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“Rezar para chover” virou estratégia: em Santos, motoristas de app enfrentam tarifas baixas e longas jornadas

Com jornadas de até 14 horas, corridas a R$ 6 e falta de canais de escuta, motoristas da Baixada Santista denunciam desvalorização, insegurança e a ausência de categorias premium como a Uber Black.

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Reportagem
Apuração aprofundada sobre um tema específico, com múltiplas fontes e contextualização completa.
Vista panorâmica da orla de Santos, com praia extensa, mar calmo e diversos prédios residenciais e comerciais alinhados à beira-mar.
Foto: Reprodução/Internet

Em uma cidade turística e portuária como Santos, onde a movimentação de pessoas é intensa e as necessidades de deslocamento variam entre moradores, turistas, estudantes e trabalhadores que circulam pela Baixada Santista ou seguem diariamente para São Paulo, os aplicativos de transporte se tornaram parte essencial da rotina. Mas, por trás da promessa de praticidade e rapidez, tanto motoristas quanto passageiros relatam dificuldades que vão desde tarifas cada vez mais baixas até problemas de segurança e falta de opções de serviço.

Para entender melhor essa realidade, o 55content conversou com motoristas e usuários da região, além de ouvir a Secretaria de Comunicação e Economia Criativa da Prefeitura de Santos, responsável por se posicionar sobre a ausência de regulamentação específica para o setor no município.

Victor Santos: “Em Santos a gente roda muito para ganhar pouco mais de R$ 300”

Aos 46 anos, Victor Santos está prestes a completar cinco anos como motorista de aplicativo em Santos. Sua trajetória começou em 2021, logo após ser desligado de uma empresa onde trabalhou por 13 anos como analista de suporte. A demissão coincidiu com a pandemia, mas ele tinha uma carta na manga: um Gol 2014 quitado. “Pensei: vou tirar de letra. Meu medo era: será que vou conseguir sustentar minha família só com aplicativo? Não tinha ideia de quanto dava para ganhar. Mas logo vi que era possível”, lembra.

Sem referências locais, Victor buscou aprendizado por conta própria. “Fui atrás de vídeos de outros motoristas, como o Daniel, Rafael (Uber do Chefe), o Fernando Floripa, o Guto Machado, o Ian… todos de fora da região. Aqui em Santos não tinha ninguém que passasse esse tipo de orientação. Então adaptei o que eles ensinavam para a nossa realidade.”

Depois de um ano com o Gol, decidiu investir em um carro maior para atender corridas de aeroporto. Comprou um Versa 2022 zero quilômetro, rodou com ele por quase três anos e acumulou 240 mil km. Mas um acidente resultou em perda total do veículo. Em dezembro de 2024, realizou um sonho antigo: comprou um Corolla, que hoje utiliza nas categorias Comfort e X. “É como rodar no Black, mas aqui em Santos não tem essa categoria, mesmo havendo demanda. Muitos passageiros entram no carro e dizem: ‘Nossa, é Black!’, mas a Uber não coloca o Black na cidade”, conta, sem esconder a frustração.

Rotina puxada em quatro turnos

Victor organiza sua jornada de forma rígida, em blocos que acompanham os horários de maior movimento:

  • 5h às 9h/9h30 – início da manhã, quando há grande saída de moradores para São Paulo.
  • 11h às 13h30/14h – estudantes e trabalhadores que circulam na hora do almoço.
  • 16h15 às 20h – o pico mais forte, no fim da tarde.
  • 22h em diante – saída de shoppings e faculdades, quando o fluxo aumenta novamente.

Na prática, isso significa trabalhar cerca de 14 horas por dia. “É bastante. A cidade é pequena, mas a gente roda muito. Já finalizei o dia com 300 km rodados para fazer pouco mais de R$ 300. Para bater a meta de R$ 400, às vezes rodo 310 km”, relata.

Hoje, com o Corolla híbrido, conseguiu reduzir quase pela metade o gasto com combustível: de R$ 150 por dia no Versa para R$ 70 a R$ 80 atualmente. “Muita gente acha que é caro comprar um Corolla, mas só com a economia do combustível já pago metade da prestação”, explica.

