Em um mercado cada vez mais disputado, em que motoristas reclamam de taxas elevadas, perda de autonomia e baixa rentabilidade, o Alegrete + tenta abrir espaço com uma proposta centrada na gestão local e na valorização de quem está na rua.
Criado em Alegrete, no interior do Rio Grande do Sul, o aplicativo surgiu com a promessa de oferecer um modelo mais próximo da realidade dos motoristas e dos passageiros da cidade.
À frente da operação, Leonardo Pereira Freitas, CEO da plataforma, afirma que o crescimento do app passa por uma combinação entre atendimento, profissionalismo e melhores condições para quem depende da mobilidade urbana como fonte de renda.
Antes de falar do Alegrete+, queria começar pela sua história. Quantos anos você tem, onde nasceu, onde cresceu, se chegou a cursar faculdade e quais caminhos profissionais te levaram até a gestão de um aplicativo de mobilidade urbana.
Leonardo: Sou natural de Alegrete, no Rio Grande do Sul, cidade que dá nome ao aplicativo. Fica aqui na Fronteira Oeste, quase na divisa com a Argentina. Nasci em 1990, tenho 35 anos e vou fazer 36 este ano. Ainda sou relativamente jovem.
Tenho ensino superior incompleto. Cheguei a iniciar a faculdade, mas não concluí, porque acabei empreendendo desde cedo. Comecei bem novo na área de telecomunicações e imobiliária, e depois tive outros empreendimentos, como um ginásio poliesportivo. Sempre estive ligado ao empreendedorismo.
Em 2018, entrei de fato no segmento da mobilidade urbana. Na época, fui franqueado de outro aplicativo e comecei a operação aqui em Alegrete. Se não me engano, foi a primeira franquia dessa empresa em uma cidade fora da base original. Então, acabei sendo pioneiro nesse modelo por aqui.
Naquele momento, ainda não se falava muito em plataformas. O mercado de aplicativos locais ainda era muito novo. E foi justamente ali que comecei a construir experiência na gestão de mobilidade por aplicativo.
Você chegou a ser motorista de aplicativo?
Leonardo: Não. Isso é até curioso, porque nunca fui motorista de aplicativo. Eu nem dirijo, não tenho carteira. Sempre fui usuário de aplicativo. Como usava muito esse tipo de serviço, principalmente na época da faculdade, percebia uma necessidade muito grande na cidade.
Naquele tempo, em Alegrete, só existiam táxis e os chamados executivos, que eram basicamente carros clandestinos acionados por telefone. E eu pensava: se esse modelo funciona em cidade grande, por que não funcionaria aqui também? Foi daí que nasceu a ideia.
Como foi o começo dessa trajetória em 2018?
Leonardo: Foi muito desafiador. Na época, a legislação federal ainda estava sendo estruturada, a lei do Uber ainda estava sendo discutida. E a gente estava implantando um serviço totalmente novo em uma cidade de cerca de 70 mil habitantes, com um perfil bem tradicional, muito gaúcho, muito bairrista.
Então, fomos o primeiro serviço por aplicativo da cidade. Tenho orgulho de dizer isso. A gente implantou algo que simplesmente não existia em Alegrete. E, claro, o começo foi difícil. Muito difícil mesmo.
Tive a ajuda da minha noiva, Brunna Pinto da Fontoura, que hoje é uma das sócias do Alegrete+, e também do meu irmão, que foi gestor comigo naquela época. Depois, eu acabei assumindo mais diretamente essa parte, até pela experiência acumulada.
E como nasceu o Alegrete+?
Leonardo: Eu já vinha desgostoso com a plataforma onde estava anteriormente. Meu irmão, que tinha bastante experiência de gestão no setor, acabou abrindo o Alegrete+. Como eu já estava de saída da outra operação, ele me convidou para fazer parte.
A ideia inicial era até eu sair de vez desse mercado, porque é um segmento desgastante também. Mas, ao mesmo tempo, eu sabia que tinha acumulado muita experiência e que não fazia sentido simplesmente abandonar tudo isso. Então aceitei o convite, passei a atuar como gestor e, depois, assumi a plataforma de forma mais integral.
Como foi o processo para captar motoristas e passageiros?
Leonardo: A gente teve uma vantagem importante: já havia um histórico de confiança construído ao longo dos anos. Quando os motoristas perceberam que eu estaria à frente da nova plataforma, muitos vieram junto. Isso aconteceu porque eles já conheciam a forma como trabalhávamos, o cuidado com a gestão, a valorização da categoria e a seriedade do serviço.
Então, houve uma adesão natural. E com os passageiros foi parecido. Quando conseguimos unir qualidade no atendimento com um preço competitivo e benefícios que outras plataformas não ofereciam, como cashback e campanhas específicas, isso fez muito barulho positivo na cidade.
A gente sempre acreditou muito no boca a boca. Quando o motorista se sente respeitado e valorizado, ele fala bem da plataforma. E quando o passageiro percebe qualidade, ele volta a usar e indica. Esse ciclo foi fundamental para a consolidação do Alegrete+.
