“Só não dá certo se você desistir.” A frase acompanha Isaú Júnior, de 30 anos, há anos e resume sua trajetória como empreendedor.
Natural de Lagarto (SE), Isaú decidiu entrar em um mercado dominado por grandes empresas para criar uma plataforma de mobilidade voltada à realidade de motoristas e passageiros de sua região. A LagMob surgiu a partir de sua experiência como motorista de aplicativo e da busca por uma alternativa local para o transporte urbano.
O empreendedor conta que sempre teve o objetivo de ter o próprio negócio. Aos sete anos, começou vendendo geladinhos em casa e, ao longo da vida, tentou abrir outras empresas que não obtiveram os resultados esperados.
Durante a pandemia, chegou a desenvolver a ideia de um aplicativo de mobilidade para a cidade, mas o projeto não avançou naquele momento, levando-o a atuar como motorista de aplicativo.
Na época, as corridas eram organizadas por meio de grupos de WhatsApp, modelo que permitia atender um grande número de clientes. Apesar da praticidade, a operação ocorria sem regulamentação formal, o que gerava riscos para os motoristas. Em eventuais fiscalizações, os veículos poderiam ser apreendidos.
Diante desse cenário, surgiu a necessidade de regularizar a atividade e migrar para um modelo estruturado. Foi então que Isaú iniciou a busca por soluções tecnológicas que permitissem a criação de um aplicativo regional.
Segundo ele, a escolha da tecnologia foi um dos pontos mais importantes do projeto, já que a estabilidade do sistema seria determinante para a experiência dos usuários e para a retenção de clientes.
Além disso, para competir com empresas como Uber e 99, era necessário oferecer um serviço capaz de atender às expectativas dos passageiros e às demandas dos motoristas.
“Tinha muita gente com as mesmas reclamações, os mesmos sofrimentos que eu. Então, surgiu a necessidade de trazer um aplicativo da cidade, de uma pessoa que conhece a cidade, que sabe os desafios de ser motorista de aplicativo e que não só visa o lucro”, afirma.
A partir dessa proposta, nasceu a LagMob. Para Isaú, motoristas que são bem tratados e valorizados, abraçam a causa e ajudam o aplicativo a crescer.
A empresa reúne atualmente cerca de 60 motoristas, 55 motoboys e quase mil passageiros cadastrados. Em média, são realizadas 2 mil corridas por mês. As tarifas para os passageiros partem de R$ 6,90 para carros e R$ 4,90 para motos. Já os motoristas pagam uma taxa de 15% por corrida, cobrança que foi isenta nos primeiros meses de operação da plataforma.
De acordo com o gestor, o negócio recebeu um investimento inicial de aproximadamente R$ 10 mil que ainda estão sendo pagos.
Os planos da empresa incluem a expansão para cidades vizinhas, o lançamento de novos serviços, a criação de parcerias voltadas aos condutores e o fortalecimento da presença da marca no interior do Nordeste. No longo prazo, Isaú pretende transformar a LagMob em uma referência entre os aplicativos regionais de mobilidade e ampliar sua atuação para outras regiões do país.
Conte-me um pouco da sua história? Onde você nasceu? Em que áreas já trabalhou?
Isaú: Eu sou nascido, criado e vivido na cidade de Lagarto (SE) e moro aqui ainda.
Eu sempre fui um cara que queria ter o próprio negócio. Desde os meus sete anos de idade eu já tinha esse espírito empreendedor. Eu comecei na casa dos meus pais vendendo geladinho, em alguns locais é chamado de chup-chup ou gelinho.
Eu comecei assim e fui crescendo, desenvolvendo e chegou um tempo que eu não queria mais trabalhar para ninguém. Eu montei várias empresas que, infelizmente, não deram certo.
Inclusive, eu tentei uma primeira vez colocar um aplicativo de mobilidade aqui na cidade, mas isso foi há uns quatro anos atrás, bem na pandemia, então não foi muito assertivo. Mas muitas pessoas que colocaram deram certo.
E então eu deixei de lado e comecei a ser motorista de aplicativo, em 2021. Comecei minha jornada e durante esses cinco anos foram muitos aprendizados. Inclusive eu rodo no aplicativo aqui também e acho importante para que as pessoas me vejam, me conheçam. Acho que todo empreendedor deve mostrar a cara no aplicativo.
Como surgiu a ideia de criar o próprio aplicativo de mobilidade?
