Criado por Anderson Lima, o Alf Car nasceu em 2021, em Águas de Lindóia, no interior de São Paulo, a partir da experiência do próprio gestor como motorista de aplicativo. Natural do Amazonas, Anderson saiu de casa aos 13 anos, passou pelo Maranhão, por Goiás e chegou a Águas de Lindóia, onde vive há cerca de 12 anos.

Antes de criar a própria plataforma, ele trabalhou como auxiliar de marketing em um parque aquático da cidade, cursou Direito e também rodou como motorista da Uber e de aplicativos regionais. Foi nesse contato direto com passageiros, motoristas e com a rotina da mobilidade em cidades pequenas que percebeu a oportunidade de abrir uma operação local.

Hoje, o Alf Car atua em sete cidades de três estados: Águas de Lindóia, Lindóia e Mogi Guaçu, em São Paulo; Monte Sião e Alfenas, em Minas Gerais; e Belém, Marabá e Parauapebas, no Pará. A marca também passa por um processo de transformação em franquia, após Anderson vender unidades e decidir estruturar o negócio para crescer em outras regiões.

Em Águas de Lindóia, onde o projeto nasceu, a plataforma realiza em média de 2,5 mil a 3 mil corridas por mês. A operação cobra taxa de 15% sobre o faturamento semanal dos motoristas, tem corrida mínima de R$ 12,99 para até 1,5 km e registra motoristas com faturamento bruto mensal de até R$ 10 mil.

“Eu nunca perdi a minha essência. Hoje eu sou dono de plataforma, mas continuo sabendo de onde eu vim, que eu sou motorista”, afirma Anderson.

Experiência como motorista abriu caminho para o app

A entrada na mobilidade começou quando Anderson se cadastrou na Uber, em um período em que a plataforma ainda chegava ao Brasil. Em Águas de Lindóia, porém, a demanda era limitada, por se tratar de uma cidade pequena.

Depois, passou a trabalhar em um aplicativo regional criado por um colega, inicialmente em Ouro Fino, no sul de Minas Gerais, e depois levado para Águas de Lindóia. Foi nesse processo que Anderson começou a entender como funcionava a gestão de uma plataforma local.

Segundo ele, a cidade ainda não tinha mobilidade por aplicativo estruturada, e esse primeiro movimento ajudou a abrir o mercado local.

“A gente trouxe a mobilidade urbana para a cidade. Não tinha. Então foi uma coisa nova, e eu comecei a aprender tudo dali”, afirma.

Com o tempo, saiu da operação e foi morar em Foz do Iguaçu. Ao retornar para Águas de Lindóia, passou a ouvir de passageiros e conhecidos que deveria abrir o próprio aplicativo.

O nascimento do Alf Car

A ideia do Alf Car surgiu quase por insistência de passageiros que já conheciam o atendimento de Anderson. Segundo ele, muitas pessoas gostavam de sua forma de tratar os clientes, marcada pela educação e proximidade.

O nome da marca veio das iniciais de seu nome: Anderson Lima Ferreira. Ele juntou as letras A, L e F para criar o Alf Car.

Antes de lançar o aplicativo, Anderson desenhou a ideia em um papel e enviou para um amigo designer. Em poucos dias, recebeu opções de logomarca e escolheu a identidade inicial da plataforma.

O processo entre a ideia e o início da operação durou cerca de três meses. Nesse período, ele pesquisou empresas de tecnologia, avaliou plataformas, estudou a proposta e estruturou a marca.

Primeiro dia teve cinco horas sem chamada

O primeiro dia de operação foi bem diferente do que Anderson imaginava. Depois de testar o aplicativo e liberar a plataforma, ficou esperando as corridas começarem.

A primeira chamada veio por WhatsApp, de um passageiro que já o conhecia de antes. Anderson fez a corrida e, depois disso, ficou cerca de cinco horas parado até aparecer outra solicitação.

No início, ele era praticamente o único motorista da plataforma. Quando o passageiro chamava o app, o carro disponível era o próprio Anderson.

“Eu lancei o aplicativo sozinho. O pessoal chamava carro e demorava. Quando tocava, era eu, não tinha outro”, relembra.

Aos poucos, outros motoristas foram entrando. Primeiro mais um, depois outro, até que a operação começou a ganhar corpo.

