A entrada de Carlos Henrique de Oliveira Gomes na mobilidade aconteceu por necessidade. Economista de formação, ele trabalhou na indústria e no setor bancário, até que a empresa onde atuava como gerente comercial fechou durante a pandemia. Sem querer ficar parado, decidiu trabalhar com o próprio carro enquanto a situação não se normalizava.

Em Itajubá, no Sul de Minas Gerais, a atividade de motorista por aplicativo exige regularização local. Além das normas federais, o condutor precisa estar vinculado a uma plataforma cadastrada na prefeitura, apresentar documentos, antecedentes criminais, pontuação da CNH, abrir CNPJ ou cadastro de prestador autônomo e obter alvará.

Como os aplicativos da cidade não estavam cadastrando novos motoristas naquele momento, Henrique decidiu criar o próprio. A ideia surgiu após uma conversa com um colega que já usava transporte por aplicativo e comentou sobre uma pessoa interessada em abrir uma operação local. Em cerca de 15 a 20 dias, o aplicativo já estava funcionando.

“Inicialmente foi por uma necessidade de momento, para me dar um trabalho de forma regulamentada. Depois se tornou o principal e eu não consegui mais sair”, conta.

Pandemia aumentou a demanda por transporte individual

Quando o Pop35 Brasil foi criado, Uber e 99 ainda não operavam em Itajubá. A cidade contava apenas com aplicativos locais, muitos deles com critérios restritos para entrada de motoristas.

Segundo Henrique, Itajubá tem forte presença de estudantes, o que costuma aumentar a população em 30 mil a 40 mil pessoas durante o período de aulas. Antes da pandemia, esse público era um dos principais usuários de aplicativos. Com a redução dos ônibus e o receio de compartilhar transporte coletivo, moradores da cidade também passaram a usar mais corridas por aplicativo.

“Do dia para a noite, um público que era restrito aumentou. Isso deu margem para mais aplicativos e mais motoristas atenderem essa demanda”, afirma.

Padrão de atendimento virou diferencial

Desde o início, a proposta do Pop35 Brasil foi trabalhar com plataformas confiáveis, preços atrativos, seleção de motoristas e treinamento. Henrique afirma que esse cuidado permanece até hoje, depois de seis anos de empresa.

Para entrar no aplicativo, o motorista precisa ir ao escritório, passar por treinamento e apresentar documentação. Os carros são identificados, e os condutores trabalham uniformizados.

“Ninguém simplesmente instala o aplicativo e é aprovado online. O motorista tem que vir ao escritório e passar por treinamento”, explica.

Operação está em seis cidades

O Pop35 Brasil começou em Itajubá e hoje está presente em seis cidades. Depois da cidade-sede, Henrique testou dois modelos: em Poços de Caldas, abriu operação com administrador local; em Santa Rita, vendeu como franquia.

Com a experiência, decidiu priorizar o modelo de franquia. A marca também chegou a Cachoeira de Minas, Pedro Leopoldo e outras cidades próximas de Belo Horizonte.

Para Henrique, a franquia funciona melhor porque coloca alguém da própria cidade como dono da operação.

“O franqueado é um dono. A gente entende que, tendo alguém da cidade cuidando e sendo dono, dá melhores resultados”, afirma.

Primeiros passageiros vieram das ruas e redes sociais

A captação inicial foi feita no boca a boca, com panfletagem e conversa direta em pontos de movimento. Depois, a empresa investiu em divulgação nas redes sociais e em ações com personagens locais.

Uma dessas ações trouxe resultado imediato. Segundo Henrique, um cantor conhecido na cidade por ser engraçado ajudou a gerar de 2 mil a 3 mil downloads em pouco tempo.

“Fomos para a rua com panfleto, conversando com as pessoas. Era coisa básica, simples, mas que ninguém fazia”, lembra.

Brindes e plano atrativo ajudaram no começo

Além da divulgação, a empresa ofereceu premiações, corridas, canecas personalizadas e detalhes de atendimento, como balas com a marca da empresa dentro dos carros.

“Para atrair motoristas, o Pop35 Brasil criou um plano mais competitivo do que os modelos existentes na cidade. Na época, eu precisei firmar parcerias para garantir oferta suficiente de carros e concorrer com operações já consolidadas”, conta Henrique. 

Metade dos concorrentes iniciais fechou

Quando o Pop35 Brasil começou, havia oito aplicativos locais na cidade. Segundo Henrique, quatro deles não existem mais. Hoje, o Pop35 é o segundo maior aplicativo de Itajubá, mas lidera em demanda geral quando são consideradas as outras cidades em que atua.

