A insatisfação com a desvalorização dos motoristas de aplicativo levou Frank Eduardo Candido Sampaio, que também atua como fisioterapeuta, a criar o Mobly Car, em Itumbiara, no sul de Goiás.

O projeto começou em 2024, com um investimento de apenas R$ 500 e dois veículos disponíveis para atender aos primeiros passageiros.

A proposta era oferecer uma alternativa aos profissionais que, segundo Frank, enfrentavam dificuldades para trabalhar em outras plataformas da cidade.

O gestor afirma que algumas empresas locais exigiam exclusividade dos motoristas, impedindo que eles prestassem serviços por outros aplicativos.

Foi nesse cenário que decidiu apresentar uma proposta baseada na liberdade de trabalho e na valorização dos condutores.

“A minha jornada nasceu com boa parte de motoristas renegados, expulsos de outros aplicativos, que abraçaram a ideia de valorização”, relata.

Apesar do início com poucos recursos, Frank acreditava que seria possível conquistar espaço no mercado oferecendo condições diferentes das praticadas pela concorrência.

Aplicativo começou com R$ 500 e dois carros

A captação dos primeiros motoristas e passageiros aconteceu principalmente por meio de indicações.

Frank conta que procurou profissionais que já conheciam o mercado de mobilidade urbana, mas que haviam enfrentado problemas com gestores de outras plataformas.

A operação começou com apenas dois veículos, sendo um deles do próprio empresário.

“Foi uma ideia e dois carros. O meu e o de outra pessoa. A gente foi para a rua, para a prática mesmo, no boca a boca”, relembra.

O investimento inicial de R$ 500 foi utilizado para contratar o acesso a um sistema de aplicativo mais simples, que permitiu testar a aceitação do serviço.

Segundo Frank, a primeira versão não possuía todas as funcionalidades desejadas, mas era suficiente para verificar se existia demanda.

Durante aproximadamente 60 a 90 dias, o gestor acompanhou as primeiras solicitações.

A experiência o levou a investir em uma tecnologia mais estruturada.

“Quando comecei a ter chamadas com um sistema que não funcionava bem, falei: ‘Pô, deu certo’”, conta.

Plataforma ainda não conseguiu recuperar investimento

Apesar de estar em funcionamento desde 2024, Frank afirma que o aplicativo ainda não conseguiu cobrir integralmente os custos da operação.

O gestor explica que parte da receita é direcionada a ações para conquistar e manter passageiros, incluindo cupons de desconto e bonificações.

Além disso, o mercado de Itumbiara possui várias empresas disputando os mesmos usuários.

“Eu abro mão de ganhar para poder ser competitivo no meio em que estou inserido. Senão, sinceramente, o nível de concorrência me esmagaria”, afirma.

Segundo Frank, o principal desafio é conquistar uma quantidade suficiente de corridas para que a operação alcance sustentabilidade financeira.

“Por isso, o crescimento vem sendo planejado em etapas, sem depender exclusivamente de grandes investimentos iniciais”, explica. 

Mobly Car tem 39 motoristas e 1.772 passageiros cadastrados

Atualmente, a plataforma reúne 39 motoristas e 1.772 passageiros cadastrados.

A operação está concentrada em Itumbiara, município goiano onde o aplicativo foi criado.

Segundo Frank, uma das principais dificuldades continua sendo atrair profissionais dispostos a experimentar uma plataforma regional.

O empresário relata que muitos motoristas preferem permanecer em empresas que já possuem uma demanda consolidada de passageiros.

Na avaliação dele, essa resistência é compreensível, pois os profissionais dependem das corridas para garantir sua renda.

“Mesmo vendendo a ideia de valorização, ter motoristas foi o meu maior problema e ainda é um dos maiores problemas”, explica.

Frank afirma que precisou desenvolver a operação gradualmente para demonstrar aos profissionais que o aplicativo poderia representar uma alternativa de trabalho.

Aplicativo realiza cerca de 1.600 corridas por mês

O Mobly Car registra aproximadamente 1.600 corridas mensais, segundo Frank.

O gestor afirma que a operação apresenta um índice de conclusão de viagens que considera satisfatório.

Em 2025, primeiro ano completo de funcionamento, aproximadamente 83% das solicitações registradas teriam sido finalizadas.

Para Frank, esse desempenho indica que a plataforma conseguiu formar uma base de profissionais capaz de atender boa parte dos pedidos.

Entretanto, o crescimento da demanda ainda é necessário para ampliar a rentabilidade do negócio.

Corrida mínima é de R$ 6,90

O Mobly Car trabalha com corrida mínima de R$ 6,90 para deslocamentos de até 1,5 quilômetro.