Captação começou com pessoas fora dos aplicativos

No começo, Anderson decidiu não buscar motoristas que já estavam nos concorrentes. Em vez disso, procurou pessoas que nunca tinham trabalhado com aplicativo, como garçons de hotel, funcionários de restaurantes e trabalhadores de outros setores.

A ideia era dar oportunidade a quem estava começando do zero, assim como ele.

A captação era feita por postagens em redes sociais, divulgação boca a boca e conversas diretas com pessoas interessadas em fazer renda extra.

Investimento inicial foi de R$ 3,5 mil

O investimento inicial para colocar o Alf Car no ar foi de cerca de R$ 3,5 mil. Desse total, aproximadamente R$ 2,3 mil foram destinados à contratação da tecnologia. O restante foi usado em outras necessidades da abertura.

O dinheiro veio de economias pessoais de Anderson. Ele afirma que não fez empréstimo: usou um valor que vinha guardando e decidiu investir no projeto.

“Eu tinha esse dinheiro disponível, tirei de um investimento e fiz outro investimento”, afirma.

Apesar do custo inicial relativamente baixo, a empresa demorou para se pagar. Segundo Anderson, foram necessários entre dois anos e meio e três anos para recuperar o investimento.

Corridas particulares dificultaram o retorno

Uma das principais dificuldades em Águas de Lindóia foi a cultura de passageiros pedirem o contato particular dos motoristas.

A cidade tem cerca de 28 mil habitantes, e muita gente se conhece. O passageiro entrava no carro pelo aplicativo, pedia o telefone do motorista e, na corrida seguinte, chamava diretamente por fora da plataforma.

Segundo Anderson, isso dificultou muito a sustentabilidade do app. Motoristas que tinham compromisso com a operação registravam a corrida no sistema. Outros, no entanto, acabavam tirando passageiros da plataforma.

“Tem o motorista que tem caráter e joga a corrida no aplicativo. E tem aquele que pega passageiro da empresa por fora”, afirma.

O momento em que quase desistiu

O período mais difícil da trajetória aconteceu no terceiro ano de operação. Anderson afirma que desanimou, deixou o aplicativo “meio largado” e chegou perto de encerrar o negócio.

Na época, ele estava morando em outra cidade e vinha para Águas de Lindóia para cuidar da plataforma. O cansaço e a oscilação da demanda fizeram com que pensasse em parar.

“Quase quebrei, quase parei o negócio. Foi um período muito ruim”, afirma.

A virada veio quando decidiu transformar a marca em franquia. Em vez de abandonar o que havia construído, passou a estudar formas de estruturar o Alf Car para crescer com gestores locais.

Primeira franquia foi vendida dentro do carro

A primeira venda de franquia aconteceu de forma inesperada. Anderson conheceu um homem do Pará que estava em Águas de Lindóia por causa de uma academia ligada ao futebol. Durante uma corrida até Campinas, o passageiro perguntou sobre a história do Alf Car.

No trajeto de cerca de uma hora e meia, Anderson contou como o app nasceu, quais eram os desafios e como funcionava a operação. Ao fim da viagem, o passageiro decidiu comprar uma franquia.

O valor foi negociado de forma acessível, porque Anderson precisava de dinheiro para reinvestir na marca. Com o recurso, conseguiu modificar o aplicativo, melhorar o layout e atualizar a identidade visual.

Dois anos depois, esse franqueado voltou a procurá-lo para entrar como sócio. Hoje, os dois têm um contrato em cartório, com divisão de 50% da empresa.

Matriz de Águas de Lindóia foi franqueada

Mais recentemente, Anderson vendeu também a operação de Águas de Lindóia, que era a matriz do Alf Car. A franquia foi comprada por duas pessoas da própria cidade, que eram motoristas de um concorrente e pretendiam abrir um novo aplicativo.

Ao perceber esse movimento, Anderson ofereceu a marca já existente, com cinco anos de mercado, em vez de eles começarem do zero.

“Minha marca já existe no mercado. Vocês começam um negócio do zero, pode dar certo, mas demora mais”, conta.

Com essa venda, Anderson passou a atuar mais como gestor da marca e supervisor das franquias, deixando a operação direta da cidade nas mãos dos franqueados.

Hoje a rotina é mais estratégica

Antes de franquear a marca, Anderson dirigia, administrava o aplicativo e resolvia praticamente tudo sozinho. Com o avanço do modelo de franquias, a rotina ficou mais estratégica.