A empresa não tem mais sócios. Henrique conduz a operação e afirma que o crescimento foi feito sem pressa e sem dívidas bancárias.

Investimento inicial foi de R$ 25 mil a R$ 30 mil

Para lançar o aplicativo, o investimento inicial ficou entre R$ 25 mil e R$ 30 mil. O crescimento foi gradual, reinvestindo conforme a demanda aumentava, sem empréstimos ou linhas de crédito.

Em menos de cinco meses, a operação já conseguia se manter, pagar os custos e gerar lucro.

“A Pop sempre cresceu com as próprias pernas, zero dívida. Nunca pegamos ação bancária, Pronamp ou investimento”, afirma.

Exclusividade de motoristas virou ponto de virada

Uma das primeiras dificuldades veio após seis meses de operação, quando aplicativos locais decidiram que seus motoristas só poderiam trabalhar em uma plataforma. O motorista precisava escolher onde rodar.

“O movimento poderia ter prejudicado o Pop35, mas acabou fortalecendo a operação. Eu precisei convencer os motoristas de que valia a pena ficar só com a gente. Tive a felicidade de conseguir, ganhei condutores exclusivos e passei a ter maior taxa de aceite nas corridas”, diz. 

Perfil da mão de obra mudou

Hoje, a dificuldade é diferente. No começo, Henrique precisava pedir para motoristas descansarem, porque muitos queriam aproveitar ao máximo a demanda. Agora, há mais condutores freelancers, com outro emprego ou usando o aplicativo como complemento de renda.

“Em Itajubá, dos 100 motoristas, pelo menos 40 têm outro trabalho. Isso dificulta a operação em horários e dias de pico, como fins de semana. Antes eu mandava descansar. Hoje, muitas vezes, acabo pedindo para trabalhar”, afirma.

Chegada da 99 reduziu demanda em quase 30%

O principal desafio atual é a chegada da 99 a Itajubá. Henrique afirma que a plataforma entrou sem seguir as mesmas exigências locais impostas aos aplicativos já regularizados, como documentação, treinamento e prazos de liberação de motoristas.

Segundo ele, enquanto um motorista leva cerca de 15 dias para ser liberado no Pop35, em outra plataforma o cadastro pode ser aprovado em poucos minutos.

A entrada também veio acompanhada de campanha agressiva: motoristas sem taxa, bônus por corrida e descontos de até 90% para passageiros. Henrique estima que a concorrente tenha investido mais de R$ 2 milhões na cidade em três meses. O impacto inicial foi uma redução de cerca de 28% na demanda do Pop35.

“É tão atrativo que eu quase voltei. Mas, conforme as campanhas acabam, já estamos percebendo os clientes voltando”, afirma.

Nome se consolidou após dois anos

Henrique percebeu que o Pop35 Brasil estava consolidado depois de cerca de 26 a 27 meses de operação. A curva de crescimento não recuava: podia crescer mais devagar em alguns períodos, mas não ficava abaixo do mês anterior.

“Outro sinal veio da reação da própria cidade. Em momentos de problema, como acidentes envolvendo motoristas,nossos clientes defenderam espontaneamente a empresa nas redes sociais, relatando boas experiências e confiança no serviço”, relata. 

Orgulho é gerar renda e retribuir à cidade

O maior orgulho de Henrique é empregar pessoas e ajudar motoristas que chegaram ao aplicativo em situação financeira difícil. Ele cita casos de pessoas sem dinheiro para gasolina, com contas atrasadas ou sem renda regular, que conseguiram se reorganizar, trocar de carro e crescer junto com a empresa.

Com o tempo, a empresa também passou a fazer doações e patrocínios para locais carentes.

“Não foi só dinheiro que me manteve na função. Foi ver que agora tinha gente que dependia de mim”, afirma.

Gestão ficou mais profissional

A trajetória também mudou a forma como Henrique enxerga a gestão. 

“No início, eu tinha uma cultura mais familiar de empresa, com proximidade intensa com funcionários e motoristas. Com o tempo, percebi a necessidade de criar processos e separar o “Henrique amigo” do “Henrique patrão. A única forma de separar isso é tendo processos definidos, e você mesmo não ir contra o seu processo”, afirma.

Pop35 tem 317 motoristas

Somando as cidades em operação, Henrique afirma que o Pop35 Brasil tem cerca de 317 motoristas. São aproximadamente 100 em Itajubá, 167 em Poços de Caldas, 20 em Santa Rita e 13 em Cachoeira de Minas, além de cidades em fase inicial de operação.

