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Podemos Ir: motorista que começou vendendo picolé cria aplicativo de transporte em Diamantina

Fundador do Podemos Ir, Thiago Henrique Ferreira conta como saiu da mecânica e do trabalho como motorista para lançar seu próprio app.

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Entrevista
Conversas com especialistas, gestores e profissionais do setor, com perguntas conduzidas pela equipe do 55content.
Logotipo com texto “Podemos ir?” em branco e laranja sobre fundo preto, com elementos gráficos de estrada e um carro
Foto: Podemos Ir/Divulgação

Em uma cidade de cerca de 60 mil habitantes no interior de Minas Gerais, a mobilidade urbana virou um campo de disputa intenso. Diamantina, conhecida pelo turismo e pela vida universitária, passou a concentrar mais de dez aplicativos de transporte disputando passageiros e motoristas. Nesse cenário competitivo, o empreendedor local Thiago Henrique Ferreira decidiu criar sua própria plataforma.

Ex-mecânico, mototaxista e motorista de aplicativo, Thiago fundou o Podemos Ir, um app regional que hoje reúne dezenas de motoristas cadastrados e milhares de passageiros ativos. Na entrevista a seguir, ele conta como foi a trajetória até lançar o serviço, os desafios de operar em um mercado saturado e as estratégias para manter motoristas e passageiros em uma cidade pequena.

Para começar, queria que você falasse seu nome completo, sua idade e onde nasceu.

Thiago: Eu me chamo Thiago Henrique Ferreira, tenho 36 anos, sou nascido e criado na cidade Diamantina, Minas Gerais.

Antes de falar do app, queria entender um pouco da sua história. Você sempre quis trabalhar com mobilidade urbana? Alguém na família era motorista, taxista? Por quais trabalhos você passou até chegar a ser gestor de uma plataforma regional?

Thiago: Vou pegar do início, bem breve. Minha família toda é de Diamantina, eu nasci aqui nessa região, nunca me mudei, sempre permaneci aqui. Desde novo eu sempre trabalhei muito, procurei conquistar as minhas coisas, sempre fui muito independente.

Desde novo eu vendi picolé na rua, vendi salgado… então eu sempre tive isso de trabalhar bastante. Estudei nas escolas públicas aqui da cidade, passei por umas três escolas públicas, muito boas. Me formei apenas no ensino médio, tenho o ensino médio completo, não quis estudar mais.

E nisso eu já trabalhei com várias coisas aqui na cidade: pintura residencial, gesso, já fui motoboy, já fui mototaxista, mas nunca motorista de aplicativo no começo. Minha família sempre trabalhou com ramo automobilístico na questão de mecânica, funilaria, pinturas, autoelétrica, torneiro mecânico… então minha família é bem puxada pra esse ramo.

Eu tive uma empresa minha, uma oficina mecânica e autopeças, fiquei um tempo, com desgaste resolvi desistir porque é muito puxado. Fiquei um tempo sem trabalhar, um amigo me convidou pra cobrir férias na oficina dele. Fiquei uns dois meses, ele pediu pra eu ficar e eu fiquei com ele uns seis, sete anos.

Como a mobilidade por aplicativo entrou na sua vida?

Thiago:
Teve um período que eu fiquei desempregado e logo na cidade tinham dois aplicativos. Tinha o pioneiro que se chamava Buski. Eu via acontecendo, vi que teve uma queda drástica nos taxistas, o pessoal migrou, gostou, foi algo novo pra cidade, chamativo. Mas eu nunca me interessei, permaneci no meu ramo.

Teve uma época que surgiu o Uai Cars na cidade. Eu desempregado procurei o pessoal pra entrar, eu ia até entrar com o carro da minha sogra. Pedi minha mulher pra ver se tinha como pegar o carro pra eu trabalhar. Eu tinha só moto e o carro era um Corsa 1.4 2009/2010, mas pelo ano não me deixaram entrar.

Voltei pra mecânica. Aí nesse tempo eu conhecia o pessoal que trabalhava nos outros aplicativos e o pioneiro eu conhecia o dono. Fiquei pedindo vaga. Ele falava que tava muito cheio, tinha muito motorista, o pessoal não queria colocar mais para não dividir muito as corridas.

Até que surgiu uma vaga e ele falou: “vai ser na madrugada”. Eu quis. E ele já tinha agência de carro, fui lá e comprei um carro, pensando: “o dinheiro que eu fizer no aplicativo eu consigo pagar meu carro”. Nisso eu fui trabalhando só sexta, sábado e domingo.