Isaú: Surgiu, na verdade, da infelicidade com as plataformas que existem. Tinha muita gente com as mesmas reclamações, os mesmos sofrimentos que eu. Então, surgiu a necessidade de trazer um aplicativo da cidade, de uma pessoa que conhece a cidade, que sabe os desafios de ser motorista de aplicativo e que não só visa o lucro. Lucro é consequência de um bom trabalho e de motoristas que oferecem um bom serviço. Motoristas que são bem tratados e valorizados, abraçam a causa do aplicativo e isso com certeza está ajudando a gente aqui.
Tem outros aplicativos de mobilidade na cidade?
Isaú: Não, os concorrentes que a gente tem são a Uber e a 99. São multinacionais, não tem nenhum app local.
Como foi a captação dos primeiros motoristas?
Isaú: De início, eu já ia nos motoristas que tinham as mesmas reclamações e o mesmo perfil que eu. Um perfil que quer valorizar o nosso trabalho.
Aqui a gente trabalhava com grupos de WhatsApp e a gente tinha uma grande quantidade de clientes. Era muito prático, muito simples chamar a corrida, mas nós éramos clandestinos e em eventuais fiscalizações, a gente poderia até ter o nosso carro apreendido.
Por isso, surgiu a necessidade de sair do clandestino e passar para um formato legal.
Começamos a correr atrás do que precisaria para colocar um aplicativo regional aqui na cidade e foi onde tudo começou.
Corre para lá, corre para cá, vai na prefeitura, busca a melhor plataforma, porque sem uma boa plataforma, os clientes fogem e a gente não consegue reter.
Então, para competir com a Uber e a 99, tinha que ser um aplicativo que entregasse aquilo que a gente queria e o que os clientes queriam. Encontramos uma plataforma bem conhecida, que inclusive muitos aplicativos regionais de renome atualmente usam ela.
Entramos em contato e formalizamos o contrato e botou mão na massa para trazer os motoristas. Conversa com um, com outro e eles foram se cadastrando.
Quantos motoristas tem cadastrados hoje na plataforma?
Isaú: Chegamos a 78 motoristas e motoboys ativos, mais ou menos.
Quando você foi criar o app, já estava nos planos abrir para carro e moto?
A necessidade foi que, como a gente veio para competir com a Uber, precisávamos trazer uma parcela dos clientes de moto para cá, porque o cliente que usa moto também usa carro.
A gente não quer competir com a 99 porque os valores são muito baixos e não é viável para nós, então viemos competir diretamente com a Uber.
Agregamos aqueles motoboys que queriam trabalhar junto a gente e eles abraçaram a causa e começaram a divulgar o aplicativo para moto também.
Então, como os outros aplicativos aqui tem moto e carro, a gente também não poderia ficar de fora.
Você tem sócios? Como dividem as funções?
Isaú: Eu comecei sozinho e recentemente um sócio investidor entrou na jogada. Depois que ele entrou começou a melhorar a quantidade de passageiros, motoristas.
Então, hoje somos eu e ele. Ele investe e eu faço toda a gestão. E como ele é dono de uma empresa bem conhecida de publicidade aqui na cidade, ele faz a parte do marketing e eu faço a gestão.
Quanto foi o investimento até agora?
Isaú: Não sei ao certo, mas já chega por volta de uns R$ 10 mil.
Quanto vocês cobram de taxa do motorista?
Isaú: No começo, demos isenção para todos os motoristas e motoboys. Mas já começamos a cobrar uma taxa de 15% fixo. É a mesma taxa para motorista e motoboy.
Hoje vocês operam em Lagarto, mas pensam em expandir para outras cidades?
Isaú: Sim, vamos expandir para as cidades mais próximas aqui, onde vemos um grande potencial.
Qual o valor da corrida mínima para o passageiro?
Isaú: Hoje, para o carro cobramos R$ 9,90 até 2 km e na moto, R$ 5,90 até 2,5 km.
Passou disso são R$3,00 por quilômetro de carro e R$1,50 na moto.
Vocês trabalham com dinâmica? É por demanda, horário ou local?
Isaú: Nós temos dinâmicas fixas aqui que são aqueles locais mais distantes que o motorista precisa se deslocar mais para poder chegar até o passageiro ou deixar o passageiro no destino. Como aqui é uma cidade regional e os aplicativos foram feitos para cidades grandes, que qualquer lugar que você for você volta com uma corrida, aqui é diferente.
O aplicativo regional tem essa flexibilidade de você conhecer onde você mora e saber se para onde você vai, não vai voltar com corrida. Então, tem que pagar um pouco a mais, cobrar um pouco a mais do passageiro para que o motorista possa fazer esse deslocamento e voltar vazio ou fazer esse deslocamento maior e voltar com o passageiro.