Qual foi a principal dor do mercado que vocês quiseram resolver com o Alegrete+?
Leonardo: Lá no começo, em 2018, a principal dor era o preço. As pessoas eram reféns dos táxis e dos executivos, que cobravam o que queriam. Então, o primeiro objetivo era oferecer um preço justo, tanto para o passageiro quanto para o motorista.
Hoje, a dor é outra. Hoje, o passageiro procura qualidade, atendimento, segurança e experiência. Então, o nosso foco passou a ser entregar algo além do preço. O cliente quer sentir que está pagando por um serviço diferente. E é isso que a gente busca oferecer.
Um exemplo prático: no verão, fazemos campanhas como “se o motorista não estiver com o ar-condicionado ligado, o passageiro não paga a corrida”. Isso mostra o quanto a gente se preocupa em elevar o padrão de atendimento.
Qual foi o seu maior medo ao lançar o aplicativo?
Leonardo: O medo era fazer a transição e não conseguir sustentar o mesmo nível de qualidade, ou então não conseguir converter essa confiança do passado para a nova plataforma. Mas felizmente isso aconteceu, e muito rápido.
Quais críticas você mais ouviu no começo?
Leonardo: Na verdade, mais do que críticas, havia um ceticismo. Muita gente dizia que isso só funcionava em cidade grande, que não daria certo em Alegrete, que era coisa para capital. Mas a gente já tinha ouvido isso em 2018 também. E provamos de novo que dá certo.
Hoje, o que faz o Alegrete+ se diferenciar no mercado?
Leonardo: Hoje, o diferencial é justamente a experiência. Tem preço competitivo, claro, mas vai além disso. É atendimento, qualidade, cuidado com o passageiro, relacionamento com o motorista, campanhas bem feitas e uma gestão profissional.
Muita plataforma entra no mercado apenas achando que basta colocar o aplicativo para rodar. Não é assim. Tem que ter acompanhamento diário, análise constante, cuidado com as pessoas e estratégia. É isso que faz a diferença.
Hoje, quem são os sócios do Alegrete+ e como vocês dividem o trabalho?
Leonardo: Hoje somos eu e minha noiva, Brunna. Ela é advogada e cuida de toda a parte jurídica, contratos, documentação, relação com empresas e essas coisas. Eu fico mais na gestão operacional, relacionamento com motoristas, equipe, empresas e funcionamento geral da plataforma.
Também temos equipe de marketing, atendimento e colaboradores na central. Então, cada um cuida da sua área. Isso é essencial para o crescimento do negócio.
Você se lembra quanto investiu no começo? Esse valor já se pagou?
Leonardo: Ainda não se pagou completamente. E isso é importante dizer, porque muita gente acha que vai entrar nesse mercado e ter um retorno muito rápido. Não é assim.
O investimento continua acontecendo o tempo todo: plataforma, equipe, marketing, estrutura, campanhas, benefícios. Então, hoje ainda é um negócio em construção. Mas a diferença é que a gente vê o retorno em crescimento, em adesão, em valorização da marca e em presença na cidade. Isso, para nós, é muito importante.
Em que momento você percebeu que o Alegrete+ já era um sucesso?
Leonardo: Desde o começo. A gente começou muito forte. No primeiro mês, já fizemos algo em torno de 15 a 16 mil corridas. No segundo, chegamos perto de 27 mil. Então, foi um início muito acima da média.
Já havia empresas esperando essa mudança, querendo vir conosco. E o público entendeu rápido a proposta da plataforma. Então, foi um case de sucesso desde o início.
Qual foi o momento mais difícil desde o lançamento do Alegrete+?
Leonardo: Eu diria que foi a mudança em si. Toda transição gera desconforto. Trocar de operação, assumir uma nova plataforma, entender um novo mercado, fazer os ajustes de preço, estrutura, equipe e relacionamento, tudo isso exige muito.
Lá em 2018, o mais difícil foi fazer as pessoas entenderem o que era um aplicativo de mobilidade. Hoje, no Alegrete+, o mais difícil foi exatamente a transição e a reorganização.
Houve alguma pessoa que foi fundamental para a sobrevivência e a gestão do negócio?
Leonardo: Sim. Minha noiva, sem dúvida, foi essencial. A família também, tanto a minha quanto a dela, pelo apoio emocional e pela compreensão. Não é fácil empreender, principalmente em um setor que exige dedicação integral.
E também os motoristas e a equipe. Houve confiança. Eles acreditaram na proposta, vieram junto, abraçaram o projeto. Isso foi decisivo.
Como é a sua rotina hoje? Você se dedica 100% ao aplicativo?
Leonardo: Sim, 100%. Meu foco hoje é totalmente o Alegrete+. É uma rotina diária, intensa, de segunda a segunda. O aplicativo funciona 24 horas, então a responsabilidade acompanha isso. Claro que existe equipe, mas o peso maior sempre fica com quem está à frente.
