Criada por Eliza Guterres, a Helpcar nasceu após uma virada pessoal e profissional da empreendedora, que saiu da linha de frente como motorista e gestora de outros apps para construir a própria marca em Itaqui. Hoje, com 57 motoristas ativos e cerca de 18 mil corridas por mês, a plataforma se consolidou no município e, segundo a CEO, já permite que condutores faturam de R$ 3 mil a R$ 8 mil mensais, dependendo da rotina de trabalho e do tipo de veículo utilizado.

Como começou a sua trajetória na mobilidade urbana e o que a levou a criar a Helpcar?

Eliza Guterres: Eu sou Eliza Guterres e fui a pioneira da mobilidade urbana em Itaqui, no interior do Rio Grande do Sul. Na época, a cidade vivia praticamente só dos táxis, e os valores cobrados eram muito altos. Sete anos atrás, por exemplo, uma corrida curta da rodoviária até o centro podia custar entre R$ 25 e R$ 30. Era muito caro para a realidade da população.

Naquele período, eu trabalhava como manicure quando vi uma notícia sobre a chegada do aplicativo Garupa à cidade. Eles buscavam motoristas para iniciar a operação em municípios do interior, e eu aceitei o desafio. Entrei primeiro como motorista, e em menos de um mês fui convidada para assumir a gestão local da operação.

Depois disso, também passei a atuar em outro aplicativo, o Bar, e novamente consegui bons resultados. Sempre fui muito dedicada ao trabalho, ao marketing e ao relacionamento com os motoristas e os passageiros. Aos poucos, fui percebendo que as pessoas não chamavam só o aplicativo; muitas vezes, chamavam por causa da Eliza, pela confiança no meu trabalho.

O que me levou a criar a Helpcar foi um momento muito difícil da minha vida. Eu estava separada, com minha filha prestes a se formar, meu filho pequeno, muitas despesas e, no meio disso tudo, o motor do meu carro fundiu. Eu precisava de ajuda para conseguir continuar trabalhando, pedi apoio ao CEO do aplicativo que eu gerenciava na época, mas ele disse que não podia me ajudar. Foi ali que eu entendi que estava na hora de construir algo meu.

Conversei com a minha filha, Letícia, e ela foi quem me deu a força que eu precisava. Ela disse que estava na hora de eu criar o meu próprio negócio, porque as pessoas já confiavam no meu trabalho. E foi assim que nasceu a Helpcar.

Como foi o processo de criação da Helpcar?

Eliza Guterres: Foi um processo muito desafiador, porque eu saí de uma operação consolidada para começar praticamente do zero, mas já tinha uma bagagem importante dentro da mobilidade urbana. Eu já conhecia os motoristas, entendia a rotina da cidade, sabia quais eram os horários de maior demanda e, principalmente, conhecia as dores de quem dependia do transporte.

A minha filha, Letícia, foi quem cuidou da parte tecnológica. Foi ela que buscou a plataforma, pesquisou as opções disponíveis e encontrou uma solução que cabia no nosso orçamento, porque naquele momento nós não tínhamos dinheiro sobrando. Era eu, ela e o meu filho, Martim, tentando fazer o negócio acontecer.

Ao mesmo tempo, eu precisava comunicar aos motoristas que trabalhavam comigo que eu deixaria a gestão da marca anterior. E isso não foi simples. Mas como já havia um histórico de confiança, muitos entenderam meu lado e decidiram seguir comigo.

A construção da Helpcar foi feita muito na base da coragem, da resiliência e da vontade de não desistir.

Como foi a captação dos primeiros motoristas e passageiros?

Eliza Guterres: A captação aconteceu muito por causa do trabalho que eu já vinha desenvolvendo na cidade. Eu sempre estive muito presente, aparecendo, divulgando, falando com as pessoas, usando as redes sociais e fazendo marketing de forma constante. Em cidade pequena, isso faz muita diferença.

Então, quando a Helpcar nasceu, eu já tinha um nome conhecido no mercado local. Muitos passageiros e motoristas já conheciam meu jeito de trabalhar, sabiam do meu comprometimento e da forma como eu lidava com a operação. Isso facilitou bastante o começo.

Qual foi o investimento inicial e em quanto tempo o aplicativo começou a se pagar?

