O Rolê nasceu em Lavras, no interior de Minas Gerais, depois que Samuel Cunha decidiu deixar uma carreira de 13 anos na Localiza para empreender. Na empresa de aluguel de carros, ele chegou a atuar como gestor de 25 cidades em Minas Gerais, com experiência em operação, atendimento, liderança de equipes, manutenção de veículos e trabalho com motoristas freelancers.

Ao sair da vida corporativa, Samuel buscava transformar o próprio tempo em um negócio. A mobilidade urbana apareceu como um caminho natural, já que sua trajetória profissional tinha relação direta com veículos, atendimento e gestão operacional.

“Eu fiquei um pouco cansado na empresa e resolvi empreender. Queria gerar o meu tempo em benefício próprio”, conta.

Aplicativo nasceu com proposta de ajudar pessoas

O Rolê foi criado em 2022, logo após a saída de Samuel da Localiza. Segundo ele, o aplicativo nasceu com o propósito de ajudar pessoas e oferecer uma alternativa local de transporte, tanto para passageiros quanto para motoristas.

A empresa atua em Lavras e já se prepara para expandir, mas Samuel prefere não revelar as próximas cidades por considerar a informação estratégica. Antes de avançar, a operação buscou consolidar uma base local e criar uma estrutura que permita crescer com mais segurança, inclusive por meio de franquias.

“A gente estava formalizando primeiro aqui na cidade, para ter uma estrutura de expansão”, afirma.

Início exigiu rádio, eventos e boca a boca

Quando o Rolê chegou ao mercado, Lavras já tinha aplicativos locais e alguns deles trabalhavam com motoristas em regime de exclusividade. Isso tornou mais difícil conquistar condutores no início da operação.

Para ganhar visibilidade, Samuel apostou em propaganda em rádio, boca a boca e patrocínio de eventos. Durante dois anos, o Rolê patrocinou uma empresa que realiza grandes eventos na cidade, o que ajudou a marca a circular entre os moradores.

Além da divulgação, a estratégia comercial foi entrar no mercado cobrando menos dos motoristas e oferecendo corridas com valores competitivos para os passageiros.

“Muitas pessoas já me conheciam na cidade, por eu ter nascido e sido criado aqui. Isso facilitou um pouco, mas não foi fácil no início — e também não é hoje”, diz.

Investimento chegou a R$ 150 mil

Samuel estima que o investimento até o aplicativo começar a se pagar tenha sido de aproximadamente R$ 150 mil. O recurso veio do acerto da empresa anterior e sustentou a operação até o Rolê atingir equilíbrio, o que levou cerca de um ano e meio.

O valor inclui o período necessário para estruturar a marca, manter a operação e conquistar motoristas e passageiros em uma cidade onde já havia concorrência local.

Balança entre motorista e cliente é o maior desafio

Para Samuel, o maior desafio de um aplicativo regional é equilibrar oferta e demanda. Se há muitos motoristas e poucas chamadas, os condutores desistem e migram para outras plataformas. Se há poucos motoristas e muitos passageiros, o aplicativo perde força por não conseguir atender bem.

Essa “balança”, segundo ele, precisa crescer de forma consistente dos dois lados. O problema se torna ainda maior em um cenário de concorrência intensa por clientes e motoristas.

“Se eu tenho poucos motoristas e não atendo a demanda dos clientes, eu começo a não crescer por falta de atendimento. Se tenho muitos motoristas e não entrego chamadas, eles desistem”, explica.

Menor tarifa como posicionamento

Desde o início, o Rolê se posicionou como uma plataforma de baixa tarifa para motoristas. Samuel afirma que a empresa entrou no mercado cobrando uma das menores taxas entre os aplicativos locais e mantém esse perfil até hoje.

A proposta é entregar o maior volume possível de corridas, mas o gestor reconhece que ainda existe uma tensão recorrente no setor: a ideia de que aplicativos e motoristas estão em lados opostos.

“Existe uma cultura de ‘nós contra eles’. A nossa visão é de pacificação, de ajuda. A gente quer sanar isso trabalhando com transparência”, afirma.

