Criado em Catalão, no interior de Goiás, o Mazim Car surgiu da experiência de Rosemar Assunção como motorista de aplicativo e de sua vontade de desenvolver uma plataforma independente.

Antes de criar o negócio, Rosemar já havia trabalhado em outras plataformas e participado de um aplicativo administrado em sociedade com outros profissionais.

Entretanto, as divergências sobre a gestão do empreendimento o levaram a buscar um caminho próprio.

“Quando você é sócio, às vezes não tem muita palavra para poder usar suas ideias. Eu tenho uma ideia de um jeito, os outros têm de outra forma”, explica.

O gestor decidiu então criar uma plataforma na qual pudesse desenvolver suas propostas e considerar as sugestões de motoristas e passageiros.

Segundo ele, o lançamento aconteceu provavelmente em julho de 2019, embora não tenha confirmado a data exata.

Experiência como motorista ajudou a conquistar os primeiros clientes

Antes de entrar no mercado de aplicativos, Rosemar também trabalhou com transporte escolar e universitário.

A atividade permitiu que ele construísse uma rede de contatos em Catalão, principalmente entre estudantes e moradores que já utilizavam seus serviços.

Quando decidiu lançar o Mazim, aproveitou essa clientela para apresentar a nova plataforma.

A divulgação inicial foi realizada principalmente por indicações.

“Eu praticamente já tinha os clientes. Só que eu tinha eles no meu WhatsApp, porque carregava muitos clientes particulares e essa experiência reduziu a necessidade de grandes investimentos em publicidade”, conta.

O valor aplicado no lançamento não foi informado, mas o gestor considera que o investimento foi pequeno em comparação com o de outras empresas do setor.

“Hoje eu reconheço que as redes sociais facilitaram a divulgação de aplicativos regionais, especialmente por meio de influenciadores digitais. Ainda assim, acredito que as recomendações pessoais continuam sendo importantes para conquistar a confiança dos passageiros”, afirma. 

Aplicativo demorou cerca de dois anos para se pagar

Nos primeiros meses, Rosemar priorizou o crescimento da plataforma e a formação de uma base de motoristas, sem estabelecer o lucro como principal objetivo.

Segundo ele, a empresa levou aproximadamente dois anos para começar a cobrir seus custos.

Durante esse período, a receita obtida era direcionada à continuidade das operações.

O gestor afirma que o negócio foi desenvolvido para oferecer aos profissionais uma alternativa de trabalho com cobranças reduzidas.

“Quando eu criei o aplicativo, não criei imediatamente para ganhar dinheiro. Era elas por elas”, relembra.

A proposta também estava relacionada à própria experiência de Rosemar como motorista: “Uma plataforma precisa oferecer condições para que os profissionais consigam manter a atividade e construir uma renda ao longo do tempo.”

Mazim Car atua em três cidades de dois estados

Atualmente, o Mazim Car possui operações em Catalão, Goiás, onde fica sua sede, e em duas cidades mineiras: Paracatu e Patos de Minas.

Segundo Rosemar, a plataforma reúne aproximadamente 100 motoristas cadastrados.

O gestor prefere manter uma quantidade de profissionais compatível com a demanda de cada município, em vez de ampliar os cadastros indiscriminadamente.

Para ele, o excesso de motoristas pode reduzir o número de viagens disponíveis para cada condutor.

“Quantidade demais, o motorista faz pouca corrida. A gente tem que pensar no motorista, em ter menos motoristas para ele ter um ganho a mais. A estratégia busca equilibrar a disponibilidade de veículos para os passageiros com as oportunidades de faturamento dos trabalhadores”, afirma.

A intenção é ampliar a presença da plataforma em outros municípios, mas a concorrência local ainda representa uma dificuldade.

Aplicativo realiza cerca de 5 mil corridas por mês

O volume de viagens do Mazim Car varia conforme a demanda e o período do ano.

