relacionada à atenção às necessidades individuais dos usuários.

Michelle considera que um aplicativo regional pode se diferenciar justamente pela proximidade com o passageiro e pela capacidade de oferecer atendimento personalizado.

Empresa prepara serviços com motocicletas e entregas

Além do transporte convencional, Michelle pretende ampliar o Chama Elas para novos segmentos.

Entre os projetos estão o Chama Food, voltado às entregas, e o Chama Moto, para transporte por motocicleta.

Nessas modalidades, a empresa pretende permitir o cadastro de homens e mulheres, diferentemente das categorias de transporte que mantêm a proposta exclusiva de motoristas mulheres.

Segundo a gestora, a iniciativa já despertou interesse de profissionais que trabalham com motocicletas.

“Só hoje foram 22 cadastros para trabalhar com moto”, afirma.

Michelle explica que a quantidade de mulheres que atuam como motociclistas na cidade ainda é insuficiente para estruturar essas novas atividades exclusivamente com profissionais do sexo feminino.

Por isso, os serviços terão regras diferentes das modalidades tradicionais do Chama Elas.

Chama Eles será uma plataforma separada

Outro projeto em desenvolvimento é o Chama Eles.

Apesar do nome, Michelle esclarece que a nova plataforma não será destinada exclusivamente aos homens.

A proposta é oferecer um aplicativo de transporte misto, com motoristas homens e mulheres, enquanto o Chama Elas continuará preservando suas categorias de atendimento feminino.

Segundo a gestora, a decisão foi tomada após observar a preferência das passageiras.

A empresa chegou a testar a inclusão de motoristas homens em sua estrutura, mas a experiência não apresentou a adesão esperada.

“Manter duas propostas diferentes permitirá ampliar o público sem descaracterizar a marca original”, explica. 

Falta de motoristas mulheres é um dos principais desafios

Mesmo com centenas de profissionais cadastradas, Michelle afirma que a disponibilidade de motoristas é uma das principais dificuldades da operação.

Segundo ela, parte das profissionais trabalha em vários aplicativos e prioriza as plataformas que apresentam maior volume de solicitações em determinados horários.

Outras motoristas possuem jornadas reduzidas, principalmente por causa de compromissos familiares.

A própria Michelle continua realizando corridas, inclusive nos finais de semana, para ajudar a atender a demanda.

“Eu sou a motorista que mais faz corridas, principalmente no final de semana, quando a quantidade de motoristas é menor”, relata.

A gestora afirma que concilia o trabalho nas ruas com a administração da empresa e o acompanhamento das profissionais cadastradas.

Michelle continua trabalhando como motorista

Apesar de administrar a plataforma, Michelle não deixou a atividade que a levou ao setor de mobilidade urbana.

Ela continua trabalhando diretamente no transporte de passageiros e também atende clientes particulares.

Segundo a gestora, essa experiência permite compreender os desafios enfrentados pelas motoristas.

A rotina, entretanto, tornou-se mais intensa desde a criação do aplicativo.

Além de realizar corridas, Michelle precisa administrar contratos, acompanhar problemas operacionais e prestar suporte às profissionais.

“Minha vida não mudou nada ainda. A única coisa é que eu tenho mais trabalho do que tinha antes”, afirma.

Segundo ela, a gestão também envolve auxiliar motoristas em situações de acidentes, dúvidas sobre documentação e outras dificuldades profissionais.

Gestora critica tarifas baixas das grandes plataformas

Michelle considera que a remuneração oferecida em determinadas corridas por aplicativos não é suficiente para cobrir todos os custos dos veículos.

“As despesas com combustível e manutenção precisam ser consideradas antes de o motorista aceitar uma solicitação”, afirma.

A gestora relata que já realizou cálculos com base nos custos de seu próprio carro, um Fiat Mobi.

Na avaliação dela, viagens que remuneram pouco mais de R$ 1 por quilômetro podem comprometer a rentabilidade da atividade.

“Não existe trabalhar com R$ 2 por quilômetro numa cidade onde só tem pirambeira”, critica.

Michelle afirma que a geografia de Poços de Caldas e os deslocamentos necessários para buscar passageiros tornam importante avaliar os custos de cada viagem.

Para ela, a definição de tarifas precisa considerar essas características.

Preconceito contra mulheres ainda incomoda Michelle

Mesmo depois de consolidar o Chama Elas, Michelle afirma que continua enfrentando comentários preconceituosos por ser mulher e administrar um aplicativo de mobilidade urbana.

Segundo ela, parte das críticas está relacionada à presença feminina em um setor tradicionalmente dominado por homens.

A gestora considera que sua trajetória demonstra a capacidade das mulheres de empreender e ocupar espaços de liderança.

“Hoje, o que mais me incomoda nesse mercado é o preconceito por eu ser mulher”, afirma.

Michelle explica que aprendeu a lidar com essas situações ao longo dos anos e procura manter o foco no desenvolvimento da empresa.

Para ela, o reconhecimento das passageiras e das motoristas representa um incentivo para continuar investindo no projeto.

Chama Elas pretende expandir e vender franquias

Atualmente, a operação está concentrada em Poços de Caldas.

Michelle afirma que estuda levar o aplicativo a outros municípios e já iniciou conversas sobre possíveis expansões.

Entre as cidades mencionadas estão Pouso Alegre, Alfenas, São João da Boa Vista e Campinas.

A gestora também citou planos relacionados a Concórdia, mas não apresentou confirmação de uma operação consolidada no município.

“A intenção é estruturar um modelo que permita ampliar a presença da marca por meio de franquias. A empresa ainda está organizando a documentação necessária para comercializar esse formato”, diz. 

O crescimento também depende da conquista de investidores e da ampliação da base de motoristas.

Meta é alcançar 10 mil corridas mensais

Michelle pretende aumentar o número de viagens realizadas pelo Chama Elas.

A meta apresentada pela gestora é alcançar aproximadamente 10 mil corridas mensais nos próximos cinco anos.

O objetivo é permitir que as motoristas tenham mais oportunidades de trabalho dentro da própria plataforma.

Para isso, a empresa pretende investir em divulgação, expansão geográfica e novos serviços.

“A concorrência em Poços de Caldas é intensa, mas creio que a proposta de atendimento especializado pode continuar atraindo passageiros”, afirma. 

Legado é mostrar a capacidade das mulheres de empreender

Ao falar sobre o futuro da empresa, Michelle destacou que deseja transformar o Chama Elas em uma referência de empreendedorismo feminino.

Para ela, o aplicativo representa mais do que uma alternativa de transporte.

A gestora considera que a iniciativa também demonstra como a união entre profissionais pode contribuir para enfrentar dificuldades do mercado.

“Quero deixar um legado de vitórias, para mostrar que as mulheres têm capacidade, sim, de empreender”, afirma.

Michelle acredita que a empresa poderá crescer mantendo sua proposta original de valorização das motoristas e atendimento especializado.

“Quero mostrar que a união entre as mulheres, a união entre as motoristas, faz a força”, conclui.

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Giulia Lang

Giulia Lang é jornalista formada pela Fundação Cásper Líbero e há três anos cobre o mercado de mobilidade urbana e delivery pelo 55content.