Uber não vai melhorar a tarifa e pagar melhor porque há milhares motoristas de app nas ruas aceitando qualquer valor

O problema não é só a tarifa baixa: é a mentalidade de quem aceita qualquer corrida. Enquanto houver oferta de sobra, os apps não sentem pressão pra mudar nada.

Homem de boné falando diretamente para a câmera dentro de um carro, com a mão levantada.
Foto: Fernando Floripa para 55content

Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do 55content

No meu último texto aqui no canal 55content, eu falei sobre a questão do ganho por tempo versus ganho por quilômetro. Contei o caso de um motorista que disse pra mim que ganhava de 500 a 600 reais por dia, rodando de 400 a 500 quilômetros. Porque, pra ele, o negócio era dinheiro rápido. Mas, gente, quilômetro não paga conta! E essa não é só a opinião dele — muitos motoristas pelo Brasil pensam assim.

Quando esse texto foi ao ar aqui no portal 55content, teve comentário pra tudo quanto é lado. Uns concordaram, outros discordaram. Mas alguns comentários específicos me chamaram muito a atenção. Especialmente um, que dizia o seguinte: “Ah, eu não pago as suas contas, você não paga as minhas, então é cada um por si e ninguém tem nada com a vida de ninguém.”

Quando eu li esse comentário, caiu a ficha. Aí eu entendi onde tá o problema. É exatamente por isso que a tarifa não sobe, entendeu? Não? Então vem comigo que eu vou te explicar.

Fala aí, motorista! Vim aqui pro espaço do portal 55content pra gente bater um papo sobre mentalidade de motorista, sobre por que a tarifa não sobe e o que isso tem a ver com a forma como a gente pensa.

Você sabe por que isso acontece? Então senta aí que eu vou te explicar direitinho.

Há anos a gente vem lutando por melhores condições de trabalho. A gente quer tarifas mais dignas, mais decentes, valores justos que acompanhem os nossos custos — que, aliás, só aumentam. A gasolina, por exemplo, tá batendo na porta dos sete reais. E aí, como tá aí na sua cidade? Aqui, por exemplo, já tá seis e oitenta o litro. E a tarifa mínima? Cinco e cinquenta. E o ganho por quilômetro?

Se o motorista só olha o tempo e ignora o KM, vai acabar fazendo corrida por um real o quilômetro — isso aqui na minha cidade. E na sua, como é que tá? Já comenta aí, quero saber como anda a situação por aí também.

Pois aqui é assim: tarifa mínima de cinco e cinquenta e um real por quilômetro, se você não souber escolher as corridas. Se não tiver paciência, vai passar horas e horas parado, esperando aparecer uma boa.

Hoje em dia, pra trabalhar bem, precisa ter paciência. Pra conseguir um bom ganho por KM e também um rendimento razoável por tempo. Só que tem uma galera que só olha o tempo. Quer sair, fazer dinheiro rápido, voltar pra casa e viver feliz pra sempre. Mas com o carro destruído, com um milhão de quilômetros rodados, roda caindo, tudo despedaçado.

Tem gente que pensa assim. Não cuida do carro. Não entende que quanto mais roda, mais manutenção vai ter. Mais troca de óleo, mais pneu, mais freio. O motor vai pro espaço. E quando for vender, o carro não vale mais nada.

Falei disso no último texto e, acredita, fui criticado. Criticado pela turma que acha que é “cada um por si e Deus por todos”.

Mas esse pensamento só beneficia as empresas. É exatamente isso que os aplicativos querem. Você já percebeu que os apps nunca se deram ao trabalho de reunir os motoristas? Nunca promoveram troca de boas práticas, de experiências? Nunca fizeram um evento pra galera se juntar, conversar, interagir, se ajudar?

Porque se os motoristas estiverem unidos, vão trabalhar com mais segurança, com mais eficiência. Vão se tornar profissionais melhores. Um ensina o outro. Um ajuda o outro. E no final, todo mundo sai ganhando.

Mas não. A lógica que impera é “cada um por si”. E quanto menos os motoristas se unirem, menos vão trocar informações, menos vão melhorar, e mais viagens ruins vão acabar fazendo.

Porque se o cara não tem noção, se não sabe trabalhar, ele aceita qualquer corrida. Trabalha de qualquer jeito. E aí a gente volta pra aquela mentalidade de “vamos aceitar corrida, vamos fazer viagem, vamos ganhar dinheiro rápido, vamos ganhar dinheiro rápido”.

Essa mentalidade de cada um por si só favorece os aplicativos. E a gente vê isso o tempo todo na rua.