Na entrevista, Rosemar informou que a plataforma havia realizado aproximadamente 5 mil corridas no mês anterior.

Ele afirma que Catalão possui um mercado bastante disputado, com mais de dez aplicativos atuando na cidade.

Segundo o gestor, a concorrência aumentou com o passar dos anos, assim como a quantidade de motoristas disponíveis.

“O mercado ficou muito dividido. Tem mês que dá um tanto de corridas e tem mês que dá outro”, relata.

Apesar disso, Rosemar acredita que as plataformas regionais ainda possuem espaço para crescer, desde que ofereçam condições atrativas aos profissionais e consigam atender às necessidades dos passageiros.

Em Catalão, motorista paga R$ 5 por dia

O modelo de cobrança do Mazim Car varia de acordo com a cidade.

Em Catalão, a plataforma utiliza uma diária fixa de R$ 5.

O motorista pode realizar quantas corridas quiser durante o período sem pagar uma taxa adicional por viagem.

Segundo Rosemar, os profissionais podem organizar o pagamento da diária de forma quinzenal ou mensal.

O objetivo é permitir que o custo de utilização do aplicativo seja previsível, independentemente do faturamento alcançado.

“Uma corrida mínima que o motorista faz já paga dois dias. Então ele fica livre para ter o ganho dele”, explica.

O gestor considera que esse modelo pode beneficiar principalmente os profissionais que realizam muitas viagens ao longo do dia.

Ele também destaca que os motoristas possuem autonomia para escolher os dias e horários em que desejam trabalhar.

Em Minas Gerais, cobrança é de R$ 1 por corrida

Nas operações de Paracatu e Patos de Minas, a cobrança é diferente.

Em vez de uma diária, os motoristas pagam R$ 1 por corrida realizada.

O valor é descontado da carteira virtual utilizada pelo profissional na plataforma.

Segundo Rosemar, a mudança de modelo considera as características de cada mercado.

O empresário afirma que pretende oferecer condições competitivas para conquistar motoristas que já utilizam outros aplicativos.

Ele também critica plataformas que, segundo seus relatos, cobram percentuais elevados sobre as corridas e ainda exigem pagamentos adicionais.

“Eu não penso em ganhar dinheiro, eu penso em ver o motorista evoluir”, afirma.

Para Rosemar, reduzir o custo da plataforma é uma maneira de permitir que o profissional reserve uma parcela maior de sua receita para combustível, manutenção e outros investimentos.

Corrida mínima é de R$ 10 em Goiás e R$ 6,99 em Minas

Os preços das viagens também variam entre as cidades atendidas.

Em Catalão, a corrida mínima é de R$ 10 para deslocamentos de até aproximadamente 2,2 quilômetros.

Já em Paracatu e Patos de Minas, o valor mínimo informado pelo gestor é de R$ 6,99, cobrindo cerca de 2 quilômetros.

Rosemar explica que o preço das viagens aumenta conforme a distância percorrida.

Em Catalão, por exemplo, um trajeto de aproximadamente 5,5 quilômetros pode custar entre R$ 18 e R$ 19, enquanto uma corrida de 9 quilômetros pode chegar a cerca de R$ 24.

“As mais longas podem melhorar o faturamento dos profissionais, dependendo dos custos e das condições do deslocamento”, explica. 

“Quem escolhe corrida fica para trás”

Uma das principais críticas de Rosemar está relacionada ao comportamento dos motoristas que aceitam apenas determinadas solicitações.

Segundo ele, alguns profissionais priorizam corridas curtas ou rejeitam viagens que consideram pouco atrativas.

Na avaliação do gestor, essa estratégia pode reduzir o volume de trabalho e comprometer o faturamento ao final do mês.

“Quem pega tudo ganha, quem escolhe fica para trás”, afirma.

Rosemar acredita que os motoristas precisam considerar o conjunto das viagens realizadas, em vez de avaliar cada corrida isoladamente.