Hoje o Alegrete+ atua apenas em Alegrete?
Leonardo: Sim. Hoje, o foco é totalmente Alegrete. A cidade tem muito potencial e ainda temos muito espaço para crescer aqui. Não adianta querer expandir sem ter uma base extremamente forte e um case consolidado.
Nosso foco agora é enraizar ainda mais a plataforma aqui. Depois, naturalmente, a expansão pode acontecer.
Quantos motoristas e passageiros vocês têm hoje?
Leonardo: Em termos de motoristas, temos mais de 100. Claro que esse número varia porque sempre há entradas e saídas, mas já passamos de 100.
Em passageiros, temos mais de 10 mil clientes cadastrados na plataforma. E ainda temos uma central de atendimento muito forte, que também atende centenas de pessoas.
Quantas corridas vocês realizam por mês?
Leonardo: Em torno de 25 mil a 27 mil corridas por mês.
Qual é o valor da corrida mínima e quantos quilômetros ela cobre?
Leonardo: Hoje, a corrida mínima está em R$ 5,99, cobrindo 600 metros. É uma tarifa bem competitiva.
Qual é a taxa cobrada do motorista?
Leonardo: Hoje ela fica entre 11% e 15%, dependendo de campanhas, tempo de casa e outras estratégias. Temos motoristas que vieram conosco desde o início e que também são valorizados nesse processo.
Como funciona a remuneração do motorista? O passageiro pode pagar pelo aplicativo?
Leonardo: Sim. O passageiro pode cadastrar cartão no app normalmente. E a plataforma já faz todo esse processo de pagamento.
Quanto um motorista ganha, em média, por quilômetro rodado?
Leonardo: Em média, entre R$ 3 e R$ 3,30 por quilômetro. É uma média bem alta.
Quanto, em média, o motorista consegue faturar por mês?
Leonardo: A média gira em torno de R$ 4 mil. Mas os três melhores motoristas conseguem tirar entre R$ 9 mil e R$ 10 mil por mês, com quilometragem relativamente baixa e jornadas bem razoáveis.
Quanto vocês movimentam por mês na economia local?
Leonardo: Já passamos da faixa de meio milhão de reais por mês em corridas.
Vocês têm meta de crescimento para 2026?
Leonardo: Sim. A gente trabalha com três cenários. Um mais pessimista, com crescimento de 30%; um realista, de 50%; e um otimista, chegando a 70%. A nossa expectativa é seguir crescendo com consistência.
Vocês têm problema com corridas por fora?
Leonardo: A gente reduz bastante isso porque temos uma taxa de comissão menor para corridas abertas corretamente na plataforma. Então, procuramos criar um cenário em que valha a pena para o motorista continuar dentro do aplicativo.
O que mais te incomoda no mercado hoje?
Leonardo: Não diria que algo me deixa bravo. Mas, claro, há preocupação com concorrência desleal e com plataformas que não cumprem corretamente a legislação. Aqui existe uma lei municipal que regulamenta o serviço, então isso precisa ser respeitado.
Como você enxerga o futuro dos aplicativos regionais?
Leonardo: Vejo como um grande desafio, mas também como uma grande oportunidade. O aplicativo regional precisa oferecer algo que os grandes não conseguem: proximidade, gestão local, escuta, relacionamento e experiência.
Se ele fizer isso com profissionalismo, tem espaço. O mercado ainda é muito aberto para isso.
O que os aplicativos regionais precisam fazer para conquistar uma fatia maior do mercado?
Leonardo: Gestão. Gestão profissional, relacionamento com empresas, com motoristas, com passageiros e entendimento real da cidade. Não basta só ter uma plataforma. É preciso presença, seriedade, estratégia e constância.
Também é importante ouvir o motorista. As grandes plataformas tratam o motorista como um algoritmo. Nós tratamos como uma pessoa.
Qual legado você quer deixar em Alegrete?
Leonardo: Um legado de inovação, de orgulho local e de qualidade. Mostrar que uma cidade do interior também pode criar algo forte, relevante e moderno. E também mostrar que dá para construir um serviço de mobilidade com identidade local, levando o nome da cidade e fazendo isso com profissionalismo.
O que te deixa inseguro em relação ao futuro do negócio?
Leonardo: Não diria inseguro, mas atento. O desafio constante é continuar entregando mais, porque sempre pode surgir alguém com preço mais baixo. Então, a grande questão é: como fazer o passageiro voltar? A resposta está na experiência, no atendimento e na qualidade.
Qual o seu maior orgulho nessa trajetória?
Leonardo: O profissionalismo. Saber que tudo que prometemos foi entregue. Saber que ajudamos a transformar a cidade, geramos renda para muitas famílias e conseguimos fazer com que motoristas realmente melhorassem de vida.
Esse é o meu maior orgulho: olhar para trás e ver que não fui só eu que cresci. Muita gente cresceu junto.

