Pouco tempo antes de fundar sua empresa, Elikson Bruno perguntou ao sogro por que ele havia batizado o antigo negócio de mototáxi de “Águia”.
“Porque a águia enxerga muito longe. Quando ela quer capturar uma presa, ela vê de uma distância enorme”, respondeu.
Estava decidido ali o nome do novo aplicativo de mobilidade de Igarapava, município de pouco mais de 30 mil habitantes no interior de São Paulo. Fundado por Elikson e sua esposa Hellen Lethicia, o ÁguiaCar hoje também atende Aramina (SP) e Delta (MG).
A história dos empreendedores
Hellen nasceu em Campinas e nunca se viu na trilha convencional. “Todo mundo procurava uma faculdade e eu nunca me encaixava em nenhuma delas, porque o meu negócio era ter algo próprio”, conta.
Já Elikson nasceu e cresceu em Igarapava e sempre trabalhou com carteira assinada. Primeiro, foi contratado como ajudante em uma indústria da região e, depois, virou soldador. Em determinado momento, passou a rodar como motorista de aplicativos para complementar a renda. Não demorou muito para enxergar dois grandes problemas no mercado: mau atendimento e preços que não fechavam a conta do mês para quem trabalhava.
“As empresas querem disputar por preço. Aqui, não. Nós vamos disputar pela qualidade”, explica.
Com um investimento inicial de R$ 3 mil a R$ 4 mil, sem aporte de investidores, o casal começou com dois motoristas e uma estratégia de indicação. Em seis meses, o aplicativo começou a se pagar.
Modelo de negócio
O modelo de negócio da empresa é baseado na taxa de intermediação cobrada em cada corrida realizada pelos motoristas. A taxa é fixa em 11%, independentemente do tamanho da corrida. A empresa fatura entre R$ 2.500 e R$ 3.000.
A operação funciona com 17 motoristas ativos e 3.000 passageiros cadastrados, com uma média de 2.000 a 2.500 corridas mensais.
A taxa enxuta é uma escolha consciente. “O carro é do motorista. Ele tem manutenção, troca de pneu, troca de óleo. Não adianta cobrar algo abusivo”, justifica Elikson.
Ganhos dos motoristas
A gestão do casal aposta na proximidade. Todo mês, eles reúnem os motoristas, ouvem os dois lados — passageiro e condutor — e premiam com copos personalizados os motoristas mais engajados.
Segundo os fundadores, os motoristas chegam a faturar cerca de R$ 3.500 no mês, mas o recordista, um motorista recém-chegado à plataforma e apelidado de “Janela”, chegou a bater R$ 7 mil trabalhando quatro dias durante a tradicional Festa da Cana. “Ele começava 16h de um dia e só parava no outro”.
A corrida mínima para o passageiro é de R$ 8,70 e o ganho por quilômetro para o motorista fica entre R$ 3 e R$ 4.
Assim como muitos gestores de aplicativos regionais, o casal aponta os motoristas clandestinos — informais que fazem corridas por fora da plataforma e com valores abaixo do mercado — como um dos maiores desafios da empresa. “Em uma corrida que cobramos R$ 10, eles chegam a cobrar R$ 5, isso afeta a gente. A fiscalização é muito fraca”, critica Elikson.
A meta para 2026 e a visão de longo prazo
O plano para o ano não é medido em reais, mas em movimento: chegar a 5.000 corridas por mês. “Aumentando as corridas, aumentam os valores”, explica. Para os próximos cinco anos, o objetivo é expandir para cidades vizinhas, inclusive onde Uber e 99 já atuam, mantendo taxa baixa para segurar os motoristas.
E se a conversa é sobre encarar as multinacionais, Elikson prefere ajustar o discurso. “A gente não tem que pensar em passar eles. A gente tem que pensar em ser igual a eles. Se eles têm o conceito de ser grandes, a gente também pode sonhar em ser grande”, afirma.
