Alessandra Godoy, de 37 anos, é natural de Porto Alegre e fundadora do Corrida Venâncio. Antes de criar a própria operação, ela trabalhou como motorista de aplicativo em outra plataforma e, a partir da experiência nas ruas, percebeu que Venâncio Aires precisava de um modelo diferente de atendimento.

Segundo ela, o público da cidade ainda tinha dificuldade para entender o funcionamento de um aplicativo de mobilidade. Por isso, o Corrida Venâncio nasceu com uma central de atendimento para ajudar passageiros a pedir corridas, especialmente pessoas mais velhas ou com menos familiaridade com tecnologia.

“A cidade necessitava de um método um pouco diferente de tratamento para iniciar o serviço. As pessoas precisavam de um apoio maior”, afirma Alessandra.

Central ajuda passageiro a pedir corrida pelo WhatsApp

O diferencial inicial do Corrida Venâncio foi unir a plataforma com uma central de atendimento via WhatsApp. O passageiro envia origem e destino, e a equipe lança a corrida dentro do sistema para os motoristas logados.

Depois que um motorista aceita, o passageiro recebe um link pelo WhatsApp com informações do carro, modelo, cor, placa, motorista e trajeto até o embarque.

“O que o pessoal sabia na época era abrir o WhatsApp. Então a gente recebe a chamada, pega origem e destino e lança para dentro da plataforma”, explica.

Primeiros motoristas vieram do boca a boca

No começo, a captação de motoristas aconteceu de forma familiar e orgânica. Alessandra já trabalhava com algumas pessoas da família em outra plataforma e, quando decidiu criar uma operação adaptada à realidade de Venâncio Aires, esse grupo iniciou o serviço.

A partir daí, o próprio boca a boca fez o aplicativo crescer. Moradores viam os carros circulando e procuravam a empresa para entender como colocar um veículo na plataforma.

Hoje, o Corrida Venâncio também investe em redes sociais, outdoor, rádio, carro de som e outras ações de divulgação.

Investimento inicial foi de cerca de R$ 5 mil

O investimento inicial não foi alto, segundo Alessandra. Ela estima que, para abrir a plataforma, fazer a legalização e organizar a documentação, o custo inicial tenha ficado em torno de R$ 5 mil. Depois, os custos passaram a ser mensais.

Hoje, a operação já se paga e dá lucro.

Segurança é o principal diferencial

Para Alessandra, o maior diferencial do Corrida Venâncio é a segurança. A empresa foi pioneira na cidade e, segundo ela, os passageiros se identificam com o nome, conhecem os motoristas e confiam no serviço.

“Venâncio Aires exige uma série de documentos e etapas para credenciar motoristas, incluindo toxicológico, antecedentes, EAR na CNH, vistoria no departamento de trânsito, MEI ou cadastro como autônomo, seguro total do carro para passageiro e limite de oito anos de fabricação para o veículo. Quem anda com a gente pode ter certeza que o nosso maior diferencial é a segurança em relação ao transporte”, afirma.

Burocracia municipal marcou o início

A maior dificuldade no começo foi cumprir todas as exigências da lei municipal. Segundo Alessandra, a quantidade de documentos e trâmites tornava o credenciamento dos motoristas mais burocrático, embora possível de fazer.

Outro desafio inicial foi a resistência dos taxistas. Ela afirma que, em uma cidade pequena com cerca de 120 taxistas credenciados, a chegada de um aplicativo foi vista como ameaça por parte do setor.

“Eles ficaram bem chateados, como se a gente estivesse tirando clientela”, lembra.

Concorrência desleal é a dificuldade atual

Hoje, a principal dificuldade citada por Alessandra é a concorrência desleal. Segundo ela, o problema não é a concorrência existir, mas a diferença de cobrança e fiscalização entre quem segue todas as regras municipais e quem opera apenas com base em normas mais gerais.

A gestora afirma que não quer abrir mão da credibilidade nem colocar qualquer motorista para trabalhar apenas para aumentar a base.

Aplicativo triplicou em um ano

Alessandra percebeu que o aplicativo estava dando certo logo no início. Como não havia outro serviço do tipo na cidade, a operação cresceu rápido. 

“Desde o início a gente viu que estava dando certo. Em questão de um ano, triplicou a quantidade de motorista e a de passageiro evoluiu muito”, diz.

Gestora se orgulha de seguir a lei

O maior orgulho de Alessandra é ter montado uma operação que segue as regras, mantém credibilidade e prioriza a segurança. Para ela, o fato de a empresa continuar crescendo dentro da legalidade é parte central da trajetória.

“O meu maior orgulho é o aplicativo ter dado certo e a gente fazer a nossa trajetória totalmente dentro das leis”, afirma.

Operação atua em raio de 100 km

Embora esteja presente oficialmente em Venâncio Aires, a atuação do Corrida Venâncio alcança um raio de cerca de 100 km. Segundo Alessandra, a plataforma pode atender viagens quase até Porto Alegre, dependendo da chamada.

Atualmente, a base conta com aproximadamente 8 mil passageiros e 30 prestadores.

Apenas motoristas credenciados entram na plataforma

Alessandra reforça que o número de prestadores não é maior porque a plataforma só libera motoristas que estejam dispostos a cumprir todas as exigências legais. Quem não tem EAR na CNH, não passa no toxicológico ou não cumpre os demais requisitos não entra.

Segundo ela, isso reduz a quantidade de motoristas disponíveis, mas mantém o padrão de atendimento.