A plataforma tem mais de 60 mil passageiros cadastrados e mais de 50 mil downloads. No dia a dia, atende mais de 2 mil clientes, considerando usuários recorrentes e passageiros esporádicos.

App faz de 86 mil a 90 mil corridas por mês

Segundo Henrique, o Pop35 Brasil realiza, em média, de 86 mil a 90 mil corridas por mês. Durante a semana, a média diária é de cerca de 2 mil corridas. Nos fins de semana, o volume pode dobrar ou triplicar.

O ticket médio das corridas fica em torno de R$ 15,50.

Planos variam por cidade e perfil do motorista

Em Itajubá, o Pop35 trabalha com dois planos. Motoristas freelancers, com menor disponibilidade para rodar, pagam R$ 200 fixos e 10% sobre corridas realizadas no sistema pré-pago do aplicativo. O outro plano custa R$ 300 fixos e cobra 6% por corrida. Esse valor costuma ser dividido em três parcelas no mês.

O modelo, no entanto, não é igual em todas as cidades. 

“Em praças como Pouso Alegre, onde concorrentes não cobram taxa fixa, a operação trabalha apenas com percentual. Antes de entrar em uma cidade, a empresa pesquisa o mercado local para definir a cobrança e os benefícios mais adequados”, conta Henrique. 

Corrida mínima varia de R$ 7 a R$ 10,80

Em Itajubá, a corrida mínima é de R$ 10,80 e cobre até 1,5 km. Já em Poços de Caldas e Santa Rita, a mínima é de R$ 7. Segundo Henrique, Itajubá tem a melhor tarifa por quilômetro rodado, em parte porque grandes plataformas não estavam presentes no passado e os motoristas locais conseguiram manter uma mínima maior.

O valor médio por quilômetro fica em torno de R$ 2,20 na maior demanda, podendo chegar a R$ 3 em viagens rurais ou deslocamentos para cidades próximas.

Motorista já faturou R$ 21 mil

O faturamento dos motoristas varia bastante. O recorde citado por Henrique foi de R$ 21 mil em um mês de dezembro, em um período de alta demanda, menos concorrência e corrida mínima que chegou a R$ 25.

Hoje, em um mês comum, há motoristas que fazem cerca de R$ 14 mil. Para quem trabalha em uma rotina parecida com horário comercial, das 6h às 16h ou das 7h às 17h, a média fica em torno de R$ 5 mil.

Segundo o gestor, de 10% a 20% da equipe fatura acima de R$ 10 mil; a maior parte fica entre R$ 5 mil e R$ 7 mil; e os motoristas com menor disponibilidade ficam entre R$ 1 mil e R$ 4 mil.

“O motorista não tem limite de faturamento. Tenho gente que faz R$ 14 mil, mas é o cara que a gente tem que mandar dormir”, afirma.

Pai de Henrique também virou motorista

Uma das satisfações recentes de Henrique foi ver o próprio pai, aos 70 anos, começar a trabalhar no aplicativo. Torneiro mecânico desde os 11 anos, ele já era aposentado, mas continuava trabalhando em fábrica.

Depois de treinamento, adaptação ao celular e ao GPS, passou a rodar no Pop35 em seus próprios horários. Segundo Henrique, o pai relatou melhora na rotina e no bem-estar.

“Ele almoçou comigo e falou: ‘Filho, aquelas dores que o pai tinha sumiram. Hoje eu faço no meu tempo e durmo melhor’”, conta.

Operação movimenta cerca de R$ 930 mil por mês

Com quase 60 mil corridas mensais consideradas no cálculo feito durante a entrevista e ticket médio de R$ 15,50, a operação movimenta cerca de R$ 930 mil por mês na cadeia de corridas.

O faturamento da empresa representa em torno de 10% desse volume, o equivalente a R$ 90 mil a R$ 100 mil por mês.

“Uma parte importante desse movimento vem de viagens para cidades próximas, aeroportos e capitais. Itajubá fica a cerca de quatro horas do Rio de Janeiro e pouco mais de três horas de São Paulo, o que gera viagens frequentes para fora”, diz o gestor.

Meta atual é segurar a operação

Antes da chegada da 99, a empresa tinha meta de encerrar o ano com crescimento de 12%. Com a nova concorrência, a prioridade passou a ser manter a demanda já conquistada e segurar a operação.

