O transporte por aplicativo, que já foi sinônimo de liberdade e ganhos rápidos, enfrenta uma realidade contraditória em Osasco (SP). O município, sétimo maior PIB do Brasil e segundo do Estado de São Paulo, respira dinamismo econômico com suas indústrias, comércio e grandes empresas como o Bradesco. A demanda por corridas é alta, mas os motoristas relatam jornadas exaustivas, queda no valor dos repasses e regras cada vez mais duras impostas pelas plataformas.
Para entender como esse cenário afeta quem está no dia a dia das ruas, o 55content conversou com motoristas de Osasco — Adriano Brito, Alberto Soares de Lima e Fábio Silva — além de ouvir a voz de passageiros e a posição do poder público, representado pela Secretaria de Transportes e da Mobilidade Urbana (Setran) de Osasco. O resultado é um retrato de uma categoria que, embora rode em uma cidade com corridas abundantes, enfrenta uma luta constante por dignidade e melhores condições.
Adriano Brito: “Em Osasco tem corrida, mas é preciso inteligência para não pagar para trabalhar”
Morador e motorista de aplicativo em Osasco, Adriano Brito conhece como poucos as rotinas, os atalhos e as contradições de trabalhar em São Paulo. Ele roda pelas ruas da cidade e municípios vizinhos como Osasco, Carapicuíba, Barueri, Jandira, Alphaville e Itapevi, equilibrando ganhos, custos e promoções das plataformas. A trajetória dele escancara tanto as oportunidades quanto os limites do modelo atual.
Entre Uber, 99 e a experiência frustrada com a inDrive
Atualmente, Adriano divide sua rotina principalmente entre a 99 e a Uber. A primeira é a mais utilizada, porque oferece promoções semanais que, se bem aproveitadas, chegam a somar R$ 600 a mais no fim do período. “A 99 dá prioridade para quem prioriza ela. Quanto mais você roda, mais promoção aparece”, explica. A Uber, segundo ele, só se torna vantajosa em horários de pico, quando os valores pagos momentaneamente superam os da concorrente.
A inDrive, que já foi uma alternativa, praticamente desapareceu do cotidiano. “Aqui em Osasco é muito fraco. Quase não toca corrida. Já usei bastante, mas hoje em dia não compensa. Pouquíssima gente chama”, relata.
Carga horária, quilometragem e custos diários
A jornada de Adriano é pesada: varia de 10 a 13 horas por dia. Essa rotina se traduz em algo entre 190 e 280 km rodados diariamente, o que implica em um gasto de R$ 100 a R$ 130 por dia de combustível, circulando principalmente pela Zona Oeste e arredores. “Raramente fujo dessa faixa. Rodar menos que isso é quase impossível, e mais do que isso desgasta demais.”
A meta de R$ 400 por dia
Trabalhando apenas na região — sem se arriscar no trânsito mais pesado do centro expandido da capital — Adriano estabeleceu uma meta clara: R$ 400 por dia. “É o mínimo aceitável. Dá para viver dentro da minha realidade. Se consigo mais, ótimo. Mas abaixo disso não compensa. É a linha que tracei para equilibrar contas e rotina.”
Esse valor, segundo ele, ainda garante uma certa estabilidade. Mas o futuro preocupa: os custos aumentam, as plataformas repassam menos e o equilíbrio financeiro fica cada vez mais frágil.
O que incomoda nos apps
Quando fala dos aplicativos, Adriano aponta uma lista longa de problemas: baixa remuneração por hora e quilômetro, falta de transparência nos repasses, ausência de defesa para motoristas acusados injustamente e insegurança constante.
“A inDrive é disparada a pior em segurança. Qualquer um cria um perfil. A 99 e a Uber já implantaram o perfil verificado, o que ajuda. Mas ainda falta muita coisa: reajustes reais, feedbacks justos e autonomia de verdade. Dizem que somos autônomos, mas não temos controle nenhum”, critica.
O app ideal: transparência e justiça
Na visão de Adriano, um novo aplicativo precisaria reunir exatamente o que falta nas plataformas atuais: mais segurança, repasses justos, transparência, ganho por hora e quilômetro condizentes com a realidade e canais de atendimento eficientes para motoristas. Ele lembra que parte dessas melhorias está sendo discutida no Congresso, mas ressalta: “Enquanto não virar lei, continuamos expostos. Muitos abriram mão da CLT para trabalhar assim. Precisamos de garantias.”
