João Murilo Ferreira Rodrigues, de 37 anos, é de Goiânia e empreende desde os 17. Antes de entrar no setor de mobilidade, já havia atuado no mercado imobiliário e tinha uma empresa de limpeza. A aproximação com os aplicativos veio em 2024, quando buscava uma renda extra e decidiu rodar como motorista em plataformas como Uber e 99.

Em oito meses, João afirma ter feito 6 mil viagens e faturado quase R$ 118 mil. A rotina como motorista, no entanto, também revelou os custos e limitações do modelo tradicional, especialmente com combustível e remuneração.

“Eu fiz 6 mil viagens em oito meses e faturei quase R$ 118 mil. Mas, como empresário, você acaba tendo uma mente muito expansiva e de captação de oportunidades”, afirma.

Carro elétrico mudou a visão sobre o negócio

A virada veio quando João testou um carro elétrico. Antes disso, ele rodava com um HR-V que entrava em categorias de maior valor, como UberX, Comfort, Black, Pop e Plus. Ainda assim, em dois meses e meio, faturou R$ 22 mil e gastou quase R$ 10 mil com combustível.

Com o carro elétrico, o resultado foi diferente. Em 38 dias, João afirma ter faturado R$ 15 mil e gastado cerca de R$ 1 mil em energia. A diferença de custo abriu caminho para a ideia de uma plataforma voltada apenas a veículos elétricos e híbridos.

“Eu vi no mundo elétrico essa onda. Entrei de cabeça, fui estudar e comecei a ver um negócio ali”, diz.

Plataforma nasceu para não ser “mais do mesmo”

Ao conhecer a rotina dos motoristas em grupos, horários de pico, madrugadas, finais de semana e jornadas longas, João entendeu que não queria criar apenas mais um aplicativo parecido com Uber e 99.

“Criar um aplicativo regional no interior pode ser mais simples porque as grandes plataformas nem sempre enxergam esses mercados como prioritários. O desafio foi outro: nascer em uma capital e tentar competir em um ambiente de alta demanda, alto investimento e presença forte das multinacionais”, explica ele. 

App opera apenas com elétricos e híbridos

O Ziv Viagens roda apenas com carros elétricos e híbridos. João acredita que a empresa foi uma das primeiras do Brasil com essa proposta, especialmente por estar integrada a um ecossistema mais amplo voltado ao motorista.

Hoje, além do aplicativo, o grupo tem locadora com quase 100 veículos elétricos alugados para motoristas, plataforma de eletropostos, venda de pneus, proteção veicular, estudos para telefonia e até a possibilidade de criar um banco.

“A gente quer ter uma infraestrutura que beneficie o motorista em todos os níveis que ele precisa, sem exploração”, afirma.

Locadora virou parte central da operação

O aluguel de carros elétricos passou a ser uma parte importante do negócio. Segundo João, a empresa percebeu que o retorno financeiro vinha mais rapidamente pela locadora do que apenas pelo aplicativo, principalmente diante da dificuldade de manter motoristas online em uma plataforma nova.

“A ideia, no futuro, é usar a própria base de motoristas que alugam veículos com a empresa para formar uma plataforma mais consistente, com profissionais educados para um atendimento melhor”, diz João. 

Motorista quer mudança, mas nem sempre sustenta a mudança

Na avaliação de João, muitos motoristas querem uma alternativa às grandes plataformas, mas não permanecem online tempo suficiente para fortalecer um novo aplicativo. Isso afeta diretamente a experiência do passageiro.

Segundo ele, quando o passageiro testa o app algumas vezes e não encontra carro, ou encontra um veículo distante, tende a voltar para as plataformas que já usa.

“O motorista quer a mudança, mas não se esforça pela mudança. Ele tem necessidade de uma nova plataforma funcionando, mas não fica online”, avalia.

