Em um mercado dominado por grandes plataformas de mobilidade, o aplicativo Hooh surge com uma proposta clara: aumentar o repasse aos motoristas e oferecer condições mais vantajosas para quem está atrás do volante.

Segundo Roger Ribeiro, um dos CEOs da empresa, a plataforma chega a pagar até 85% do valor das corridas, além de garantir um mínimo por quilômetro e taxas reduzidas.

Em entrevista ao 55content, o executivo detalha a estratégia da empresa, os desafios de crescer em meio à concorrência e como o Hooh pretende atrair motoristas em busca de maior rentabilidade.

Como surgiu a ideia do Hooh e qual é a sua trajetória até chegar à mobilidade urbana?

Roger Ribeiro: Eu tenho familiares que trabalham em outras plataformas, então sempre acompanhei esse universo de perto. Mas o meu contato com a mobilidade urbana não começou como motorista. Começou pela tecnologia. Eu trabalhei muitos anos com programação e informática. Entrei em uma faculdade de informática em 1996, mas não consegui concluir porque, em 1999, entrei para a Força Aérea. Mesmo assim, continuei atuando na área técnica e tecnológica.

Ao longo do tempo, fui me especializando em várias frentes: telecomunicações, redes, energia, climatização, eletrônica e outros sistemas. Paralelamente, comecei a fazer pequenos serviços por fora e tive a ideia de colocar isso dentro de um aplicativo. Foi aí que conheci plataformas como o GetNinjas e comecei a trabalhar por lá, oferecendo serviços diversos, como elétrica, instalação, configuração de roteadores e outras demandas.

Só que eu percebi que a plataforma me explorava muito. Eu precisava pagar para trabalhar, e isso me incomodava bastante. Então surgiu a ideia de criar um aplicativo que ligasse prestador de serviço e cliente sem essa lógica de cobrança antecipada. A partir disso, idealizamos primeiro o PedeFix, um aplicativo para conectar clientes a profissionais de várias áreas.

Dentro do PedeFix havia uma função de carona. Foi aí que nasceu a ideia de transformar essa funcionalidade em um aplicativo independente de mobilidade urbana. E assim surgiu o Hooh.

Como foi o processo de criação do Hooh?

Roger Ribeiro: O Hooh foi feito do zero. Tudo é nosso: arquitetura, infraestrutura, programação, estrutura operacional. Não é white label. Não é uma plataforma comprada e adaptada. Foi realmente desenvolvida do zero.

Eu tive a ideia junto com o meu sócio, o Villy Araújo, que é um programador extremamente qualificado. Ele tem formação em análise de sistemas, ciência da computação e engenharia de software. Em 2014, a gente se conheceu durante uma manutenção. Depois perdemos contato e voltamos a conversar em 2022, em Santiago, no Rio Grande do Sul. Nessa conversa, eu apresentei a ideia e ele topou desenvolver, desde que entrasse como sócio. Fechamos sociedade ali mesmo.

O Villy desenvolveu toda a parte técnica do Hooh praticamente sozinho. E isso é algo que eu faço questão de destacar, porque estamos falando de um aplicativo com estrutura robusta, comparável às grandes plataformas em vários aspectos, mas construído por uma equipe muito menor.

Hoje, o Hooh conta com cinco sócios: eu, o Villy, Rafael Pacheco, Laura Brayner e Letícia Lopes.

A operação em modo de testes começou em janeiro de 2025, e o lançamento oficial foi em maio do mesmo ano, em Curitiba. Depois disso, fomos refinando o produto, ouvindo motoristas, ouvindo passageiros e moldando a plataforma com base nessas experiências.

Qual problema do mercado fez vocês decidirem criar o Hooh?

Roger Ribeiro: O Hooh nasceu ouvindo as dores do mercado. Principalmente as dores dos motoristas, mas também as dos passageiros. A gente viu que existia um espaço enorme para uma plataforma que valorizasse melhor quem dirige e que oferecesse mais segurança e mais conforto para quem usa.

Uma das primeiras percepções foi a respeito da segurança das mulheres. Muitas passageiras relataram que se sentiam desconfortáveis em chamar um carro aleatório e serem atendidas por um homem. Então criamos a categoria mulher, em que a passageira pode escolher ser atendida somente por uma motorista mulher. Isso vale para todas as categorias: hatch, sedã, SUV e executivo.

Outra questão importante era a proteção do motorista. O nosso seguro é um dos diferenciais do Hooh. Enquanto outras plataformas só cobrem o motorista quando ele está logado e em corrida, no Hooh o seguro cobre 24 horas por dia. Se houver sinistro, motorista e ocupantes estão cobertos, mesmo que ele não esteja em corrida naquele momento.

Também ouvimos os motoristas sobre práticas que eles detestam em outras plataformas, como a opção “pago na próxima” e o pagamento em dinheiro. Por questão de segurança, no Hooh, neste momento, não aceitamos dinheiro. O pagamento é feito por Pix, cartão de crédito ou carteira digital dentro do próprio app.