Quais são as categorias de corrida disponíveis no app?
Isaú: Nós temos três categorias: a LagMob, que é padrão, temos a Premium e temos a Lagmoto, que é a categoria de moto. E pretendemos colocar a categoria e mercado também.
Como funciona a seleção dos motoristas? Quais os critérios para trabalhar na plataforma?
Isaú: Eles são selecionados à risca, porque nós precisamos trazer o melhor serviço. Os passageiros de outras plataformas reclamam: “Ah porque em tal aplicativo eles cobram mais, pedem dinheiro a mais”. Tivemos que ajustar tudo e deixar claro para o motorista e para o motoboy que a gente não abre mão e que quem fizesse isso seria bloqueado.
Como a gente sabe, todo lugar tem bons e maus profissionais, mas, diferente das outras plataformas, a gente tenta de tudo para que o motorista faça o que é certo. Mas, se ele continuar fazendo o que é errado, vai ser bloqueado e o motivo vai ser dito.
Damos chance, mas também temos que agir com justiça tanto para aqueles que trabalham certo, quanto para com os passageiros.
Quando os motoristas vão entrar, eles se cadastram e tem todos esses avisos. A gente envia um vídeo de como funciona o aplicativo, analisa a CNH completa, se está vencida ou não, se tem EAR, fazemos análise dos antecedentes criminais e pegamos comprovante de endereço e documento do carro.
Quantos passageiros já baixaram o aplicativo?
Isaú: Nós já registramos 1.500 passageiros. Ainda não estamos usando a central pelo WhatsApp, mas futuramente a gente pretende usar.
Quantas corridas estão fazendo por mês?
Isaú: Em média 2 mil corridas finalizadas, mas nosso intuito é chegar a 500 corridas por dia até o final do ano.
O que movimenta a cidade? Qual o perfil do público?
Isaú: O perfil do público aqui é universitário, pessoas que moram em condomínio, pessoas que vão para o trabalho, para escola, aqui tem muitos supermercados grandes também.
Inaugurou recentemente o primeiro shopping da cidade, um shopping muito bonito. Tem umas esplanadas também, pizzarias que são um pouco afastadas, barzinhos. É esse o público que atendemos.
Quanto um motorista da Lagmob fatura?
Isaú: Eu tiro uma média por mim. Eu rodo 24 horas pela LagMob, e aquele que se dedica à Lagmob fatura mais e aquele que se dedica em duas plataformas, divide a renda.
Então, como me dedico mais à LagMob, eu consigo tirar por volta de R$2 mil.
Qual foi o momento mais desafiador até agora?
Isaú: Na verdade ainda está sendo, mas como eu já tinha tentado um aplicativo e não tinha dado certo, o receio de seguir em frente era muito grande.
O primeiro obstáculo é que a empresa que fornecia o aplicativo, só liberava o sistema se a gente tivesse um CNPJ aberto. E esse CNPJ não poderia ser MEI, tinha que ser uma microempresa.
Essa foi a primeira barreira, porque como você investe em algo que possivelmente vai dar errado? Então a gente fica pensando: será que o aplicativo vai gerar o faturamento necessário para cobrir as despesas?
Fomos de passo em passo: abrimos a empresa e aí já tinha outra despesa, que seria o contador. Além da despesa da plataforma.
Tudo isso era eu sozinho. Eu fazia as artes, ainda faço até hoje, faço divulgação, rodo no aplicativo, divulgo dentro do carro com panfleto. Desde o início foi assim.
Você pretende expandir em franquias ou gestão própria?
Isaú: Eu já tive uma empresa em que vendíamos franquias e a gente não teve uma boa experiência com franqueados, tivemos uma dor de cabeça. Então pretendemos gerir esses locais.
O nosso intuito é fazer o máximo de cidades possíveis, porque esse monopólio da Uber e da 99 são em cidades grandes, não em cidades pequenas. Então, a gente quer expandir para cidades pequenas. Não temos intenção nenhuma de ir para a capital.
Você acredita que é possível um app regional entrar em uma capital?
Isaú: É possível, mas assim, para brigar por mercado dentro de uma capital tem que ter muito dinheiro. Não basta querer entrar, não é assim que funciona. Quando você entra numa capital, é outra vivência. As pessoas são mais retraídas, são mais fechadas. No interior não, as pessoas são mais alegres, não tem aquela correria do dia a dia.
Então, as pessoas do interior são mais flexíveis, são mais tranquilas. Tem problemas, mas eu acho que a capital é pior.
Como você enxerga o futuro dos aplicativos regionais de mobilidade no Brasil?
