Em Três Passos, no noroeste do Rio Grande do Sul, uma iniciativa criada por uma mulher vem mostrando que mobilidade urbana pode ir muito além do simples deslocamento.
O Mobielas, aplicativo fundado por Giovana Silva, nasceu com uma proposta clara: oferecer corridas feitas por motoristas mulheres, com foco no atendimento a mulheres, crianças e idosos, priorizando segurança, acolhimento, cuidado e confiança.
Antes de empreender, Giovana passou por diferentes áreas profissionais. Trabalhou na educação, no comércio e, por 13 anos, atuou com marcenaria. Um problema na coluna a afastou desse caminho e abriu espaço para uma nova possibilidade: trabalhar com transporte por aplicativo. Depois de atuar por cerca de 10 meses em uma plataforma tradicional de mobilidade em Três Passos, ela percebeu uma demanda que ainda não era plenamente atendida. Muitas passageiras pediam especificamente para serem conduzidas por ela, relatando preferência pelo atendimento, pela forma de dirigir, pela limpeza do carro, pela sensação de segurança e pelo cuidado durante a corrida.
Foi a partir dessa percepção que surgiu o Mobielas. A primeira corrida aconteceu em 28 de dezembro de 2024, e a regularização oficial junto à prefeitura veio em janeiro. Segundo Giovana, esse processo burocrático foi um dos maiores desafios do projeto, especialmente por envolver uma legislação municipal ainda nova e cheia de dúvidas. Mesmo assim, o aplicativo se tornou o primeiro oficialmente autorizado pela prefeitura de Três Passos, o que ajudou a construir credibilidade junto à população.
Hoje, o Mobielas opera exclusivamente em Três Passos, com cinco motoristas cadastradas e outras em processo de entrada. Apesar da estrutura enxuta, o aplicativo já realiza cerca de 1.200 corridas por mês e reúne aproximadamente 1.500 passageiros cadastrados. O crescimento aconteceu principalmente pelo boca a boca, impulsionado pela confiança das usuárias e pela divulgação em eventos regionais, como a Feicap.
Além da proposta comercial, o Mobielas também carrega um propósito social. Giovana pretende desenvolver projetos com a Polícia Civil voltados à proteção de mulheres vítimas de violência e criar cursos para preparar novas motoristas, ensinando desde o funcionamento da plataforma até práticas de atendimento, comportamento e segurança.
Atualmente, o aplicativo trabalha com taxa de 15% sobre cada corrida finalizada, corrida mínima de R$ 11,99 e ticket médio entre R$ 15 e R$ 20. As motoristas podem faturar de R$ 2 mil a R$ 7 mil por mês, dependendo da disponibilidade de horários, especialmente à noite e nos finais de semana. Ao todo, o Mobielas movimenta entre R$ 20 mil e R$ 25 mil por mês em corridas.
Nesta entrevista, Giovana conta como transformou uma necessidade percebida no dia a dia em um negócio de mobilidade urbana com propósito, fala sobre os desafios de empreender em uma cidade do interior, explica a importância da regularização, da tecnologia e do atendimento humanizado, e compartilha sua visão sobre o futuro de um mercado que, para ela, deve valorizar cada vez mais qualidade, segurança e confiança.
Antes de falar do Mobielas, queria conhecer um pouco da sua trajetória. Quem é a Giovana Silva?
Giovana: Meu nome é Giovana, sou natural de Tuparendi, aqui no Rio Grande do Sul, na região noroeste do estado. Mas já faz 21 anos que moro em Três Passos, que fica na região Celeiro.
Hoje tenho 41 anos e minha trajetória profissional passou por várias áreas diferentes. Trabalhei na educação, no comércio e também tenho duas licenciaturas. Mas durante muito tempo trabalhei com marcenaria. Foram 13 anos trabalhando com móveis de madeira.
Depois tive um problema na coluna e precisei parar com esse trabalho. Foi justamente nesse período que comecei a perceber os aplicativos de mobilidade urbana surgindo na cidade.
Eu via os carros adesivados circulando e aquilo despertou meu interesse. Pensei: “Poxa, talvez eu também possa trabalhar com isso”.
Ao mesmo tempo, minha filha estudava em Santa Maria e comentou comigo que lá existiam aplicativos operados por motoristas mulheres. Aquilo ficou na minha cabeça.
Então comecei a trabalhar em um aplicativo tradicional aqui em Três Passos para ganhar experiência no setor. Trabalhei cerca de 10 meses e, no fim de 2024, decidi criar meu próprio aplicativo: o Mobielas.
Você chegou a trabalhar como motorista em aplicativos tradicionais antes de criar o Mobielas?