App nasceu em uma concessionária de carros elétricos

O lançamento do Ziv Viagens aconteceu dentro de uma concessionária BYD em Goiânia. Para João, isso deu credibilidade à empresa tanto entre motoristas quanto entre passageiros e ajudou a plataforma a nascer com visibilidade.

A captação inicial de motoristas também foi facilitada porque João já participava de grupos de carros elétricos e havia construído uma comunidade ao redor desse mercado.

“Lançar dentro de uma concessionária de carro elétrico me chancelou. Foi como se tivesse me carimbado para já nascer grande”, afirma.

Investimento inicial passou de R$ 500 mil

O investimento inicial foi alto. João estima ter gasto cerca de R$ 500 mil para construir comunidade, lançar o aplicativo e incentivar motoristas a ficarem online. Em determinado momento, chegou a pagar R$ 280 por dia para motoristas por meio de campanhas e metas.

Só no lançamento, o investimento foi de aproximadamente R$ 90 mil, incluindo mídia social, revista, jornal, grandes veículos de Goiânia, evento na concessionária e uma carreata com 80 veículos na maior avenida da cidade.

“Eu resolvi rasgar um pouco de dinheiro. Fizemos carreata com 80 veículos na maior avenida de Goiânia”, conta.

Operação ainda roda no negativo

Mesmo com a visibilidade, o aplicativo ainda não se paga. Segundo João, a operação roda no negativo em cerca de R$ 50 mil a R$ 60 mil por mês, principalmente por causa da estrutura de back-office, contabilidade, financeiro, comercial, salários e marketing.

Atualmente, o app faz de 100 a 300 corridas por dia e trabalha com retenção de 13%. A plataforma não aceita dinheiro, apenas Pix ou cartão de crédito.

Goiânia e Brasília são as primeiras cidades

A sede do Ziv Viagens é Goiânia. A plataforma atua em Goiânia e Brasília. A empresa chegou a tentar expandir mais rapidamente, mas decidiu frear o crescimento para não chegar a novas cidades apenas com o aplicativo, e sim com toda a estrutura de apoio ao motorista.

Nos próximos cinco anos, o objetivo é estar em pelo menos mais cinco capitais, uma por ano, levando também telefonia, proteção veicular, pneus e eletropostos.

“Não adianta só abrir a cidade. A gente quer abrir e levar também a nossa infraestrutura”, afirma.

Ziv tem até 30 mil passageiros e cerca de 1,5 mil motoristas

Hoje, a plataforma tem entre 20 mil e 30 mil passageiros cadastrados e cerca de 1,5 mil motoristas. O volume mensal fica em torno de 10 mil a 12 mil corridas, com média de 100 a 300 viagens por dia.

Apesar da base de motoristas ser grande, João afirma que há mais motoristas do que passageiros em alguns momentos, e nem todos permanecem online.

Categorias simulam X, Comfort e Black

O Ziv Viagens tem três categorias principais: Green, Green Plus e Green XL. A lógica é parecida com X, Comfort e Black, mas aplicada a veículos elétricos e híbridos.

A plataforma também tem o Green Girl, categoria de mulheres para mulheres, além do Business, voltado a parcerias com empresas para transporte de funcionários.

Corrida mínima é de R$ 13

A corrida mínima do Ziv Viagens é de R$ 13 e cobre cerca de 2,5 km a 3 km. O ganho mínimo do motorista por quilômetro fica em torno de R$ 2,50 na categoria Green.

O maior faturamento citado por João foi de cerca de R$ 1,5 mil em uma semana. Atualmente, por haver muitos motoristas para pouca corrida, o valor fica mais diluído. Segundo ele, alguns motoristas conseguem fazer de R$ 50 a R$ 80 por dia na plataforma.

Plataforma movimenta cerca de R$ 80 mil por mês

A movimentação mensal do Ziv Viagens fica em torno de R$ 80 mil. Desse valor, João estima que cerca de 10% fique para a plataforma, já considerando promoções e devoluções feitas aos motoristas.

