Após meses de desconfiança, reclamação e revolta de motoristas que rodam pela 99 na madrugada — especialmente porque deixaram de receber chamadas de mulheres depois da meia-noite — a empresa finalmente se posicionou. Em declaração recente, o diretor da 99, Leandro, confirmou que os algoritmos da plataforma selecionam e distribuem corridas de forma diferente durante a noite, priorizando motoristas que não apresentam nenhum tipo de comportamento ligado a assédio e que não acumulam reclamações repetidas de passageiras.
A fala dele pegou muita gente de surpresa porque, na prática, confirma o que os motoristas já estavam sentindo na rua: quem parou de receber viagens de mulheres provavelmente entrou numa “zona de risco” do sistema, seja por reclamações anteriores, avaliações ruins ou atitudes que o aplicativo interpreta como inadequadas. A 99 afirma que não bloqueia esses motoristas automaticamente, mas admite que existe uma lógica parecida com um score: motoristas melhor avaliados e sem histórico de problemas em corridas com mulheres passam a ter preferência nas conexões durante a madrugada. Já quem coleciona queixas ou sinais negativos fica lá no fundo da fila — e às vezes não recebe corrida nenhuma nesse período.
Leandro também disse que o algoritmo trabalha com mais de 300 métricas para decidir qual motorista combina com qual passageiro. Ou seja: não é uma única denúncia que derruba alguém, mas um conjunto de sinais ao longo do tempo. E aí entra um ponto importante que muitos motoristas ignoram: comportamentos “pequenos” podem virar reclamação grande. O jeito de falar, a forma de tratar a passageira, apelidos “carinhosos”, comentários fora de hora, insistência em conversa… tudo isso pode ser interpretado como invasivo ou desrespeitoso e virar avaliação negativa.
Outro fator citado — e que pesa muito na madrugada — é o padrão de cancelamentos. Tem motorista que recebe uma corrida de passageiro homem, cancela. Cancela de novo. Cancela três, quatro vezes, até aparecer uma corrida de mulher. Esse comportamento repetido vira um alerta pro sistema. Juntando isso com reclamações de passageiras, o resultado é simples: o algoritmo entende que aquele motorista gera risco e passa a cortar o acesso às corridas femininas no horário mais sensível do dia.
No fim das contas, a própria 99 reconhece que existe penalização silenciosa. Não é um “ban” oficial, não aparece um aviso claro, mas o motorista sente no bolso: menos chamadas, menos chance de rodar, mais tempo parado. A empresa diz que vai lançar cartilhas e orientações para ajudar motoristas a lidarem melhor com corridas com mulheres, mas a verdade é que isso só veio à tona depois da repercussão e da pressão da categoria.
Para o motorista, fica um alerta duplo. Primeiro: entenda que o algoritmo não perdoa padrão ruim — de avaliação, reclamação ou cancelamento. Segundo: se proteja. Câmera veicular e gravação de corridas deixam de ser luxo; viram ferramenta de segurança. Servem tanto para se defender de denúncias falsas quanto para provar sua conduta, caso você caia nesse “limbo” de prioridade da plataforma.
E tem mais um detalhe que precisa ser dito: a 99 nasceu brasileira, mas hoje tem matriz chinesa e uma cultura corporativa que o motorista não conhece completamente. Os critérios do algoritmo não são transparentes. Então, enquanto a plataforma não mostra regras claras, o caminho mais seguro é profissionalismo total: respeito, comunicação objetiva, zero intimidade forçada, nada de “atalhos” com cancelamento seletivo e tudo registrado. Porque, goste ou não, na madrugada quem decide se você roda ou não é o sistema — e ele já deixou claro de que lado vai ficar.
