Stenio Kesley tem 33 anos, é de São Francisco, em Minas Gerais, cidade próxima a Montes Claros, é formado em Direito e atualmente cursa programação. Antes de criar o Pegue Car, trabalhou como motorista em grandes plataformas, como Uber e 99, em Montes Claros.

A entrada no setor de mobilidade veio em um período em que ele estudava para concursos. Em uma viagem a Goiânia para fazer prova, recebeu a ligação de um tio que precisava de ajuda para gerenciar uma franquia de aplicativo.

“Eu aceitei, gostei do negócio e depois de um tempo saí e criei a Pegue Car”, conta.

Taxas abusivas motivaram criação do app

Como motorista, Stenio enxergou na flexibilidade de horário uma vantagem das plataformas. Mas também viu uma dor que, segundo ele, pesava no bolso dos condutores: as taxas.

Ele lembra de uma corrida em que o passageiro pagou R$ 75, mas o motorista recebeu R$ 37. Para Stenio, a conta não fechava.

“A plataforma ficou com mais do que eu, sendo que eu ainda tinha que pagar combustível e manutenção do veículo”, afirma.

Primeira cidade foi Bocaiuva

O Pegue Car foi criado em 2023. A primeira cidade de atuação foi Bocaiuva, em Minas Gerais, pela qual Stenio diz ter um carinho especial. Hoje, porém, a gestão da operação é feita principalmente a partir de Montes Claros, por uma questão logística.

Apesar disso, o gestor afirma que não considera ter uma sede fixa, já que está sempre viajando entre as cidades atendidas.

Lançamento teve patrocínio de festa, rádio e tráfego pago

A captação inicial de motoristas e passageiros foi facilitada pela experiência anterior de Stenio no setor. Ainda assim, o lançamento teve investimento forte em divulgação.

“A gente patrocinou uma festa tradicional em Bocaiuva, o Senhor do Bonfim, que dura cerca de 30 dias: tinha carro de som, bicicleta de som, panfleto, tráfego pago e promoções. Foi crescendo bem rápido”, afirma.

Investimento inicial foi de R$ 20 mil a R$ 30 mil

Para acelerar o crescimento, o investimento inicial ficou entre R$ 20 mil e R$ 30 mil. Segundo Stenio, a ideia era fazer a operação ganhar tração mais rapidamente, já que aplicativos costumam levar tempo para consolidar uma base de motoristas e passageiros.

O retorno veio em cerca de sete a oito meses.

Stenio não tem sócios

Depois de experiências anteriores que não deram certo, Stenio decidiu tocar o Pegue Car sem sócios.

Segundo ele, uma das maiores dificuldades da operação é entender que cada cidade funciona de uma forma. A estratégia que dá certo em uma praça pode não funcionar em outra, seja por renda, cultura local, perfil dos motoristas ou dinâmica de concorrência.

“Cada cidade é um mercado diferente. Nem sempre uma estratégia que dá certo na cidade X vai dar certo na cidade Y”, explica.

Retorno financeiro e relatos dos motoristas mostraram que o app dava certo

Stenio percebeu que o Pegue Car estava dando certo em dois momentos. O primeiro foi quando o investimento se pagou. O segundo veio a partir dos relatos dos motoristas.

Um motorista contou que, pela primeira vez, estava conseguindo reformar a casa trabalhando, sem depender de acerto de demissão. Outro caso marcante foi o de um casal, ela costureira e ele chapa, que passou a tirar uma renda comparada por Stenio a “salário de médico”.

“Foi a primeira vez que ele conseguiu mexer na casa trabalhando. Antes, só conseguia com acerto de empresa”, relata.

Gestor já rodou pelo próprio aplicativo

Stenio também chegou a atuar como motorista do Pegue Car, principalmente nas duas primeiras cidades da operação e quando faltavam motoristas. Hoje, com a empresa mais estabilizada, a necessidade diminuiu, mas ele afirma que ainda roda se precisar.

Motoristas participam das decisões

Um dos pontos que mais orgulham Stenio é a relação com os motoristas. Segundo ele, em três anos, apenas dois condutores deixaram a plataforma para atuar com concorrentes, número que considera baixo.

Na gestão, decisões como preço, promoções e ajustes operacionais são discutidas em conjunto com os motoristas, porque eles estão na ponta do atendimento.

“A gente senta todo mundo junto em reunião e decide em conjunto. Se eu deixar meus motoristas insatisfeitos, eles vão tratar mal o meu cliente”, afirma.

Pegue Car atua em sete cidades

O Pegue Car está funcionando em sete cidades e tem mais duas operações em início. Segundo Stenio, a empresa também expandiu para a Bahia, deixando de atuar apenas em Minas Gerais.

A base de motoristas se aproxima de 200 condutores. O gestor preferiu não divulgar o número de passageiros nem parte das condições comerciais por considerar essas informações estratégicas para o negócio.

Corrida mínima varia de R$ 7,99 a R$ 12,99

Como a operação adapta preços a cada mercado, a corrida mínima muda conforme a cidade. Em algumas praças, a mínima é de R$ 12,99. Em outras, é de R$ 7,99. A distância coberta também varia: há cidades em que R$ 7,99 cobre 500 metros, enquanto em outras cobre 1 km.