Segundo Frank, o valor foi definido considerando as condições do mercado local.

O gestor reconhece que a tarifa pode parecer contraditória com a proposta de valorização dos motoristas.

Entretanto, afirma que a quantidade de concorrentes em Itumbiara exige uma política de preços competitiva.

“Fica estranho falar que levanto a bandeira da valorização, mas estou com uma mínima de R$ 6,90”, reconhece.

Frank explica que procura compensar os preços mais baixos com uma taxa reduzida para os profissionais: “ O desafio é encontrar um equilíbrio que permita atrair passageiros sem comprometer excessivamente a remuneração dos condutores.”

Taxa média cobrada dos motoristas é de 8,5%

Diferentemente das plataformas que trabalham com mensalidades fixas, o Mobly Car cobra dos motoristas uma taxa sobre cada corrida finalizada.

O percentual varia conforme a faixa de preço da viagem.

Atualmente, segundo Frank, a cobrança média é de aproximadamente 8,5%.

O gestor afirma que a política faz parte da estratégia para manter a empresa competitiva.

“Eu ainda considero o aplicativo um bebezinho nesse mercado. Tudo o que envolve taxa e precificação são estratégias de mercado”, explica.

A intenção é reduzir o custo de utilização da plataforma para os profissionais, sem deixar de oferecer preços atrativos aos passageiros.

Motorista já faturou cerca de R$ 5,5 mil em um mês

O maior faturamento mensal de um motorista relatado por Frank foi de aproximadamente R$ 5,5 mil.

Segundo ele, há profissionais que alcançam valores entre R$ 3 mil e R$ 4 mil mensais.

O gestor também apresentou um exemplo de rendimento por distância percorrida.

Ao consultar os dados de um motorista referentes ao mês de agosto, identificou um valor aproximado de R$ 4,23 por quilômetro registrado no relatório.

Os valores mencionados representam faturamento, não lucro líquido.

Movimentação mensal chega a R$ 20 mil

Segundo Frank, a plataforma movimenta aproximadamente R$ 18 mil a R$ 20 mil por mês em corridas.

Esse valor representa o montante pago pelos passageiros e não a receita efetiva do aplicativo.

Considerando a taxa média de 8,5%, a receita bruta correspondente à cobrança da plataforma ficaria próxima de R$ 1,5 mil a R$ 1,7 mil mensais, antes das demais despesas.

Entretanto, o gestor ressalta que o valor efetivamente disponível para a empresa é menor devido aos incentivos oferecidos aos usuários.

“Após determinadas bonificações, a margem sobre o valor movimentado possa cair para cerca de 5%, ainda sem representar lucro líquido”, diz. 

Para conquistar passageiros, a empresa utiliza descontos e cupons promocionais.

O gestor considera essas ações importantes para desenvolver a demanda em um mercado com diversas opções de transporte.

Empresa movimentou R$ 160 mil em 2025

No primeiro ano completo de operação, em 2025, o Mobly Car movimentou aproximadamente R$ 160 mil em corridas, segundo Frank.

Para 2026, o objetivo é ultrapassar R$ 200 mil.

A empresa também pretende superar 13 mil viagens finalizadas no ano, a partir de um volume superior a 15 mil solicitações.

Na época da entrevista, Frank estimava que aproximadamente 80% da meta anual já havia sido alcançada.

O empresário organizou seu planejamento em três etapas.

“Eu coloquei três anos de guerra para mim: o primeiro ano sobreviver, o segundo ano crescer e o terceiro ano lucrar”, afirma.

A estratégia prevê continuar fortalecendo a operação atual antes de avançar para novos mercados.

Corridas particulares são tratadas como questão de segurança

Ao comentar os motoristas que realizam viagens fora dos aplicativos, Frank apresentou uma visão diferente da de alguns gestores do setor.

Embora reconheça que existem profissionais que fazem corridas particulares, ele afirma que prefere concentrar seus esforços em mostrar os benefícios de manter as viagens registradas na plataforma.

Segundo o empresário, o sistema permite acompanhar o deslocamento e oferece recursos de segurança que não estão necessariamente disponíveis em uma negociação direta entre motorista e passageiro.

“Às vezes, perder 50 centavos ou R$ 1 numa corrida não é perder”, afirma.

Frank argumenta que, ao realizar uma viagem pela plataforma, o motorista pode contar com informações sobre o percurso e os mecanismos de proteção previstos na operação.

Segundo ele, em uma situação de risco, o registro do trajeto pode auxiliar na identificação dos últimos locais percorridos pelo veículo.