Eliza Guterres: A gente paga a plataforma mensalmente, então existe um custo fixo para manter o aplicativo funcionando. Agora, lucro mesmo, no sentido de começar a colher os frutos, isso leva mais tempo. Porque no começo tudo é investimento: marketing, estrutura, fortalecimento da marca, construção de confiança.

A Helpcar ainda está nesse processo de investir para colher mais adiante. A gente já vê retorno, mas o trabalho é constante.

Qual foi o momento mais difícil desde a criação da Helpcar?

Eliza Guterres: O momento mais difícil foi o período das enchentes no Rio Grande do Sul. Como nós estamos em uma região com muitos rios, a cidade sofreu bastante, e isso afetou diretamente a operação. Muitas áreas ficaram comprometidas, a circulação diminuiu, a cidade parecia menor e o aplicativo sentiu muito esse impacto.

Foi um período bem complicado, porque a Helpcar tinha sido criada em 19 de abril de 2023, então ainda estávamos em fase de consolidação. Foi tudo muito intenso e muito próximo.

Qual foi a maior mudança em você depois que começou a empreender?

Eliza Guterres: Eu precisei me posicionar mais como líder e como gestora. Sempre fui uma pessoa muito emocional, e a minha filha já é mais da razão. Então eu tive que aprender a me empoderar, a olhar mais para os números, a entender o que era lucro de verdade e a não misturar tanto a emoção com a gestão.

No começo, muitos motoristas se aproveitavam da minha bondade. Diziam que não conseguiam pagar naquele dia, pediam mais prazo, e eu acabava não vendo o dinheiro entrar. Hoje eu entendo que ajudar é importante, mas a empresa também precisa se sustentar.

Do que você mais se orgulha na sua trajetória?

Eliza Guterres: O que mais me orgulha é saber que estou fazendo a diferença dentro da minha comunidade e gerando trabalho para muitas famílias. Hoje, a Helpcar movimenta a vida de mais de 60 famílias de forma direta. Para uma mulher que começou praticamente sozinha, separada, com filhos para criar, isso é muito significativo.

Em que momento você percebeu que a Helpcar estava dando certo?

Eliza Guterres: Quando eu comecei a ver os números de verdade. Hoje nós estamos fazendo quase 18 mil corridas por mês. É um volume que, sinceramente, nem eu imaginava quando comecei. Foi ali que eu percebi que a Helpcar realmente tinha se consolidado na cidade.

Como é a sua rotina hoje como gestora? Você ainda roda como motorista?

Eliza Guterres: Eu ainda rodo um pouco, mas hoje muito menos. Antes eu fazia muitas viagens, principalmente para estrada. As pessoas gostavam de pedir diretamente para eu atender. Mas, de um tempo para cá, eu passei a focar mais na gestão.

Hoje eu assumo a Helpcar especialmente pela manhã, acompanho motoristas, monitoro a operação e ajudo a manter a qualidade do atendimento. É um trabalho bem cansativo, porque muitas vezes você precisa repetir orientações, alinhar condutas e ficar muito em cima para que tudo funcione bem.

Em quantas cidades a Helpcar opera atualmente?

Eliza Guterres: Hoje a Helpcar opera apenas em Itaqui, no Rio Grande do Sul. Já recebi convites para levar a operação para outras cidades da região, como Uruguaiana e São Borja, e as pessoas até ligam achando que a gente já está lá. Mas eu prefiro crescer com cautela. Ainda não tenho como assumir outra cidade sem comprometer a qualidade do serviço aqui.

Quantos motoristas e passageiros a Helpcar tem hoje?

Eliza Guterres: Hoje nós temos 57 motoristas ativos.

Já em relação aos passageiros, a gente ainda está trabalhando muito a migração deles para o aplicativo. Como é uma cidade do interior, muitos ainda preferem chamar pelo WhatsApp em vez de usar o app diretamente. Então, embora exista uma base boa, a nossa estratégia ainda é incentivar mais fortemente o uso do aplicativo.

Qual é o valor da corrida mínima e o que ela cobre?

Eliza Guterres: A corrida mínima da Helpcar é de R$ 12. A partir de cerca de 2,3 km o valor já começa a aumentar.

Como funciona a cobrança da plataforma para os motoristas?

Eliza Guterres: Nós trabalhamos com mensalidade. O motorista paga em torno de R$ 350 por mês. Foi a forma que encontrei para manter o serviço funcionando e, ao mesmo tempo, permitir que eles tenham bons ganhos. Eu sempre digo que montei esse negócio para que todo mundo ganhe.

