De uma infância marcada pelo trabalho na marcenaria da família, em Juara, interior do Mato Grosso, ao universo da tecnologia e do empreendedorismo, Guilherme Amaral construiu uma carreira movida pela curiosidade e pela vontade de transformar experiências do dia a dia. Fascinado por computadores desde os 8 anos, ele começou a estudar programação de forma autodidata e, anos mais tarde, aplicaria esse conhecimento para criar soluções inovadoras em mobilidade urbana.

Como CEO do 100 Fronteiras, primeiro aplicativo de transporte de sua cidade natal, e do KiosGO, plataforma que leva tecnologia de gestão e geração de corridas para centrais de táxi e aplicativos regionais, Guilherme compartilha sua visão sobre inovação, desafios do empreendedorismo e o futuro dos aplicativos locais, mostrando como a tecnologia pode transformar realidades, mesmo em cidades pequenas.

Nesta entrevista, ele conta desde o surgimento da ideia até os detalhes do desenvolvimento e expansão de suas soluções, revelando o que é preciso para transformar uma iniciativa local em uma referência em mobilidade e gestão de corridas.

Onde você nasceu e cresceu?

Guilherme: Sou nascido e criado em Juara, no interior do Mato Grosso. É uma cidade pequena, bastante isolada, e foi lá que toda a minha história começou.

Como foi sua infância e adolescência?

Guilherme: Cresci ajudando meus pais na marcenaria da família, mas desde muito cedo tive curiosidade por tecnologia. Aos 8 anos ganhei meu primeiro computador e passei a querer entender como tudo funcionava. Mesmo com pouco acesso à internet, comecei a estudar programação de forma autodidata, usando livros que minha tia me enviava pelo correio.

Você já imaginava trabalhar com mobilidade urbana?

Guilherme: Não. Meu interesse sempre foi tecnologia. A mobilidade entrou na minha vida muito mais por necessidade do que por planejamento.

Quando surgiu a ideia de criar o aplicativo 100 Fronteiras?

Guilherme: A ideia surgiu depois que voltei do Canadá. Lá eu usava aplicativos como Uber e Lyft. Ao retornar para Juara, percebi que a cidade não tinha nenhum aplicativo de transporte e que o serviço de táxi era caro e pouco flexível. Depois de passar por uma situação desagradável com um taxista, um amigo me disse:
“Você entende de tecnologia, por que não cria um app?” Foi aí que comecei a pensar seriamente nisso.

Como foi o processo da ideia até o lançamento do app?

Guilherme: Desenvolver um aplicativo do zero levaria muito tempo, então decidi contratar a plataforma da Machine, que já oferecia um sistema robusto. A partir disso, adaptei tudo para a realidade de Juara e lancei o 100 Fronteiras, que se tornou o primeiro aplicativo da cidade.

Quando o aplicativo foi lançado oficialmente?

Guilherme: O 100 Fronteiras foi lançado em 28 de maio de 2019.

Como foi o início da operação?

Guilherme: Muito difícil. No começo, eu mesmo fazia as corridas, com um carro simples, duas portas, sem ar-condicionado e sem direção hidráulica. No primeiro mês tive apenas duas ou três corridas. Nos três primeiros meses, somando tudo, cheguei a cerca de 150 corridas.

Como foi a reação dos taxistas da cidade?

Guilherme: No início, tentei convidar os próprios taxistas para participar do aplicativo, mas eles recusaram. Diziam que Juara não era uma cidade para aplicativo. Depois, muitos passaram a criticar o serviço publicamente.

O que fez o aplicativo começar a crescer?

Guilherme: A virada aconteceu durante um grande evento na cidade. Enquanto os táxis cobravam valores entre R$40 e R$60, o 100 Fronteiras cobrava a partir de R$8. Isso gerou filas enormes e fez com que muita gente conhecesse o aplicativo.

Você lembra quanto investiu no início?

Guilherme: Sim. Investi cerca de R$ 40 mil, principalmente em marketing, rádio, panfletagem, eventos e divulgação local.

Em quanto tempo o investimento se pagou?

Guilherme: Levei cerca de 1 ano e meio para recuperar esse investimento.

Como foi o processo de captar motoristas?

Guilherme: No início foi tudo muito informal. Como não existia lei municipal ainda, bastava o motorista ter CNH e o carro em condições mínimas. Muitos entraram confiando em mim e na proposta.

E para atrair passageiros?

Guilherme: Usei rádio, panfletos e ações na cidade. Curiosamente, as críticas feitas por taxistas, prefeitura e fiscalização acabaram ajudando a divulgar o aplicativo. Quanto mais falavam mal, mais curiosidade as pessoas tinham.

E como é a sua rotina hoje? Tem gestores que ainda trabalham como motoristas nos próprios apps. Você faz isso?

Guilherme: Hoje eu sou mais gestor. Quase não dirijo, mas às vezes entro no carro quando tem alta demanda. Acontece dos motoristas me mandarem mensagem pedindo ajuda: ‘Olha, tá tendo muita corrida, entra no carro aí, bora!’ Aí eu só tiro meu Renault da tomada e vou.