“Uma sequência de atendimentos pode ser mais vantajosa do que esperar durante muito tempo por uma solicitação específica. Fora que quando muitos motoristas recusam viagens, os passageiros acabam recorrendo a diferentes aplicativos para conseguir um veículo”, comenta o gestor. 

Motoristas já ultrapassaram R$ 10 mil de faturamento mensal

Rosemar relata que o faturamento dos profissionais varia bastante conforme a jornada de trabalho e o número de corridas realizadas.

Segundo o gestor, existem motoristas com resultados mensais próximos de R$ 1 mil, enquanto outros alcançam R$ 3 mil, R$ 5 mil ou R$ 8 mil.

Ele também menciona profissionais que já ultrapassaram R$ 10 mil em um mês.

O empresário não informou uma média consolidada de faturamento de toda a base cadastrada.

“Um dos fatores que ajudam a explicar as diferenças está na disponibilidade dos motoristas para atender às solicitações. Os valores representam faturamento, não lucro líquido, e precisam ser considerados junto às despesas com combustível, manutenção e depreciação dos veículos”, afirma. 

Gestor critica corridas realizadas fora do aplicativo

Entre os problemas enfrentados pelo Mazim, Rosemar destaca as viagens particulares realizadas por motoristas que deixam de registrar os serviços na plataforma.

Segundo ele, muitos profissionais acreditam que podem ganhar mais ao negociar diretamente com o passageiro.

Entretanto, o gestor considera que nem sempre os custos adicionais são levados em conta.

Para exemplificar, cita uma situação em que o motorista precisa percorrer 8 quilômetros para buscar um passageiro e realizar uma viagem de apenas 2 quilômetros.

Nesse caso, segundo Rosemar, a distância até o embarque pode comprometer a vantagem financeira de uma cobrança particular.

“Enquanto ele anda 8 quilômetros para buscar um particular, o aplicativo pode tocar uma corrida quase do lado dele, sem aquele deslocamento”, argumenta.

O gestor afirma que, dependendo das circunstâncias, o motorista poderia realizar mais viagens com uma quilometragem menor.

Ele também destaca que o desgaste do veículo precisa ser considerado na avaliação do resultado financeiro.

“O motorista acha que está lucrando, mas não tem dinheiro para consertar o carro”

Rosemar acredita que o planejamento financeiro é um dos principais desafios dos trabalhadores do setor.

Segundo ele, alguns profissionais consideram apenas o valor recebido pelas viagens e deixam de reservar dinheiro para despesas futuras.

O problema se torna evidente quando o veículo precisa passar por manutenção.

“O motorista acha que está lucrando por fora. Na hora que o carro dá um problema, não tem dinheiro nem para fazer a própria revisão”, relata.

Na avaliação do gestor, o excesso de quilômetros rodados sem uma remuneração proporcional pode tornar a atividade menos sustentável.

“Já acompanhei casos de profissionais que precisaram deixar o transporte por aplicativo após enfrentar dificuldades para pagar reparos nos veículos. O motorista precisa considerar os gastos totais da operação antes de concluir que determinada viagem foi lucrativa”, avalia o gestor. 

Falta de união entre motoristas preocupa gestor

Outro ponto destacado por Rosemar é a falta de colaboração entre profissionais que trabalham nas mesmas plataformas.

“Quando comecei no setor, havia maior proximidade entre os motoristas e disposição para fortalecer os aplicativos locais. Com o crescimento do mercado, essa relação se tornou mais difícil. A união é tudo”, relembra.

Rosemar considera que o fortalecimento dos aplicativos regionais depende da participação dos profissionais, especialmente nos momentos de maior demanda.

Ele cita festas e eventos como situações em que alguns motoristas deixam de atender pelo aplicativo para priorizar clientes particulares.

Para o gestor, isso pode prejudicar os passageiros que continuam solicitando corridas pela plataforma.

Motorista deve poder trabalhar em vários aplicativos, defende Rosemar

Apesar de criticar as viagens realizadas por fora das plataformas, Rosemar defende que os profissionais tenham liberdade para trabalhar com diferentes aplicativos.