Aí eu entrei num outro aplicativo também. No começo eu trabalhava na oficina e no fim de semana eu emendava no aplicativo pra fazer um extra.

Você comentou que houve uma mudança na forma de trabalho de um dos aplicativos e isso te fez sair. O que mudou?

Thiago: Antes os motoristas trabalhavam pagando porcentagem pra plataforma. Depois eles colocaram carros próprios e assalariaram pessoas, carteira assinada naquele horário. Eu não sei se foi por necessidade de não faltar motorista, porque como não tem vínculo, a pessoa faz o horário que quer.

Eles até perguntaram se eu queria carteira, eu falei que não, porque eu gostava da flexibilidade: levar meu menino na escola, ir no médico, poder sair.

E teve um episódio comigo: eu saí do serviço, fui pra casa, jantei, tomei banho, fui trabalhar umas 7 horas. Deu 11, meia-noite… eu não fiz uma corrida. E os carros que eles tinham adquirido estavam rodando pra cima e pra baixo. Aí eu falei: “não tem como”. Fiquei insatisfeito e saí.

Como foi a transição até você ficar só no aplicativo como trabalho principal?

Thiago: Eu migrei pra outra plataforma e comecei a rodar sexta, sábado e domingo. Aos poucos eu comecei a rodar durante a semana também. Aí eu tava na oficina mecânica e resolvi testar: pedi férias e trabalhei direto no aplicativo pra ver se era viável. Vi que dava pra viver — tem mês bom, outro ruim.

Depois eu pedi conta dessa empresa e trabalhei um período curto numa loja de bike, porque eu sou ciclista. Eu fui pra outra cidade ajudar a expandir, mas não deu certo e eu voltei. Aí eu fiquei só por conta do aplicativo.

Em que momento virou a chave para você pensar: “vou criar meu próprio aplicativo”?

Thiago: Eu trabalhei dois anos num aplicativo. Eu via que o mercado tava mudando: um aplicativo vinha crescendo muito, investindo em propaganda, e outro diminuindo. As corridas ficaram escassas, e motorista faz conta — a gente tem uma média mínima de corridas por dia pra tirar um valor X — e não tava sendo viável.

Aí eu pensei: “por que não abrir o meu?”. Eu já sabia como funcionava propaganda, como conseguir motoristas, como trabalhar. E tinha um funcionário de uma loja que saiu e abriu um app também, firmou bem e foi ganhando mercado. Eu vi que dava.

E como surgiu o nome “Podemos Ir?!”?

Thiago:
Eu tinha pensado um nome, mas tinha outro parecido e não podia. Eu tinha mania de entrar no carro e perguntar: “já podemos ir?”. Aí pensei: “por que não?”. E ficou.

Eu pensei também na ideia de afirmar e perguntar. A logomarca tem o “Podemos Ir?!” com interrogação e exclamação. Pesquisei ortografia, vi que era permitido, pedi um design, escolhi a logo e fui produzindo material.

Quando o app foi lançado e quando começou a rodar de verdade?

Thiago:
Em 2024 eu comecei a criar, dei entrada com os papéis. Mas rodar mesmo, começou depois do Carnaval, ali por volta de Semana Santa… março ou abril do ano passado (2025). Eu sou ruim de data, mas foi nesse período.

Como foi o começo da operação?

Thiago:
Foi bem difícil. Eu faço ecoturismo, trekking, bike, e eu estava guiando um pessoal de BH numa travessia. Nesse período, material meu já estava pronto e a gráfica postou meu material no Instagram. Um motorista de outra plataforma espalhou e quando pesquisaram na Play Store viram meu nome. Aí caíram a ficha que era meu e me bloquearam no aplicativo onde eu rodava e me boicotaram de grupos de WhatsApp.

Eu fiquei sem trabalho de uma hora pra outra. Então eu acelerei: soltei propaganda na rádio, panfletagem, moto de som, banner. Eu chamei motoristas aqui em casa, fiz reunião, expliquei taxa, ensinei a mexer.

No início eu tinha poucos motoristas. Alguns nem entravam. E tinha aquela cultura de não poder rodar em dois apps. Aí um aplicativo da cidade permitia rodar em dois — isso me salvou. Eu chamei motoristas de lá e eles rodaram comigo e no outro. Mas depois isso mudou de novo e eu fiquei sem motorista outra vez.