Corridas, horários e seletividade
Na prática, Adriano realiza em média 23 a 33 corridas por dia. Mas já chegou a bater 47 viagens em um único dia, durante promoções da 99 que exigem corridas curtas em sequência. Pela Uber, o número costuma ser menor: 15 a 18 corridas diárias, reflexo do baixo incentivo oferecido na região.
Os horários mais movimentados são das 4h às 8h da manhã e, principalmente, das 16h30 às 20h30. No fim da tarde, quando os passageiros descem da estação central de Osasco e seguem para os bairros, os ganhos são melhores.
Os locais com maior demanda incluem bairros como Rochdale, Jardim Mutinga, Aliança, Jardim Canaã, Terra é Nossa e Piratininga, na Zona Norte, além de Bela Vista, Umuarama, Conceição, Santa Maria, Veloso, Padroeira e Jardim das Flores.
Sobre o perfil de aceitação, ele é claro: “Sou seletivo. Se não for assim, a conta não fecha. Só aceito tudo quando estou em promoção, porque aí compensa.”
Passageiros: entre a normalidade e os problemas em dinheiro
De modo geral, Adriano considera os passageiros de Osasco tranquilos. Mas destaca que os maiores problemas vêm dos pagamentos em dinheiro. “Muitos chamam corrida de R$ 7 ou R$ 15 e aparecem com nota de R$ 100. Fazem de propósito, para forçar Pix. É malandragem. Se você não ficar esperto, toma prejuízo.”
Um episódio marcante aconteceu quando pegou uma passageira no Shopping União, rumo a Carapicuíba. “No meio da viagem, ela exigiu uma parada não cadastrada. Recusei. Ela me xingou, me ofendeu, gravei tudo e depois postei no TikTok. Viralizou, passou de um milhão de visualizações.” Apesar disso, ele ressalta: os casos mais graves são minoria, mas exigem vigilância constante.
Vale a pena ser motorista em Osasco?
Adriano diz que sim, ainda vale a pena — mas com ressalvas. “Na minha realidade, compensa. Mas não dá estabilidade. Estou estudando, me qualificando, porque sei que o futuro pode não ser promissor. As corridas aumentaram 44% para o passageiro, mas nada mudou para a gente. A plataforma lucra, o motorista não.”
Segundo ele, só trocaria o volante por um emprego CLT se surgisse uma oportunidade sólida, com salário acima de R$ 3.500 e condições que oferecessem dignidade e prazer no trabalho.
Corridas em abundância, mas concorrência acirrada
Se em cidades menores motoristas reclamam da falta de chamadas, em Osasco a realidade é outra. “Aqui tem muita corrida. Não sobra motorista, não. A cidade é enorme, sétima do Brasil em PIB, segunda em São Paulo. Comércio, empresas, indústria, tudo gera movimento constante. Só nos horários ociosos, tipo entre 9h30 e 11h30 da manhã, é que fica mais parado. Mas no geral, a demanda é farta”, afirma.
Alberto Soares de Lima: “Hoje a gente precisa escolher muito bem as corridas para não pagar para trabalhar”
Com 46 anos, Alberto Soares de Lima acumula oito anos no volante de aplicativos em Osasco e região. Antes, trabalhava como analista de suporte nível 2 sênior, mas decidiu trocar a rotina de escritório pela direção em busca de mais tempo para si mesmo e para a família. “Na época foi um alívio. Há quatro anos, com a corrida mínima de R$ 7,75, dava para ganhar dinheiro de verdade. Hoje, com a tarifa mínima reduzida para R$ 5,25, tudo ficou mais difícil. Muitos colegas desanimaram.”
Entre 99, inDrive e um bloqueio da Uber
Alberto já rodou em todas as plataformas, mas hoje sua rotina é dividida entre a 99 e a inDrive, com uma diferença importante: “A Uber me bloqueou, então não trabalho mais nela.” Ele afirma que se adapta às cidades e regiões onde as corridas melhor remuneram, sem se prender a uma área específica.
Jornadas divididas em dois turnos
A rotina é puxada, mas Alberto evita passar o dia todo direto na rua. Trabalha em média oito horas por dia, divididas em dois blocos: das 7h às 10h30 da manhã e depois das 16h até bater a meta. “Esse intervalo no meio do dia é essencial, senão a gente enlouquece.”
Quilometragem e custos diários
A cada dia, percorre entre 150 e 200 km, gastando em torno de R$ 70 de combustível. Segundo ele, esse é o limite para conseguir equilibrar o desgaste do carro e ainda manter algum lucro.
