O Rota do Vale nasceu da experiência de Edson Oliveira como motorista de aplicativo e da necessidade de encontrar uma alternativa às tarifas praticadas pelas grandes plataformas.
Natural de São Paulo, Edson tem 44 anos e começou a trabalhar com transporte de passageiros em Lajeado, no Rio Grande do Sul, por volta de 2018. Inicialmente, atuou como taxista e, depois, passou a realizar corridas por aplicativo.
Na época, a atividade era sua principal fonte de renda.
Entretanto, em 2021, o aumento dos combustíveis começou a comprometer os ganhos dos motoristas. Segundo Edson, muitos colegas abandonaram a profissão porque os valores das corridas já não eram suficientes para cobrir os custos da atividade.
Como gostava de trabalhar com transporte, decidiu procurar uma alternativa para continuar no setor.
Foi assim que surgiu o Rota do Vale.
“A ideia foi montar o aplicativo para não depender das grandes plataformas que não se importam com o motorista”, afirma.
Preço das corridas motivou criação do aplicativo
A principal insatisfação de Edson com as grandes plataformas estava relacionada aos valores oferecidos aos motoristas.
Segundo ele, muitas viagens apresentavam remuneração insuficiente diante das despesas com combustível e manutenção.
“Por isso, o Rota do Vale foi desenvolvido com uma proposta diferente: oferecer tarifas mais favoráveis aos condutores e permitir maior participação deles na definição do preço das viagens. O preço que as outras plataformas oferecem, na maioria das vezes, é inviável”, afirma.
O aplicativo foi lançado em 2021, com sede em Lajeado, e passou a atender municípios vizinhos.
Operação atende Lajeado e cidades próximas
Embora o aplicativo esteja habilitado para funcionar em todo o Rio Grande do Sul, a operação está concentrada em Lajeado e municípios próximos, como Arroio do Meio, Cruzeiro do Sul e Estrela.
Edson explica que preferiu desenvolver o negócio regionalmente antes de buscar expansão para outras localidades.
Como administra o aplicativo sozinho, sem sócios, decidiu primeiro construir uma trajetória na região.
A captação dos primeiros passageiros aconteceu principalmente pelo boca a boca.
“Na época, eu já realizava corridas particulares e aproveitei minha carteira de clientes para apresentar o aplicativo. Também contei com o apoio de motoristas próximos, que começaram a utilizar e divulgar a plataforma”, revela o gestor.
Problemas com tecnologia fizeram aplicativo perder passageiros e motoristas
Uma das maiores dificuldades enfrentadas pelo Rota do Vale foi encontrar uma tecnologia adequada para a operação.
Edson conta que, no lançamento, contratou uma plataforma que apresentou problemas e comprometeu a experiência dos usuários.
Com isso, o aplicativo começou a perder passageiros e motoristas.
O gestor decidiu trocar de fornecedor, mas a segunda tecnologia também não apresentou os resultados esperados.
Segundo ele, as dificuldades foram tão grandes que a empresa chegou perto de perder toda a base conquistada.
“A gente chegou a um ponto de praticamente perder tudo que tinha conquistado, tanto de motoristas quanto de passageiros, justamente pela qualidade da plataforma”, relembra.
Somente depois de uma nova mudança tecnológica, Edson encontrou um sistema que considera capaz de competir tecnicamente com as grandes empresas.
Entretanto, nesse momento, outros aplicativos regionais já haviam começado a disputar o mercado de Lajeado.
Investimento inicial foi de R$ 5 mil
O investimento inicial para colocar o Rota do Vale em funcionamento foi de aproximadamente R$ 5 mil.
Entretanto, os problemas tecnológicos e as mudanças de fornecedor atrasaram o retorno financeiro.
Segundo Edson, o aplicativo começou a conseguir pagar suas próprias despesas apenas em 2026.
Apesar disso, a operação ainda não proporciona lucro ao gestor.
“O aplicativo praticamente começou a se pagar este ano. Só que ele paga as contas, ainda não dá um retorno para nós”, explica.
Concorrência com Uber e 99 dificulta crescimento
Para Edson, uma das maiores dificuldades atuais é conquistar a confiança de passageiros e motoristas que já utilizam as grandes plataformas.
Segundo ele, Uber e 99 conseguem oferecer preços menores aos passageiros, o que torna a concorrência especialmente difícil para um aplicativo regional.
O gestor afirma que muitos passageiros recorrem ao Rota do Vale somente quando os preços das grandes plataformas aumentam em períodos de maior demanda.
A situação também afeta a adesão dos motoristas.
“Embora o Rota do Vale ofereça tarifas mais vantajosas, muitos condutores continuam priorizando os grandes aplicativos porque recebem mais solicitações”, lamenta Edson.