Seletividade para não cair na armadilha das corridas ruins

Assim como outros colegas, Victor aprendeu que não dá para aceitar tudo o que aparece no aplicativo. “Antigamente, por medo de perder categoria, eu aceitava corrida de R$ 7, R$ 8, só para manter Platina ou Diamante. Hoje, só pego corridas acima de R$ 2 por km e que rendam mais de R$ 50 por hora. Prefiro esperar do que rodar para perder dinheiro.”

Mesmo assim, ele reconhece que o concorrente das motos — o chamado ‘Moto Uber’ — complicou a situação na região. Em trajetos como Santos–Praia Grande ou Santos–Cubatão, que antes garantiam retorno rápido, hoje o motorista pode esperar até 50 minutos por uma corrida de volta. “O pessoal de Praia Grande usa muito mototáxi. É mais barato e rápido, mas bem menos seguro”, alerta.

Entre corridas particulares e o sonho do “app ideal”

A média de Victor é de 250 a 270 km por dia, raramente ultrapassando os 300 km, exceto em viagens mais longas. Com isso, consegue entre R$ 400 e R$ 420 diários, valor que considera razoável. Nos últimos anos, ele também conseguiu formar uma cartela de clientes particulares, conquistados pelo bom atendimento e pelas conversas no carro. “Tem semana que nem ligo o aplicativo, só faço particular. Nesses casos, fico com 100% do lucro. Isso faz toda diferença.”

Quando perguntado sobre o que espera de um novo aplicativo, Victor é direto: “Valores melhores”. Para ele, a cidade já tem demanda suficiente para suportar opções que realmente valorizem o motorista e tragam categorias como a Black.

“Os aplicativos não nos escutam”

Se a quilometragem alta e a tarifa mínima baixa já são obstáculos para os motoristas em Santos, para Victor Santos o problema mais grave é a falta de voz dentro das plataformas. Ele relata situações em que o motorista é responsabilizado até por escolhas feitas pelo passageiro. “Ontem mesmo, rodando pela Uber no Comfort, recebi um feedback de que o local de desembarque era inseguro. Mas quem escolhe o local é o passageiro, não eu. Eu parei exatamente onde ele pediu. Mesmo assim, sou penalizado e não tenho direito de resposta. Só motoristas Platina ou Diamante podem contestar, eu que estou no Azul não posso. É muito complicado.”

A dificuldade em conseguir contato humano também o incomoda. “Até para falar com o robô do suporte é difícil. Não existe uma pessoa física para ouvir o motorista.” Por isso, muitos recorrem a câmeras dentro do carro, não apenas por segurança contra assaltos, mas para preservar a própria conta de injustiças.

Na visão de Victor, um novo aplicativo deveria oferecer exatamente o que falta hoje: tarifas melhores, valorização do motorista e canais de escuta reais. “Quem faz a máquina girar somos nós. Colocamos o carro, o telefone, a internet, tudo. Os aplicativos deveriam retribuir com mais benefícios. Planos de celular mais baratos, descontos em manutenção ou em concessionárias. Hoje, quem consegue isso são alguns influenciadores, indiretamente. Mas deveria vir dos próprios apps.”

Outro ponto que ele considera essencial seria a implantação da categoria Black em Santos. “Vejo carros elétricos como o Dolphin, SUVs como o Kicks rodando por aqui. Existe público para um serviço premium. Mas em vez disso, vemos até carros precários liberados no Comfort. Não faz sentido.”

Entre 20 e 25 corridas por dia — sempre com seletividade

Na prática, Victor faz em média 20 a 25 corridas por dia, sempre priorizando qualidade ao invés de volume. “Segunda-feira fiz 18 viagens e fechei R$ 436. Na terça, foram 16 viagens e fiz R$ 369. Veja a diferença: quase R$ 100 a menos só por duas corridas.”

As jornadas variam entre 9 e 13 horas de trabalho, e ele insiste em manter a seletividade: “Conheço gente que faz 30, 40 corridas, mas aceitando qualquer coisa. Eu desencanei de Platina e Diamante. Só aceito o que vale a pena.”

Disciplina, carro próprio e a dificuldade do aluguel

Victor é direto ao dizer que não recomenda a vida de motorista a qualquer um. “Hoje não dá para chegar e falar para alguém: ‘Vai para o aplicativo que vai viver disso’. Antes, talvez desse. Agora só dá certo para quem tem disciplina, constância e cabeça no lugar. É rotina pesada: 13 ou 14 horas na rua.”