Mas a maior parte do meu dia é dedicada à gestão: controlando a operação, desenvolvendo soluções, criando ferramentas próprias. Por exemplo, eu criei um ‘bote’ exclusivo para mim, um sistema próprio que funciona de forma diferente do que existe no mercado. Esse sistema é só meu, não vendo para ninguém.

Além disso, desenvolvi várias soluções integradas com a Machine e com a API da Machine. Hoje meu trabalho é basicamente procurar soluções que aumentem o número de corridas e melhorem a operação como um todo.

Quantos motoristas estão ativos atualmente?

Guilherme: Hoje temos cerca de 40 motoristas no grupo de WhatsApp.

Quantos passageiros já passaram pelo aplicativo?

Guilherme: Mais de 30 mil passageiros cadastrados.

Quantas corridas são realizadas por mês?

Guilherme: Atualmente, em média, entre 1.800 e 2.500 corridas mensais, variando conforme o período do ano.

Qual é o valor da corrida mínima?

Guilherme: A corrida mínima é de R$ 14, cobrindo até 1,8 km.

Como funciona a remuneração dos motoristas?

Guilherme: O pagamento pode ser feito via Pix pelo aplicativo, e o motorista recebe 100% do valor da corrida. A empresa cobra uma mensalidade fixa de R$ 750 por motorista.

Qual é a média de remuneração dos motoristas do aplicativo?

Guilherme: Olha, a média fica em torno de R$ 4.000 por mês. Por exemplo, um motorista chegou a fazer R$ 4.900, o Jones faturou R$ 4.400, e outro motorista fez pouco mais de R$ 2.000. Depende muito do perfil de cada motorista. Tem também o Cláudio, que trabalha apenas à noite, e ele chegou a R$ 1.500.

Qual foi o maior valor já faturado por um motorista?

Guilherme: Ah, já tive um motorista que faturou R$ 12.000 em um mês. Ele trabalhava 24 horas, sem parar, porque já era caminhoneiro e tinha experiência em jornadas longas. Na época que não tinha carga de soja, ele trabalhava comigo full time e chegou a passar o mês inteiro assim. Era um caso extremo, mas mostra o potencial.

Esses valores são considerados bons para a região?

Guilherme: Sim, na nossa cidade, os valores são bons porque a corrida aqui em Juara tem um preço mais alto comparado a outras cidades.

Quantos motoristas ativos vocês têm atualmente?

Guilherme: Atualmente, temos 27 motoristas ativos no painel. Eles estão conectados e prontos para receber chamadas, então esse é o número de motoristas que realmente utilizam a plataforma.

Qual é o faturamento médio mensal da empresa com esses motoristas ativos?

Guilherme: Com a mensalidade de R$ 750 por motorista, o faturamento médio mensal da central fica em torno de R$ 20.250.

Qual foi o momento mais desafiador desde a criação do app?

Guilherme: Sem dúvida, a pandemia. Houve semanas sem nenhuma corrida. Hoje, o maior desafio é o cenário econômico e governamental, com aumento de impostos e custos, o que reduziu a demanda em cerca de 20%.

Quem foi fundamental para manter o negócio de pé?

Guilherme: Minha esposa e meu filho. Meu filho, principalmente, me dá motivação diária para continuar e crescer.

O que mudou em você depois de empreender?

Guilherme: Aprendi a ser mais cauteloso com as pessoas. O empreendedorismo ensina, muitas vezes de forma dura, como o mundo funciona.

Quais são seus planos para o 100 Fronteiras?

Guilherme: Meu foco é seguir consolidando o aplicativo em Juara, aumentando o número de corridas e fortalecendo o relacionamento com motoristas e passageiros.

Como você vê o futuro dos aplicativos regionais?

Guilherme: Vejo um futuro muito positivo. Aplicativos regionais entendem melhor a realidade local, oferecem suporte humano e criam vínculos reais com a comunidade.

Como você define o KiosGO hoje?

Guilherme: O KiosGO é um sistema completo de geração e gestão de corridas, que integra totem, links, afiliados, automação e monitoramento em uma única plataforma.

Como surgiu a ideia do KiosGO?

Guilherme: Eu estava viajando para o Rio de Janeiro e vi aqueles quiosques de atendimento de táxi. A pessoa coloca o nome, telefone, imprime uma etiquetazinha e escolhe um táxi da fila. Aí eu pensei: isso aqui tem integração, tem API, dá pra desenvolver.”

O que te fez acreditar que dava para transformar isso em uma tecnologia própria?

Guilherme: Eu já sou programador. Falei: isso aqui pra mim é uma roda, vou fazer de boa.

Como o KiosGO evoluiu para atender outras centrais além da sua?

Guilherme: A partir da criação do totem, a tecnologia deixou de atender apenas uma operação e passou a ser utilizada por outras centrais como a GP Car e a Cooper Car. Hoje, diferentes empresas já trabalham com o KiosGO e os retornos têm sido positivos, com relatos de que a solução é simples, fácil de usar e eficiente no dia a dia.