Meta de faturamento: entre R$ 250 e R$ 300
O faturamento médio de Alberto varia entre R$ 250 e R$ 300 por dia. “Tem dia que não chega nisso, mas em outros dá para compensar e fechar a conta.” Ele lembra que, nos primeiros anos, era possível ter uma estabilidade maior, mas hoje depende de muita estratégia para não sair no prejuízo.
Regras duras para motoristas, brandas para usuários
O maior incômodo para Alberto está na desigualdade das regras. “Para nós, motoristas, é muita burocracia. Qualquer deslize vira banimento, sem direito de defesa. O usuário pode reclamar de qualquer coisa e nós é que pagamos o preço.”
Segundo ele, até mesmo seguir a rota indicada pela plataforma pode trazer dor de cabeça: se o cliente insiste em outro caminho, o motorista fica exposto a avaliações negativas. “Somos obrigados a cumprir ordens do aplicativo e ainda corremos o risco de punição.”
O que ele gostaria em um novo app
Para Alberto, um aplicativo realmente justo deveria reduzir a taxa cobrada das corridas e aumentar a autonomia do motorista. Ele cita a inDrive como exemplo positivo: “Se não me falha a memória, eles ficam com só 9% do valor. O resto é nosso. Esse é o caminho.”
Mas ele também alerta que apenas trocar de app não resolve tudo: “Se o problema das horas continuar — acabar a demanda em um app e ter que ligar outro — só muda a plataforma, mas não a responsabilidade. No fim, é sempre o motorista quem carrega o peso.”
Seletividade como regra
Na hora de aceitar corridas, Alberto é claro: “Sou seletivo. Não dá para pegar qualquer corrida, senão você paga para trabalhar. Prefiro corridas mais longas, acima de R$ 2,00 por km. Quanto menos corridas no dia, melhor, desde que paguem bem.” Em média, ele realiza até 15 corridas por dia.
Passageiros: entre o respeito e situações extremas
No dia a dia, Alberto prefere trabalhar em locais mais organizados, como condomínios com portaria, onde o embarque e desembarque são mais tranquilos. Mas já passou por situações complicadas: crianças pulando no banco, passageiros que vomitaram no carro, outros mal-humorados que exigiam chegar em segundos ao destino.
O caso mais grave foi um episódio de assédio: “Um passageiro disse que iria me avaliar mal e acabar com minha vida no app se eu não fizesse o que ele queria. Foi constrangedor. É nessas horas que percebemos o quanto estamos vulneráveis.”
Além disso, reclama de passageiros que marcam um endereço no aplicativo e querem embarcar em outro local, gerando atritos durante a corrida.
Corridas boas estão raras
Para ele, não faltam corridas, mas sim corridas que paguem bem. “A plataforma manda o que ela quer, e muitos motoristas acabam aceitando qualquer valor. Enquanto isso acontecer, elas não vão se preocupar em pagar melhor.”
Ainda assim, Alberto continua no setor. “Vale a pena? Depende da realidade de cada um. Eu sigo porque consigo viver com o que tiro. Mas sei que, se aparecesse um emprego CLT com salário acima de R$ 3.500 e condições dignas, eu trocaria. Não dá para viver eternamente refém de regras que não ouvem o motorista.”
Fábio Silva: “Em Osasco ainda vale a pena, mas só para quem tem disciplina e controla os custos”
Fábio Silva trabalha como motorista de aplicativo há alguns anos e hoje roda exclusivamente no Uber X, atendendo passageiros em Osasco e na região metropolitana. A rotina dele é marcada pelo equilíbrio entre quilometragem, custos e metas diárias — fundamentais para quem, como ele, utiliza carro alugado. “Preciso sempre bater a meta. Se um dia ganho menos, no outro tenho que compensar rodando mais horas”, explica.
Jornada de até 12 horas e custos altos
Fábio costuma percorrer em média 180 km por dia, o que resulta em um gasto de R$ 100 a R$ 150 em combustível. A carga horária gira em torno de 10 a 12 horas diárias, com uma média de 15 a 20 corridas por dia.
Durante a semana, ele consegue cerca de R$ 350 por dia, mas nos finais de semana, quando a demanda aumenta, o faturamento sobe para R$ 450 a R$ 600. “A sexta, o sábado e o domingo são os dias mais fortes. É quando realmente compensa.”
Onde estão as corridas
O motorista costuma começar o dia pelo bairro onde mora, o Jardim Aliança, e também roda bastante no Rochdale, na zona norte. Os pontos mais movimentados são o Centro de Osasco, os arredores da Estação de Osasco e a região do Bradesco, que concentra fluxo de trabalhadores e clientes de empresas.