Ele ressalta que ter carro próprio faz toda a diferença. “Fiquei três meses com carro alugado, esperando o seguro. Era inviável. Segunda, terça e quarta eu trabalhava só para pagar o aluguel. O lucro vinha na quinta, sexta e sábado. Não sei como o pessoal fecha a conta rodando alugado.”

O olhar sobre os passageiros e a fidelização

Na comparação entre plataformas, Victor nota uma diferença de perfil: “O público da 99 é outro. Parece que quem não consegue corrida na Uber acaba indo para lá.” De modo geral, considera os passageiros de Santos tranquilos, mas lembra que o atendimento depende muito mais do motorista do que do cliente.

“Desde o tempo do Gol sempre trabalhei com ar-condicionado ligado. Isso pesa no custo, mas faz diferença. Muitos elogiam. Com o tempo, fui conquistando clientes fixos. Hoje tem gente que nem pergunta preço, só me liga pedindo corrida particular. Essa fidelização vem do cuidado: higiene, conforto, respeito. Não precisa mimar com água e bala como antigamente, mas o carro é o nosso escritório. Se não cuida nem para si, como vai cuidar para os passageiros?”

Santos e a comparação com outras cidades

Na visão de Victor, Santos é um paradoxo: uma cidade rica, cara para se viver, mas que paga pouco no aplicativo. “Comparado às vizinhas, até é melhor. Em São Vicente e Praia Grande, a tarifa chega a ser R$ 1 por minuto, sem pagar por km. É muito complicado. Mas mesmo em Santos, as tarifas precisariam ser melhores. Enquanto não houver pressão, nada vai mudar.”

De vez em quando, Victor roda em São Paulo, onde seu carro é aceito na categoria Black e os ganhos são mais altos. “Quando tenho cliente para buscar, aproveito e rodo um pouco por lá. O retorno é muito melhor.”

Contra a moto: “Não deixo meus filhos usarem”

Com a crescente popularidade dos mototáxis por aplicativo na Baixada Santista, Victor é categórico ao rejeitar essa alternativa. “Não, Deus me livre. Trabalhei de moto dos 18 aos 22 anos. Era só perrengue: chuva, acidente, insegurança. Aqui em Praia Grande praticamente todo dia tem acidente com moto de app. No fim, a culpa sempre cai no piloto, nunca na plataforma.”

A rejeição é tão grande que ele não permite que os filhos utilizem o serviço. “Minha filha pegou uma vez e eu disse: nunca mais. Esses jovens tiram a carteira com 18 anos, alugam moto e pilotam como se estivessem entregando pizza, mas com passageiro atrás. Não tem responsabilidade. É perigoso demais.”

Para Victor, a moto pode até ser uma opção para quem não tem condições de ter carro, mas exige responsabilidade que nem sempre está presente. “O sol brilha para todos, mas é preciso muito cuidado.”

Ramon Temístocles: “Em Santos ainda vale a pena, mas só com disciplina e corridas particulares”

Em Santos, Ramon Temístocles divide sua rotina entre os principais aplicativos, equilibrando as horas trabalhadas e as promoções oferecidas pelas plataformas. “Eu costumo rodar nos dois (Uber e 99), meio a meio. Assim, mantenho as taxas boas e não perco acesso às promoções”, explica.

Seu dia de trabalho segue uma escala organizada: começa cedo, por volta das 6h da manhã até 10h30. Depois faz uma pausa para descansar, retorna ao volante entre 12h e 13h30, descansa novamente e finaliza o turno entre 17h e 20h, aproveitando o horário de pico.

Embora não seja obcecado por quilometragem, Ramon calcula que percorre em média 200 a 210 km por dia, rodando apenas pela Baixada Santista. O custo com combustível fica em torno de R$ 70 por dia de etanol, e sua meta é clara: lucro líquido de R$ 350 por dia, valor que considera suficiente para manter suas despesas em ordem.

O que mais o incomoda nas plataformas é a queda dos valores pagos por corrida. “Os preços ficam cada vez mais baixos. Um novo aplicativo teria que trazer algo diferente, com ganhos mais justos para os motoristas”, defende.