Quais cuidados de segurança foram pensados no desenvolvimento do KiosGO?

Guilherme: O sistema foi desenvolvido com uma camada de segurança que impede o usuário de sair do aplicativo. Caso alguém tente acessar outra função do dispositivo, o sistema retorna automaticamente para a tela inicial do KiosGO, garantindo uso exclusivo e evitando mau uso do equipamento.

Como funciona o modelo de cobrança para as centrais?

Guilherme: A instalação do KiosGO é feita por meio de planos. O valor varia de acordo com o volume de corridas, quantidade de totens e funcionalidades contratadas, permitindo que a central escolha o modelo mais adequado à sua realidade.

Quais são os planos disponíveis atualmente?

Guilherme: O KiosGO oferece diferentes planos, que variam conforme número de corridas inclusas, quantidade de totens, acesso a links e número de parceiros afiliados, atendendo desde centrais menores até operações de grande escala.

START

  • R$ 299,90/mês
  • 1.500 corridas (excedente R$ 0,35/corrida)
  • 5 licenças de totem
  • Link PWA Passageiro e Link Estabelecimento
  • Suporte via WhatsApp (resposta em até 24h)
  • Documentação completa e comunidade de usuários

PLUS

  • R$ 499,90/mês
  • 2.500 corridas (excedente R$ 0,29/corrida)
  • 25 licenças de totem
  • Link PWA Passageiro
  • Até 10 parceiros afiliados
  • Suporte prioritário (resposta em até 4h)
  • Onboarding assistido e relatórios avançados

MASTER

  • R$ 899,99/mês
  • 4.500 corridas (excedente R$ 0,22/corrida)
  • 100 licenças de totem
  • Link PWA Passageiro
  • Até 10 parceiros afiliados
  • Suporte prioritário 24/7 (resposta em até 1h)
  • Gerente de conta dedicado, treinamento personalizado e API completa

MEGA

  • R$ 999,99/mês
  • 5.000 corridas (excedente R$ 0,18/corrida)
  • Licenças de totem ilimitadas
  • Link PWA Passageiro
  • Até 100 parceiros afiliados
  • Suporte prioritário 24/7 (resposta em até 1h)
  • Gerente de conta dedicado e treinamento personalizado

Além do totem, que outras soluções fazem parte do KiosGO?

Guilherme: O KiosGO não se limita ao totem físico. A tecnologia inclui link web para solicitação de corridas, sistema de afiliados e integração completa com a central. Esses recursos ampliam os pontos de pedido e ajudam a gerar mais corridas.

Como funciona o sistema de afiliados?

Guilherme: Empresas parceiras, como motéis, hotéis e imóveis de Airbnb, recebem um link exclusivo ou QR Code via panfleto. Sempre que uma corrida é solicitada por esse canal, o sistema identifica a origem e gera uma comissão automática de 2% para o parceiro.

Como é feito o controle dessas corridas e comissões?

Guilherme: Todas as corridas realizadas por links afiliados ficam registradas com o nome do parceiro de origem. O repasse da comissão acontece de forma automática, trazendo transparência tanto para a central quanto para o parceiro.

Esse sistema de afiliados está incluso nos planos do KiosGO?

Guilherme: Sim. O sistema de afiliados, junto com os links de solicitação de corrida, já faz parte da estrutura do KiosGO e está integrado aos planos disponíveis.

Como funciona a experiência do passageiro no KiosGO?

Guilherme: A própria central faz o cadastro e configura o sistema. No uso, o passageiro insere nome e telefone, solicita a corrida e recebe as informações do motorista diretamente na tela e também via WhatsApp.

O sistema se prepara para o próximo atendimento?

Guilherme: Sim. Após a solicitação, o KiosGO reinicia automaticamente a tela em poucos segundos, ficando pronto para o próximo passageiro sem necessidade de intervenção manual.

Quais ferramentas de gestão o KiosGO oferece?

Guilherme: O sistema conta com painel de gestão completo, permitindo acompanhar operação, saúde financeira, corridas em tempo real, locais mais solicitados e passageiros mais frequentes.

Quanto tempo levou o desenvolvimento do KiosGO?

Guilherme: A tecnologia foi desenvolvida ao longo de um ano, utilizando a mesma base tecnológica da Machine, com integrações entre web app, sistema de afiliados e automação.

O sistema também permite publicidade no totem?

Guilherme: Sim. O gestor pode inserir banners e imagens publicitárias diretamente no totem, com conteúdos que ficam girando na tela, criando novas possibilidades de monetização.

Você já realiza algum número significativo de corridas por dia com o KiosGO?

Guilherme: Nos últimos 30 dias, colocando todos os pedidos, deu mais de 252 corridas. Esse mês comecei apenas em teste, então é um início, mas já mostra que a tecnologia está funcionando e sendo utilizada pelas centrais.

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Giulia Lang

Giulia Lang é jornalista formada pela Fundação Cásper Líbero e há três anos cobre o mercado de mobilidade urbana e delivery pelo 55content.