A história do Mobi Além começou muito antes da chegada dos aplicativos de mobilidade. Em Alagoinha, no interior da Paraíba, a família de Carlos Enrique Marques Santos já trabalhava com transporte de passageiros desde 2005, quando seu pai iniciou uma central de mototáxi.

O serviço nasceu a partir de um comércio da família, que funciona 24 horas e também serve como ponto de apoio para veículos e motoristas.

Com o passar dos anos, a operação passou a incluir entregas, corridas de carro e transporte por motocicleta. A digitalização veio em 2021, quando Carlos adquiriu um aplicativo que já havia sido desenvolvido por outro empreendedor da cidade.

Segundo ele, a plataforma original foi criada por volta de 2020, mas acabou sendo colocada à venda após dificuldades entre os antigos sócios.

“Tudo começou do comércio do meu pai. A gente foi evoluindo e, em 2021, passou para o digital”, conta Carlos.

Aplicativo nasceu da necessidade de modernizar atendimento

A principal motivação para investir na tecnologia foi reduzir a dependência do atendimento telefônico.

Antes, a central precisava de telefonistas para receber as solicitações e organizar as viagens. Com o aplicativo, Carlos enxergou uma oportunidade de modernizar esse processo e ampliar as possibilidades da operação.

Hoje, o Mobi Além permite solicitar corridas de carro, mototáxi e entregas.

Apesar da tecnologia, o gestor continua trabalhando diretamente no transporte de passageiros e participa de diferentes atividades da empresa.

“Uma hora estou de moto, outra hora estou de carro e, quando vejo, já estou aqui numa reunião. Sou multifunções”, brinca.

Primeiros clientes vieram do boca a boca

A captação inicial foi feita principalmente nas ruas, com panfletagem, divulgação boca a boca e parcerias comerciais.

Segundo Carlos, muitos dos primeiros motoristas já trabalhavam com transporte na cidade, mas ainda não utilizavam uma plataforma digital.

A proposta foi reunir esses profissionais em um aplicativo, aproveitando uma atividade que já existia no município.

Com o tempo, a empresa também investiu em redes sociais e outras formas de publicidade.

Entretanto, o gestor afirma que a divulgação perdeu força depois de mudanças na regulamentação municipal.

Lei municipal de 2023 afetou a operação, diz gestor

Uma das principais dificuldades relatadas por Carlos é a regulamentação do transporte por aplicativo em Alagoinha.

Segundo ele, uma lei municipal criada em 2023 estabeleceu exigências para a atividade, incluindo cadastro de motoristas e empresas.

Carlos afirma que cumpriu essas obrigações, mas reclama da falta de fiscalização sobre os demais profissionais que realizam transporte de passageiros.

“Na minha avaliação, a situação aumentou a presença de veículos que trabalham sem vínculo com plataformas e prejudicou a demanda do Mobi Além. A lei municipal fala do transporte por aplicativo, mas não tem fiscalização em cima dela”, critica.

Ele relata que, após a entrada em vigor da norma, o número de carros nas ruas aumentou, enquanto as solicitações pelo aplicativo diminuíram.

Com menos corridas e custos fixos de manutenção, Carlos decidiu reduzir os investimentos em publicidade.

Concorrência motivou retomada da divulgação

Recentemente, a chegada de outro aplicativo à cidade levou o gestor a voltar a investir na divulgação do Mobi Além.

Segundo ele, a nova plataforma iniciou suas atividades com uma campanha de marketing que chamou a atenção da população.

Carlos conta que a movimentação da concorrência serviu como incentivo para retomar o trabalho nas redes sociais.

“Eu falei: agora ou tem que baixar a cabeça ou tem que ir para cima. Então estou indo para cima de novo e começando a mexer com o digital”, afirma.

Mobi Além atua em Alagoinha

Atualmente, a operação está concentrada em Alagoinha, na Paraíba.

