A trajetória do Joyver começou durante a pandemia de Covid-19. André Maestre, que já trabalhava no comércio de confecções, decidiu experimentar o transporte por aplicativo depois de passar cerca de 30 dias em casa.

A experiência como motorista revelou uma oportunidade de negócio: havia cidades pequenas da Zona da Mata mineira que ainda não contavam com soluções de mobilidade por aplicativo.

Segundo André, enquanto municípios maiores já concentravam diversas plataformas, localidades com 10 mil, 15 mil ou 25 mil habitantes permaneciam pouco exploradas.

“A ocasião faz o ladrão, mas faz o empreendedor também”, brinca o gestor ao lembrar como surgiu a ideia do negócio.

Aplicativo começou com cinco motoristas

O Joyver iniciou a operação em uma cidade de aproximadamente 25 mil habitantes, com apenas cinco motoristas.

André explica que a escolha por municípios menores foi estratégica. Na época, Ponte Nova, cidade onde fica a sede da empresa, já contava com diversos aplicativos concorrentes.

Na avaliação do empresário, abrir outra plataforma em um mercado disputado seria mais difícil do que levar o serviço para localidades onde ainda não existia uma operação estruturada.

“O projeto cresceu e passou a atender mais de 10 cidades da região, reunindo atualmente quase 70 prestadores. A meta inicial era alcançar 50 motoristas nos primeiros cinco anos, número que acabou sendo superado”, conta o gestor; 

Captação foi feita no corpo a corpo

Para conquistar os primeiros motoristas e passageiros, André apostou no contato presencial.

Com experiência de mais de 30 anos no comércio, ele afirma que a divulgação digital é importante, mas não substitui o relacionamento com as pessoas.

No início, visitava as cidades, apresentava o aplicativo e conversava diretamente com possíveis parceiros.

“Você não consegue vender nada só no digital. Precisa criar uma identidade com as pessoas”, afirma.

Hoje, o Joyver conta com coordenadores regionais que acompanham as operações e ajudam a resolver problemas locais.

Cada coordenador pode ficar responsável por mais de uma cidade, fazendo a ligação entre os motoristas e a administração da plataforma.

Motoristas passam por avaliação presencial

A seleção de motoristas é uma das preocupações do Joyver.

Além da análise documental, a empresa realiza entrevistas presenciais e verifica as condições dos veículos.

Segundo André, o processo inclui análise de antecedentes criminais, documentação, ano de fabricação e vistoria dos automóveis.

Os coordenadores regionais participam dessa seleção e acompanham os profissionais que atuam nas cidades.

O gestor afirma que a preocupação com a segurança acompanha o aplicativo desde o início: “Em quase cinco anos de operação, a empresa não registrou acidentes envolvendo passageiros durante corridas realizadas pela plataforma”. 

Proposta também é formalizar transporte clandestino

André afirma que uma das dificuldades da mobilidade no interior é a presença de pessoas que transportam passageiros sem cadastro em plataformas ou estrutura profissional.

Segundo ele, há situações em que condutores começam a oferecer viagens informalmente, sem a preparação necessária para atender o público.

A proposta do Joyver é trazer esses profissionais para uma operação organizada, com regras, acompanhamento e orientação.

“Buscamos trazer esse clandestino e formalizar. Ele precisa entender que está trabalhando com um passageiro, que é cliente dele e precisa ser muito bem tratado”, explica.

O gestor também defende maior fiscalização do transporte irregular nos municípios atendidos.

Nome Joyver está ligado à experiência do passageiro

André conta que a proposta da marca é transmitir a ideia de um motorista alegre, cortês e preparado para atender diferentes perfis de passageiros.

Segundo ele, a qualidade do serviço depende também da capacidade de perceber como cada pessoa prefere ser tratada.

Há passageiros que gostam de conversar durante a viagem, enquanto outros preferem permanecer em silêncio.

O motorista precisa respeitar essas diferenças.

“Uma corrida bem executada pode fazer o passageiro voltar a utilizar o serviço e recomendar o aplicativo para outras pessoas”, diz André. 

Mais da metade dos motoristas depende da atividade

Segundo André, mais de 50% dos prestadores cadastrados utilizam o transporte por aplicativo como principal fonte de renda.

Ele explica que a região atendida pelo Joyver não concentra tantas empresas com salários elevados, o que torna a atividade uma oportunidade de trabalho.