Quando fala dos passageiros, Ramon reconhece que existem os dois extremos. “Tem parceiro bom e tem parceiro ruim, como em qualquer lugar. Mas ultimamente está difícil. O motorista da Baixada tem aceitado qualquer tipo de corrida, e isso desvaloriza nossa classe.”

Apesar das dificuldades, ele acredita que ainda vale a pena ser motorista de aplicativo em Santos, desde que haja disciplina e inteligência na forma de trabalhar. Para ele, uma das principais estratégias é cativar passageiros para corridas particulares, onde o motorista fica com 100% do valor. “Se você consegue fidelizar passageiros e trazer para o particular, o lucro aumenta bastante. É aí que está a diferença.”

Vinícius Mesquita Santos Silva: “Aqui na Baixada Santista a gente roda muito e ganha pouco”

Com 26 anos, morador da Baixada Santista, Vinícius Mesquita Santos Silva encontrou nos aplicativos de transporte sua principal fonte de renda. Atualmente, ele atua exclusivamente pela 99, modelo que considera o mais viável no momento. Sua rotina é intensa: trabalha em média 10 a 11 horas por dia, rodando entre 134 e 150 km. O custo com combustível, sempre no etanol, fica em torno de R$ 70 a R$ 80 por dia.

O esforço, no entanto, nem sempre é recompensado. Seu faturamento diário varia entre R$ 250 e R$ 350, podendo chegar a R$ 350 em dias melhores, mas muitas vezes caindo para R$ 250. Para equilibrar as contas, precisa manter uma disciplina rígida e uma meta de ganhos, ainda que nem sempre consiga atingi-la. “Está bem complicado ser motorista aqui na Baixada. Entra mês, entra ano, e só piora. A gente reza para chover, porque aí o aplicativo valoriza um pouco mais. Mas quando chove, a cidade alaga, tem buracos por todo lado, e fica difícil trabalhar”, desabafa.

Tarifas baixas e falta de valorização

O que mais incomoda Vinícius nos aplicativos é a desvalorização do trabalho dos motoristas. “Os preços estão muito baixos, é um absurdo. Você vê corrida de R$ 6,00 ou R$ 7,00, que não pagam nem o combustível, nem a troca de óleo, nem a manutenção. E o passageiro ainda brinca dizendo que está mais barato andar de Uber do que de ônibus.”

Ele explica que esse cenário não apenas reduz os ganhos, mas também cria um risco constante de endividamento. “A manutenção aqui na Baixada vem rápido, porque a gente roda bastante. Às vezes, quando aparece uma manutenção inesperada, você não tem o dinheiro nem o cartão para pagar. Aí acaba se enrolando, se endividando, e mesmo assim precisa estar na rua, porque é dali que vem o pão de cada dia.”

Seletividade e corridas particulares

No dia a dia, Vinícius realiza entre 12 e 15 corridas por dia. Ele faz questão de ser seletivo: não aceita qualquer viagem, apenas aquelas que garantem pelo menos R$ 2 por km. “Não adianta aceitar corrida que paga menos do que o combustível. A conta não fecha.”

Ainda assim, admite que a disputa por passageiros na Baixada Santista é acirrada e força muitos motoristas a aceitar qualquer chamada. Para driblar esse cenário, ele aposta em corridas particulares.

Conflitos com plataformas e a busca por apoio

Vinícius também enfrenta problemas com as próprias empresas de tecnologia. Ele relata que foi acusado pela Uber de fazer corridas por fora da plataforma, algo que nega veementemente. “Sempre tive cuidado para não correr esse risco, porque dependo do aplicativo. Mesmo assim, me bloquearam. Fiquei quatro meses parado, entrei com uma advogada e consegui voltar. Só que depois a Uber voltou atrás e me bloqueou de novo, dizendo a mesma coisa. Está em processo há um mês e até agora não tive resposta.”

Para ele, essa falta de diálogo é o retrato do desamparo dos motoristas na Baixada. “A plataforma não nos escuta, não dá a mínima. Nós colocamos carro, telefone, internet… tudo do nosso bolso. E no fim, parece que não temos valor nenhum para eles.”

