Fabio Carvalho, fundador do aplicativo de mobilidade 2V, antes de entrar nesse ramo no Brasil, já atuava com um aplicativo nos Estados Unidos. Em 2016 ele fundou um aplicativo que transportava passageiros de navio na região de Miami, Cabo Canaveral e Fort Lauderdale. “A gente pegava o passageiro no porto, fazia um city tour e depois deixava no hotel no horário de check-in”, conta o gestor.
A operação evoluiu rapidamente e a plataforma chegou a fazer uma parceria com a Universidade da Flórida, onde passou a atender alunos entre Orlando e Miami, além de rotas internas dentro da cidade.
Tecnologia própria se tornou inviável e app migrou para a Machine
Em 2018, com a popularização da Uber no Brasil, Fabio decidiu apostar no mercado e inaugurou inicialmente a 2V na cidade de Itaúna (MG). A primeira versão foi criada com tecnologia própria, mas logo ficou claro que manter toda a estrutura tecnológica sem apoio externo seria inviável.
“Programador é muito caro, já era muito caro na época. E com o próprio Google, se você não tem escala, não consegue alcançar um custo bom. Chegou um momento em que a continuidade já não fazia sentido”, explica. A busca por uma solução facilitada e mais rentável levou Fabio a adotar, em 2019, a tecnologia da Machine, usada até os dias de hoje.
Crescimento inicial e desafios da migração tecnológica
A inauguração em Itaúna reuniu 600 pessoas para apresentar o primeiro aplicativo da cidade. Hoje a 2V está presente em 23 municípios espalhados por Minas Gerais, São Paulo, Bahia e Espírito Santo. E Fabio conta que possui outro aplicativo que, somado à 2V, possui operação em mais de 100 municípios pelo país.
Ao migrar para a tecnologia da Machine, a 2V manteve sua identidade original, mas a mudança foi desafiadora. “O aplicativo permaneceu com o mesmo nome, mantivemos também os motoristas”, explica Fábio.
Apesar das dificuldades, a recuperação veio rápido. Hoje, com a operação estabilizada e o suporte adequado, o aplicativo alcança um desempenho de cerca de 50 mil corridas por mês.
Cidades de destaque e números da operação
Dentre as 23 cidades que a plataforma opera, os destaques estão em Congonhas, Ouro Preto e Itaúna. “Congonhas é a cidade com melhor aceitação. A gente já consegue atender 93% das chamadas. Fazemos 16 mil corridas por mês. É um volume bem expressivo para a gente”, afirma o gestor. A plataforma soma 6 mil motoristas ativos.
No setor corporativo a corrida mínima custa R$34
A cobrança do motorista é feita por porcentagem em cada corrida realizada. Fabio afirma que as chamadas “corridas de rua” variam entre 12% e 15% de taxa, enquanto que as corporativas, por serem um serviço personalizado, chegam a cobrar até 25% por corrida finalizada.
A corrida mínima de rua varia de município para município: em Congonhas o valor é de R$18, em Ouro Preto, R$15 e em Itabira R$12. Já as corridas agendadas pelas empresas têm valor mínimo de R$34.
A plataforma também opera com diferentes modalidades tarifárias conforme o horário do dia e o calendário. A bandeira 3 é aplicada durante a madrugada, das 23h às 6h, e aos domingos e feriados. Já a bandeira 2 funciona em períodos de maior movimento: das 20h às 23h e também no início da manhã, entre 6h e 8h.
“Hoje 90% dos nossos clientes são as grandes empresas do Brasil”: aposta na expansão do mercado
Apesar de operar normalmente com corridas comuns, seu maior faturamento e foco para expansão é o mercado corporativo. “Hoje 90% dos nossos clientes são corporativos, são as grandes empresas do Brasil, como Vale, Gerdau e Arcelor”, afirma Fabio. “Então hoje nós focamos muito nesse meio.”
Além disso, a empresa tem oferecido serviços personalizados, como atendimento de eventos: “Estamos começando a atender festas de casamento, fechamos com a noiva e fazemos o transporte dos convidados”, conta.