A demanda aumentava e cheguei a ficar dois, três dias sem dormir. Eu deixava meu app ligado 24 horas. Tocava 2h da manhã, eu levantava, atendia e voltava. Tocava 3h, eu levantava de novo. No início foi muito difícil.

Foi aí que você colocar motoristas para trabalhar?

Thiago:
Eu fiz aquisição de dois veículos e coloquei pessoas trabalhando. Fiz combinação justa. Hoje eu tenho três veículos.

Eu poderia fazer carteira assinada e pra mim poderia ser até mais viável financeiramente, porque eu teria certeza do horário e não faltaria. Mas pensando no motorista, a gente combinou um formato mais equilibrado, pra ficar bom pra ele sobreviver e trabalhar satisfeito.

Hoje vocês trabalham com taxa, mensalidade… como funciona?

Thiago: A gente trabalha com taxa, por recarga de crédito. É 20% nas corridas em dinheiro e Pix. Cartão também 20%. E na maçaneta eu deixo 10% — porque tinha motorista que não abria e eu preferi reduzir pra incentivar.

E como funciona o pagamento? A empresa intermedia ou é direto entre passageiro e motorista?

Thiago:
É direto entre passageiro e motorista. O motorista coloca crédito pré-pago na carteira: ele gera um Pix copia e cola e coloca R$ 20, R$ 30, R$ 40. Se ele pega uma corrida de R$ 20, desconta 20% (R$ 4) do crédito dele. O passageiro paga R$ 20 para o motorista e o sistema debita a taxa. Quando o crédito vai baixando, ele repõe — e o valor da reposição cai direto pra empresa.

Quantos motoristas e passageiros vocês têm hoje e quantas corridas fazem por mês?

Thiago: Motoristas cadastrados são 33 hoje. Mas online constante varia: de 8 a 15. Hoje agora tem 10 online, mais cedo tinha 13. Passageiros ativos são 2.407. Corridas, em média, 1.700 por mês.

E quanto os motoristas ganham, em média? Qual foi o recorde?

Thiago:
Os que rodam muito bem fazem bruto de R$ 8 mil a R$ 11 mil. Os que rodam menos, em torno de R$ 4 mil a R$ 5 mil bruto. Os que mais rodam são o Van Vieira e o Pedro, eles intercalam.

Você lembra qual foi o investimento inicial para lançar o app? Em quanto tempo se pagou?

Thiago:
Foi em torno de R$ 15 mil a 20 mil. Vamos colocar uns R$ 18 mil entre plataforma e marketing. O marketing é a parte mais cara. Sobre “se pagou”, lucro mesmo ainda não, porque a gente continua investindo, comprando veículo… então vai reinvestindo.

Você tem sócio? Como dividem o trabalho?

Thiago: Tenho sim, meu tio é meu sócio. Ele entrou mais com a parte financeira. A gestão é toda minha.

Como foi captar motoristas e passageiros num mercado com tantos aplicativos?

Thiago: Motoristas foi por eu já estar no ramo, eu conhecia alguns. E alguns vieram também pela taxa mais em conta. Passageiros é divulgação: telões, rádio, panfletagem, cartão, banner, Instagram… mas o crescimento de downloads estagnou porque entrou aplicativo demais.

O que você não tolera mais no mercado?

Thiago: Motorista fazendo corrida por fora e falta de bom senso. O motorista entra, roda uma semana e começa a entregar cartãozinho: “me liga direto”. Aí o passageiro para de usar a plataforma. E o motorista fala “é meu cliente”. Não é cliente dele, é cliente da plataforma. Se ele não tivesse na plataforma, ele não teria aquela pessoa.

E também essa quantidade de aplicativo entrando e praticando preço muito baixo. Tem app que chega com preço lá embaixo e nem eles ganham nem deixam a gente ganhar. Sem controle de qualidade: carro ruim, motorista sem padrão.

O que te motiva hoje e do que você mais se orgulha com o app?

Thiago: É meu sustento e o da minha família. E ver que tem pessoas que conseguem sustentar a casa com o aplicativo.

Eu prefiro perder noite de sono do que colocar mais motorista e apertar quem depende disso. Eu não quero quantidade, eu quero qualidade. Eu tenho poucos motoristas, mas bons, e a maioria sustenta a casa com isso. Eu prefiro sair e rodar, ficar cansado, do que deixar faltar para pai de família.

Qual é a corrida mínima e quantos quilômetros cobre?