Você conversa com o motorista e ele já vem com aquele papo: “Eu trabalho do meu jeito, faço como quero, sei o que é melhor pra mim.” Mas será mesmo? Tem certeza?

Você já parou, pelo menos, pra fazer as contas?

Quando o cara começa com esse discurso, eu tento abrir o olho dele e falo: “Amigo, faz as contas. Quanto você ganha? Quanto você gasta? Vê o que realmente sobra no final.”

Porque, olha, a maioria não tem essa noção. O cara vê só o ganho bruto do dia. Ganhou R$500, R$600, rodou 400km, gastou R$300 de combustível. Aí pensa: “Beleza, botei R$300 no bolso.” E segue nessa: em 10 dias, R$3.000; em 20 dias, R$6.000. “Poxa, antes eu ganhava um salário mínimo, agora tô ganhando R$6.000!” Mas… será mesmo que está?

Desses R$6.000, quanto é de fato seu? Quanto é do carro? Quanto é da manutenção? Do seguro? Quanto é de verdade e quanto é só parte do seu negócio, que você ainda tem que tirar?

A maioria não faz essa conta. Não separa a grana. Acha que tirando o valor do combustível, o resto é lucro. E aí esquece que, com o tempo, as coisas começam a pesar. E o que a gente vê depois? Muito motorista frustrado, reclamando que tá difícil, que não tá dando mais.

Aí a culpa, claro, vai toda pro aplicativo. Mas, na real, foi ele mesmo que procurou essa situação. Quando decidiu que era “cada um por si”. Quando achou que não precisava ajudar ninguém. Que bastava “fazer o meu”.

E é aí que eu te pergunto: o que você acha disso tudo?

Comenta aí, quero saber a sua opinião. Porque eu, sinceramente, sou totalmente contra essa ideia. Eu acredito na união. Acredito que os motoristas precisam se unir, trabalhar juntos, pra conquistar alguma coisa. Porque hoje, no mundo dos aplicativos, a “parceria” virou praticamente uma sociedade — onde metade do que a gente ganha fica com o aplicativo, e a outra metade a gente usa pra cobrir os custos e torce pra sobrar alguma coisa.

E esse cenário só vai mudar quando a gente tiver força. Quando a gente tiver união.

Ou você acha que, do nada, um dia a empresa vai acordar e pensar: “Ah, já estou ganhando dinheiro demais em cima dos motoristas, vamos reduzir a taxa, pagar melhor pra todo mundo ficar feliz…”?

Isso não vai acontecer.

E sabe por quê?

Porque não falta carro. Não falta motorista. Todos os dias, milhares de motoristas saem às ruas, ficam online e trabalham. Com tarifa ruim, tarifa mais ou menos, com ou sem dinâmico, pagando metade do valor em taxa ou não… Os motoristas continuam saindo.

Se não falta carro, por que eles aumentariam a tarifa? Por que iriam mudar a situação?

Não falta carro. E como é que a gente vai fazer outros motoristas entenderem o que está acontecendo, se a gente não se une? Se for cada um por si, como vamos conversar, trocar ideia, abrir os olhos uns dos outros e mostrar que esse modelo de trabalho, do jeito que está, não é sustentável no longo prazo?

Sem união, a gente não consegue nada. Nem força política.

A gente não consegue nem colocar alguém lá em Brasília pra defender os nossos interesses. Enquanto a gente conversa aqui, lá nos bastidores tá rolando a regulamentação dos aplicativos. Os políticos estão decidindo junto com as empresas. E cadê o motorista lá?

Não tem.

Cadê o político defendendo o motorista?

Também não tem.

E por que não tem?

Mais uma vez: por falta de união. Por causa desse pensamento de “cada um por si”.

Você entende como essa mentalidade não nos ajuda em nada? Como ela só fortalece as empresas, os políticos, todo mundo… menos a gente?

Porque sozinho, ninguém muda nada. Mas juntos, todos nós, temos uma força que a gente nem imagina. Uma força capaz de transformar o trabalho do motorista de aplicativo no Brasil.

E aí? Concorda comigo ou não?

Sou maluco ou faz sentido o que eu tô falando?

Comenta aí, quero muito saber a sua opinião.

Foto de Fernando Floripa
Fernando Floripa

Fernando Dutra, conhecido como Fernando Floripa, é motorista de aplicativo em Florianópolis e referência nacional para motoristas. Desde 2016, ele compartilha dicas e conteúdos nas redes sociais, alcançando quase 1 milhão de seguidores no YouTube, Facebook, Instagram e TikTok. Casado e pai de três filhos, com formação em Ciências da Computação e Administração, ele trabalha ativamente como motorista e incentiva a união da categoria, consolidando-se como um influenciador na área de mobilidade.

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