Criado no Espírito Santo por Ycaro Rocha, Patrícia Castro e Ana Carla Castro, o GoEco nasceu com a proposta inicial de atuar apenas com carros elétricos, mas acabou ampliando a operação para veículos em geral após os gestores perceberem que somente a frota elétrica ainda não seria suficiente para atender à demanda.
A plataforma começou a rodar de forma mais estruturada em maio de 2025 e hoje atua na Grande Vitória, com presença em regiões como Serra, Vitória, Vila Velha, Cariacica, Fundão, Praia Grande e também com algumas chamadas em Guarapari. O aplicativo realiza atualmente entre 8 mil e 10 mil corridas por mês, cobra taxa de 10% dos motoristas e trabalha com corrida mínima de R$ 15, valor que cobre cerca de 4 km a 5 km.
Segundo Ycaro, a ideia do GoEco surgiu a partir de uma operação anterior com carros elétricos. Ele tinha um amigo que trabalhava em uma empresa que colocava veículos elétricos à disposição de motoristas, em um modelo de parceria por turno. A partir disso, decidiu comprar carros e montar uma estrutura própria. Com os veículos rodando em plataformas como Uber, 99 e inDrive, começou a observar o que considera uma relação desequilibrada entre grandes aplicativos e motoristas.
“Eu senti uma dificuldade e também um pouco de exploração por parte dessas grandes empresas. A gente abriu esse aplicativo justamente para valorizar mais o motorista”, afirma.
De João Pessoa aos Estados Unidos
Ycaro nasceu em João Pessoa, na Paraíba, em uma família simples. Segundo ele, embora não tenha vindo de uma família rica, teve educação, alimentação e uma boa base familiar.
Começou a trabalhar ainda criança, aos 12 anos, com eletrônica. Consertava videocassetes, telefones sem fio, câmeras e filmadoras. Também estudou eletrônica na Escola Técnica Federal da Paraíba e, ainda jovem, já consertava aparelhos de professores.
Desde cedo, diz que sempre teve perfil empreendedor. Antes de ir para os Estados Unidos, chegou a criar uma empresa chamada PrestaServe, que funcionava como uma espécie de serviço de “marido de aluguel” antes mesmo de o termo se popularizar. A ideia era conectar pessoas que precisavam de pequenos reparos, como trocar uma lâmpada ou consertar uma caixa d’água, a profissionais que pudessem executar o serviço.
O negócio, no entanto, enfrentou barreiras burocráticas e não avançou como ele esperava.
Aos 19 anos, Ycaro foi para os Estados Unidos, onde viveu até 2008. Lá, trabalhou em diferentes áreas, teve empresas, vendeu acessórios de celular para o Brasil, atuou com lojas de celular e também montou uma empresa de instalação de proteções contra furacões na Flórida.
Volta ao Brasil e negócios no varejo
Em 2008, Ycaro voltou ao Brasil. Acabou se estabelecendo no Espírito Santo, onde os sogros moravam. Em 2009, abriu uma pequena loja de bijuterias em Nova Almeida, bairro da Serra, na Grande Vitória.
Com o passar dos anos, a loja cresceu e se transformou em um magazine de três andares, chamado K&K Casa e Coisas Magazine. O empreendimento vende de tudo: televisão, cama, mesa e banho, itens de cozinha, ferramentas e outros produtos.
A antiga loja de bijuterias também deu origem à Gigi Presentes, negócio voltado a presentes, maquiagem, bolsas, eletrônicos e bijuterias. O nome é uma homenagem à filha de Ycaro.
Hoje, além da GoEco, ele segue à frente desses negócios ao lado da esposa, Patrícia Castro, que também é sua sócia na plataforma.
Saúde, trabalho e rotina intensa
Ycaro também enfrentou desafios pessoais. Em 2014, precisou passar por uma cirurgia de emergência e fez três pontes de safena. Mais recentemente, pouco antes da entrevista, havia acabado de sair de uma internação após passar por um cateterismo e colocar mais uma “molinha”, como ele descreve.
