Carlos André Portes Oliveira mora em Miguel Pereira, no interior do Rio de Janeiro, e trabalha como motorista há quase dez anos. Antes de criar a própria plataforma, ele rodava nas horas vagas em aplicativos como 99 e Uber, principalmente na 99, onde afirma ter feito mais de 30 mil corridas.

A ideia de criar um aplicativo próprio surgiu da vontade de melhorar a condição dos motoristas, com valores mais atrativos, taxas menores e corridas que fizessem sentido para quem está na rua.

“Eu tive essa ideia de lançar o próprio aplicativo até na questão de ajudar o motorista. Ganhos melhores, taxas menores. Isso me motivou bastante”, afirma.

Aplicativo passou por mudanças de nome

Carlos atua há cerca de cinco anos no ramo de mobilidade regional. Antes do Veloz Drive, passou por outras versões da operação, como Águia e Águia 21. Segundo ele, a mudança foi de nome e de sistema, em busca de uma plataforma mais pronta e melhor estruturada.

A versão atual da plataforma tem cerca de três anos de operação. A sede fica em Miguel Pereira, e a atuação também envolve cidades próximas, como Paty do Alferes, Barra do Piraí e novas praças em abertura.

Expansão mira novas cidades

Além das cidades onde já atua, Carlos afirma que está abrindo operação em Miracema e planeja chegar a Paulo de Frontin e outras praças. O objetivo é expandir o aplicativo para diferentes cidades do interior.

“Você ainda vai ver meu aplicativo em tudo quanto é cidade. Esse é o meu sonho: transformar todo lugar que eu chegar”, diz.

Captação começou com motoristas conhecidos

A captação dos primeiros motoristas foi facilitada pela própria trajetória de Carlos como condutor. Por morar e rodar em Miguel Pereira, ele já conhecia boa parte dos profissionais da cidade.

‘Para atrair passageiros, a operação usou diferentes estratégias, incluindo influenciadores locais, panfletagem, tráfego pago e carros adesivados”, conta o gestor. 

Diferencial é pensar como motorista

Carlos afirma que a principal diferença do Veloz Drive é ter sido criado por alguém que conhece a rotina da rua. Para ele, uma corrida só funciona bem quando o valor também é bom para o motorista. Caso contrário, o condutor tende a recusar, aceitar e cancelar ou deixar o atendimento cair.

“Se a corrida está boa, o motorista aceita e quer fazer. Se não estiver legal para ele, recusa ou cancela. No Veloz Drive o índice de cancelamento é menor porque os valores foram pensados para tornar a corrida mais interessante para quem dirige”, afirma.

Motoristas ainda são o maior desafio

Apesar de oferecer taxas e valores que considera melhores, Carlos diz que o maior desafio dos aplicativos regionais continua sendo conquistar e manter motoristas. 

“Mesmo oferecendo ganhos melhores, o fator mais difícil é o motorista. As grandes plataformas já estão implantadas há anos e giram em praticamente qualquer cidade, o que dificulta a vida dos apps menores quando não há uma base forte de condutores”, avalia.

Investimento inicial foi de R$ 10 mil

Na plataforma atual, o investimento inicial foi de aproximadamente R$ 10 mil. Como Carlos já tinha uma base de motoristas da operação anterior, a migração ajudou o aplicativo a começar a se pagar mais rápido, em cerca de quatro meses.

O momento em que percebeu que o app estava dando certo veio com o aumento das chamadas, a formação de receita e os elogios de passageiros nas redes sociais.

“A gente se baseia na questão de chamadas e atendimento. Teve postagem no Facebook com todo mundo elogiando o meu aplicativo”, conta.

Gestor continua nas ruas

Mesmo como dono da plataforma, Carlos continua rodando. Ele afirma que gosta de estar na rua, conversar com motoristas e passageiros e entender os problemas de perto. Muitas vezes, segundo ele, o passageiro dá feedback sem saber que está falando com o dono do aplicativo.

“Eu paro na rua com eles normal, como se fosse apenas mais um motorista. Às vezes o cliente está falando com o dono do aplicativo e nem sabe. Esse contato direto também ajuda a corrigir detalhes do atendimento e da operação”, diz.

Bloqueios em grandes plataformas influenciaram a criação

A experiência negativa em grandes plataformas também pesou na decisão de criar o próprio app. Carlos afirma que já foi bloqueado mesmo se considerando correto no trabalho e que, ao tentar contato, não conseguiu reverter a situação.

No Veloz Drive, ele diz que bloqueios só acontecem em situações graves.