O que esperar de um novo app

Quando pensa em alternativas, Vinícius é enfático: um novo aplicativo precisa trazer valores justos e mais valorização para os motoristas. Ele defende também benefícios concretos, como descontos em telefonia, parcerias com concessionárias e lojas de automóveis, além de apoio em custos de manutenção. “Hoje, alguns influenciadores conseguem esses benefícios e repassam para a categoria. Mas quem deveria oferecer isso são os próprios aplicativos.”

“Não troquem o certo pelo duvidoso”

Apesar das dificuldades, Vinícius acredita que ainda é possível viver do aplicativo na Baixada Santista, mas não sem sacrifício. “Precisa ter constância, trabalhar nos horários de pico, manter uma rotina. Não dá para pensar que vai ser ‘meu carro, minhas regras’. Se você começar às 9h, não vai ganhar bem, a não ser que vá até meia-noite. É muito difícil.”

Ele também faz questão de alertar quem pensa em entrar para o setor: “Hoje, a pessoa tem que pensar muito antes de largar um emprego de carteira assinada para rodar em aplicativo aqui na Baixada. Se for para renda extra, ainda vai. Mas para viver só disso, é complicado.”

Para Vinícius, a vida de motorista de aplicativo é uma batalha diária contra tarifas baixas, custos altos e a falta de apoio das plataformas. Mesmo assim, ele segue no volante, com a esperança de que um modelo mais justo e sustentável finalmente chegue à região.

“Você está em São Vicente, aí toca uma corrida para Santos por R$ 12. Não paga nada”

Além das longas jornadas e dos ganhos cada vez mais apertados, Vinícius relata outro desafio que tem se tornado rotina na Baixada Santista: a concorrência desleal e a falta de respaldo das plataformas diante dos problemas com passageiros.

Ele observa que o número de motoristas aumentou na região, em parte porque muita gente ficou desempregada e encontrou nos aplicativos uma forma de complementar a renda, mesmo já estando em empregos formais. “Aqui na Baixada está cheio de gente rodando de carro alugado. Fora os mototaxistas, que são mais baratos e acabam tirando passageiros da gente. Hoje é muito motorista para pouco passageiro. A gente fica horas e horas esperando uma corrida que realmente compense, mas muitas vezes só toca corrida horrível. Você está em São Vicente, aí toca uma corrida para Santos por R$ 12. Não paga combustível, não paga manutenção, não paga nada”, desabafa.

Outro ponto que o incomoda é a falta de regras claras para passageiros, que muitas vezes acabam prejudicando o motorista. “Tem passageiro que coloca ‘pagar depois’, mas usa isso de má-fé. A pessoa tem o dinheiro, mas escolhe essa opção só para não pagar. Já deu briga, já deu confusão. O aplicativo precisava rever isso e ser mais rígido. Além disso, tem passageiro que entra no carro sem dar nem bom dia, e às vezes ainda sai sujando ou danificando o veículo. A gente cuida, deixa tudo limpinho, impecável, porque é o nosso escritório. Mas no fim das contas, a plataforma não olha para esse lado.”

Diante desse cenário, Vinícius é categórico: hoje, rodar por Uber e 99 na Baixada não vale a pena. “É como a gente fala: você paga para trabalhar. As tarifas caíram para R$ 6, R$ 7, e não melhoram nunca. Se viesse um aplicativo novo, que pagasse um valor justo por quilômetro rodado, tivesse ganhos por hora e mais corridas, tenho certeza que muita gente aqui estaria satisfeita.”

Ainda assim, ele encontra alternativas para manter a renda. Quando consegue corridas particulares, fica com 100% do valor e garante um alívio no orçamento. Mas deixa um alerta para quem pensa em largar o emprego formal para viver apenas dos aplicativos: “Hoje, a pessoa tem que pensar muito antes de largar o serviço de carteira para rodar aqui na Baixada. Muita gente tentou, não aguentou e acabou devolvendo o carro, voltando para o CLT. É a nossa realidade: se não tiver disciplina, constância e cuidado, você não consegue fechar a meta e ainda se endivida.”

A visão do passageiro

Acostumada a utilizar os aplicativos de transporte no dia a dia, a santista Giovanna Nardoza afirma que a Uber ainda é sua escolha principal. “Prefiro a Uber. Já me acostumei a pedir direto lá e muitas vezes até esqueço que tenho o 99 no telefone”, conta.