Carlos já tentou expandir o aplicativo para Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, no Rio de Janeiro. Segundo ele, a operação chegou a receber solicitações, mas não havia motoristas suficientes para atender à demanda.

A expansão também exigiria custos adicionais com a plataforma e a captação de condutores.

Diante dessas dificuldades, o gestor decidiu concentrar os esforços na cidade de origem.

Pai e filho dividem a operação

Carlos administra o negócio ao lado do pai, responsável pela criação da central de mototáxi.

Segundo o gestor, a família enfrentou diferentes situações desde o início da atividade, inclusive disputas comerciais com concorrentes.

“Quando a central ainda dependia de divulgação por telefone, meu pai espalhava panfletos e anúncios pelos postes da cidade”, conta Carlos. 

Em determinado momento, profissionais ligados a uma operação concorrente chegaram a retirar os materiais de divulgação.

O episódio faz parte de uma trajetória que, segundo Carlos, exigiu persistência para manter a empresa funcionando.

Investimento na aquisição chegou a R$ 40 mil

O investimento para adquirir o aplicativo ficou entre R$ 30 mil e R$ 40 mil.

Além do valor inicial, Carlos passou a pagar mensalmente pela utilização e manutenção da tecnologia, cujos custos variam conforme o número de veículos cadastrados. 

Apesar dos anos de operação, Carlos reconhece que ainda não recuperou todo o dinheiro investido.

Atualmente, entretanto, o aplicativo consegue gerar recursos suficientes para manter seu funcionamento.

“Hoje entra um bocadinho que dá para manter funcionando, pelo menos”, afirma.

Plataforma tem 24 motoristas e cerca de 7 mil clientes

O Mobi Além reúne aproximadamente 24 motoristas e uma base estimada entre 6 mil e 7 mil clientes.

O número inclui a atuação do aplicativo em uma cidade onde a central tradicional de mototáxi já possui presença consolidada.

Mesmo assim, Carlos afirma que ainda encontra resistência para levar todos os profissionais que trabalham com a família para a plataforma digital.

“Parte dos mototaxistas prefere continuar no modelo tradicional de atendimento fora que a adaptação dos passageiros à tecnologia também representa um desafio”, conta o gestor. 

Aplicativo realiza entre 300 e 400 viagens por mês

O volume mensal estimado pelo gestor é de 300 a 400 viagens.

A demanda varia conforme o período do ano e os eventos realizados na cidade.

Segundo ele, festas municipais costumam aumentar a procura pelo serviço.

Corrida mínima é de R$ 12,90

A corrida mínima do Mobi Além é de R$ 12,90 e cobre aproximadamente 3 km.

O valor cobrado por quilômetro fica entre R$ 3,30 e R$ 3,50, conforme a configuração da viagem.

Carlos explica que a maior parte das solicitações é formada por deslocamentos relativamente curtos.

Também aparecem viagens para municípios próximos, com valores que podem chegar a R$ 80 ou R$ 100, dependendo da distância e do horário.

Motoristas podem faturar cerca de R$ 5 mil

De acordo com Carlos, os ganhos mensais podem chegar a aproximadamente R$ 5 mil brutos, dependendo do movimento e da dedicação do condutor.

Ele relata que já teve meses em que conseguiu alcançar essa faixa trabalhando com transporte.

Os valores podem variar bastante, especialmente em períodos de festas, quando a demanda aumenta.

“Já teve mês de conseguir fazer uns R$ 5 mil e um bocadinho. No bruto, fica mais ou menos entre R$ 4 mil e R$ 5 mil”, conta.

Taxa é de 10% nas corridas pelo aplicativo

O Mobi Além cobra uma taxa de 10% sobre as viagens solicitadas diretamente pelos passageiros no aplicativo.

A plataforma também oferece a função de embarque rápido, destinada a corridas que o próprio motorista consegue captar.

Nesse caso, a taxa é reduzida para 2%.