Samuel começou sozinho e hoje tem sócio

O Rolê começou com Samuel sozinho na gestão. Ele ficou cerca de três anos conduzindo a operação sem sócios, até a entrada de Francisco, programador que passou a contribuir com a estrutura e organização do aplicativo.

Hoje, Francisco atua mais nos bastidores, com foco na organização interna, enquanto Samuel fica mais à frente da marca, no relacionamento com clientes e no marketing.

“Ele é mais introspectivo, não gosta de aparecer. Eu não tenho muito problema com câmeras e pessoas, então fico mais no front”, diz Samuel.

Tecnologia é white label

O Rolê utiliza tecnologia white label. Samuel afirma que desenvolver uma plataforma própria seria mais caro e demorado, por isso a empresa optou por usar uma estrutura pronta, colocando a marca e desenvolvendo o trabalho sobre ela.

Atualmente, o aplicativo usa tecnologia da DevBase. Antes, a operação havia começado com a Fábrica 704.

Segundo Samuel, a tecnologia regional não é o principal obstáculo na disputa com grandes plataformas. Na visão dele, os sistemas são estáveis e cumprem bem a função.

“Nosso aplicativo, em quatro anos, se saiu do ar duas ou três vezes, foram picos bem pequenos”, afirma.

Orgulho é manter o mesmo discurso

Ao olhar para a trajetória do Rolê, Samuel diz que seu maior orgulho é não ter mudado o discurso desde o início. A empresa segue defendendo transparência, benefício aos motoristas e bom atendimento aos clientes.

Durante esse percurso, ele também descobriu o TDAH, o que, segundo ele, ajudou a compreender aspectos da própria história e mudou sua visão sobre articulação, terapia e gestão.

“O meu grande orgulho é não ter mudado o discurso desde o início do Rolê até hoje”, afirma.

Gestor também rodou para atender demanda

Embora não tenha vindo diretamente da rotina de motorista de aplicativo, Samuel chegou a rodar pelo Rolê no início da operação para ajudar no atendimento aos passageiros. Hoje, atua mais na gestão administrativa, mas ainda roda em horários de pico.

A experiência anterior em uma multinacional de aluguel de veículos ajudou a dar base para lidar com a operação.

“Eu não tinha contato com o mercado de mobilidade urbana, mas vinha de uma gestão muito voltada para operação, atendimento e manutenção de veículos”, diz.

Cerca de 170 motoristas em atividade

O Rolê tem cerca de 170 motoristas em atividade. Samuel destaca que a rotatividade é alta porque os profissionais podem rodar em várias plataformas ao mesmo tempo e escolher onde querem ficar online.

Na base de clientes, o aplicativo soma aproximadamente 20 mil cadastros. O número, segundo ele, precisa ser lido com cuidado porque Lavras é uma cidade universitária, com muitos estudantes que se formam e vão embora.

“Vários aplicativos vão dizer que têm 40 mil clientes, mas a efetividade disso nem sempre é a realidade”, observa.

Corrida mínima é de R$ 12

A corrida mínima do Rolê é de R$ 12, valor definido em acordo com a Associação de Motoristas de Lavras. A mínima cobre em torno de 1,4 km a 1,5 km, mas pode variar conforme a composição da chamada.

O quilômetro rodado para o motorista fica em torno de R$ 2,50 a R$ 2,60 líquidos. No valor bruto, segundo Francisco, a média gira entre R$ 2,80 e R$ 3.

Taxa é de 10% mais R$ 0,45

O Rolê cobra 10% mais R$ 0,45 por corrida, valor referente à taxa de tecnologia. Para motoristas considerados “diamante”, que atendem acima da média, há cashback de 15% a 20% sobre o valor recarregado. Com isso, a taxa efetiva pode cair para cerca de 8,5%, dependendo do perfil do motorista.

A operação funciona por recarga. O motorista coloca saldo na carteira e as taxas vão sendo descontadas conforme as corridas são realizadas. Não há cobrança mínima mensal.

“O valor da corrida sempre aparece para o motorista, tanto o que vai ficar na mão dele quanto o valor cobrado do cliente”, afirma Samuel.

Mais de 1 milhão de corridas em quatro anos

Samuel preferiu não informar o volume mensal de corridas nem o faturamento bruto, por considerar esses dados sensíveis. No entanto, afirmou que o Rolê está entre os maiores aplicativos de Lavras e que já realizou mais de 1 milhão de corridas em quatro anos de operação.

