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Clix Car: app regional aposta em taxa zero para motoristas durante seis meses

Criado por um ex-motorista de aplicativo, o Clix Car consolidou operação em Itapira e Socorro ao combinar gestão próxima dos condutores, incentivo à adesivação e foco no mercado regional.

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Entrevista
Conversas com especialistas, gestores e profissionais do setor, com perguntas conduzidas pela equipe do 55content.
Dois carros com adesivo ClixCar, um preto em primeiro plano e outro branco ao fundo, sobre fundo laranja
Foto: Reprodução/Instagram/Clix Car

Criado em junho de 2023 por Lucas Henrique de Oliveira, o Clix Car nasceu em Itapira (SP) a partir da experiência prática do fundador como motorista de aplicativo e da insatisfação com taxas elevadas e decisões operacionais de outras plataformas. A proposta era construir um serviço regional com mais proximidade dos condutores, valores mais atrativos para quem dirige e uma operação ajustada à realidade do interior. Hoje, com atuação em Itapira e Socorro, o aplicativo se consolidou entre os principais serviços locais de mobilidade e aposta em gestão direta, benefícios para motoristas e presença forte nas ruas para manter a expansão.

Qual é a sua trajetória até chegar à gestão do Clix Car?

Lucas: Meu nome é Lucas Henrique de Oliveira, tenho 28 anos e sou de Itapira. Trabalhei como motorista de aplicativo em outra plataforma da cidade e foi justamente dessa experiência que surgiu a ideia de criar o Clix Car. Antes disso, eu já tinha esse perfil de empreender, de tentar fazer dinheiro com diferentes negócios, mas foi no setor de mobilidade que eu vi uma oportunidade real de construir algo meu.

Comecei a trabalhar com aplicativo em 2020. Na época, eu rodava em uma plataforma, mas com o tempo, comecei a me incomodar com algumas decisões, principalmente relacionadas às taxas cobradas dos motoristas. O aplicativo começou com 15% e, quando anunciaram que a taxa iria para 25%, eu percebi que existia espaço para fazer diferente. Foi aí que resolvi investir um dinheiro que eu tinha guardado e criar a minha própria plataforma.

O Clix Car nasceu em junho de 2023. Hoje, já faz cerca de dois anos que somos o maior aplicativo da cidade, com o maior número de motoristas e de chamadas. Em 2025, fechamos o ano com mais de 650 mil corridas. Dependendo do mês, fazemos entre 40 mil e 50 mil corridas, com picos em épocas de festas, fim de ano e eventos locais.

Além de Itapira, também atuamos em Socorro. Já testamos outras cidades, mas nem todas têm a mesma demanda. Então, prefiro crescer com mais cautela, consolidando bem onde estamos.

O que te incomodava no aplicativo em que você trabalhava e te fez criar o Clix Car?

Lucas: O principal ponto foi o descontentamento com a forma como os motoristas eram tratados. A questão da taxa pesou muito, mas não foi só isso. Eu via situações em que o motorista ficava uma semana parado porque o carro estava em manutenção e, quando voltava, já tinha outro no lugar. Muitas vezes, o motorista não conseguia nem retomar o cadastro.

Também teve uma mudança no sistema de recarga. Antes, o motorista colocava crédito via Pix ou direto na central. Depois, começaram a centralizar isso de outro jeito, e foram surgindo problemas. Como eu já tinha uma boa relação com os motoristas da cidade, vi ali uma oportunidade. Pensei: se eu abrir uma plataforma com uma proposta mais justa, consigo trazer muita gente.

Foi exatamente o que aconteceu. Quando lançamos o Clix Car, conseguimos puxar 28 motoristas do aplicativo em que eu trabalhava. Hoje, em Itapira, temos em torno de 85 a 90 motoristas, e em Socorro cerca de 45. Para cidades desse porte, isso já atende bem a população.

Qual foi o investimento inicial para lançar o Clix Car?

Lucas: O investimento inicial foi alto. Coloquei cerca de R$ 70 mil. Esse valor foi para tudo: estrutura da plataforma, outdoor, panfletagem, marketing, material de divulgação e também para conquistar os motoristas.

Na época, a estratégia foi muito clara. Eu sabia que, sem motorista, não existe aplicativo. Então, eu precisava fazer algo realmente atrativo para eles. Foi aí que decidi dar taxa zero por seis meses. Isso chamou muita atenção, porque eles estavam acostumados a pagar taxa e, de repente, aparecia um aplicativo novo oferecendo seis meses sem desconto.

Alguns nem acreditaram no começo, acharam que eu não ia conseguir manter isso por tanto tempo. Mas mantive. E isso foi decisivo para consolidar a confiança dos motoristas.

Em quanto tempo esse investimento começou a dar retorno?

Lucas: O retorno começou a aparecer depois de alguns meses. No primeiro mês, o volume de corridas ainda era mais baixo, no segundo já começou a crescer mais. Lá para dezembro, o número de corridas aumentou bastante, e isso já ajudou a equilibrar os custos da plataforma.