Giovana: Sim. Trabalhei aqui mesmo em Três Passos, em um aplicativo misto.
Foi uma experiência muito importante porque ali comecei a observar várias situações do dia a dia da mobilidade urbana.
Eu percebia, por exemplo, que muitas passageiras preferiam especificamente ser atendidas por mim. Elas comentavam coisas como: “Eu prefiro que você faça a corrida.”
E isso acontecia por vários motivos: atendimento, forma de dirigir, limpeza do carro, sensação de segurança, acolhimento e até pequenos detalhes do dia a dia.
Foi aí que comecei a entender que existia uma demanda reprimida por um serviço mais humanizado.
Qual foi a principal dor do mercado que você identificou?
Giovana: O atendimento. Eu percebi que as pessoas queriam mais do que apenas uma corrida barata. Elas queriam se sentir seguras e confortáveis.
As passageiras comentavam muito sobre comportamento de motoristas, cheiro forte de cigarro dentro do carro, falta de cuidado, corridas desconfortáveis ou motoristas sem paciência.
E mulher normalmente tem um cuidado diferente com essas coisas.
A gente presta atenção no cheiro do carro, na limpeza, no conforto, no atendimento, no jeito de conversar.
Também comecei a perceber algo muito importante: mães começaram a me procurar para levar crianças na escola. Outras pessoas pediam corridas para pais idosos.
Então entendi que existia um público muito específico que preferia ser atendido por motoristas mulheres. Foi daí que surgiu o projeto do Mobielas.
O aplicativo já nasceu com foco exclusivamente feminino?
Giovana: Sim. Desde o começo o foco foi atender mulheres, crianças e idosos.
A ideia sempre foi oferecer um ambiente mais seguro e acolhedor tanto para as passageiras quanto para as motoristas.
Porque existe também o outro lado: muitas mulheres têm vontade de trabalhar como motorista, mas não se sentem confortáveis em atender qualquer passageiro, principalmente de madrugada.
Então o Mobielas nasceu pensando nos dois lados da corrida.
Quando o aplicativo foi lançado oficialmente?
Giovana: A primeira corrida do Mobielas aconteceu no dia 28 de dezembro de 2024.
Mas todo o processo de regularização junto à prefeitura aconteceu oficialmente em janeiro.
Você comentou que enfrentou desafios burocráticos no município. Como foi isso?
Giovana: Foi uma das partes mais difíceis.
Na época existia uma nova legislação municipal tentando organizar os aplicativos na cidade. Só que havia muita dúvida e pouca clareza. Quando fundei o Mobielas, decidi fazer tudo exatamente dentro das exigências da prefeitura.
Então fui atrás de todas as documentações, licenças e regularizações. Acabamos sendo o primeiro aplicativo oficialmente autorizado pela prefeitura de Três Passos. Isso gerou muita credibilidade para nós. As pessoas começaram a enxergar o Mobielas como algo sério e profissional.
Como foi conquistar os primeiros passageiros?
Giovana: Foi muito no boca a boca. Quando saí do aplicativo anterior, avisei minhas passageiras que começaria a atender pelo Mobielas. Muitas já me conheciam e passaram a chamar diretamente.
No começo eu trabalhava completamente sozinha. Então eu precisava tomar cuidado até na divulgação, porque não adiantava fazer uma propaganda enorme sem ter carros suficientes para atender.
Se a pessoa chama e não encontra motorista disponível, ela acaba migrando para outro aplicativo. Então fomos crescendo de forma muito controlada.
Quantas motoristas o aplicativo possui atualmente?
Giovana: Hoje temos cinco motoristas cadastradas e mais algumas em processo de cadastro. A segunda motorista entrou apenas seis meses depois do lançamento. Depois disso fomos crescendo aos poucos.
E quantas corridas vocês realizam atualmente?
Giovana: Hoje fazemos em torno de 1.200 corridas por mês. Para uma operação com apenas cinco motoristas, é um número muito significativo.
Quantos passageiros cadastrados o Mobielas possui?
Giovana: Em torno de 1.500 passageiros cadastrados. E esse número cresceu bastante recentemente por causa da divulgação durante a Feicap, que é uma feira regional muito importante aqui.
Vocês operam apenas em Três Passos?
Giovana: Sim. Hoje nosso foco é consolidar o serviço aqui antes de expandir.
Já deixamos algumas cidades vizinhas encaminhadas para futuras operações, mas queremos primeiro fazer um trabalho muito sólido em Três Passos.
Por que vocês decidiram integrar o WhatsApp ao aplicativo?
Giovana: Porque percebemos uma dificuldade muito grande do público local em utilizar aplicativos tradicionais.
Muitas pessoas daqui, principalmente idosos, têm dificuldade em baixar aplicativo, criar cadastro e fazer chamadas sozinhas.