“A gente coloca aqueles que querem realmente atender e trabalhar pelo certo”, afirma.

Corrida mínima promocional é de R$ 8,90

A corrida mínima promocional do Corrida Venâncio é de R$ 8,90 e cobre cerca de 1,5 km. A taxa cobrada dos motoristas é de 17%.

Alessandra compara o modelo a uma cooperativa. A taxa cobre custos da operação e, quando há necessidade de fazer investimentos maiores, como material personalizado no centro da cidade, os motoristas colaboram na divisão do valor.

Motorista recebe cerca de R$ 2,50 por km

O valor médio por quilômetro para o motorista fica em torno de R$ 2,50. Segundo Alessandra, em dias bons, há prestadores que já chegaram perto de R$ 1 mil em faturamento diário. A média diária costuma ficar em torno de R$ 350 a R$ 400 e alguns quebrados.

“São dias e dias. Acredito que já deva ter chegado perto dos R$ 1 mil no dia”, afirma.

Plataforma chega a 8 mil corridas finalizadas no mês

Em meses de maior movimento, a operação registra cerca de 15 mil simulações, 10 mil solicitações e aproximadamente 8 mil corridas finalizadas.

O ticket médio fica em torno de R$ 12 a R$ 13 nas corridas mais comuns entre bairro e centro. Considerando 8 mil corridas, Alessandra estima uma receita total próxima de R$ 102 mil para os prestadores, com a plataforma retendo 17%.

Corrida por fora precisa ser lançada no aplicativo

O Corrida Venâncio não pune o motorista por ter corridas particulares. A regra é que, se o condutor atender um passageiro por fora, ele abra a corrida manualmente dentro do aplicativo.

A punição ocorre quando o motorista pega um passageiro da plataforma e tenta transformá-lo em contato particular.

“o passageiro do aplicativo pertence à base de todos os motoristas, não a um único condutor. O motorista pode ter corrida particular dele, mas tem que abrir essa corrida dentro do aplicativo”, explica.

Ser mulher pesou no começo, diz Alessandra

Questionada sobre ser mulher em um mercado ainda muito masculino, Alessandra afirma que hoje não vê diferença no tratamento. No início, porém, relata ter se sentido oprimida em uma reunião com taxistas, advogados e mais de 40 homens tentando impedir a vistoria e o início da operação.

Na época, segundo ela, eram duas mulheres tentando fazer a vistoria no departamento de trânsito para iniciar o serviço.

“A gente se sentiu meio oprimida no dia. Eram tantos homens e advogados para dizer que a gente não podia iniciar o serviço na cidade”, lembra.

Tecnologia exige ajustes

Alessandra avalia que a tecnologia do app atende ao que a operação precisa hoje, embora existam ajustes e mudanças em análise.

“Parte das necessidades do Corrida Venâncio é muito específica da realidade da cidade, como o apoio da central de atendimento, e nem todas as praças precisariam do mesmo tipo de adaptação”, explica.

Meta é não deixar passageiro na mão

A empresa não trabalha com uma meta numérica específica de faturamento ou corridas. Segundo Alessandra, o principal objetivo é atender o maior número possível de clientes e não deixar corridas sem resposta.

“A nossa maior meta é atender o maior número de clientes possíveis. É não deixar cliente na mão”, afirma.

Próximo passo pode ser Mato Leitão

Para os próximos anos, Alessandra gostaria de expandir para Mato Leitão, cidade vizinha que, segundo ela, tem características parecidas com Venâncio Aires antes do início do Corrida Venâncio.

A ideia seria transferir alguns motoristas para iniciar a operação e, depois, formar uma base local.

App também pode entrar em tele entrega

Outra possibilidade é incluir serviços como tele entrega, água e gás na plataforma, em parceria com empresas que já realizam esse tipo de serviço. A ideia é cadastrar essas operações dentro do aplicativo e fazer as entregas por meio da mesma estrutura.

Futuro deve favorecer os melhores

Sobre o futuro dos aplicativos regionais, Alessandra acredita que devem permanecer os melhores, especialmente os que entregam serviço com excelência. Para ela, cidades pequenas não comportam muitas plataformas ao mesmo tempo, porque a base de passageiros e corridas é limitada.

“Um prestador não vive com meia dúzia de corrida no dia. Aplicativo sem prestador não é nada”, afirma.

Proximidade e confiança são diferenciais dos regionais

Na avaliação de Alessandra, o principal diferencial de um aplicativo regional é a proximidade. Em cidades pequenas, os passageiros conhecem os motoristas, identificam quem está dirigindo e confiam mais quando sabem quem está por trás da operação.

“O pessoal fala: ‘Conheço o pessoal da Corrida, pode ir tranquilo, posso deixar meus filhos andarem com eles’”, diz.

Legado é manter excelência e seguir em primeiro lugar

Ao falar sobre legado, Alessandra afirma que deseja manter o desempenho da empresa, ampliar a base de prestadores e ajudar mais famílias a evoluírem junto com o aplicativo. Ela também destaca que o Corrida Venâncio está pelo quinto ano consecutivo com premiação de primeiro lugar em destaque na cidade.

“Acredito que a gente vai continuar com esse legado de sermos os melhores”, conclui.

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Giulia Lang

Giulia Lang é jornalista formada pela Fundação Cásper Líbero e há três anos cobre o mercado de mobilidade urbana e delivery pelo 55content.