A estratégia, segundo Carlos, é incentivar os condutores a registrar na plataforma até mesmo as viagens particulares.

“É uma taxa de 10% fixa. E no embarque rápido está configurada em 2%, para incentivar os motoristas a abrirem as corridas particulares. Ao registrar a viagem, o motorista também informa dados como nome e telefone do passageiro”, explica.

Corridas por fora preocupam o gestor

Um dos problemas enfrentados pelo Mobi Além é a presença de profissionais que realizam transporte de passageiros sem registrar as viagens em aplicativos.

Carlos afirma que essa prática prejudica as empresas que mantêm custos com tecnologia, divulgação e regularização.

Para ele, a falta de colaboração entre os profissionais do setor acaba dificultando o crescimento das plataformas locais.

“O que mais incomoda é a falta de colaboração dos amigos que estão no dia a dia com a gente. Muitos querem ficar pela rua sem estar em aplicativo nenhum”, afirma.

Carlos reclama da falta de fiscalização

Além da concorrência entre aplicativos, o gestor considera a fiscalização municipal um dos principais desafios da operação.

Segundo ele, a prefeitura exige cadastro e pagamento de taxas, mas não acompanha adequadamente todos os profissionais que realizam transporte por aplicativo.

Carlos afirma que se regularizou tanto como motorista quanto como responsável pela empresa.

“Sou contribuinte como motorista e como empresa. Sou contribuinte duas vezes”, destaca.

O gestor também questiona algumas exigências previstas na regulamentação municipal, como a necessidade de sede física na cidade.

As críticas representam a avaliação de Carlos sobre a legislação e sua aplicação no município.

Tecnologia cumpre o que promete 

Carlos afirma estar satisfeito com o funcionamento geral da plataforma e com o suporte técnico oferecido pela empresa.

Segundo ele, os principais problemas ocorrem eventualmente nos mapas, especialmente quando algum endereço não aparece corretamente ou quando o sistema apresenta o nome errado de uma rua.

Fora essas situações, considera que a tecnologia atende às necessidades da operação.

Expansão depende de consolidar operação atual

Carlos afirma que pretende levar o Mobi Além para outras cidades, mas prefere primeiro ter mais segurança sobre o futuro da operação em Alagoinha.

“Os custos de implantação e manutenção tornam arriscado expandir sem uma estrutura financeira suficiente. Minha experiência anterior em Duque de Caxias reforçou essa preocupação. Por isso, a prioridade é fortalecer a atuação local antes de iniciar uma nova tentativa de expansão”, revela. 

Futuro dos aplicativos regionais depende da adaptação tecnológica

Na avaliação de Carlos, o transporte por aplicativo continuará sendo uma atividade com espaço no mercado.

Entretanto, ele considera que municípios pequenos podem enfrentar mais dificuldades, principalmente quando parte dos passageiros e motoristas ainda prefere métodos tradicionais de atendimento.

“Cidades com maior familiaridade com serviços digitais oferecem condições mais favoráveis para a expansão. Mesmo assim, eu acredito que a tecnologia representa um caminho para o futuro do transporte”, diz; 

Legado da família é o atendimento 24 horas

Ao falar sobre o legado que deseja deixar, Carlos destaca que a família já possui uma história no transporte de passageiros muito anterior ao aplicativo.

Desde 2005, o negócio mantém atendimento 24 horas em Alagoinha.

Para ele, o Mobi Além representa a continuidade dessa trajetória, agora com ferramentas digitais para facilitar o acesso da população ao serviço.

“A gente já tem um legado de trabalhar na cidade 24 horas desde 2005. O legado final é prestar um bom serviço e tentar atender todo mundo da melhor forma possível”, conclui.

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Giulia Lang

Giulia Lang é jornalista formada pela Fundação Cásper Líbero e há três anos cobre o mercado de mobilidade urbana e delivery pelo 55content.