Passageiros e motoristas podem negociar o valor das corridas
Um dos diferenciais do Rota do Vale é a possibilidade de negociação do preço entre passageiro e motorista.
Segundo Edson, a funcionalidade permite que as duas partes cheguem a um acordo sobre o valor da viagem.
Para ele, isso contribui para reduzir cancelamentos.
O gestor explica que, quando o motorista aceita uma corrida pelo valor negociado, a tendência é que realize o atendimento.
“A proposta é dar maior autonomia aos condutores e, ao mesmo tempo, permitir que o passageiro encontre uma tarifa adequada às suas necessidades”, explica.
Plataforma tem 2,2 mil passageiros e mais de 200 motoristas
Atualmente, o Rota do Vale reúne aproximadamente 2.200 passageiros cadastrados e mais de 200 motoristas registrados.
Entretanto, o número de condutores efetivamente disponíveis é menor.
Segundo Edson, a plataforma costuma ter entre 20 e 30 motoristas online por dia.
O gestor reconhece que a quantidade de passageiros ainda é pequena em relação ao potencial do mercado regional.
Ele atribui parte dessa situação à perda de usuários durante as mudanças de tecnologia e à concorrência com plataformas maiores.
Rota do Vale realiza até 1.200 corridas por mês
Atualmente, o aplicativo registra uma média de aproximadamente 30 corridas por dia.
O volume mensal varia entre 900 e 1.200 viagens.
Segundo Edson, o Rota do Vale já teve um desempenho superior, chegando a realizar cerca de 70 corridas diárias, o equivalente a mais de 2 mil viagens por mês.
“A redução aconteceu em meio ao aumento da concorrência e às dificuldades para manter passageiros e motoristas utilizando a plataforma. A minha meta é recuperar o patamar de 70 corridas por dia”, diz.
Taxa cobrada dos motoristas é de 10%
O Rota do Vale cobra uma taxa de 10% sobre o valor das corridas.
A tarifa mínima é de R$ 10 e cobre uma distância de até 4 quilômetros.
Segundo Edson, o motorista costuma receber entre R$ 2 e R$ 3 por quilômetro rodado, dependendo da distância até o passageiro e do valor negociado.
O pagamento da taxa funciona por meio de uma carteira virtual, com possibilidade de saldo negativo até determinado limite.
Conforme realiza viagens, o motorista acumula o valor correspondente à taxa de 10%.
Ao atingir o limite negativo permitido, precisa realizar uma recarga para continuar recebendo solicitações.
“Também é possível adicionar saldo antecipadamente e deixar que os descontos sejam feitos conforme as viagens acontecem”, comenta.
Motorista chegou a faturar R$ 2,5 mil pelo aplicativo
O maior faturamento mensal registrado por um motorista no Rota do Vale foi de aproximadamente R$ 2,5 mil.
Edson explica que esse valor corresponde apenas às corridas realizadas pela plataforma regional.
Como muitos condutores utilizam simultaneamente outros aplicativos, o faturamento total desses profissionais pode ser maior.
‘Essa é uma das dificuldades do negócio: mesmo oferecendo tarifas melhores, nem sempre o app consegue manter os motoristas disponíveis para atender os passageiros”, conta o gestor.
Corridas têm valor médio próximo de R$ 20
Segundo Edson, boa parte das viagens solicitadas pelo Rota do Vale envolve deslocamentos relativamente longos.
Por isso, muitas corridas têm valores próximos de R$ 20.
Entretanto, também existem solicitações pela tarifa mínima de R$ 10.
O gestor estima que a receita mensal obtida pelo aplicativo com as taxas sobre corridas fique na faixa de R$ 1,2 mil.
Esse valor representa a receita da plataforma, não o faturamento bruto total dos motoristas.
Motoristas que captam passageiros para corridas particulares preocupam gestor
Uma das principais reclamações de Edson é o comportamento de condutores que se cadastram em aplicativos regionais apenas para conquistar novos passageiros.
Segundo ele, alguns profissionais utilizam a plataforma inicialmente, mas depois oferecem seus serviços diretamente ao cliente.
Na avaliação do gestor, essa prática prejudica a sustentabilidade financeira dos aplicativos menores.
“Tem muitos motoristas que entram na plataforma regional, mas não com a intenção de apoiar o aplicativo. Eles entram para captar passageiros para o particular”, afirma.
Edson ressalta que conhece essa realidade porque continua trabalhando como motorista e acompanha o comportamento dos profissionais no dia a dia.
Falta de união dos motoristas é a maior frustração
Ao comentar o que mais o incomoda no mercado, Edson não aponta apenas a concorrência com grandes empresas.
Para ele, a principal dificuldade é a falta de união dos próprios motoristas.
O gestor afirma que criou o Rota do Vale com o objetivo de oferecer uma alternativa às plataformas que, em sua avaliação, remuneram mal os condutores.