“Para mim bloquear um motorista, só se for uma coisa muito séria. Não tem motivo para bloquear um profissional sem motivo”, afirma.

Redução de preços da 99 foi um dos momentos mais difíceis

Carlos cita a queda nos valores da 99 como um dos momentos mais difíceis para a operação. Segundo ele, quando uma grande plataforma reduz preços, o aplicativo local acaba pressionado a competir por tarifa, algo que ele considera ruim para os motoristas.

“A corrida minha aqui é um preço justo para o motorista e para o cliente. Mas corrida muito baixa é boa só para o cliente e a corrida precisa ser justa tanto para o passageiro quanto para o condutor”, avalia.

Veloz Drive tem 6 mil usuários e mais de 200 motoristas cadastrados

Na plataforma atual, o Veloz Drive se aproxima de 6 mil usuários cadastrados. A base de motoristas passa de 200 cadastros, incluindo carro, mototáxi e moto entrega.

O volume mensal fica entre 15 mil e 18 mil corridas.

Corrida mínima varia conforme o dia e o horário

Carlos afirma que ajusta bastante os preços conforme o dia, o horário e o comportamento do mercado local. Durante o dia, a corrida mínima do carro pode ficar em R$ 9 ou R$ 10, com quilômetro em torno de R$ 2. Depois da meia-noite, a mínima sobe para R$ 20, com quilômetro entre R$ 2,50 e R$ 2,60.

Para mototáxi, a mínima costuma variar entre R$ 7 e R$ 8, com quilômetro entre R$ 1,50 e R$ 1,60 durante o dia, podendo chegar a R$ 2 à noite.

Taxa é de 15%

A taxa cobrada dos motoristas é de 15%. Carlos afirma que, por também ser motorista, considera esse percentual válido. 

“Eu como motorista acho 15% justo. Acima disso, já acho que a plataforma está tirando muito do motorista”, afirma.

Valor por quilômetro gira em torno de R$ 2

O valor médio por quilômetro para o motorista fica na faixa de R$ 1,85 a R$ 2 durante o dia, podendo aumentar em horários de pico e à noite. Carlos ajusta as tarifas por faixa horária, especialmente entre 17h e 20h, das 20h às 22h, das 22h à meia-noite e da meia-noite às 6h.

Em cidades de interior, no entanto, o movimento da madrugada se concentra mais nos fins de semana e em deslocamentos para hospitais.

Motorista pode fazer R$ 200 a R$ 300 por dia

O faturamento diário varia conforme demanda e número de carros na rua. Carlos afirma que já chegou a fazer R$ 550 em um dia rodando pelo próprio aplicativo. Em dias comuns, motoristas costumam fazer entre R$ 200 e R$ 300, dependendo do movimento.

Na moto, ele cita casos de condutores que fazem mais de R$ 200 com cerca de 15 corridas. No carro, já fez R$ 250 com 10 corridas curtas, em trajetos de cerca de 5 km.

“Às vezes, com 10 corridas, eu faço R$ 250. São corridas curtas, de 5 km, e o cara está ganhando R$ 20, R$ 22”, diz.

Diferença de tarifa pesa na aceitação

Carlos compara que uma corrida que paga R$ 20 no Veloz Drive pode aparecer por cerca de R$ 10 em outra plataforma. Para ele, essa diferença explica por que motoristas atendem melhor quando a corrida tem valor mais justo.

Segundo o gestor, em Miguel Pereira a concorrência direta atualmente é com a 99, já que outro aplicativo local saiu da cidade.

Plataforma movimenta valores variáveis por mês

O movimento financeiro varia conforme o mês e a demanda. Carlos afirma que há dias em que o aplicativo movimenta R$ 3 mil, R$ 5 mil ou R$ 6 mil em corridas. Em alguns fechamentos mensais, o relatório pode indicar R$ 70 mil, R$ 80 mil ou mais em movimentação.

Como a operação usa sistema pré-pago, a receita pode ser maior em determinados momentos, já que os motoristas fazem recargas antecipadas. Segundo Carlos, a base de ganho da empresa gira em torno de R$ 8 mil a R$ 10 mil, dependendo do movimento e das recargas.

Modelo é pré-pago

No Veloz Drive, o motorista coloca crédito na plataforma e a taxa de 15% é descontada conforme realiza corridas. Carlos compara o modelo a um celular pré-pago.

Ao lançar uma operação em nova cidade, ele costuma disponibilizar um valor inicial para os motoristas começarem a rodar, como incentivo.