A empresa usa metas e bonificações, como pagamentos extras por número de corridas realizadas na semana. Segundo João, no início é mais importante beneficiar o motorista do que pensar apenas no crescimento financeiro da plataforma.

“A gente devolve muito dinheiro para o motorista. Nesse início, é melhor beneficiar ele do que pensar só em você”, diz.

Meta é chegar a R$ 200 mil por mês

A meta de curto prazo é elevar a movimentação mensal para R$ 150 mil a R$ 200 mil. No ano, o objetivo é faturar R$ 2 milhões e deixar cerca de 10% líquido para a empresa.

Tecnologia usada pode melhorar

João avalia que aplicativos regionais ainda estão bem atrás de Uber e 99 em termos de tecnologia, especialmente na capacidade de acompanhar preços dinâmicos.

Hoje, quando quer acompanhar a dinâmica das grandes plataformas, ele afirma que precisa fazer ajustes manualmente, observando preços em outro celular e alterando os valores dentro do painel.

“Para ter preço competitivo nessas horas de dinâmica, eu tenho que fazer tudo manual. Tenho que olhar os preços da Uber e da 99 e mudar rapidamente na minha plataforma”, explica.

Falta de tecnologia competitiva é a maior dificuldade

Para João, a maior dificuldade do passado e do presente é não ter uma plataforma própria ou uma tecnologia white label capaz de competir com grandes aplicativos em inteligência de preço, dados e automação.

Segundo ele, Uber e 99 têm algoritmos capazes de entender comportamento de motorista, horários, regiões e disponibilidade. Já as plataformas regionais precisam encontrar formas de se aproximar dessa inteligência para não perder motoristas em horários de maior demanda.

Motorista precisa ser melhor remunerado, diz João

A principal dor percebida por João como motorista foi o que ele chama de desprezo das grandes plataformas por quem leva o nome delas nas ruas. Para ele, os custos de cesta básica, carro, energia e gasolina subiram, mas a remuneração do motorista não acompanhou essa evolução.

“Quem leva a força de trabalho e o nome da plataforma nas costas não é valorizado. E cada vez piora mais. Quando o motorista recebe melhor por hora e por quilômetro, também melhora o atendimento ao passageiro”, afirma.

Comunidade é essencial para competir

Para competir com Uber e 99, João acredita que os aplicativos regionais precisam construir comunidades fortes de motoristas. A partir disso, é possível educar a base, criar consciência sobre escolhas de corrida e evitar a entrega automática a preços muito baixos.

Além disso, ele defende que as plataformas regionais precisam oferecer promoções, metas semanais e ferramentas que as deixem mais parecidas com as grandes aos olhos dos motoristas.

“Não é só ter preço por quilômetro e por tempo. Você tem que ter promoções, taxa zero em alguns momentos e mostrar que está investindo em marketing”, afirma.

Mortalidade dos apps regionais é alta, avalia gestor

João acredita que a taxa de mortalidade das plataformas regionais é muito alta. Para ele, muitos aplicativos nascem porque o acesso a uma plataforma white label é relativamente fácil, mas os gestores nem sempre têm experiência como empresários ou entendem o jogo das grandes plataformas.

“Se eu me manter de pé, mesmo com crescimento orgânico e sem fechar as portas, acredito muito nesse mercado e enxergo um futuro”, afirma.

Legado é deixar uma marca duradoura

Ao falar sobre legado, João afirma que já considera ter deixado uma marca ao criar uma plataforma focada apenas em veículos elétricos e híbridos. O desafio, agora, é tornar esse legado perpétuo.

“Meu sonho é que daqui a dez anos as pessoas olhem para trás e vejam que um motorista sonhador e que precisava de renda extra conseguiu brigar com as grandes plataformas não apenas em nome, mas também em entrega”, conclui.

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Giulia Lang

Giulia Lang é jornalista formada pela Fundação Cásper Líbero e há três anos cobre o mercado de mobilidade urbana e delivery pelo 55content.