Hoje, ele se dedica à marca, à criação de site para divulgação das franquias, à troca de sistema e ao suporte aos franqueados. Também acompanha as operações, tira dúvidas e orienta os gestores locais.

“Eu vendi um negócio para você, eu quero que você ganhe dinheiro. Você ganhando dinheiro e tirando o que investiu, eu também vou estar feliz”, afirma.

Segundo ele, os franqueados de Águas de Lindóia podem recuperar o investimento em cerca de um ano se mantiverem o ritmo atual.

Cerca de 90 motoristas na base

Somando todas as cidades, o Alf Car tem cerca de 90 motoristas cadastrados. Nem todos rodam todos os dias. Em Águas de Lindóia, a base atual fica entre 35 e 40 motoristas cadastrados, com média de 15 a 20 rodando diariamente.

Segundo Anderson, a operação oscila muito, com entrada e saída de motoristas. Por isso, ele considera fundamental manter o trabalho constante de acompanhamento, orientação e fortalecimento da demanda.

Em Águas de Lindóia, o app tem entre 3 mil e 4 mil passageiros cadastrados. Considerando todas as operações, o número fica em torno de 4 mil a 5 mil clientes na plataforma.

O público da cidade é formado em grande parte por idosos, que muitas vezes preferem chamar pelo WhatsApp ou pela central, em vez de usar diretamente o aplicativo.

Até 3 mil corridas por mês em Águas de Lindóia

A cidade de origem segue sendo a operação mais forte do Alf Car. Em Águas de Lindóia, a plataforma realiza, em média, de 2,5 mil a 3 mil corridas por mês.

Nas demais cidades, o volume ainda é menor, por serem operações mais recentes ou em fase de estruturação. Anderson estima que, em alguns locais, o movimento fique entre 100 e 150 corridas diárias, dependendo da oscilação do mês e da praça.

Para ele, Águas de Lindóia ainda concentra a maior demanda porque foi onde a marca nasceu e onde o app é mais conhecido.

Taxa semanal de 15%

O modelo de cobrança do Alf Car é baseado em percentual sobre o faturamento bruto do motorista. Atualmente, a taxa é de 15%, cobrada semanalmente.

O motorista recebe o valor das corridas e, ao fim da semana, repassa a porcentagem à empresa. Segundo Anderson, a cobrança semanal funciona melhor do que a mensal na realidade da operação.

“Na semanal, o motorista rodou, sabe que tem que pagar aquela semana. Para nós, hoje, é mais vantajoso”, explica.

Recarga pode ser próximo passo

Além da cobrança semanal, o Alf Car estuda adotar no futuro um modelo de recarga pré-paga.

Nesse formato, o motorista colocaria um valor na carteira e a taxa seria abatida conforme as corridas fossem realizadas. Se ele não trabalhasse, o saldo permaneceria disponível.

Anderson vê esse modelo como uma possibilidade interessante, porque antecipa o pagamento e evita inadimplência, ao mesmo tempo em que dá ao motorista liberdade para usar o saldo quando quiser rodar.

Corrida mínima de R$ 12,99

Em Águas de Lindóia, a corrida mínima do Alf Car é de R$ 12,99, de segunda a sexta-feira, para trajetos de até 1,5 km. Depois dessa distância, o aplicativo passa a recalcular o valor conforme tempo e percurso.

Sobre o valor bruto das corridas, o motorista paga a taxa de 15% ao fim da semana.

O valor do quilômetro rodado para o motorista fica, em média, entre R$ 2,50 e R$ 3,50, dependendo da cidade e da configuração da tarifa.

Motoristas chegam a faturar R$ 8 mil por mês

Segundo Anderson, um motorista que trabalha em período integral no Alf Car pode faturar, em média, de R$ 7 mil a R$ 8 mil brutos por mês, dependendo do período e da demanda.

Quem roda apenas nas horas vagas pode chegar a R$ 3 mil, R$ 4 mil, R$ 5 mil ou até R$ 6 mil por mês.

Anderson afirma que ele próprio já chegou a fazer R$ 8 mil brutos em um mês trabalhando direto pela plataforma. O maior valor que lembra foi de um motorista que chegou a faturar cerca de R$ 10 mil no mês, rodando intensamente e virando noites.

“Teve um que chegou a fazer R$ 10 mil no mês, bruto”, afirma.

Faturamento da empresa entre R$ 8 mil e R$ 10 mil

Na época em que Anderson geria diretamente a operação de Águas de Lindóia, o faturamento da empresa ficava entre R$ 7 mil e R$ 10 mil por mês, considerando a porcentagem repassada pelos motoristas.