Quanto o motorista ganha, em média, por quilômetro rodado?

Eliza Guterres: Aqui nós temos uma base de R$ 4,80 por quilômetro em alguns contratos e operações. É um valor que mostra que o motorista, na Helpcar, consegue trabalhar com uma remuneração interessante.

Qual é o ticket médio das corridas?

Eliza Guterres: A corrida mínima é R$ 12, mas esse valor sobe depois das 18h e, na madrugada, pode chegar a R$ 20. Então o ticket médio varia bastante conforme o horário.

Quanto os motoristas costumam faturar?

Eliza Guterres: O motorista que menos roda fatura em torno de R$ 3 mil. Já os motoristas que mais trabalham, especialmente os que usam veículos maiores, como SUVs, chegam a ganhar entre R$ 7 mil e R$ 8 mil por mês. Temos três motoristas nesse perfil hoje.

Quanto a Helpcar movimenta por mês?

Eliza Guterres: Em termos de movimentação na economia local, eu estimo algo em torno de R$ 150 mil por mês. Como a empresa trabalha com mensalidade, eu não fico com uma porcentagem de cada corrida, então meu faturamento é diferente do valor total movimentado pela operação.

Quais eram seus medos no começo e quais críticas você mais ouviu?

Eliza Guterres: Eu ouvi muitas críticas, principalmente de pessoas que não conheciam a história por trás da criação da Helpcar. Muita gente dizia que eu tinha “apunhalado” o antigo CEO do aplicativo em que eu trabalhava. Mas não foi isso. Eu precisei seguir em frente porque precisava sobreviver e cuidar da minha família.

O medo maior era justamente começar algo meu, sozinha, e não saber se conseguiria sustentar. Mas eu não tinha outra opção. Ou eu criava coragem, ou parava no meio do caminho.

Quais são seus receios para o futuro?

Eliza Guterres: Eu tenho medo, sim, de que um dia isso possa acabar. Não é um medo paralisante, mas existe essa preocupação. Ao mesmo tempo, eu acredito que a mobilidade urbana ainda tem muito espaço, especialmente no interior. O que eu gostaria mesmo era de ver mais legalização e mais fiscalização sobre o transporte clandestino, porque isso prejudica quem trabalha certo e investe para manter uma operação séria.

O transporte clandestino ainda é um problema na cidade?

Eliza Guterres: Sim, é um problema. A gente tem lei, mas falta execução e fiscalização. Eu pago para manter uma estrutura, para operar corretamente, para ter plataforma, secretária, marketing, organização. E aí existe quem trabalhe de forma clandestina, sem custo, sem controle, sem responsabilidade. Isso pesa muito.

O que mais te incomoda no mercado hoje?

Eliza Guterres: A concorrência desleal. Isso me incomoda bastante. Tem gente que, em vez de criar o próprio espaço, tenta se aproveitar do trabalho dos outros. Às vezes eu coloco meu material de divulgação em algum lugar e aparecem pessoas colando material junto, sem respeito pelo trabalho da gente.

O que você espera para o futuro da mobilidade urbana?

Eliza Guterres: Eu acredito que a mobilidade urbana ainda vai crescer muito, mas também acho que não dá para ter aplicativo demais em uma cidade pequena. Chega uma hora em que o mercado fica dividido demais e isso pode prejudicar todo mundo. Então é preciso ter estratégia, organização e qualidade.

O que os aplicativos regionais precisam fazer para crescer?

Eliza Guterres: Na minha opinião, precisam escolher melhor os motoristas. Seleção faz muita diferença. Tem gente errada no mercado, gente que se aproveita da profissão para fazer coisas erradas. Então, para um aplicativo crescer e ter credibilidade, ele precisa montar uma equipe séria e confiável.

Qual legado você quer deixar com a Helpcar?

Eliza Guterres: Eu quero deixar o legado de que as pessoas precisam acreditar nos próprios sonhos e entender que, muitas vezes, aquilo que parece o fim é, na verdade, um recomeço. A Helpcar nasceu de um momento muito difícil da minha vida e se transformou em algo maior.

Também quero que fique marcado que uma mulher pode, sim, liderar, empreender e transformar a realidade da sua cidade. Lugar de mulher é onde ela quiser.

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Giulia Lang

Giulia Lang é jornalista formada pela Fundação Cásper Líbero e há três anos cobre o mercado de mobilidade urbana e delivery pelo 55content.