O que começou como uma tentativa de atender à demanda de entregas de uma loja de conveniência se transformou em uma plataforma que realiza entre 12 mil e 14 mil entregas por mês em Balneário Camboriú (SC). Fundado por Walace Costa, de 37 anos, e Cristian Anderson dos Santos, de 37, o Tião da Moto reúne 115 entregadores ativos na cidade e atende entre 150 e 200 estabelecimentos.
A trajetória da empresa começou antes do desenvolvimento do aplicativo, quando Walace se mudou de Londrina (PR) para Balneário Camboriú com o objetivo de expandir seu negócio no setor de conveniência.
Filho de um mecânico que abriu uma empresa de máquinas pesadas, Walace cresceu acompanhando o trabalho do pai. Antes de empreender por conta própria, atuou na empresa familiar até os 25 anos. Também trabalhou como professor de graduação, ministrando disciplinas relacionadas à administração, logística e gestão financeira.
Sua trajetória empresarial passou pelo comércio de tabaco e pelo setor de conveniência, além de negócios nas áreas de seguros e tecnologia.
“O negócio da minha família é um negócio de máquinas pesadas. Trabalhei muito tempo com o meu pai, até os 25 anos, até que os meus negócios me impossibilitaram de trabalhar com ele”, conta Walace.
Ao chegar ao litoral catarinense, o empresário recebeu um convite para participar da operação de uma plataforma de delivery de bebidas. Embora já tivesse experiência na administração de negócios, ainda não conhecia o funcionamento do setor de entregas.
Foi por indicação de um vizinho que conheceu Cristian, que já trabalhava com distribuição de mercadorias na região.
Da experiência nas ruas à sociedade
Natural do extremo oeste de Santa Catarina, Cristian passou por diferentes atividades profissionais antes de se dedicar ao transporte de mercadorias. Entre elas, trabalhou como servente de pedreiro, executivo de vendas e em eventos.
Ele afirma que atua no setor de entregas desde 2012 e que participou das primeiras operações de distribuição de encomendas de comércio eletrônico em Balneário Camboriú.
“Quando ninguém pensava em fazer esse tipo de delivery, eu tinha o meu carro, tinha a minha moto e ia fazer esse serviço”, recorda.
A experiência permitiu que Cristian desenvolvesse métodos próprios de organização e precificação das entregas. Essa atuação chamou a atenção de Walace, que o convidou para trabalhar na operação da loja de conveniência. “O Cristian foi meu primeiro entregador”, lembra Walace.
O início da parceria teve um volume reduzido de pedidos. Segundo os fundadores, Cristian recebeu R$ 7 no primeiro dia e R$ 28 no segundo. Com o aumento da demanda, a quantidade de entregas também cresceu. “Teve semana que eu cheguei a fazer 315 entregas”, afirma Cristian.
Depois de um período trabalhando juntos, os dois seguiram caminhos profissionais diferentes. Cristian voltou a atuar por conta própria, enquanto Walace passou a estudar a possibilidade de criar uma plataforma de entregas.
Quando decidiram retomar a parceria, Walace convidou Cristian para participar do novo negócio como sócio. Inicialmente, ele recusou a proposta devido a experiências anteriores com sociedades empresariais.
“Eu já tinha tido problema em sociedade com outras pessoas. Trabalhar em sociedade é complicado”, explica Cristian.
Após novas conversas, os dois decidiram desenvolver o projeto em conjunto. Walace assumiu principalmente as atividades relacionadas à tecnologia e à administração, enquanto Cristian passou a concentrar sua atuação na operação de entregas e no relacionamento com os profissionais.
Tião da Moto começou com investimento de R$ 3 mil
O Tião da Moto foi criado com um investimento inicial de aproximadamente R$ 3 mil, destinado à contratação do sistema utilizado pela plataforma.
O nome surgiu durante uma reunião entre os fundadores. Segundo Walace, a escolha faz referência ao seu pai, Sebastião, e à proposta de estabelecer uma identificação com os entregadores.
No início, a empresa aproveitou parte da estrutura de entregas que já atendia à loja de conveniência. A intenção era organizar uma base de profissionais que pudesse atender à demanda da loja e, ao mesmo tempo, prestar serviços para outros estabelecimentos. No entanto, o crescimento da nova operação levou os fundadores a separar a administração das duas empresas.