Mas o ponto de virada foi em janeiro, quando começou a cobrança de taxa dos motoristas. Aí sim as contas começaram a fechar melhor. Mesmo assim, eu já entrei no negócio sabendo que não teria retorno imediato. Fiz muito cálculo antes. Foi tudo bem pensado.

Como foi o processo para captar motoristas e passageiros?

Lucas: A captação de motoristas aconteceu muito no boca a boca e nos grupos que já existiam entre motoristas da cidade. Eu já conhecia muita gente do meio, então fui conversando, explicando a proposta, mostrando as vantagens e trazendo os motoristas para perto.

Já para os passageiros, apostei forte em divulgação. Fizemos outdoor, panfletagem, material de rua e investimos numa identidade visual bem marcante. A cor predominante do Clix Car é o laranja, e isso acabou virando um diferencial. Chamava atenção na cidade e ajudava a fixar a marca.

Também usei eventos locais a nosso favor. O lançamento, por exemplo, foi em junho de 2023, durante uma festa do peão na cidade. Aproveitamos esse movimento para posicionar carros, distribuir material e fazer a população conhecer o app.

Quais diferenciais o Clix Car oferece para os motoristas?

Lucas: O grande diferencial é justamente o tratamento dado ao motorista. Hoje, quem usa os adesivos completos do Clix Car no carro paga 10% de taxa. Se usa só o adesivo no para-brisa, paga 12%. Se roda apenas com uma plaquinha magnética na porta, paga 15%.

Ou seja: além de incentivar a divulgação da marca na cidade, a gente entrega a melhor taxa local para quem se compromete mais com o aplicativo. Isso ajuda o motorista a ganhar mais e também fortalece o Clix Car nas ruas.

Outro diferencial é a locação de carros. Hoje eu também trabalho com aluguel de veículos para motoristas que não têm carro próprio ou precisam de carro reserva enquanto o deles está na oficina. Temos atualmente 16 carros. Alguns ficam em Itapira, outros em Socorro.

Esse serviço ajuda muito, porque as locadoras tradicionais costumam cobrar caro. Com a gente, o motorista consegue alugar num valor mais acessível e seguir trabalhando. Isso também é uma forma de manter a operação saudável.

Quando você percebeu que o Clix Car estava realmente dando certo?

Lucas: Logo nas primeiras semanas eu já senti que a coisa tinha potencial. O número de chamadas foi alto. A gente chegou a fazer 300, 400 corridas diárias logo no começo, o que para uma cidade do tamanho de Itapira já era um sinal muito forte.

Além disso, o próprio crescimento da operação mostrou isso. Em pouco tempo, o aplicativo passou a funcionar em duas cidades. A receptividade foi muito boa, tanto dos motoristas quanto dos passageiros.

Eu tive muita clareza de que, quando um serviço resolve um problema real da cidade, ele cresce. E a gente resolveu. A população precisava de um transporte que funcionasse, com preço justo e disponibilidade.

Qual foi o momento mais difícil desde o lançamento do app?

Lucas: O mais difícil foi lidar com o crescimento sem perder o controle. Tivemos momentos em que a demanda cresceu muito e você precisa equilibrar isso com o número de motoristas, com atendimento, com suporte e com o financeiro.

Também teve a parte de concorrência, claro. Em Itapira, outras plataformas já tentaram entrar, algumas até com mais tempo de mercado, mas não conseguiram se consolidar como a gente. Hoje existe concorrência, mas a diferença é que nós somos o único aplicativo que nasceu de fato na cidade e conseguiu crescer de forma consistente.

Outra dificuldade foi manter o padrão. Crescer é bom, mas crescer sem qualidade pode virar problema. Então eu sempre tive esse cuidado.

Hoje, qual é a sua rotina como gestor? Você ainda roda como motorista?

Lucas: Não rodo mais. Parei em 2024. Houve um episódio em que eu peguei uma corrida de valor mais alto, uma viagem para Campinas, e alguns motoristas interpretaram aquilo como se eu estivesse pegando as melhores corridas para mim. Não era a minha intenção. Eu estava tentando ajudar a operação, não deixar chamada pendente.

Mas eu entendi que isso poderia gerar desconforto. Então parei. Hoje, quando surge alguma corrida especial, eu jogo no grupo e deixo quem tiver interesse ligar o aplicativo e fazer. Acho mais justo.

Atualmente, minha rotina é toda voltada para gestão, suporte, divulgação, acompanhamento da operação e organização dos motoristas. Também cuido da parte dos carros de aluguel.

Quantos motoristas e passageiros o Clix Car tem hoje?

Lucas: Em Itapira, temos mais de 28 mil passageiros cadastrados. Somando as operações, estamos na faixa de 180 motoristas cadastrados. Claro que nem todos ficam online ao mesmo tempo, mas esse é o número total da base.

Quantas corridas o aplicativo realiza por mês?

Lucas: Em Itapira, a média fica entre 40 mil e 50 mil corridas por mês. Em Socorro, estamos em torno de 10 mil corridas mensais. Somando tudo, chegamos a algo entre 50 mil e 55 mil corridas por mês, dependendo da época.