“A nossa estratégia atual é reforçar atendimento, ações locais e a valorização do que é da cidade. Uma pesquisa local da prefeitura indica que 85% da população valoriza empresas e serviços locais”, afirma. 

Corridas por fora diminuíram com fiscalização

As corridas feitas por fora já foram um problema maior, mas diminuíram com a fiscalização municipal. Em Itajubá, se o motorista for parado sem corrida registrada, pode ser multado e até perder a autorização para trabalhar.

Henrique também usa casos reais para orientar motoristas. 

“Em blitzes anteriores, motoristas que transportavam passageiros com material ilícito em corridas chamadas pelo aplicativo estavam respaldados pelo registro da viagem. Já motoristas em corridas clandestinas tiveram mais problemas até explicar a situação. O cara deixa de pagar R$ 1 para o aplicativo e corre o risco de perder a carteirinha dele. Não vale a pena”, afirma.

Falta de união é uma das maiores dores

Para Henrique, a falta de união entre aplicativos e motoristas é um dos principais problemas do setor. Ele diz sentir falta de uma postura mais colaborativa entre concorrentes locais, como já viu em outras áreas em que trabalhou.

A chegada da 99 até gerou conversas entre aplicativos locais, mas, segundo ele, ainda não se transformou em união efetiva.

“Trabalhei em várias áreas e concorrente nunca foi meu inimigo. Pelo contrário, a gente trocava figurinhas”, afirma.

Gestor critica tratamento desigual na fiscalização

Além da concorrência agressiva, Henrique se diz decepcionado com a postura local diante das regras de operação. Segundo ele, motoristas identificados como Pop35 podem ser fiscalizados e impedidos de seguir viagem se houver alguma pendência, enquanto motoristas de outras plataformas nem sempre passam pelo mesmo controle.

Para o gestor, o problema não é competir, mas disputar dentro das mesmas regras.

Plano é vender franquias e preparar saída

Para o médio prazo, Henrique afirma que pretende vender o aplicativo em até um ano, no máximo. Antes disso, quer ampliar a rede de franquias para aumentar o valuation da empresa.

Ele explica que as filhas não pretendem seguir na gestão do negócio, já que estão em outras áreas, e por isso não vê sucessão familiar direta para a operação. Também está desenvolvendo outro negócio online, com a ideia de ter mais liberdade geográfica.

“No momento, quero vender o máximo de franquias para ter um valuation maior depois”, afirma.

Futuro deve favorecer plataformas maiores, avalia

Henrique afirma que gostaria que o mercado tivesse espaço para todos, mas não acredita que isso vá acontecer.

“Os aplicativos com maior poder aquisitivo tendem a resistir melhor às mudanças, enquanto operações menores podem fechar”, opina. 

Segundo ele, eventuais mudanças regulatórias sobre plataformas também podem impactar os regionais, mesmo quando o debate público se concentra nas grandes empresas.

Tecnologia regional ainda perde em algoritmo

Na visão de Henrique, os aplicativos regionais não estão tão atrás em funcionalidades básicas, como localização, estimativa de preço, estabilidade e comunicação com cliente. O que falta, segundo ele, é mais controle inteligente de algoritmo.

“Um exemplo é a capacidade de grandes plataformas ajustarem automaticamente valores e distribuição de corridas conforme perfil do cliente, região e aceitação dos motoristas. O principal serviço para o cliente a gente tem. O que falta é essa gestão inteligente por trás”, avalia.

União poderia blindar regionais

Para conquistar mais mercado, Henrique acredita que os aplicativos regionais precisariam trabalhar com mais união. Na visão dele, tanto passageiros quanto motoristas são clientes da plataforma, e limitar o ganho do motorista por rivalidade entre apps pode enfraquecer todos.

“Eu já cheguei a propor um ponto comum de apoio para motoristas, com banheiro, banho, café e descanso, mas a ideia não avançou por resistência de outros donos de aplicativos”, diz. 

Legado é ser sinônimo de qualidade

O legado que Henrique quer deixar com o Pop35 Brasil é transformar a marca em sinônimo de qualidade no atendimento e de mobilidade bem estruturada. Para ele, a empresa também deve ser lembrada como uma operação que investe na cidade e gera prosperidade para motoristas, funcionários e comunidade.

“Quero deixar o legado de ser sinônimo de qualidade de atendimento, de aplicativo e mobilidade, e de uma empresa que investe na cidade”, conclui.

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Giulia Lang

Giulia Lang é jornalista formada pela Fundação Cásper Líbero e há três anos cobre o mercado de mobilidade urbana e delivery pelo 55content.