Entretanto, esperava encontrar maior apoio da categoria.
“A falta de união dos motoristas é o que mais me incomoda. Muitos profissionais reclamam dos valores oferecidos pelos aplicativos maiores, mas continuam priorizando essas empresas mesmo quando existem alternativas regionais”, declara.
Ele reconhece que a quantidade de solicitações é um fator importante para essa escolha, mas acredita que os motoristas poderiam contribuir mais para fortalecer os aplicativos locais.
“O motorista não tem noção da força que tem”
Um dos pontos mais enfatizados pelo gestor durante a entrevista foi a capacidade dos próprios motoristas de influenciar o mercado.
Edson afirma que acompanha reclamações frequentes em grupos de WhatsApp sobre as tarifas praticadas pelas grandes plataformas.
Na avaliação dele, a categoria poderia fortalecer os aplicativos regionais ao utilizar essas alternativas com maior frequência.
“Infelizmente, o motorista não tem noção da força que ele tem”, afirma.
Segundo Edson, os condutores são fundamentais para o funcionamento de qualquer plataforma, independentemente de seu tamanho.
“Quem faz o negócio andar são eles”, acrescenta.
Ele defende que o crescimento dos aplicativos regionais poderia diminuir a dependência dos profissionais em relação às grandes empresas.
Gestor admite possibilidade de encerrar operação
Apesar de continuar administrando o Rota do Vale, Edson reconhece que o desgaste acumulado ao longo dos anos colocou em dúvida a continuidade do projeto.
Segundo ele, as mudanças tecnológicas, a perda de usuários, a concorrência e a dificuldade para conquistar o apoio dos motoristas levaram a operação a uma situação delicada.
Durante a entrevista, o gestor afirmou que o aplicativo poderia até deixar de funcionar em pouco tempo, caso não conseguisse superar os problemas.
Edson afirma que ainda gostaria de recuperar o volume de corridas e consolidar o aplicativo na região.
Tecnologia atual é positiva
Depois de duas experiências negativas com fornecedores anteriores, o Rota do Vale passou a utilizar outra tecnologia.
Edson avalia positivamente o sistema atual e afirma que a plataforma atende às necessidades da operação.
Segundo ele, a evolução tecnológica foi significativa.
“A gente saiu de um Fusca e tem uma Ferrari hoje”, compara.
Apesar da melhoria, o gestor afirma que ainda encontra dificuldades para convencer os motoristas a utilizar o aplicativo regional com mais frequência.
Na avaliação dele, a tecnologia já não é o principal obstáculo para o crescimento da plataforma.
Competir com os preços das grandes plataformas é um desafio
Edson acredita que o preço é uma das principais estratégias utilizadas por Uber e 99 para conquistar passageiros.
Entretanto, afirma que os motoristas demonstram resistência quando o Rota do Vale tenta trabalhar com valores semelhantes aos praticados pelas grandes plataformas.
Segundo o gestor, existem situações em que um condutor aceita uma viagem de R$ 5 em um aplicativo grande, mas considera insuficiente uma corrida de R$ 10 oferecida pela plataforma regional.
Para ele, essa diferença de comportamento dificulta a construção de uma alternativa competitiva.
A situação mostra que, além da tecnologia e da divulgação, os aplicativos locais enfrentam o desafio de conquistar a confiança e a participação constante dos motoristas.
Futuro dos regionais preocupa gestor
Questionado sobre o futuro dos aplicativos regionais, Edson demonstrou preocupação com a sobrevivência das empresas menores.
Para ele, a falta de parceria entre gestores e motoristas pode impedir que muitas plataformas consigam crescer.
O gestor acredita que aplicativos regionais podem continuar enfrentando dificuldades enquanto os profissionais mantiverem sua preferência quase exclusiva pelas grandes empresas.
“A sobrevivência dependerá da capacidade de reunir motoristas, passageiros e gestores em torno de uma proposta sustentável. Salve-se quem puder”, resumiu.
Legado é ter construído uma marca conhecida na cidade
Mesmo diante das dificuldades, Edson reconhece que o Rota do Vale conseguiu construir uma identidade na região.
Ele conta que, quando estaciona um carro adesivado com a marca do aplicativo, moradores frequentemente reconhecem a empresa.
Para o gestor, esse reconhecimento é um resultado importante depois de tantos anos de trabalho.
Seu desejo é que os passageiros enxerguem no Rota do Vale uma alternativa local com qualidade semelhante à oferecida pelas grandes plataformas.
“Eu gostaria muito que, quando os passageiros abrissem o celular, lembrassem do nome Rota do Vale”, afirma.
Embora o futuro da operação ainda seja incerto, Edson destaca que o projeto nasceu para oferecer melhores condições de trabalho aos motoristas e mostrar que uma plataforma regional pode atender às necessidades da própria comunidade.