O gestor afirma que alguns motoristas estão na plataforma desde o início, em 2020.

Para ele, essa permanência demonstra a importância de construir uma relação duradoura com os profissionais.

Pandemia e resistência local dificultaram início

O Joyver foi lançado em dezembro de 2020, durante a pandemia.

André conta que a crise sanitária trouxe dificuldades para o empreendimento, mas também aumentou o interesse de algumas pessoas pelo transporte individual.

Segundo ele, passageiros passaram a buscar viagens em carros para se deslocar com familiares, evitando o transporte coletivo naquele período.

O aplicativo foi fundado por André e um amigo chamado Henrique, que deixou o projeto aproximadamente um ano depois, por questões familiares.

Desde então, André passou a conduzir o negócio sem outro sócio formal.

A resistência de taxistas e de parte da população também representou um desafio.

“Em municípios pequenos a chegada de uma plataforma com preços competitivos provocou conflitos com profissionais que já atuavam no transporte local”, afirma. 

Investimento inicial foi de R$ 10 mil

Para colocar o Joyver em funcionamento, André investiu aproximadamente R$ 10 mil.

O valor foi destinado à criação da marca, contratação da plataforma, publicidade, panfletagem, viagens e demais despesas de implantação.

O empresário afirma que a operação começou a apresentar retorno financeiro no segundo ano.

“No segundo ano, a gente já estava faturando tranquilamente. O investimento já tinha se pagado”, conta.

Joyver atua em mais de 10 cidades

A sede do Joyver fica em Ponte Nova, município de aproximadamente 60 mil habitantes, em Minas Gerais.

Apesar disso, André afirma que a maior concentração de motoristas está em cidades menores da região.

A operação atende municípios com populações de aproximadamente 5 mil a 25 mil habitantes, incluindo localidades que ainda não possuíam transporte por aplicativo estruturado.

Segundo o gestor, as cidades atendidas somam uma população de aproximadamente 200 mil habitantes.

“A estratégia também contempla viagens entre municípios, principalmente para consultas médicas e outros serviços disponíveis em centros maiores”, relata. 

Aplicativo tem 68 motoristas e 17 mil passageiros

Atualmente, o Joyver possui aproximadamente 68 motoristas cadastrados e uma base de 17 mil passageiros.

O aplicativo realiza entre 3 mil e 4 mil corridas por mês.

André explica que o número de viagens precisa ser analisado considerando as características da operação.

Como muitas corridas são intermunicipais, os motoristas passam mais tempo em cada deslocamento.

Em algumas situações, uma viagem pode ocupar três ou quatro horas de trabalho, enquanto em cidades maiores seria possível concluir diversas corridas curtas no mesmo período.

Mensalidade varia de R$ 70 a R$ 120

Um dos principais diferenciais do Joyver é o modelo de cobrança.

Em vez de descontar uma porcentagem do valor das viagens, o aplicativo cobra uma mensalidade fixa dos motoristas.

Os valores variam de R$ 70 a R$ 120, dependendo do município onde o profissional trabalha.

André explica que a decisão foi tomada após analisar a realidade das cidades pequenas, onde o volume de corridas pode ser reduzido, mas as viagens costumam ter valores mais altos por causa das distâncias.

“Eu quero que o meu prestador fature. Para ele pagar, primeiro ele precisa ganhar”, afirma.

A cobrança funciona no modelo pré-pago. Os motoristas precisam quitar a mensalidade até o dia 10 para continuar utilizando normalmente a plataforma.

Corrida mínima é de R$ 10,99

A corrida mínima do Joyver é de aproximadamente R$ 10,99.

O valor cobre uma distância que varia em torno de 2 km a 2,8 km, dependendo das características da cidade e do trajeto.

Segundo André, o valor pago por quilômetro rodado fica entre R$ 3 e R$ 3,50.

As tarifas também levam em consideração fatores locais, como relevo e distância percorrida.

Motorista recordista chegou a R$ 13 mil

O faturamento dos motoristas varia conforme a cidade, a quantidade de viagens e a dedicação ao trabalho.

André afirma que há profissionais que chegam a faturar R$ 6 mil, R$ 7 mil e R$ 8 mil mensais.

O maior faturamento relatado pelo gestor ficou entre R$ 12 mil e R$ 13 mil em um mês.