Thiago: Cobre 1,5 km e está R$ 13,50 hoje.

Qual foi a maior dificuldade desde que o app começou?

Thiago: Motorista. Tem época que some todo mundo. Natal e Carnaval eu trabalhei sozinho. Na virada do ano também. Em janeiro minha família foi pra praia e eu fiquei trabalhando porque não tinha motorista. Eu rodo como motorista e faço gestão.

Você ainda trabalha como motorista hoje?

Thiago:
Trabalho sim. Hoje eu fui na prefeitura protocolar uma questão de fiscalização que não tem sido feita. Rodei de manhã, estou em reunião agora, depois vou voltar na prefeitura e rodo mais. E vou rodar de madrugada também porque faltou motorista.

Você citou parceria entre aplicativos permitindo rodar em dois. Isso ajuda?

Thiago: Ajuda porque se falta motorista meu, o de outro aplicativo atende minha demanda. E o meu também roda lá. Fica balanceado e ninguém perde tanto.

Qual é a movimentação mensal em corridas na plataforma?

Thiago:
O bruto gira em torno de R$ 32 mil a R$ 42 mil por mês em corridas — movimentação. É o total das corridas.

Você tem meta de faturamento para 2026?

Thiago:
Está difícil sonhar com meta, porque com tanto aplicativo e preço desleal, cai um, entra outro. O mercado está muito instável. Eu até queria comprar um carro elétrico, mas segurei porque está instável.

Qual foi a dor do mercado que te fez criar o seu app?

Thiago:
As altas taxas e o direcionamento de corridas. Eu já fiquei de 7 da noite até meia-noite sem pegar corrida e o carro do lado tocando. Eu falei: “comigo não vai ter isso”. Eu tento não direcionar e manter taxa justa. Em Diamantina a manutenção é cara porque é muito morro, muito calçamento, gasta combustível e dá mecânica. Então preço tem que ser justo para o passageiro, para o motorista e pra plataforma.

Teve um momento em que você percebeu que o app estava dando certo?

Thiago:
No início foi forte pela quantidade de downloads e chamadas. Nos três primeiros meses foi quando eu vi isso crescer bem. Depois diminui e vira trabalho constante, mas ali foi quando eu pensei: “está indo”.

Quais foram os seus maiores medos ao lançar o app?

Thiago: Gastar e não ter download e não ter motorista pra atender. Porque o que faz o app crescer não é só o app, é motorista. Se não tiver motorista bom, não vira. E eu já sabia que teria essa dificuldade porque vi outros apps passarem por isso.

Quais críticas você mais escuta sobre o seu app?

Thiago:
Crítica mesmo eu não ouvi muito. Teve boicote no início, mas isso está passando. Reclamação sempre tem, de passageiro ou motorista, às vezes sem fundamento, mas a gente contorna, orienta, pede desculpa, mantém contato.

O que te deixa inseguro sobre o futuro do mercado de apps regionais? Você é otimista ou pessimista?

Thiago:
Me preocupa a quantidade de aplicativos. Vai chegar um momento que terá um passageiro para cada aplicativo. E o preço desleal também.

Eu acredito que alguns vão sumir, sim, por desânimo e por concorrência desleal. E o que eu vejo para o futuro é regulamentação e fiscalização. Carnaval, a prefeitura me exigiu documentação e tinha clandestino rodando. E tem os grupos de WhatsApp: isso vira porta para clandestino, gente que nem é motorista fazendo corrida. A gente transporta vidas. Teve caso de acidente, gente fugir, motorista bebendo… então precisa coibir isso.

O que você acha que os apps regionais têm que fazer para sobreviver?

Thiago:
Hoje o que o povo está olhando é preço. E nem sempre preço baixo é o ideal. Mas é isso que está puxando.

Vocês pretendem expandir para outras cidades?

Thiago: Pretendo, mas primeiro firmar aqui. Aqui é difícil firmar, toda hora entra novidade e dá trabalho. Eu não consigo sair daqui com coisa ainda instável.

Qual legado você quer deixar em Diamantina com o Podemos ir?

Thiago:
Um trabalho honesto, de confiança. Atendimento com respeito. Cidade pequena cria vínculo. Eu quero deixar uma empresa amiga da população, respeitosa, com serviço bem prestado.

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Giulia Lang

Giulia Lang é jornalista formada pela Fundação Cásper Líbero e há três anos cobre o mercado de mobilidade urbana e delivery pelo 55content.

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