“Faturo R$ 270, e lucro R$ 250 por dia, trabalhando 8,5 horas por dia no carro elétrico”, diz o motorista de app e influenciador Uber Pensador 

Francisco roda na Uber pelo X e Comfort e vê os ganhos como renda fixa, usada para contas básicas. O resto vem dos seus projetos nas redes sociais, sua segunda fonte de renda.

Homem calvo de barba sorrindo para uma selfie, com uma vista panorâmica de uma cidade ao fundo durante o pôr do sol.
Foto: Francisco Bianchi, o "Uber Pensador" para 55content

Francisco Bianchi, conhecido nas redes sociais como Uber Pensador, trabalha como motorista de aplicativo desde 2017 e se destacou nas redes sociais mostrando sua rotina nas ruas de Belo Horizonte. Na entrevista, ele compartilha como concilia o trabalho com a criação de conteúdo, fala sobre os ganhos com carro elétrico, critica a estagnação das tarifas da Uber e reforça a importância de entender os próprios custos antes de apostar na profissão.

Quando e como você começou a trabalhar como motorista de aplicativo? E como surgiu o trabalho nas redes sociais?

Francisco: Comecei a rodar em novembro de 2017. Menos de um mês depois, criei um Instagram — de forma bem despretensiosa, por gostar de comunicação e fotografia. Com o tempo, fui mostrando meu dia a dia e os bons resultados que conseguia, já que rodava bastante. Isso começou a chamar atenção, e a conta foi crescendo, tanto em seguidores quanto em engajamento. A coisa aconteceu naturalmente.

E como é sua rotina atualmente? De que horas a que horas você trabalha? Consegue folgar?

Francisco: Minha rotina mudou bastante ao longo desses sete anos. Antes de casar e ter filho, cheguei a rodar 14, 15, até 16 horas por dia. Hoje em dia, com um filho pequeno, minha rotina gira muito em torno da dele. Trabalho das 7h30, depois de deixá-lo na escola, até as 16h, quando vou buscá-lo. Paro só para almoçar ou cumprir outro compromisso pontual. Às vezes saio à noite, às vezes não — depende da necessidade do momento.

E os fins de semana?

Francisco: Oscilam bastante. Se for início de mês, se tem algum evento, ou algum cliente particular agendado, eu encaixo na agenda. Mas também tento conciliar com a vida pessoal. A flexibilidade é algo que eu valorizo muito nesse trabalho.

Você ainda segue alguma meta diária de faturamento?

Francisco: Durante a semana, minha meta tem sido de R$250 líquidos por dia. Como tenho horário limitado — preciso parar às 16h para buscar meu filho — se eu bater essa meta, ótimo. Se não, não tem o que fazer. Às vezes compenso à noite, quando necessário.

E os gastos com combustível? Como você se organiza nesse ponto?

Francisco: Atualmente rodo com um carro elétrico há mais de dois anos, então meu custo de deslocamento é muito baixo. Basicamente, se eu faço R$250 líquidos, meu bruto gira em torno de R$270. A economia é significativa.

Você trabalha em qual categoria atualmente?

Francisco: Só no X e Comfort. Carros elétricos ainda não entram no Uber Black. Em algumas cidades existe o Uber Green, específico para elétricos, mas o Black está mais relacionado ao tipo e espaço do carro, não ao combustível.

Com a rotina que você tem hoje, dá para ter uma média mensal de faturamento?

Francisco: Oscila muito, depende da minha necessidade. Eu costumo fazer o seguinte: defino quanto preciso faturar naquele período e ajusto minha agenda para isso. Se preciso levantar mais grana, trabalho à noite. Se estou tranquilo, fico só no período da manhã e tarde. Considero o que ganho com a Uber como renda fixa — para pagar contas básicas. O resto vem dos meus projetos nas redes sociais, que já se tornaram uma segunda fonte de renda importante.

Você está no aplicativo desde 2017. Quais mudanças percebe no trabalho desde então?

Francisco: A principal diferença é o custo de vida. Se os preços das corridas tivessem subido junto com a inflação, estaria tudo certo. Mas não foi o que aconteceu. Tudo ficou mais caro: carro, combustível, aluguel, mercado… e as tarifas não acompanharam esse aumento.

E sobre o sistema das corridas, algo mudou?

