A minha função aqui, falando através do 55content, é trazer informação para quem trabalha como motorista. Informação é poder. A Uber entende muito bem como usar dados e tecnologia para maximizar o lucro dela. O motorista, se não entender esse jogo, vira só parte do sistema — trabalhando muito e ganhando pouco.

Já saiu em várias reportagens, e o próprio CEO da Uber, o Dara, já confirmou: a empresa ganha centenas de milhões de dólares usando inteligência artificial. E não é algo do futuro, não é carro autônomo. É agora, no dia a dia, em cada corrida que você aceita ou recusa.

Essa inteligência artificial é alimentada por dados que nós mesmos fornecemos: motoristas, passageiros, horários, regiões, valores aceitos, valores recusados, comportamento de consumo e de trabalho. Tudo isso vira informação para o algoritmo decidir quanto cobrar do passageiro e quanto pagar para o motorista.

Funciona assim: se um passageiro aceita pagar caro por uma corrida hoje, aceita amanhã e aceita de novo depois, o algoritmo aprende que ele aceita aquele preço. Resultado? A Uber continua cobrando caro dele. Não tem motivo para baixar.

Com o motorista acontece exatamente a mesma coisa. Se o sistema manda uma corrida barata e você aceita, ele aprende. Se manda outra barata e você aceita de novo, ele reforça esse padrão. A quarta, a quinta e a sexta corrida vão continuar ruins. O algoritmo entende que aquele motorista aceita trabalhar barato — mesmo que isso não cubra combustível, manutenção ou aluguel do carro.

Agora entra a parte mais importante: o motorista também treina a inteligência artificial.

Se o aplicativo manda uma corrida pagando R$ 1,40 por km e você recusa, o algoritmo registra. Se manda outra no mesmo valor e você recusa de novo, ele testa uma terceira. Quando percebe que você não aceita aquele preço, ele entende que você não é o motorista adequado para esse tipo de corrida.

A partir daí, o sistema começa a ajustar. Pode mandar uma corrida um pouco melhor, testar outro valor, tentar entender qual é a sua régua mínima. Ou seja, você vai ensinando o algoritmo qual preço vale a pena para você trabalhar.

Muita gente acha que, se recusar, nunca mais vai receber corrida. Isso não é verdade. A inteligência artificial é feita para testar o tempo todo. Ela insiste, provoca, joga preços baixos para ver se você cede. O problema é quando você cede “só dessa vez”. Nesse momento, você suja o seu histórico. O sistema aprende que, sob pressão, você aceita barato.

A Uber não é burra. Ela continua testando até o momento em que você aceita. E quando aceita, ela anota.

Por isso é fundamental entender uma coisa simples: não alimente o banco de dados da Uber com informações que não são boas para você. Cada corrida aceita é uma informação. Cada corrida recusada também é.

Escolher corridas não é frescura, não é preguiça, não é birra. É estratégia. É inteligência aplicada ao trabalho.

Claro que o Brasil é grande e cada cidade tem sua realidade. Em algumas regiões, R$ 2,00 por km pode até fazer sentido. Em outras, como grandes capitais com trânsito pesado, esse valor não paga a conta. Cada motorista precisa conhecer seu custo e definir sua própria régua.

O ponto central é: use a sua inteligência antes que a inteligência artificial use você.

Entenda como o algoritmo funciona e alimente ele com dados que joguem a seu favor. Quanto mais você se posiciona, mais o sistema entende que, para você sair do lugar, o valor precisa ser melhor.

A Uber já sabe jogar esse jogo. Está na hora do motorista aprender também.