A estratégia da companhia é reduzir a dependência do fluxo de corridas de rua e fortalecer contratos específicos. “A gente quer sair da rua e focar mais no atendimento personalizado”, afirma. Para isso, a plataforma conta com uma central que funciona 24 horas, responsável por agendamentos e pelo controle dos motoristas. “A pessoa agenda pela central, por WhatsApp, telefone ou e-mail. A gente se adequa à necessidade de cada empresa”, diz.
Em Minas Gerais, a 2V iniciou uma parceria para realizar o transporte de 175 funcionários de uma indústria, todos em carros individuais, substituindo completamente o antigo serviço de fretado. Outra operação semelhante começa nos próximos dias, agora com aproximadamente 375 funcionários, começando por volta das 5h da manhã.
“Esse tipo de contrato gera um volume de corrida extremamente expressivo. Se não tiver um controle muito rígido, você se perde no meio das rotas. É trabalhoso, mas a rentabilidade é muito alta”, destaca Fábio. Com operações desse porte, grande parte das viagens é controlada diretamente pelas empresas e não pelos usuários finais. “Hoje, 99% das empresas lançam as corridas pela plataforma, não pelo aplicativo”, explica.
Empresa define expansão a partir da demanda das indústrias
Fabio explica que o modelo de expansão não é exatamente por meio de franquias, e sim, por uma espécie de sociedade, onde a matriz fica com 50% e o franqueado com os outros 50%. “Hoje a gente só tem duas franquias. Todas as outras que abrimos nós recompramos. As únicas que permanecem externas são Congonhas e Ouro Preto, que não conseguimos recomprar”, afirma.
Para entrar em novos municípios Fabio conta que a estratégia é buscar pelas indústrias, já que o foco atual é no mercado corporativo. “Hoje a gente busca qualquer cidade industrializada, que tenha grandes empresas”, explica. É a partir dessas demandas corporativas que a empresa define seus próximos passos. Foi assim, por exemplo, com a chegada da operação em Pernambuco. “Como atendemos a Fiat, estamos abrindo em Recife por causa da Jeep”, completa. O modelo consiste em acompanhar as matrizes e expandir o serviço para as filiais das mesmas empresas, garantindo padronização e continuidade do atendimento. “Como já trabalhamos para as matrizes, chegamos nas filiais por indicação”, conta.
Já a captação de motoristas segue o mesmo modelo de indicação: “Sempre tem alguém que conhece um amigo motorista ou alguém que quer entrar. A rentabilidade no corporativo é muito boa, então não temos dificuldade de captar”, destaca.
Um dos casos mais recentes aconteceu em Itabira (MG), onde a 2V protagonizou uma virada inédita. No município, o único concorrente relevante era a 99. De acordo com Fabio, com negociações e credibilidade construída no setor, é possível atrair os motoristas: “Conseguimos mobilizar 100% dos motoristas que eram da 99. No dia da paralisação deles, no dia 14 de novembro, ficamos sozinhos no município”.
Modelo de marketing envolve presença em eventos regionais
No campo do marketing, a 2V mantém uma atuação constante nas cidades onde está presente. “A gente investe muito em patrocinado”, explica Fabio. Em alguns municípios a empresa realiza campanhas que incluem rádio, outdoors e influenciadores locais.
A presença também se estende aos eventos culturais: “Nos municípios onde estamos, sempre participamos de grandes shows”, afirma. Nessas ocasiões, a 2V costuma fechar camarotes, promover sorteios de ingressos e oferecer corridas especiais para o público. “A gente procura participar o máximo possível desses eventos”, reforça o fundador.
2V negocia com posto a instalação de uma bomba de combustível exclusiva para os motoristas do app
Fabio conta também que tem ampliado a rede de parcerias para apoiar os motoristas na rotina. “Conseguimos recentemente assinar uma parceria com um posto de gasolina que oferece R$0,45 de desconto para os nossos motoristas. Isso é algo que não existe no mercado e faz total diferença.”