Mesmo assim, logo após receber alta, já estava em São Paulo fazendo compras para as lojas.
“Eu trabalho muito. O que me move é conquistar, fazer e saber que aquilo pode gerar algo para outras pessoas”, afirma.
Para ele, o trabalho faz parte da vida e pode ser levado para qualquer lugar com a tecnologia. Segundo Ycaro, a experiência nos Estados Unidos ajudou a formar uma visão de trabalho integral, sem vergonha de começar pequeno e sem medo de atuar em qualquer função.
A origem da GoEco
A GoEco nasceu a partir da frota de carros elétricos que Ycaro começou a colocar para rodar com motoristas parceiros. A ideia inicial era criar uma plataforma focada exclusivamente em veículos elétricos, alinhando mobilidade, economia e sustentabilidade.
O nome veio dessa combinação. “GoEco” poderia remeter tanto a “vá de ecológico” quanto a “vá de econômico”. Segundo Ycaro, essa ambiguidade hoje ajuda a marca, já que a empresa precisou deixar de ser exclusivamente elétrica.
“No começo, era por causa dos carros elétricos. Mas hoje também pode ser de econômico, de forma sustentável, de forma econômica”, explica.
A proposta inicial foi mantida em parte. A GoEco ainda tem uma pegada ecológica e acredita que, no futuro, mais motoristas de aplicativo vão migrar para carros elétricos por causa da economia de combustível, manutenção mais barata e maior conforto.
De app só elétrico para operação com todos os veículos
Com o tempo, os gestores perceberam que restringir a plataforma a carros elétricos não funcionaria. A frota ainda era pequena para dar vazão à demanda e ampliar a base de passageiros.
Por isso, a GoEco abriu espaço para veículos em geral, mantendo critérios de qualidade. Segundo Ycaro, todos os carros precisam ter ar-condicionado e estar em boas condições.
“Nós abrimos mão de ser só carros elétricos, mas não abrimos mão de ter um padrão de qualidade legal”, afirma.
Atualmente, a empresa mantém 15 carros elétricos próprios circulando pela cidade, todos plotados com a marca GoEco. Para Ycaro, esses veículos funcionam também como propaganda em movimento pela Grande Vitória.
Taxa atual é de 10%
Atualmente, a GoEco cobra taxa de 10% dos motoristas. O pagamento funciona por carteira digital pré-paga. O motorista deposita crédito na carteira e, a cada corrida realizada, a taxa da plataforma é descontada desse saldo.
Se o motorista faz uma corrida de R$ 100, por exemplo, R$ 10 são descontados da carteira. Quando o saldo acaba, ele precisa recarregar novamente.
Com o novo aplicativo, a taxa deve subir para 20%, principalmente por causa dos custos de operação com cartão de crédito e meios de pagamento. Mesmo assim, Ycaro afirma que o percentual continuará abaixo da média cobrada por grandes plataformas.
“A gente vai para 20% quando o aplicativo novo chegar, porque só o custo de aceitar cartão de crédito já vai para mais 4% ou 5%. Basicamente, vamos repassar esse custo”, explica.
Corrida mínima de R$ 15
A corrida mínima da GoEco está hoje em R$ 15. O valor cobre aproximadamente 4 km a 5 km, segundo Ycaro.
O valor por quilômetro para o motorista já foi de pelo menos R$ 2, mas precisou ser reduzido por causa da concorrência. Atualmente, a média fica entre R$ 1,70 e R$ 1,80 por km, já considerando o desconto da taxa de 10%.
Ycaro afirma que esse ajuste foi necessário para competir com plataformas maiores, que muitas vezes oferecem corridas a valores mais baixos.
“É muito difícil combater Uber e 99. Quando estão muito baratas, você não consegue convencer o cliente. Quando estão muito caras, você não consegue convencer o motorista”, diz.
Motoristas podem ganhar até R$ 5 mil no app
Segundo Ycaro, os motoristas que mais se dedicam à GoEco conseguem ganhar entre R$ 2 mil e R$ 5 mil por mês apenas na plataforma. Há também condutores que fazem R$ 500, R$ 1 mil ou R$ 300, dependendo da frequência de uso do aplicativo.