Quais são os principais diferenciais do Hooh hoje?

Roger Ribeiro: O primeiro diferencial é que o Hooh é uma plataforma própria, feita do zero, e isso nos dá liberdade total para adaptar o produto. Se a gente entender que algo precisa mudar, muda. Se entendermos que algo precisa sair, sai. Não dependemos de terceiros para isso.

Outro diferencial importante é a valorização do motorista. Nós temos um compromisso de pagar bem. Na categoria de entrada, a hatch, o nosso objetivo é não pagar menos de R$ 1,80 por quilômetro. Em muitas corridas, esse valor fica acima disso.

Além disso, nossas taxas são mais baixas. No hatch, por exemplo, a plataforma fica com 24% e o motorista recebe 76%. Em categorias especiais, esse percentual é ainda melhor para o parceiro. Mulher recebe 81% da corrida. Motorista com carro adesivado pode receber 85%. Idosos e motoristas com veículo elétrico ou híbrido também têm condições diferenciadas.

Também temos carteira digital, Pix e cartão de crédito dentro do aplicativo. O motorista recebe o valor da corrida na carteira e pode solicitar saque diretamente no app. O passageiro também pode colocar saldo na carteira, cadastrar cartão e usar o sistema de forma intuitiva.

E, por fim, temos um escritório físico em Curitiba. Enquanto outras grandes plataformas não mantêm mais essa estrutura local, o Hooh tem. Isso permite contato direto com motoristas, esclarecimento de dúvidas e suporte presencial.

Como funciona a remuneração do motorista no Hooh?

Roger Ribeiro: O motorista não precisa pagar para trabalhar. Esse é um ponto importante para nós. Não trabalhamos com mensalidade fixa nem com cobrança antecipada para rodar. O que fazemos é uma retenção percentual sobre as corridas realizadas.

Na categoria hatch, por exemplo, a retenção é de 24%, e o motorista fica com 76%. Em outras categorias, essa retenção cai. Para mulheres, por exemplo, a plataforma retém 19%. Para carros adesivados, o motorista recebe até 85% do valor da corrida.

Além disso, o dinheiro vai para a carteira do motorista dentro do app, e ele pode solicitar saque a qualquer momento. O passageiro paga via Pix, cartão ou carteira. Isso dá mais segurança para ambos e evita problemas comuns em plataformas que ainda operam com dinheiro.

Qual é o valor da corrida mínima no Hooh?

Roger Ribeiro: Em Curitiba, a corrida mínima é de R$ 9 e cobre até 2 quilômetros. A partir disso, há os adicionais por quilômetro e por tempo, como em outras plataformas. A diferença é que, mesmo nessa categoria básica, o valor pago ao motorista continua sendo competitivo.

Quantos motoristas e passageiros o Hooh tem cadastrados hoje?

Roger Ribeiro: Hoje temos mais de 20 mil passageiros cadastrados e mais de 8.500 motoristas cadastrados. Desses motoristas, cerca de 5.500 estão aptos a rodar, porque fazemos uma conferência rigorosa de documentação, antecedentes, fotos do veículo e exigimos EAR na CNH.

Esse cuidado é uma forma de proteger tanto quem dirige quanto quem usa o aplicativo.

Em quais cidades o Hooh está operando atualmente?

Roger Ribeiro: Hoje operamos em Curitiba e em Santiago, no Rio Grande do Sul. Curitiba é o nosso grande laboratório de capital, onde validamos o aplicativo em um mercado extremamente competitivo. Santiago, por outro lado, é a nossa prova de que o modelo funciona muito bem no interior.

Temos convites para outras cidades, inclusive em São Paulo, Santa Catarina, Goiás e no Nordeste, mas estamos avançando com cautela. O nosso foco agora é estruturar bem o produto e depois expandir principalmente pelo interior do Paraná, onde vemos muito potencial.

Como está o desempenho do Hooh hoje em termos de corridas?

Roger Ribeiro: Ainda somos uma plataforma em crescimento. Em Curitiba, há dias com 20, 30, 50 corridas, e isso varia bastante. Em Santiago, o desempenho proporcionalmente chega a ser melhor do que na capital, justamente porque a concorrência é menor e o aplicativo é mais facilmente absorvido pelo mercado local.

No interior, já tivemos motorista com mais de 400 corridas acumuladas em dois meses e faturamento superior a R$ 3 mil. Isso numa cidade pequena, o que mostra como o modelo funciona bem fora das grandes capitais.

Quanto um motorista costuma faturar no Hooh?

Roger Ribeiro: Em Santiago, temos um caso concreto de um motorista que passou de R$ 3 mil de faturamento em pouco tempo. Ele mesmo relatou que conseguiu pagar parcela do carro, IPVA e combustível usando o que recebeu pela plataforma.

Em Curitiba, ainda estamos consolidando os dados porque o mercado é maior, mais disperso e o histórico ainda é recente. Mas a tendência é de crescimento à medida que aumentamos a visibilidade e o número de motoristas online.