Então o WhatsApp facilitou muito. Só que isso também virou um problema inicialmente, porque a prefeitura dizia que não poderíamos divulgar atendimento via WhatsApp. Esse foi provavelmente o maior desafio burocrático que enfrentamos.
Qual foi o momento mais difícil da trajetória até aqui?
Giovana: Sem dúvida foi lidar com as exigências burocráticas do município. A parte operacional foi tranquila perto disso. Porque eu sabia que existia demanda. Mas convencer o poder público de que determinadas ferramentas eram importantes para acessibilidade da população foi complicado.
Em que momento você percebeu que o Mobielas estava realmente dando certo?
Giovana: Quando pessoas de fora começaram a usar o aplicativo e falar:
“Nossa, Três Passos está muito à frente.”
Muita gente dizia que em cidades maiores não existia um aplicativo exclusivamente feminino.
Também percebi isso quando mães começaram a confiar seus filhos para nós transportarmos.
Ou quando passageiras falavam que se sentiam seguras usando o serviço.
Ali percebi que estávamos no caminho certo.
O que mais mudou em você depois que virou empreendedora?
Giovana: Acho que amadureci muito emocionalmente. Porque dentro do carro você escuta histórias de vida o tempo inteiro. Mulheres desabafam, contam problemas familiares, dificuldades, medos, desafios. Então você aprende a ouvir.
Aprende a acolher sem invadir o espaço da pessoa. Também aprendi muito sobre gestão, financeiro, organização e tecnologia. Hoje uso várias ferramentas digitais para administrar o aplicativo.
Vocês possuem projetos sociais ligados ao aplicativo?
Giovana: Sim. Queremos desenvolver projetos com a Polícia Civil voltados para proteção de mulheres vítimas de violência. Também pensamos em criar cursos para preparar novas motoristas.
Muitas mulheres têm vontade de trabalhar com aplicativo, mas não sabem por onde começar. Então queremos ensinar desde comportamento até funcionamento da plataforma.
Como funciona a cobrança da plataforma?
Giovana: Trabalhamos com taxa de 15% sobre cada corrida finalizada. O fechamento é semanal.
Qual é o valor da corrida mínima?
Giovana: Hoje a corrida mínima é R$ 11,99.
Fora do município trabalhamos com tarifa diferenciada.
Qual é o ticket médio das corridas?
Giovana: Normalmente entre R$ 15 e R$ 20.
Mas depende bastante do bairro e da distância.
Quanto as motoristas conseguem faturar?
Giovana: Temos motoristas que fazem entre R$ 2 mil e R$ 7 mil por mês.
Depende muito da disponibilidade de horários.
Quem trabalha à noite e finais de semana normalmente consegue ganhos maiores.
Qual é o faturamento total movimentado pelo aplicativo atualmente?
Giovana: Hoje o Mobielas movimenta entre R$ 20 mil e R$ 25 mil por mês em corridas.
A plataforma fica com cerca de 15% desse valor.
Quais eram seus maiores medos antes de lançar o aplicativo?
Giovana: Meu maior medo era não ter corridas. Eu pensava: “Será que vai ter demanda suficiente?”
Mas isso nunca aconteceu. Nunca ficamos um dia sem corridas. Hoje vejo que o Mobielas virou praticamente uma comunidade dentro da cidade.
O que mais te incomoda no mercado de mobilidade urbana?
Giovana: Aplicativos clandestinos. Isso me incomoda muito.
Porque nós seguimos regras, pagamos taxas, mantemos documentação, seguro e veículos dentro das exigências. Enquanto isso, existem motoristas rodando irregularmente sem fiscalização adequada. O passageiro muitas vezes nem imagina os riscos que está correndo.
Qual legado você quer deixar com o Mobielas?
Giovana: Quero deixar um legado de mobilidade urbana humanizada. Quero que as pessoas se sintam acolhidas, seguras e respeitadas. A corrida não pode ser apenas deslocamento. Ela precisa ser uma experiência tranquila e humana.
Qual sua visão para o futuro da mobilidade urbana?
Giovana: Acho que o mercado vai continuar crescendo muito. Cada vez mais pessoas estão deixando de comprar carro para usar aplicativo. Mas acredito que só vão permanecer os melhores profissionais e os aplicativos que realmente entregarem qualidade. Atendimento vai ser o grande diferencial daqui para frente.
Você acredita que mais mulheres poderiam criar aplicativos regionais?
Giovana: Com certeza. Muitas mulheres poderiam criar plataformas em suas cidades. O que falta muitas vezes é orientação, conhecimento inicial e incentivo. Mas é um mercado muito promissor.