Ela ressalta, no entanto, que a maior dificuldade está na falta de previsibilidade do serviço. “Já tive problemas em solicitar. Geralmente depende mais do horário do que da localização, porém ali na região da Conselheiro/Barão em horário de pico é bem complicado. Aqui mais pra Ponta da Praia às vezes complica pela manhã.”

Diante desses obstáculos, Giovanna admite que em algumas situações acabou recorrendo a motoristas particulares. “Todas as vezes que deixei de usar [Uber] foram porque, como o app é super imprevisível, contratei alguém particular para prestar o mesmo serviço”, explica.

Ela ainda pontua que, embora já tenha optado por táxi em algumas ocasiões — sobretudo quando os preços não estavam muito diferentes ou em momentos de pressa —, a adesão a um novo aplicativo não é algo que a atrai de imediato. “Não tenho muito o que me faria preferir um novo app. Os meus problemas relacionados com a imprevisibilidade devem persistir em todo tipo de plataforma”, avalia.

Entre a praticidade do app e o desejo por mais segurança para mulheres

Entre os passageiros de Santos, a estudante de Medicina Bruna Marola se destaca pelo olhar prático e direto sobre o uso dos aplicativos de transporte. Para ela, Uber e 99 são as opções mais confiáveis da região, tanto pela popularidade quanto pela facilidade de acesso. “São os mais utilizados aqui em Santos, e os dois funcionam muito bem. Normalmente consigo carro de forma rápida, sem dificuldade”, explica.

A proximidade entre os bairros da cidade, no entanto, influencia bastante em sua rotina. “Muitas vezes acabo deixando de usar aplicativo porque tudo em Santos é muito perto. Dá para resolver muita coisa a pé, e isso ajuda bastante”, afirma.

Quando pensa em melhorias, Bruna acredita que faria diferença a criação de uma plataforma voltada exclusivamente para mulheres. “Talvez um aplicativo de Uber Mulher, que tivesse a mesma rapidez e facilidade do Uber normal. Isso traria mais segurança e confiança.”

Apesar de recorrer quase sempre ao aplicativo, Bruna reconhece que em situações específicas escolhe alternativas. “Não costumo usar ônibus nem mototáxi. Normalmente peço Uber ou vou andando. O táxi só utilizo quando estou na rodoviária voltando para casa muito tarde — aí prefiro por conta da segurança.”

“O maior problema ainda é o tempo de espera”

Entre os jovens passageiros de Santos, Bruno Mantovani Neto tem na Uber seu aplicativo preferido. Ele admite, no entanto, que a experiência nem sempre é fluida. “O maior problema é o tempo de espera. Em dias de chuva ou nos horários de pico, entre 17h e 19h, fica bem complicado. Justamente nesses horários, que coincidem com a minha ida para a faculdade, é quando mais demora para conseguir um carro”, relata.

A imprevisibilidade já o fez optar por outras formas de transporte. “Quando demora muito para achar, ou o tempo de espera é muito longo, acabo indo de bicicleta ou mesmo a pé.”

Para Bruno, um novo aplicativo só faria sentido se resolvesse esse ponto específico. “Se tivesse uma plataforma que realmente diminuísse o tempo de espera, aí sim eu migraria.”

Ele também diversifica quando precisa: utiliza Uber Moto em várias situações e, em outros momentos, opta pelo ônibus, já que há um ponto em frente à sua casa que facilita deslocamentos frequentes.

O que diz a Prefeitura de Santos

Se em cidades como São Carlos já existe uma legislação municipal voltada para o transporte por aplicativos, em Santos a realidade é diferente. Em resposta ao 55content, a Secretaria de Comunicação e Economia Criativa da Prefeitura de Santos informou que, por enquanto, não há uma regulamentação específica para o transporte privado individual por aplicativos no município.

Segundo a prefeitura, a atuação dos motoristas segue apenas as regras estabelecidas pelo Código de Trânsito Brasileiro (CTB), sem normas adicionais locais que tratem de questões como taxas, fiscalização ou exigências específicas para motoristas e veículos. Ainda assim, o poder público confirma que há um projeto de lei em tramitação na Câmara Municipal que busca regularizar a atividade, embora não tenha detalhado prazos para sua votação ou implementação.

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Giulia Lang

Giulia Lang é líder de conteúdo do 55content e graduada em jornalismo pela Fundação Cásper Líbero.

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