Já a zona sul da cidade é, segundo ele, a mais fraca em termos de corridas. “O Centro tem uma média boa, mas a zona sul praticamente não toca.”
Trânsito e problemas estruturais
Um dos maiores obstáculos no trabalho de Fábio não vem dos aplicativos, mas da própria cidade. “O trânsito em Osasco é muito intenso e atrapalha demais. Isso acontece porque os governos anteriores não planejaram bem o crescimento. Falta infraestrutura para o volume de carros que temos hoje”, critica.
Passageiros e percalços no dia a dia
A relação com os passageiros, em geral, é tranquila, mas nem sempre livre de problemas. “Sempre aparece alguém que cancela no meio do caminho ou tenta dar golpe. É preciso ter paciência e atenção para não sair prejudicado.”
Ainda assim, ele avalia que a experiência é positiva. “Mesmo com muita concorrência, ainda vale a pena trabalhar como motorista de aplicativo em Osasco. Mas não é para qualquer um. Quem entra achando que é dinheiro fácil, geralmente se frustra.”
O app ideal: transparência e suporte
Se pudesse desenhar um aplicativo sob medida, Fábio destaca pontos claros: “Gostaria de um app que mostrasse com clareza meus ganhos e despesas, tivesse mapa inteligente para indicar regiões de maior demanda, opção de escolher corridas mais vantajosas e relatórios de eficiência para saber se realmente estou lucrando. Além disso, mais segurança e suporte rápido.”
Para ele, a chave do sucesso não está apenas no aplicativo, mas na forma de trabalhar. “É preciso disciplina, planejamento e controle de custos. Só assim o motorista consegue transformar o esforço em renda de verdade.”
Corridas não faltam, mas a dignidade sim
Segundo os motoristas entrevistados, a grande ironia de Osasco é que, ao contrário de outras cidades do interior, a demanda por transporte por aplicativo é alta. O problema não é a falta de passageiros, mas sim a valorização do trabalho. “Corrida tem. O que não tem é corrida boa, bem paga. A plataforma decide o valor e muitos motoristas aceitam qualquer coisa. Assim, nada muda”, resume Alberto.
De maneira geral, enquanto Adriano ainda aposta nas promoções da 99, Alberto reclama da burocracia e da falta de defesa para os motoristas, e Fábio tenta se manter firme na disciplina e no planejamento para sobreviver.
No meio de uma cidade em crescimento acelerado, com trânsito pesado e milhares de motoristas disputando espaço, Osasco se torna palco de um dilema: há corrida, há passageiro, mas falta dignidade e equilíbrio nas relações de trabalho.
A visão dos passageiros: segurança e preço no centro do debate
Se os motoristas reclamam da queda nos ganhos e da falta de autonomia, os passageiros também sentem os efeitos da crise.
Para César Spina, que utiliza principalmente a Uber, a escolha se dá pela segurança: “Prefiro (Uber) porque o motorista precisa ter os antecedentes criminais checados.” Ainda assim, ele admite dificuldades para conseguir carro em áreas mais afastadas e violentas de Osasco. “Já deixei de usar app porque os preços estavam muito altos e o serviço não era bom. Muitos motoristas não ligam o ar-condicionado ou dirigem de forma perigosa. Se aparecesse um app com valores melhores, eu mudaria na hora.”
Já Gabrielle Stumpp prefere a Uber por considerar o serviço mais rápido. Ela destaca que a dificuldade maior é conseguir corridas dentro de Osasco e cita como principais preocupações a segurança e o preço. Táxis, segundo ela, só entram na rotina em situações muito específicas.
João Victor Spanizza também compartilha de uma visão prática: “Sempre usei a Uber, nunca tive dificuldade para encontrar carro.” Para ele, o diferencial que faria migrar para um novo aplicativo seria a sustentabilidade, com carros elétricos. “Seria um avanço. Uso muito metrô e Uber, raramente táxi, porque já tenho carro. Só deixo de usar o app quando quero caminhar.”
O que o poder público diz
Enquanto motoristas e passageiros relatam os desafios diários, a resposta do poder público em Osasco revela a ausência de políticas claras para o setor. Em nota ao 55content, a Secretaria de Transportes e da Mobilidade Urbana (Setran) foi direta: “Em Osasco não há legislação municipal sobre o tema. O transporte privado individual em motocicletas está previsto na Política Nacional de Mobilidade Urbana.”