Alguns motoristas que acreditam mais no projeto chegam a fazer R$ 300 ou R$ 400 por dia no app.
“Os que acreditam, os que botam fé, são os que fazem a diferença e são os que mais ganham”, afirma.
Atualmente, a GoEco tem cerca de 2,2 mil motoristas cadastrados, mas uma média de 350 motoristas online. Para Ycaro, o maior desafio é convencer os condutores a manterem o aplicativo ligado enquanto a plataforma cresce.
O desafio de convencer os motoristas
Apesar de a GoEco ter sido criada para valorizar os motoristas, Ycaro afirma que uma das maiores dificuldades é justamente conquistar apoio da categoria.
Ele diz que imaginava que, ao oferecer taxa menor e tentar pagar melhor, os motoristas automaticamente dariam preferência à GoEco. Na prática, o processo tem sido mais difícil.
Segundo ele, muitos motoristas reclamam das taxas altas de grandes plataformas, mas não mantêm o app regional ligado tempo suficiente para que a demanda cresça.
“Eu tinha certeza que ia dar certo porque quem mais precisava ia me apoiar. Só que a coisa não funciona dessa forma”, afirma.
Para Ycaro, os motoristas têm poder para mudar o mercado, mas precisam se unir e dar preferência a plataformas que pagam melhor.
Investimento já passa de R$ 500 mil
Ycaro estima que já investiu pelo menos R$ 500 mil na GoEco. O valor inclui compra de carros elétricos, carros plotados, tecnologia, troca de plataforma, marketing, rádio, televisão e outras ações de divulgação.
Segundo ele, uma propaganda em uma boa rádio pode custar R$ 10 mil, enquanto uma campanha de uma semana na televisão, com inserções de um minuto, pode chegar a R$ 20 mil.
A empresa ainda não se paga integralmente, mas já está próxima de empatar. Para Ycaro, esse período faz parte do processo de construção de um negócio.
“Você não pode abrir um negócio precisando dele nos primeiros seis meses ou um ano. Tudo que entrar, você tem que reinvestir”, afirma.
Marketing em rádio, TV e carros plotados
A captação de motoristas e clientes foi feita com forte investimento em marketing. A GoEco fez campanhas em rádio, televisão e também usa os carros elétricos plotados como divulgação diária.
Durante quatro meses, a plataforma não cobrou nada dos motoristas, como forma de incentivar a adesão.
Ycaro acredita muito em propaganda e já participou pessoalmente de ações na televisão para divulgar a marca.
“Eu acredito muito em propaganda. Eu mesmo vou lá, falo, faço propaganda”, afirma.
Operação na Grande Vitória
A GoEco começou em Nova Almeida, bairro da Serra, próximo a Praia Grande, em Fundão. Segundo Ycaro, a região era mal atendida por Uber e 99, e em alguns locais as grandes plataformas nem chegavam.
A partir dessa base, o aplicativo passou a atender toda a Grande Vitória. Hoje, está presente em Fundão, Serra, Vitória, Vila Velha, Cariacica e também registra chamadas em Guarapari.
Entre 8 mil e 10 mil corridas por mês
Atualmente, a GoEco realiza de 8 mil a 10 mil corridas por mês. Para Ycaro, o número ainda está abaixo do planejamento, mas mostra que a plataforma encontrou demanda em pouco mais de um ano de operação.
O aplicativo movimenta de R$ 120 mil a R$ 200 mil por mês em corridas, dependendo do volume. Como a taxa atual é de 10%, esse percentual fica com a empresa.
A meta para 2027 é mais ambiciosa. Se o novo aplicativo estiver pronto, Ycaro acredita que a GoEco poderá entrar no próximo ano movimentando de R$ 500 mil a R$ 1 milhão por mês.
“Se o aplicativo novo estiver feito, aí não vai ter mais limite. Vai só crescer”, afirma.