Isaú: No Brasil é o futuro. Aquele que enxergar a sua cidade como um polo para valorizar motoristas de aplicativo e os motoristas da cidade abraçarem a causa é o futuro. Não tem para onde correr. O que a Uber quer é substituir os motoristas por robotaxi. No momento ela quer que você trabalhe para ela, para ela ter dinheiro para sustentar os robotaxis depois.
A 99, a gente não sabe o futuro porque ela cobra um valor muito baixo para o passageiro e passa um valor muito baixo para o motorista. Já tem um ano e meio que eu não rodo pela 99, porque eu acho que o motorista não deve receber R$ 6.
O que pedimos para os motoristas aqui é que abracem o aplicativo da cidade, abracem o aplicativo regional. Porque é esse aplicativo que vai valorizar você, é esse aplicativo que você tem o contato ali no dia a dia.
Aquele que tiver coragem de colocar na sua cidade, tenha coragem e não desista, porque eu já quis de novo também, mas muitos chegaram para mim e disse: “Isaú, não desista. A gente vai chegar lá, não se preocupe, a gente vai chegar lá. Eu tô com você”. Isso faz a gente tirar a coragem de onde não tem e seguir em frente.
É claro que no início foi mais difícil, a gente via corridas chegando e sendo canceladas porque os motoristas não estavam aceitando. Era frustrante você fazer um trabalho e depois os próprios motoristas boicotaram o aplicativo que valorizava eles.
No início tudo é difícil, mas só vai dar certo se você não desistir.
Vocês têm ou pensam em ter parcerias com estabelecimentos da cidade que ofereçam descontos para os motoristas da Lagmob?
Isaú: Sim, o nosso intuito é fazer parcerias. Inclusive, a gente tem uma parceria hoje com um posto de lavagem, ele faz 20% mais barato para o pessoal que é da LagMob.
E a gente pretende ir atrás de postos de combustível também e borracharia, troca de óleo para poder dar um benefício para esses motoristas. Inclusive a isenção da taxa no início também foi um benefício.
O benefício de sempre estarem conversando diretamente comigo, é um benefício também.
A gente vai ter um ponto de apoio aqui na cidade que também vai ser um benefício para os que já estão conosco e para os que estão se juntando. A gente pretende colocar esse ponto de apoio para que os clientes e os motoristas que quiserem ir no banheiro, ir tomar uma água, aspirar o carro. Tudo isso são benefícios que só vai ter na LagMob.
Vocês pretendem participar de eventos na cidade?
Sim. Nosso intuito é fazer uma reunião geral, independente se a pessoa não roda na Lagmob, mas para que ela possa conhecer quais os nossos valores, nosso intuito em trazer esse aplicativo aqui para a cidade.
Nosso intuito, como muitos pensaram, não é ficar rico, é valorizar quem está na plataforma, valorizar o próprio trabalho, a própria classe. Se a gente não valorizar a nossa atividade, quem é que vai valorizar? As plataformas não vão.
O que você aprendeu com tudo que viveu até aqui?
Isaú: Ao longo da minha trajetória eu aprendi a não desistir. Eu era uma pessoa que desistia muito fácil. Eu tenho um problema com ansiedade e a ansiedade não é boa para quem investe. A gente investe e quer ver o retorno, mas não é assim.
Então, conforme eu fui amadurecendo, fui vendo que a gente tem que passar pelo processo. A gente não pode pular etapas.
Até em um novo emprego é difícil no início. Você entra no emprego sem saber de nada. Mas com o tempo você vai pegando experiência e vai conseguindo ser melhor naquilo que você está se propondo a fazer.
Nas minhas empresas que eu tive, foi mais ou menos isso: eu era muito jovem e eu queria que desse certo logo. A não persistência foi o que fez com que desse errado.
E já pensei em desistir da LagMob várias vezes. Mas eu sempre ando com essa frase que “só não dá certo se você desistir”.
Eu estou persistindo e meu sócio está me ajudando também.
Onde vocês querem chegar em cinco anos? Se você for contar novamente a história da Lagmob daqui a cinco anos, o que gostaria de contar?
Isaú: Que ela deu certo, que ela expandiu e que a gente já está em todos os estados do país.
Qual legado você quer deixar com a Lagmob na sua região?
Isaú: O legado que eu quero deixar é que por meio da Lagmob, a gente conseguiu mudar a vida de muitos motoristas e aplicativos. Esse é o legado.
A gente deu valorização para o trabalho deles, demos benefícios e por fim uma vida melhor, trabalhando menos e ganhando mais.