“Uma das maiores dificuldades enfrentadas pelo Mazim Car no início foi conquistar motoristas que já estavam vinculados a outras empresas”, conta. 

O gestor relata que alguns profissionais tinham receio de perder o cadastro em outras plataformas caso começassem a utilizar o Mazim.

“O motorista que roda no meu roda em mais cinco aplicativos. Tem motorista que roda em seis aplicativos diferentes”, afirma.

Para Rosemar, a possibilidade de utilizar diversas plataformas amplia as oportunidades de trabalho.

Ele considera que o profissional deve avaliar as corridas disponíveis e escolher a melhor forma de organizar sua jornada.

Experiência como motorista influencia decisões da empresa

Mesmo depois de criar o Mazim, Rosemar continuou trabalhando como motorista.

Segundo ele, essa experiência é importante para compreender os custos da atividade e os problemas enfrentados pelos profissionais.

O gestor afirma que chega a percorrer entre 10 mil e 11 mil quilômetros por mês, com gastos de aproximadamente R$ 5 mil em combustível.

Na avaliação dele, despesas elevadas tornam ainda mais importante a definição de taxas que permitam ao profissional manter o veículo em boas condições.

“Eu sou motorista também. Não estou olhando para tirar do motorista. Quero que ele ganhe e possa falar: ‘No final do ano, vou trocar meu carro’”, afirma.

Rosemar considera que a renovação dos veículos beneficia não apenas os condutores, mas também os passageiros, que passam a contar com automóveis mais novos e confortáveis.

Qualidade, conforto e segurança fazem parte da proposta

Para Rosemar, o crescimento de um aplicativo regional não depende apenas de conquistar novos passageiros.

“É necessário oferecer condições para que os motoristas invistam na qualidade do serviço. Quando um profissional consegue manter o veículo conservado e realizar manutenções regularmente, a experiência do usuário melhora”, relata. 

O gestor relaciona essa preocupação à política de cobrança adotada pela empresa.

“Se o motorista não tem condição de trocar de carro porque o aplicativo está sugando o que ele ganha, quem vai ficar na mão é o passageiro”, afirma.

Rosemar defende que os aplicativos encontrem um equilíbrio entre a própria sustentabilidade financeira e as necessidades dos profissionais cadastrados.

Expansão depende da adesão de motoristas

Atualmente, o Mazim Car possui operações em Catalão, Paracatu e Patos de Minas.

Rosemar afirma que gostaria de ampliar a presença da plataforma em outras cidades, mas encontra dificuldades para conquistar motoristas em novos mercados.

Segundo ele, parte dos profissionais ainda demonstra resistência em experimentar aplicativos menores.

“A expansão depende de apresentar condições comerciais atrativas e conquistar a confiança dos trabalhadores”, revela. 

“Meu propósito é ver cada motorista crescer”

Questionado sobre o legado que gostaria de deixar, Rosemar voltou a destacar a situação financeira dos profissionais.

Para ele, o principal resultado de uma plataforma não deveria ser apenas a quantidade de corridas realizadas ou o valor arrecadado pela empresa.

O empresário considera importante que os motoristas consigam melhorar de vida e tenham condições de renovar os veículos.

“Tem muito motorista rodando há três anos em aplicativo e que não tem condição de trocar de carro. Por quê? Porque quem está ganhando não é o motorista, é o aplicativo”, critica.

Rosemar afirma que pretende continuar trabalhando como motorista para acompanhar a realidade da categoria e considerar suas necessidades na administração do Mazim.

“O meu legado é ver o motorista crescer. Aplicativo tem muito, plataforma não falta. Mas depende do motorista querer crescer”, conclui.

Foto de Giulia Lang
Giulia Lang

Giulia Lang é jornalista formada pela Fundação Cásper Líbero e há três anos cobre o mercado de mobilidade urbana e delivery pelo 55content.