Próximo passo pode ser o Rio de Janeiro
A expansão da GoEco deve continuar sob gestão própria, sem modelo de franquia. Segundo Ycaro, o que a empresa pretende lançar no novo aplicativo não pode ser dividido por franquias, porque precisa funcionar como uma única plataforma integrada.
O próximo estado no radar é o Rio de Janeiro. Ycaro afirma que já tem reunião marcada com um influenciador ligado ao público de motoristas no estado e acredita que, depois do Espírito Santo, o Rio pode ser a próxima frente de crescimento.
A longo prazo, a meta é levar a GoEco para outros estados e, eventualmente, até para fora do Brasil.
Eco Lady e Eco Mercado
A GoEco também desenvolveu categorias específicas para atender demandas que Ycaro enxerga como falhas nas grandes plataformas.
Uma delas é o Eco Lady, voltado a passageiras que querem ser atendidas por motoristas mulheres. A categoria só pode ser solicitada por mulheres, como forma de garantir segurança tanto para a passageira quanto para a condutora.
Outra categoria é o Eco Mercado, voltada a clientes que fazem compras em supermercado. Segundo Ycaro, muitas pessoas têm dificuldade de conseguir transporte por aplicativo quando estão com sacolas, e a categoria foi criada para atender essa necessidade.
“Como a gente não consegue concorrer com os preços baixíssimos dos grandes, tenta trabalhar em cima do que realmente faz falta”, afirma.
Futuro com delivery, entregas e motos
Além do transporte por carro, a GoEco também deve diversificar serviços no futuro. Ycaro cita delivery, entregas e, possivelmente, motos como caminhos naturais de crescimento.
A ideia é ampliar a atuação conforme a plataforma ganhar escala, especialmente se houver entrada de novos sócios e recursos para acelerar o negócio.
Para ele, crescimento exige movimentação constante e novos serviços podem ajudar a aumentar a relevância da GoEco.
União dos motoristas é chave para apps regionais
Na visão de Ycaro, os aplicativos regionais só conseguem enfrentar Uber e 99 quando há união dos motoristas. Para ele, os condutores têm mais poder do que imaginam.
Segundo o gestor, em cidades menores, onde os motoristas conseguem se organizar, é possível definir um preço mínimo e fortalecer uma plataforma regional. Já em grandes centros, a quantidade de motoristas torna essa união mais difícil.
“Quem tem a faca e o queijo na mão é o motorista. Não é o cliente, não é a Uber, não é a 99”, afirma.
Ycaro acredita que, se os motoristas de uma cidade se unirem em torno de uma plataforma que paga melhor, as grandes empresas perdem força naquela região.
Empreender para transformar vidas
Ao falar sobre legado, Ycaro afirma que o maior valor de empreender não está apenas em ganhar dinheiro, mas em transformar vidas.
Ele cita o exemplo das lojas que criou a partir de uma pequena loja de bijuterias. Hoje, esses negócios empregam cerca de 12 pessoas, ajudando famílias a se sustentarem.
Com a GoEco, diz que a intenção inicial também foi ajudar motoristas a terem melhores ganhos e condições de trabalho.
“É muito bom ganhar dinheiro, mas ganhar dinheiro fazendo outras pessoas também ganharem é muito melhor”, afirma.
Para ele, o novo aplicativo tem potencial para transformar a vida de muitas pessoas, especialmente motoristas que buscam alternativas às grandes plataformas.
Fazer algo grande
Ycaro afirma que o que move o empreendedor é a possibilidade de fazer algo grande. Mesmo que os resultados atuais ainda estejam abaixo do que ele deseja, vê na GoEco uma oportunidade de construir algo nacional.
“Eu não vejo esse aplicativo com um olhar pequeno. Eu vejo ele como algo muito grande”, afirma.
Segundo ele, talvez nem consiga usufruir plenamente de tudo que a GoEco pode se tornar, mas acredita que a plataforma pode deixar um caminho para a família, os sócios e os motoristas que acreditam no projeto.
“Eu entro para ganhar e entro para transformar”, conclui.