“Nós tivemos motorista faturando R$ 12 mil, R$ 13 mil. Tem outros faturando R$ 6 mil, R$ 7 mil, R$ 8 mil tranquilamente”, afirma.

O gestor ressalta que os ganhos são influenciados pela sazonalidade, especialmente em municípios onde festas e eventos aumentam a demanda por transporte.

Corridas movimentam cerca de R$ 100 mil mensais

Com aproximadamente 3 mil a 4 mil corridas por mês, o Joyver movimenta um valor bruto estimado em torno de R$ 100 mil.

André explica que a estimativa varia bastante porque a operação inclui viagens curtas e deslocamentos intermunicipais de maior valor.

Algumas corridas podem custar R$ 200, R$ 300 ou R$ 500, o que aumenta o movimento financeiro mesmo com um número menor de solicitações.

O gestor ressalta que não possui um valor exato consolidado para o período.

Mensalidade também busca reduzir corridas por fora

Além de adequar os custos à realidade do interior, o modelo de mensalidade foi pensado para reduzir o incentivo a corridas realizadas fora do aplicativo.

Segundo André, quando o motorista paga uma mensalidade fixa, não precisa evitar a plataforma para economizar uma porcentagem em cada viagem.

Ele afirma que essa preocupação esteve presente desde o planejamento do Joyver.

“A decisão também levou em conta as características do transporte intermunicipal, no qual uma única corrida pode representar parte significativa do faturamento diário do profissional”, afirma. 

Falta de fiscalização e concorrência desorganizada incomodam

Ao comentar os principais problemas do mercado, André cita três questões: motoristas que não registram corridas, falta de fiscalização e empresas que atuam sem critérios adequados.

O gestor considera que a concorrência é saudável, mas critica plataformas que, segundo ele, não acompanham adequadamente os profissionais cadastrados.

Na avaliação de André, colocar preços muito baixos sem considerar os custos do serviço também pode comprometer a qualidade da operação.

“O problema não é ter muito concorrente. É ter muito aventureiro, gente sem ética. Empresas que desejam permanecer no mercado precisam trabalhar com organização, regras e responsabilidade”, afirma.

Tecnologia dá conta do recado

André afirma que a tecnologia da empresa atende às necessidades da operação.

Segundo ele, eventuais dificuldades de localização estão mais relacionadas ao mapeamento e à conectividade em municípios pequenos do que propriamente ao sistema contratado.

O gestor explica que algumas áreas rurais e cidades do interior ainda possuem limitações de internet e endereçamento.

Por isso, a empresa procura preparar seus motoristas para lidar com essas situações durante o atendimento.

Objetivo não é disputar diretamente com Uber e 99

André considera difícil que aplicativos regionais consigam competir diretamente com grandes plataformas em todos os mercados.

Segundo ele, o Joyver não foi criado com a pretensão de enfrentar Uber e 99 nas maiores cidades brasileiras.

A estratégia é conquistar espaço em municípios menores, onde existe demanda por transporte, mas nem sempre há interesse de grandes empresas em estruturar uma operação.

O gestor afirma que ficaria satisfeito em alcançar 100 ou 200 motoristas, mantendo uma operação sustentável.

Futuro dos regionais depende de profissionalismo

Na avaliação de André, o mercado de aplicativos regionais continuará oferecendo oportunidades para quem trabalhar com seriedade.

Ele acredita que plataformas sem organização, investimento ou compromisso com a qualidade terão dificuldades para permanecer ativas.

“Quem é sério, quem é correto, quem trabalha direito e investe vai continuar. Administrar um aplicativo exige melhorias constantes, acompanhamento dos motoristas e atenção às necessidades dos passageiros”, afirma.

Legado é oferecer atendimento de qualidade

Ao falar sobre o legado que deseja deixar, André destaca a importância do bom atendimento.

Segundo ele, a população das cidades atendidas pelo Joyver inclui muitos idosos, que precisam de atenção especial durante as viagens.

O gestor afirma que orienta os motoristas a agir com paciência, respeitar horários e compreender as necessidades de cada passageiro.

Para André, a principal marca que o aplicativo pode deixar na região não está apenas nos números de corridas ou de motoristas cadastrados.

“Meu legado é atender bem meu cliente. Quero que ele fale bem, que diga que foi bem atendido”, conclui.

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Giulia Lang

Giulia Lang é jornalista formada pela Fundação Cásper Líbero e há três anos cobre o mercado de mobilidade urbana e delivery pelo 55content.