Janeiro e fevereiro costumam ser um pouco mais fracos. Já dezembro e períodos de eventos têm volume maior.

Qual é o valor da corrida mínima e como funciona a taxa para os motoristas?

Lucas: A corrida mínima para o passageiro é de R$ 9,99 e cobre até 2 quilômetros. Como eu disse, o motorista paga 10%, 12% ou 15%, dependendo do tipo de adesivação que usa no carro. Na média geral da operação, a taxa fica em torno de 12%.

O sistema funciona com crédito pré-pago. O motorista coloca crédito na plataforma e, conforme as corridas vão sendo feitas, o valor da taxa é descontado desse saldo. O pagamento da corrida é feito direto entre passageiro e motorista, via Pix, dinheiro ou maquininha.

Quanto um motorista ganha, em média, no Clix Car?

Lucas: Tem motorista que fatura muito bem. Já tivemos motorista fazendo R$ 23 mil em dezembro. Claro que é um caso acima da curva. Mas, em média, um motorista ativo consegue girar na faixa de R$ 7 mil a R$ 8 mil. Alguns fazem mais, outros menos, dependendo da dedicação.

Hoje já temos também alguns motoristas com carro elétrico. Nesses casos, o custo operacional cai bastante. Tem motorista que carrega o carro em casa com placa solar, então praticamente o que ele fatura fica com ele, descontando só a taxa do aplicativo.

Qual é o valor médio ganho por quilômetro rodado?

Lucas: Na média, fica em torno de R$ 4 por quilômetro. Isso varia de uma corrida para outra, mas é um valor bom para a realidade local.

O que mais te incomoda no mercado hoje?

Lucas: A concorrência desleal é algo que incomoda, mas acaba sendo normal nesse mercado. O que me irrita de verdade é quando o concorrente tenta atacar não oferecendo um serviço melhor, mas tentando copiar a sua comunicação e jogar preço lá embaixo, sem estrutura para sustentar aquilo.

Também me incomoda quando a pessoa não entende o quanto custa manter um aplicativo funcionando de verdade. Não é só jogar preço baixo. Tem suporte, estrutura, fiscalização, seguro, marketing, motorista regularizado.

Em Itapira, por exemplo, temos regulamentação municipal. O motorista precisa de QR Code no vidro, precisa estar dentro das regras da prefeitura. Se fizer algo fora da lei, pode ser multado ou até ter o carro guinchado. Isso cria uma camada de responsabilidade que muita gente ignora.

Vocês têm problema com corridas feitas por fora?

Lucas: Sempre existe algum motorista que tenta fazer corrida particular, isso é inevitável. Mas aqui a fiscalização municipal ajuda bastante. Como a cidade tem regulamentação, o motorista precisa estar devidamente cadastrado, com seguro aplicativo e QR Code.

Além disso, a gente trabalha muito a conscientização. O passageiro precisa entender que, se fizer por fora, perde a segurança da plataforma. Se esquecer um objeto, se acontecer algum problema, se precisar de suporte, a gente não tem como ajudar porque a corrida não passou pelo aplicativo.

Então a gente sempre reforça isso: segurança, registro, rastreabilidade e suporte só existem quando a corrida passa pela plataforma.

O que te deixa inseguro em relação ao futuro do negócio?

Lucas: Meu maior receio hoje está na questão legal. Existem projetos de lei circulando que podem impactar muito o setor. E o problema é que muitas vezes essas propostas são pensadas olhando para a realidade das capitais, não das cidades do interior.

No interior, a operação é diferente. O faturamento é diferente, o comportamento do motorista é diferente, o volume é diferente. Então, se aplicarem as mesmas exigências sem olhar para essa realidade, pode ficar inviável. Isso me preocupa.

Como você enxerga o futuro dos aplicativos regionais?

Lucas: Eu vejo com bons olhos. Acho que os aplicativos regionais vão ganhar cada vez mais espaço, especialmente em cidades onde Uber e 99 não conseguem se consolidar ou não têm apelo local.

O segredo é entender a cidade. Quem conhece a cidade, conhece os motoristas, conhece os passageiros e sabe montar uma operação justa, tende a crescer. O aplicativo regional tem essa vantagem da proximidade e do atendimento mais humanizado.

O que os aplicativos regionais precisam fazer para conquistar mais mercado?

Lucas: Precisam olhar primeiro para o motorista. Sem motorista, não existe aplicativo. É simples assim. Então, é preciso oferecer taxa justa, atendimento, proximidade, benefícios e suporte real.

Quando o motorista se sente valorizado, ele trabalha melhor, atende melhor e ajuda o aplicativo a crescer. Se o motorista estiver insatisfeito, a operação inteira sente.

Qual legado você quer deixar com o Clix Car?

Lucas: Quero deixar a marca de um aplicativo confiável, próximo das pessoas, que funciona de verdade e que ajudou a transformar a mobilidade da cidade. Um aplicativo familiar, humano, que as pessoas usem e indiquem porque sabem que podem confiar.

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Giulia Lang

Giulia Lang é jornalista formada pela Fundação Cásper Líbero e há três anos cobre o mercado de mobilidade urbana e delivery pelo 55content.

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