Na gestão atual da franquia, ele acredita que o valor esteja em uma faixa parecida, entre R$ 8 mil e R$ 10 mil mensais.

A meta é aumentar esse número com a melhoria da marca, a troca de tecnologia, o crescimento da demanda e a expansão do número de motoristas e corridas.

“Minha intenção hoje é melhorar a marca para mudar esse quadro de R$ 10 mil para R$ 20 mil, R$ 30 mil”, afirma.

Atendimento e preço como diferenciais

Anderson acredita que o Alf Car cresceu em Águas de Lindóia por combinar preço, quantidade de motoristas e atendimento.

Segundo ele, passageiro gosta de desconto, enquanto motorista gosta de corrida. Ao juntar demanda, preços competitivos e taxa baixa para os condutores, o app conseguiu se fortalecer.

Durante alguns períodos, Anderson chegou a oferecer taxa zero para atrair motoristas e gerar movimento.

“Você tem o motorista que quer trabalhar e o passageiro que quer desconto. Juntou os dois, acabou”, afirma.

Motoristas locais ganham espaço contra grandes plataformas

Na visão de Anderson, os aplicativos regionais tendem a ganhar cada vez mais espaço, especialmente em cidades pequenas e médias. Para ele, Uber, 99 e inDrive têm dificuldade porque não valorizam suficientemente os motoristas e oferecem atendimento muito automatizado.

Anderson acredita que, quando o motorista não aceita corridas de grandes plataformas por causa do valor baixo, o passageiro acaba migrando para o app local, mesmo pagando um pouco mais, porque encontra carro disponível.

Ele cita cidades onde, segundo ele, passageiros deixaram de usar grandes plataformas porque as corridas não eram aceitas, enquanto os aplicativos locais tinham motoristas disponíveis.

“Vai chegar uma hora em que o passageiro vai chamar na Uber, o motorista não vai aceitar porque é corrida barata. Aí ela vai chamar no app local, que é mais caro, mas tem carro disponível”, afirma.

União dos regionais é caminho para crescer

Para Anderson, o que falta para os aplicativos regionais dominarem o mercado é mais união entre os gestores.

Ele acredita que as plataformas locais precisam se juntar e mostrar que também são capazes de construir uma mobilidade forte, com tecnologia própria ou regional, atendimento próximo e valorização dos motoristas.

“O que falta é a galera se unir e mostrar para Uber, 99 e inDrive que a gente também é capaz”, afirma.

Na avaliação dele, os aplicativos locais já estão ganhando espaço nas pequenas cidades e podem, no futuro, avançar para centros maiores.

Orgulho de manter a humildade

Ao falar sobre a própria mudança depois de empreender, Anderson diz que a maior transformação é perceber os dois lados da mobilidade: o lado do gestor e o lado do motorista.

Ele afirma que nunca deixou de se ver como motorista, mesmo sendo dono da marca. Ainda está cadastrado, dirige, transporta passageiros e faz questão de acompanhar o trabalho de perto.

Para ele, esse contato ajuda a manter a humildade e evita que o sucesso “suba à cabeça”.

“O que muda é que hoje eu tenho mais trabalho. Tenho que administrar o negócio, fazer girar, dar corrida para os motoristas e garantir carro para os passageiros”, afirma.

Segundo Anderson, essa consciência foi essencial para o Alf Car continuar funcionando.

Futuro: 20 a 40 franquias pelo Brasil

Para os próximos cinco anos, Anderson quer transformar o Alf Car em uma marca presente em várias regiões do Brasil. A meta é chegar a 20, 30 ou 40 franquias abertas.

O foco está especialmente em cidades que ainda não têm aplicativo ou onde as grandes plataformas não conseguem atender bem.

A visão de futuro é que o usuário possa baixar o Alf Car em uma cidade e encontrar motoristas disponíveis em outras regiões do país.

“Quero que qualquer lugar que você chegue no Brasil encontre um motorista Alf Car disponível para te atender”, afirma.

Para Anderson, a expansão por franquias é o caminho para que a marca cresça sem perder o contato local que caracteriza os aplicativos regionais.

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Giulia Lang

Giulia Lang é jornalista formada pela Fundação Cásper Líbero e há três anos cobre o mercado de mobilidade urbana e delivery pelo 55content.