Sistema permite registrar corrida particular

Para reduzir o risco das corridas por fora, Carlos criou no sistema uma opção chamada “maçaneta”, que permite ao motorista lançar uma corrida particular dentro do aplicativo. O condutor informa os dados do cliente, endereço de origem, destino, paradas e valor.

“Isso também ajuda na segurança do motorista, já que corridas feitas totalmente fora do aplicativo podem gerar riscos”, explica. 

Corrida particular pode fazer motorista perder dinheiro

Carlos diz que não se preocupa tanto com corridas particulares porque, na visão dele, o modelo não gira bem para o motorista. Quando passa o número para passageiros, o condutor passa a receber ligações fora de horário e pode precisar desligar o app para atender um contato específico.

“No aplicativo, você está numa corrida e toca outra. Você não para. No particular, você tem que desligar o aplicativo e ficar correndo atrás de cliente”, afirma.

Concorrência das grandes é vista como desleal

O que mais incomoda Carlos no mercado é a atuação de grandes plataformas, que ele considera desleal por reduzir muito os valores das corridas. Para ele, empresas maiores poderiam melhorar a remuneração dos motoristas e limitar a taxa cobrada, já que ganham em escala.

“Não tem por que explorar o trabalhador. Eles poderiam botar no máximo 15% e melhorar todas as corridas”, diz.

Meta é expandir “por aí afora”

A principal meta de Carlos é expandir. Ele afirma que quer levar o Veloz Drive para muitas cidades e que enxerga o aplicativo como uma forma de transformar os locais onde chega, especialmente para os motoristas.

Para ele, aplicativos locais não são o maior problema. A disputa que realmente pesa é contra grandes plataformas, porque elas conseguem baixar preços de forma agressiva.

Motoristas parceiros divulgam o aplicativo

Carlos conta que tem motoristas que vestem a camisa da plataforma a ponto de divulgarem o aplicativo por conta própria. Um deles chegou a sair pela rua com som no carro anunciando o Veloz Drive, sem receber pagamento por isso. Como reconhecimento, Carlos zerou a taxa desse motorista.

“O cara veste a camisa mesmo. Ele saiu na rua divulgando o aplicativo por vontade própria. Eu dei taxa zero para ele”, conta.

Tecnologia usada está evoluindo

Carlos avalia que o sistema de tecnologia que usa está ficando mais avançado e recebendo novas ferramentas. Para ele, em um ou dois anos a plataforma não deve perder muito para grandes aplicativos.

Ele afirma que já trocou de plataforma em outras ocasiões por falta de suporte, inclusive após enfrentar situações em que o aplicativo ficou fora do ar durante um fim de semana sem resposta do fornecedor.

Quando a 99 parou, Veloz Drive recebeu pico de demanda

Carlos relata que, em uma ocasião, a 99 ficou fora do ar na cidade das 8h às 17h. Nesse período, passageiros e motoristas migraram para o Veloz Drive, gerando um pico de demanda.

“O aplicativo bombou de uma tal forma que veio todo mundo para cá: cliente, motorista, veio todo mundo”, afirma.

Gestão é feita por Carlos e a esposa

A operação não tem sócios. Carlos administra o aplicativo ao lado da esposa, dividindo as tarefas de acordo com a rotina de cada um. Ele diz que já recebeu propostas de sócios e até interessados em comprar a plataforma, mas o objetivo é continuar crescendo.

Regionais precisam gostar do que fazem

Sobre o futuro dos aplicativos regionais, Carlos acredita que existe mercado para todos, mas que alguns gestores vão desistir pelo nível de trabalho envolvido. Para ele, o diferencial será gostar da operação e jogar a favor dos motoristas.

“Você tem que gostar do que faz. Dá muito trabalho, mas nunca passou pela minha cabeça desistir”, afirma.

Legado é ajudar motoristas a trabalharem sem exploração

Ao falar sobre legado, Carlos volta ao ponto que motivou a criação do aplicativo: melhorar a vida dos motoristas. Ele afirma que não criou o Veloz Drive com o objetivo de enriquecer, mas de sustentar a família e permitir que outros profissionais trabalhem com dignidade.

“Quero ver o cara trabalhar, ter um bem, comprar um carro novo, uma moto nova, trabalhar dignamente, sem ser explorado por plataforma”, conclui.

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Giulia Lang

Giulia Lang é jornalista formada pela Fundação Cásper Líbero e há três anos cobre o mercado de mobilidade urbana e delivery pelo 55content.