Francisco: Sim. Antigamente, a gente aceitava corrida no escuro. Não sabia para onde ia, quanto ia ganhar — só descobria depois que o passageiro entrava no carro e você começava a corrida. Hoje, pelo menos, essas informações aparecem antes de aceitar a viagem. Nesse aspecto, houve uma melhora significativa.

Mas em termos de ganhos, não acompanhou?

Francisco:
Tudo ficou mais caro. Se os preços das coisas tivessem se mantido, os valores pagos pela Uber até estariam ok. Estariam dentro do esperado.

O problema é que, nesses últimos sete anos, tudo subiu: comprar um carro ficou mais caro, alugar também, combustível disparou, e até os custos do dia a dia, como supermercado, aumentaram bastante. E o grande ponto é que não houve um reajuste nas tarifas que acompanhasse, pelo menos, a inflação. Esse é o principal problema.

O que não acompanhou foi a questão dos ganhos, que não subiram nem perto do que subiram os custos.

Você também faz corridas particulares, certo? Como funciona isso?

Francisco: Sim. Quando é alguém que já me conhece do Instagram ou já andou comigo, eu atendo como particular. A gente faz tudo certinho: contrato, recibo, tudo documentado direitinho para que o serviço seja feito dentro das normas.

Você recomenda que outros motoristas também comecem a fazer corridas particulares?

Francisco: Depende muito da cidade. A documentação exigida pode variar de um município para outro, então é importante verificar o que é necessário onde você atua — licenças, autorizações, etc. Não é o meu foco principal, por isso não sei os detalhes, mas é essencial estar regularizado.

Na sua opinião, qual é hoje o maior desafio para quem trabalha como motorista de aplicativo?

Francisco: Acho que o maior desafio é entender sua própria realidade financeira. Tem motorista que faz R$2.000 por semana e acha ótimo, tem outros para quem isso não cobre nem o básico. Cada pessoa chega no app com um contexto diferente. Então o primeiro passo é entender seus custos reais e avaliar se esse trabalho faz sentido para você — ou se você só está trocando dinheiro.

E no seu caso, que também cria conteúdo para a internet, qual é o maior desafio da rotina?

Francisco: Conciliar tudo — tempo, criatividade, direção. Porque, assim: se eu parar de dirigir, meu conteúdo perde o sentido. Estar na rua todos os dias é o que me mantém conectado com a realidade do motorista. Claro que eu só enxergo o recorte de Belo Horizonte, onde rodo, mas ainda assim consigo captar o que está mudando — se o mercado melhorou, se piorou. E além disso, continuar dirigindo também me garante o sustento, pagando minhas contas básicas.

Você costuma misturar informação com entretenimento no conteúdo, certo?

Francisco: Sim. Às vezes é informativo, outras vezes é mais para entreter mesmo. Tento equilibrar os dois, sempre com base no que eu vivo no dia a dia.

Quais dicas você daria para quem está começando agora como motorista de app?

Francisco: A primeira é: comece rodando em regiões que você conhece, onde se sente mais seguro. Depois, priorize corridas no cartão, que são mais seguras — assim você evita prejuízos em caso de não pagamento e reduz o risco de assalto. E, por fim, controle seus gastos. No começo é fundamental anotar tudo: quanto está ganhando, quanto está gastando, para entender se está realmente lucrando ou só girando dinheiro.

Você recomenda esse trabalho para outras pessoas?

Francisco: Depende. Se a pessoa já tem outro trabalho, eu recomendo que comece testando: roda nos finais de semana, nas horas vagas. Não é para sair do emprego de imediato e mergulhar de cabeça. Tem gente que não gosta de dirigir, ou de lidar com o público, com trânsito. Tem que ser algo leve para você, senão vira um peso. Faz o teste, sente como é, vê se faz sentido — aí sim começa a se planejar com mais firmeza.

Algo mais que você gostaria de acrescentar?

Francisco: Acho que é isso mesmo. Eu até postei um vídeo sobre isso esses dias: cada um precisa olhar para sua própria realidade. Eu estou há sete anos nisso — se eu estivesse apertado até hoje, alguma coisa estaria errada. É importante sempre buscar novas possibilidades se o que você está fazendo não está funcionando. Cada um tem que fazer escolhas com base na sua própria situação.

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