E ele ainda vai além: em outro município, os motoristas terão, em breve, além do desconto, uma bomba de combustível exclusiva para eles em um posto parceiro. “Está praticamente acertado que vamos alugar uma bomba de um posto. Eles vão ceder uma bomba exclusiva para abastecer apenas nossos carros e eu vou comprar um caminhão-tanque para conseguirmos um preço de combustível muito mais acessível do que o praticado no mercado”, conta o CEO.
A partir de 2026 plataforma vai exigir certificado de curso de direção defensiva
Quando um motorista deseja integrar o time da 2V, ele precisa passar por um processo de aceitação que começa pela conferência da documentação básica. Além disso, Fabio afirma que a empresa está implementando entrevistas presenciais para cada candidato, garantindo uma avaliação mais completa.
“A partir de 2026, todos os motoristas serão obrigados a apresentar o curso de direção defensiva, uma exigência que valerá para todas as cidades. Nosso objetivo é tornar o processo cada vez mais rigoroso, elevando o nível de qualificação dos profissionais que representam a empresa”, diz.
Para atuar no corporativo, existem critérios específicos além do processo padrão. Embora qualquer motorista possa trabalhar tanto na rua quanto no corporativo, a seleção para esse segmento é mais rigorosa. “Damos preferência para motoristas bilíngues, já que atendemos muitas empresas de grande porte. Também avaliamos a condição do veículo, priorizando carros com até cinco anos de uso”, conta Fabio. Além disso, é realizada uma entrevista detalhada para garantir que o motorista tenha perfil e postura adequados para oferecer um atendimento de excelência aos clientes corporativos.
Motorista faturou R$28 mil em um mês de corridas para empresas
Questionado sobre a média de faturamento dos motoristas, Fabio afirma que os números variam conforme o tipo de atuação. O recordista da 2V foi um motorista que chegou a faturar R$28 mil em um único mês no corporativo, um desempenho considerado excepcional.
Para quem trabalha com o transporte para empresas, a renda mensal costuma ficar entre R$11 mil e R$12 mil. Já entre os motoristas que trabalham exclusivamente na rua, o faturamento médio varia de R$6 mil a R$6,5 mil.
“Para 2026, projetamos um crescimento de 35%”, revela gestor
Segundo o gestor, 2025 foi um ano de resultados acima do previsto. “Estávamos trabalhando com uma meta de crescimento de 15% para 2025, e ela foi batida dois meses atrás. Foi bem antes do que esperávamos”, afirma.
Ele acrescenta que o planejamento para os próximos anos é ainda mais ambicioso. “Temos metas arrojadas para os próximos três anos. Para 2026, projetamos um crescimento de 35%”, revela.
A expansão para outras cidades também está nos planos. Fabio confirma que pretendem entrar em no mínimo 20 novas cidades no próximo ano.
Quanto ao futuro das regionais no Brasil, afirma: “Acho que tudo passa pela decisão do governo, sobre como vai ficar essa questão da CLT. Todo mundo está segurando até a definição do Supremo.” Para ele, caso o modelo autônomo seja mantido, o espaço dos regionais tende a permanecer sólido. “Se continuar como é hoje, o regional sempre vai ser muito forte. As cidades menores têm essa visão de apoiar o que é da cidade e o que está perto. São pessoas mais conservadoras e isso fortalece muito o regional”, conclui.
Empresa alcança quase 2,5 milhões de corridas em seis anos
Fábio reconhece que o aumento do custo operacional e os longos prazos de recebimento no setor corporativo, que em alguns casos chegam a 75 dias, enquanto os motoristas são pagos à vista, ainda representam um dos principais desafios da operação. Mesmo assim, avalia que a rentabilidade do segmento justifica a aposta nessa expansão.
Ao fazer um balanço dos últimos anos, destacou que a empresa está prestes a alcançar 2,5 milhões de corridas em seis anos e projeta praticamente triplicar esse volume nos próximos três.