O valor recebido pelo motorista por quilômetro costuma ficar entre R$ 2 e R$ 4,50, dependendo da cidade e do mercado local.

Motoristas chegam a R$ 18 mil por mês

Stenio afirma que já houve motoristas faturando R$ 17 mil a R$ 18 mil em meses de maior volume. Em meses considerados normais, há condutores que fazem R$ 13 mil a R$ 14 mil.

“Já tem motorista que chegou a ganhar R$ 18 mil, R$ 17 mil. No mês normal, tem motorista que ganha R$ 14 mil, R$ 13 mil”, afirma.

Aplicativo faz mais de 30 mil corridas por mês

Segundo Stenio, o Pegue Car já faz mais de 30 mil corridas por mês mesmo em períodos mais fracos. Em meses de maior volume, o número ultrapassa esse patamar.

A movimentação bruta mensal chegou a R$ 350 mil em um mês considerado mais fraco e a R$ 400 mil em julho.

Taxa muda conforme a cidade

O modelo de cobrança varia conforme a realidade de cada praça. Há cidades com taxa semanal fixa, como R$ 77 por semana, e outras com cobrança percentual de 15%, 10% ou até 7,5% em condições específicas.

A menor taxa funciona como incentivo para motoristas que batem metas. Em uma cidade onde a taxa padrão é de 10%, por exemplo, quem faz mais de R$ 2 mil em uma semana recebe desconto na semana seguinte e paga 7,5%.

“A gente tem que adaptar ao mercado. Cada cidade é um mundo diferente”, afirma.

Tecnologia usada possui falhas, mas vinga 

Stenio avalia que Uber e 99 ainda têm as melhores plataformas do mercado, mas considera que a solução atual tem bom custo-benefício para a operação regional.

Apesar disso, ele reconhece gargalos, especialmente em mapas e ajustes técnicos, que a empresa tenta resolver.

Corridas por fora diminuíram

Stenio afirma que já teve problemas com motoristas fazendo corridas por fora, mas acredita que hoje a prática é menor. Segundo ele, a fidelidade dos motoristas à plataforma e o fato de alguns modelos terem taxa fixa reduzem o incentivo para não lançar viagens no aplicativo.

Nas cidades com cobrança percentual, o cuidado é maior. A empresa já usou clientes ocultos para identificar condutas irregulares e retirou motoristas que não lançavam corridas no sistema.

“O cara que está ganhando bem não vai querer perder R$ 8 mil ou R$ 9 mil por causa de R$ 3”, avalia.

Atendimento em cidade pequena cria vínculo com o passageiro

Para Stenio, o relacionamento entre motorista e passageiro é um diferencial dos aplicativos regionais. Em cidades pequenas, o mesmo passageiro pode encontrar o mesmo motorista várias vezes no dia, o que torna o atendimento mais importante.

Segundo ele, o cliente fidelizado tende a continuar usando a plataforma, independentemente do preço.

“A gente pensa em tratar bem o motorista para ele tratar bem o nosso cliente. Acho que é uma receita de sucesso”, afirma.

Concorrência precisa ser saudável

O que mais incomoda Stenio no mercado não é a concorrência em si, mas a falta de respeito entre gestores. Para ele, aplicativos concorrentes não precisam se tratar como inimigos.

“A concorrência sempre deve ter. Tem que ser saudável. O sol nasceu para todo mundo”, afirma.

Futuro exige adaptação

Sobre o futuro dos aplicativos regionais, Stenio acredita que os gestores precisam se adaptar às mudanças. Ele cita a migração de motoristas para carros elétricos como uma tendência, impulsionada pelo custo dos combustíveis e pela possibilidade de aumentar o lucro com energia solar.

Para ele, o mercado seguirá mudando, inclusive com a possibilidade de veículos sem motorista no futuro.

Regionais precisam olhar cidade por cidade

Na disputa com grandes plataformas, Stenio afirma que cada cidade exige uma estratégia diferente. Quando Uber ou 99 entram em municípios menores com corridas promocionais muito baratas, o aplicativo local pode sofrer no início. Mas, passado esse período, ele acredita que as forças se equilibram.

O principal ativo dos aplicativos regionais, segundo ele, é o vínculo entre motorista e passageiro.

“O cliente cria um vínculo com o motorista. Já tive motorista que foi padrinho de casamento de cliente”, conta.

Legado é democratizar o transporte

Ao falar sobre legado, Stenio afirma que o Pegue Car ajudou a democratizar o transporte por aplicativo nas cidades onde chegou. Segundo ele, em algumas praças, as corridas eram caras antes da entrada da plataforma. O app passou a oferecer valores mais acessíveis para a população, especialmente para quem usa o serviço no dia a dia.

“A gente democratizou o transporte por aplicativo. Demos oportunidade para a população mais carente também usar o serviço. O público fiel do aplicativo é formado principalmente por estudantes e trabalhadores, das classes baixa e média, que dependem de um transporte acessível para se deslocar”, conclui. 

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Giulia Lang

Giulia Lang é jornalista formada pela Fundação Cásper Líbero e há três anos cobre o mercado de mobilidade urbana e delivery pelo 55content.