O gestor também menciona coberturas de seguro associadas às viagens registradas.

“Esse conjunto de recursos precisa ser considerado quando o motorista avalia o custo de utilizar um aplicativo”, conclui. 

Gestor critica guerra de preços entre aplicativos

Uma das principais preocupações de Frank é a concorrência baseada exclusivamente na redução das tarifas.

Segundo ele, Itumbiara possui aproximadamente nove empresas de mobilidade urbana, considerando plataformas locais e grandes aplicativos.

Na avaliação do gestor, a quantidade de concorrentes aumenta a pressão para reduzir os preços das corridas.

O empresário considera que essa disputa pode comprometer principalmente a remuneração dos motoristas.

“A guerra competitiva entre os aplicativos é o que mais castiga o mercado”, afirma.

Frank acredita que parte das empresas tenta conquistar passageiros oferecendo preços cada vez menores, sem considerar adequadamente os custos da atividade para os profissionais.

A consequência é uma pressão financeira que recai sobre quem realiza as viagens, ou seja, o custo operacional é repassado para o motorista”, critica.

“Todo motorista quer ser valorizado, mas espera a empresa crescer primeiro”

Para Frank, o fortalecimento dos aplicativos regionais depende também da disposição dos motoristas para participar de projetos que ainda estão em desenvolvimento.

O gestor considera que muitos profissionais desejam taxas menores e melhores condições de trabalho, mas hesitam em apoiar plataformas pequenas.

Segundo ele, a resistência está relacionada ao receio de não encontrar uma quantidade suficiente de corridas.

“Todo motorista quer ser valorizado, mas não quer se expor a uma empresa que pode valorizá-lo. Tem que esperar ela crescer primeiro, ficar grande primeiro, para depois migrar”, afirma.

Na avaliação do empresário, a participação dos profissionais é fundamental para aumentar a disponibilidade de veículos e atrair novos passageiros.

Frank acredita que o crescimento de uma plataforma regional precisa ser construído em conjunto entre gestores e motoristas.

Gestor defende liberdade para trabalhar em vários aplicativos

Outro ponto importante para Frank é a autonomia dos profissionais.

Segundo ele, uma das motivações para criar o Mobly Car foi justamente oferecer uma alternativa aos motoristas que enfrentavam exigências de exclusividade em outras plataformas.

O gestor considera que cada trabalhador deve poder escolher os aplicativos que deseja utilizar.

Para ele, restringir essa liberdade prejudica a possibilidade de ampliar a renda.

“Talvez o primeiro legado eu já tenha deixado: o motorista tem liberdade para trabalhar onde quiser e em quantas plataformas quiser”, afirma.

Frank diz que pretende continuar defendendo essa proposta como parte da identidade da empresa.

Mobly Car pretende chegar a outras cidades

Atualmente, a operação permanece concentrada em Itumbiara.

Frank afirma que já tentou iniciar atividades em municípios menores, mas a estratégia adotada não apresentou os resultados esperados.

Diante disso, decidiu interromper as tentativas e reavaliar o modelo de expansão.

A meta é levar o aplicativo a pelo menos três ou quatro cidades adicionais.

O gestor também pretende ampliar significativamente o volume de corridas realizadas mensalmente.

No planejamento apresentado durante a entrevista, o objetivo para o terceiro ano de operação é alcançar aproximadamente 10 mil corridas por mês.

“A expansão precisa ocorrer de maneira sustentável, com estrutura suficiente para conquistar passageiros e oferecer oportunidades aos motoristas”, explica. 

Legado é valorizar os motoristas

Ao falar sobre o futuro do Mobly, Frank destacou novamente a proposta que motivou a criação do aplicativo.

Segundo ele, a empresa não surgiu apenas para disputar passageiros, mas também para oferecer uma alternativa aos profissionais que se sentiam desvalorizados.

“A melhoria das condições de trabalho depende de uma relação mais equilibrada entre plataformas e motoristas”, diz. 

Ele também considera que a união da categoria pode contribuir para fortalecer aplicativos que ofereçam condições consideradas mais justas.

“Eu espero que o aplicativo consiga crescer, se expandir e valorizar os motoristas como eles merecem”, afirma.

Para Frank, esse objetivo deve continuar orientando as decisões da empresa, independentemente de seu tamanho.

“O meu objetivo inicial, que é gerar valorização, vai continuar sendo o meu objetivo final”, conclui.

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Giulia Lang

Giulia Lang é jornalista formada pela Fundação Cásper Líbero e há três anos cobre o mercado de mobilidade urbana e delivery pelo 55content.