Qual foi o maior desafio desde o lançamento?

Roger Ribeiro: O maior desafio continua sendo atingir o equilíbrio entre demanda e oferta. Hoje temos uma boa base de passageiros cadastrados, mas nem todos os motoristas ficam online ao mesmo tempo. Aí acontece de a corrida tocar para alguém que está longe, o motorista não querer deslocar, ou o passageiro não querer esperar.

Essa é a principal dor atual. Não é uma questão de tecnologia. O aplicativo funciona bem. A questão é de escala operacional. Precisamos de mais motoristas online, mais visibilidade e mais consistência para atender melhor em todos os pontos da cidade.

Em que momento você percebeu que o Hooh estava no caminho certo?

Roger Ribeiro: Quando vimos que, mesmo com pouco tempo de mercado, já tínhamos mais de 20 mil passageiros e milhares de motoristas cadastrados, ficou claro que o projeto fazia sentido. Os feedbacks também ajudam muito.

Motoristas nos dizem que se sentem mais valorizados. Passageiros reconhecem a proposta, gostam da segurança, gostam da categoria mulher, gostam do aplicativo ser daqui. Tudo isso mostra que não é uma ideia vazia. O Hooh já deu certo. O que falta agora é escala.

Você já rodou como motorista do Hooh?

Roger Ribeiro: Já. Eu faço questão de viver a experiência do outro lado. Uso o aplicativo como passageiro com frequência, mas também já rodei como motorista para entender o que eles passam na prática: deslocamento, cancelamento, espera, segurança, pagamento, demanda, tudo isso.

Eu acredito que um gestor precisa sentir o mercado. Não adianta ficar só olhando números. Tem que saber como a coisa funciona de verdade na rua.

Do que você mais se orgulha nessa trajetória?

Roger Ribeiro: Eu me orgulho de ver até onde conseguimos chegar. A gente saiu de uma ideia, construiu uma plataforma própria, montou uma estrutura sólida e hoje já fala em expansão. Não foi fácil. Houve noites mal dormidas, estresse, desgaste, mas faz parte de quem empreende.

Eu me orgulho de termos criado uma empresa que quer ser lembrada não por explorar, mas por valorizar. Queremos que o Hooh seja lembrado como uma plataforma que respeita o motorista, cuida do passageiro e faz isso com seriedade.

Como você enxerga o futuro da mobilidade regional?

Roger Ribeiro: Eu vejo um futuro muito forte para a mobilidade regional, principalmente no interior. Nas cidades menores, as plataformas regionais têm tudo para dominar, porque conseguem entender melhor a realidade local, ajustar preço, ter proximidade e oferecer suporte real.

Nas capitais, a disputa é mais dura porque estamos enfrentando gigantes. Mas mesmo assim há espaço. O Hooh não precisa tomar 100% do mercado. Se conseguirmos 10% de participação numa praça grande, já é um resultado excelente.

O que os aplicativos regionais precisam fazer para conquistar mais espaço?

Roger Ribeiro: Primeiro, precisam ouvir de verdade. Ouvir motorista e ouvir passageiro. Segundo, precisam parar de reproduzir o modelo das grandes plataformas. Não adianta ser regional e explorar como as grandes exploram.

Também precisam investir em tecnologia, segurança, suporte e presença local. E precisam ter consistência. Tem muita empresa que entra no mercado achando que é fácil, mas não estrutura o negócio. Aí não aguenta e fecha.

Quem quiser ficar, vai precisar de profissionalismo.

O que mais te incomoda no mercado hoje?

Roger Ribeiro: O que mais me incomoda é quando o motorista ou o passageiro inicia uma corrida e não conclui sem necessidade. O passageiro chama e cancela porque não quer esperar. O motorista aceita e cancela porque vê outra oportunidade. Isso prejudica o ecossistema todo.

Também me incomoda o nível de exploração de algumas plataformas. Cobrar 40%, 50%, até 55% de uma corrida é algo que, no meu entendimento, não faz sentido quando se fala em parceria.

Qual é a projeção do Hooh para os próximos cinco anos?

Roger Ribeiro: Eu me vejo com o Hooh em pelo menos mais 25 cidades, com uma estrutura maior, mais consolidada, com equipe mais robusta e com uma presença forte no interior. Acredito muito nesse caminho.

A gente quer crescer com responsabilidade, validando praça por praça, e mostrando que o modelo é sustentável.

Qual legado você quer deixar com o Hooh?

Roger Ribeiro: Quero que o Hooh seja lembrado como uma plataforma que mostrou ser possível fazer diferente. Que dá para cobrar taxas mais justas, valorizar o motorista e ainda oferecer segurança e boa experiência ao passageiro.

Esse é o legado que eu quero deixar: provar que é possível fazer mobilidade urbana com respeito.

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Giulia Lang

Giulia Lang é jornalista formada pela Fundação Cásper Líbero e há três anos cobre o mercado de mobilidade urbana e delivery pelo 55content.