Os primeiros clientes do aplicativo foram estabelecimentos que já utilizavam os serviços de Cristian, principalmente farmácias. Paralelamente, Walace começou a visitar comerciantes para apresentar a plataforma e conquistar novos contratos.
Uma dessas negociações resultou na contratação do serviço por um estabelecimento que precisava de entregas durante a madrugada. Segundo os sócios, o atendimento nesse período contribuiu para ampliar a operação. “Vocês me atenderam na madrugada, então eu vou dar 100% do trabalho”, relata Cristian, ao reproduzir a fala do cliente.
Inicialmente, os fundadores pretendiam concentrar a operação no atendimento a farmácias, por considerarem esse tipo de entrega mais previsível. O setor de alimentação não estava entre as prioridades devido ao volume de pedidos e às exigências operacionais.
Com o passar do tempo, porém, restaurantes e outros estabelecimentos de alimentação passaram a representar a principal demanda do aplicativo.
A empresa também adotou uma estratégia de crescimento baseada na indicação de lojistas e entregadores, sem investimentos expressivos em campanhas publicitárias, segundo os fundadores.
Plataforma realiza até 14 mil entregas por mês
Atualmente, o Tião da Moto atende entre 150 e 200 estabelecimentos em Balneário Camboriú, com volume mensal de aproximadamente 12 mil a 14 mil entregas.
A operação conta com 115 entregadores ativos na cidade. Segundo Cristian, há ainda cerca de 2 mil profissionais cadastrados aguardando liberação para trabalhar pela plataforma.
Os fundadores afirmam que a quantidade de novos entregadores é definida de acordo com a demanda dos estabelecimentos, para evitar um número de profissionais superior ao volume de serviços disponíveis.
“Não faz sentido ter poucas lojas e mais entregadores do que serviço disponível”, explica Cristian.
A taxa mínima cobrada pela plataforma é de aproximadamente R$ 7,50 para percursos de até 2 quilômetros. De acordo com Walace, o tíquete médio das entregas é de R$ 10,50, embora existam condições comerciais específicas para determinados clientes.
Além dos estabelecimentos de alimentação e das farmácias, a empresa afirma que já realizou entregas de diferentes tipos de mercadorias, incluindo equipamentos de mobilidade e materiais destinados a exames laboratoriais.
Entregadores podem solicitar saques pela plataforma
Uma das funcionalidades adotadas pelo Tião da Moto é a possibilidade de os entregadores solicitarem o saque dos valores recebidos pelas entregas sem depender de repasses manuais da empresa.
Segundo os fundadores, a ferramenta foi uma das primeiras soluções tecnológicas contratadas para a operação.
“Nós abrimos o aplicativo prometendo aos entregadores que, uma hora depois de terminar a entrega, eles já poderiam sacar o dinheiro”, conta Walace.
Cristian explica que os profissionais podem solicitar retiradas a qualquer momento, por meio de uma integração com o sistema de pagamentos. A operação está sujeita à cobrança de uma taxa pela instituição financeira.
“A gente acredita que não é justo ficar com um dinheiro que não é nosso. O entregador trabalhou e tem direito de receber aquele dinheiro a qualquer momento”, afirma Cristian.
De acordo com os gestores, entregadores que utilizam bicicletas chegam a registrar faturamento mensal entre R$ 3,5 mil e R$ 4 mil. Entre motociclistas que se dedicam integralmente à plataforma, os valores informados variam de R$ 6 mil a R$ 8 mil por mês.
Durante a alta temporada, os fundadores relatam casos de motociclistas com faturamento mensal entre R$ 10 mil e R$ 12 mil.
Os valores são apresentados pela empresa como faturamento dos profissionais e não representam, necessariamente, a renda líquida após despesas com combustível, manutenção, equipamentos e outros custos de trabalho.
Desafios e premiações fazem parte da operação
Além da remuneração por entrega, o Tião da Moto utiliza campanhas de incentivo para estimular a disponibilidade de profissionais em períodos de maior demanda.