O número reforça a presença local da plataforma em uma cidade com mercado competitivo e grande circulação de estudantes.

Motoristas chegam a R$ 12,5 mil por mês

O maior faturamento mensal registrado por um motorista do Rolê ficou entre R$ 12,4 mil e R$ 12,5 mil. O condutor foi premiado pela empresa na época.

Samuel afirma que não é possível calcular uma média geral precisa, porque há motoristas que rodam apenas como renda extra e fazem R$ 200 ou R$ 500 no mês, enquanto os principais condutores superam R$ 5 mil.

“Se pegar os 10 primeiros, eles estão em torno de R$ 5 mil para cima. Hoje tenho motoristas que fazem em torno de R$ 10 mil ainda”, afirma.

Corridas por fora não são foco de controle

Samuel não trata as corridas por fora como a principal preocupação da gestão, mas alerta que elas podem trazer riscos ao motorista. Segundo ele, quando uma viagem acontece sem registro ativo no aplicativo, o condutor pode ficar desprotegido em situações envolvendo objetos ou condutas ilegais do passageiro.

Para reduzir esse incentivo, o Rolê cobra uma tarifa menor nas corridas abertas como “maçaneta” ou viagem direta: 3% mais R$ 0,45.

“A gente é o aplicativo que menos cobra tarifa final. Quando o motorista abre uma maçaneta, ele é extremamente beneficiado”, diz.

Concorrência desleal incomoda

O que mais incomoda Samuel no mercado é a falta de união entre proprietários de aplicativos e motoristas, além da falta de isonomia na aplicação da lei municipal de Lavras.

Segundo ele, os aplicativos locais precisam cumprir exigências que nem sempre são aplicadas com o mesmo rigor às grandes plataformas. O gestor cita casos de motoristas sem credencial municipal rodando em big techs, enquanto os aplicativos locais precisaram suspender condutores que não estavam regularizados.

“A concorrência desleal, no sentido da isonomia da lei, é o que mais prejudica o mercado hoje”, afirma.

Expansão mira cidades menores

Com Lavras mais saturada pela quantidade de aplicativos locais, Samuel vê a expansão como caminho natural. A estratégia é levar o Rolê para cidades menores, onde as grandes plataformas tenham menos presença e onde um aplicativo regional possa construir relação mais próxima com motoristas e passageiros.

“Eu me vejo pulverizando aplicativos em cidades menores, onde não há grandes atuações das big techs”, diz.

Regionais dependem de gestão efetiva

Para Samuel, o futuro dos aplicativos regionais não será definido apenas por preço baixo. Na visão dele, sobreviverão as operações com gestão mais efetiva, qualidade de atendimento ao cliente e atenção real aos motoristas.

Ele acredita que a insatisfação dos condutores com grandes plataformas pode abrir espaço para modelos locais mais sustentáveis, desde que os motoristas também se conscientizem sobre rentabilidade.

“A gente vê corridas com quilômetro médio de R$ 1,30. Isso é extremamente inviável para os motoristas”, afirma.

Imediatismo financeiro prejudica a categoria

Samuel também aponta o imediatismo como um dos entraves do mercado. Segundo ele, muitos motoristas aceitam qualquer corrida por necessidade de pagar contas urgentes, mas isso pode comprometer a manutenção do carro e a própria sustentabilidade da renda no futuro.

“Essa visão de imediatismo estrangula cada vez mais o mercado e o próprio motorista”, diz.

Legado: transparência e ajuda mútua

O legado que Samuel quer deixar com o Rolê é o de uma empresa transparente, construída sobre uma relação de ajuda entre gestão, motoristas e passageiros.

Para ele, esse posicionamento é o que sustenta o aplicativo desde o início e deve orientar a expansão.

“Transparência no trabalho e uma força mútua de ajuda, tanto de cliente quanto de motorista. Esse é o legado que eu quero deixar”, conclui.

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Giulia Lang

Giulia Lang é jornalista formada pela Fundação Cásper Líbero e há três anos cobre o mercado de mobilidade urbana e delivery pelo 55content.