Entre as iniciativas estão desafios vinculados à quantidade de entregas realizadas, campanhas em dias de chuva, feriados e eventos especiais, além de um sistema de pontuação.
Nesse modelo, cada entrega gera pontos para o profissional. Em situações de maior demanda, como períodos de chuva, a pontuação pode ser multiplicada.
Ao final do mês, os entregadores com maior pontuação recebem premiações. Segundo Walace, durante a alta temporada, o primeiro colocado pode receber R$ 1 mil, enquanto os demais premiados recebem valores definidos de acordo com a classificação.
A empresa também desenvolve ações em parceria com estabelecimentos comerciais, que oferecem produtos ou benefícios aos profissionais com maior número de entregas realizadas para suas lojas.
Expansão para Itajaí e Camboriú aposta em parcerias com entregadores
Após desenvolver a operação em Balneário Camboriú, o Tião da Moto iniciou a expansão para os municípios vizinhos de Itajaí e Camboriú.
O modelo adotado prevê a participação de entregadores que já atuavam na plataforma e demonstraram interesse em assumir responsabilidades na gestão das novas operações.
Segundo os fundadores, esses profissionais passam a atuar em parceria com a empresa, participando dos resultados obtidos em cada município.
“Eu não quero ser dono de 100% de algo que não roda. Prefiro ser dono de 50% de algo muito bom do que ser dono de tudo e aquilo não valer nada”, afirma Walace.
Em Itajaí, a presença de estabelecimentos que já eram clientes da empresa em Balneário Camboriú facilitou o início das atividades, de acordo com os gestores.
Já em Camboriú, a expansão exige um trabalho maior de prospecção comercial, com visitas a estabelecimentos e apresentação dos serviços.
A expectativa informada por Walace é ampliar o volume de entregas com a entrada nos novos municípios, embora os fundadores não tenham apresentado um cronograma fechado para as próximas etapas de crescimento.
Clima e sazonalidade estão entre os desafios
A localização da empresa no litoral catarinense influencia diretamente a operação. Segundo os gestores, a alta temporada aumenta a demanda por entregas, mas também exige a ampliação da disponibilidade de profissionais.
As chuvas intensas e os alagamentos são apontados como outros desafios para o funcionamento do serviço. De acordo com Walace, em períodos chuvosos, a procura por delivery tende a aumentar, enquanto parte dos entregadores opta por não trabalhar devido às condições climáticas.
Os fundadores também relatam dificuldades provocadas por falhas em sistemas tecnológicos utilizados pela operação. Em uma dessas situações, a equipe precisou organizar pedidos e entregadores por canais alternativos de comunicação até o restabelecimento dos serviços.
Para Walace, a capacidade de atendimento e resolução de problemas é um dos fatores que podem diferenciar plataformas regionais de empresas com atuação nacional. “O aplicativo regional vende proximidade e solução de problemas”, afirma.
Segundo ele, a possibilidade de contato direto entre entregadores, gestores e estabelecimentos contribui para a organização das atividades e para a resolução de ocorrências durante as entregas.
Fundadores querem crescer mantendo a relação com os entregadores
Mais de três anos após a criação da plataforma, Walace e Cristian afirmam que pretendem continuar expandindo o Tião da Moto por meio de parcerias regionais.
Para Walace, o compromisso com os estabelecimentos e a continuidade dos relacionamentos comerciais são fatores importantes para a operação.
Cristian, por sua vez, destaca a trajetória dos entregadores que passaram a assumir novas responsabilidades dentro da empresa. “Quando você vê alguém evoluindo junto com a empresa, isso é muito gratificante”, afirma.
Os dois também relacionam o crescimento do negócio às oportunidades de desenvolvimento profissional e financeiro dos participantes da operação. “Não adianta só eu crescer”, resume Walace.
Para Cristian, uma das mudanças proporcionadas pela trajetória profissional foi a possibilidade de reorganizar sua rotina e dedicar mais tempo à família.
“Hoje eu não trabalho de manhã. As minhas manhãs são dedicadas ao meu filho. Minha esposa trabalha nesse período e eu fico com ele. Para mim, isso vale muito mais do que qualquer outra conquista financeira”, conclui.
