A trajetória de Felipe Britzke na mobilidade começou em 2019, quando ele era motorista e liderava, ao lado de um parceiro, um grupo chamado Caveiras, que chegou a reunir cerca de 700 motoristas. Na época, uma empresa de mobilidade regional procurou o grupo para uma parceria. A operação deu certo em Cascavel e, depois, avançou para Foz do Iguaçu.
O UFO nasceu depois dessa experiência inicial como modelo de franquia. Segundo Felipe, o modelo franqueado tinha limitações financeiras, principalmente porque a operação precisava repassar parte da receita à matriz enquanto tentava manter taxas baixas para os motoristas.
“O principal motor para ter a própria empresa foi econômico. Como franquia, você fica limitado e a operação fica muito esmagada”, afirma.
UFO não entrou onde já havia franquia parceira
Apesar de ter criado uma marca própria, Felipe afirma que o UFO não entrou em cidades onde já havia operações parceiras anteriores. A decisão, segundo ele, foi tomada por respeito comercial e para evitar conflito entre marcas.
Por isso, a expansão da UFO foi feita em outras cidades, fora das praças onde o outro app estava presente.
Captação de motoristas veio da vivência na rua
Como a equipe veio da experiência como motorista, Felipe afirma que captar condutores nunca foi a parte mais difícil. O conhecimento dos grupos, das conversas e da rotina da categoria ajudou a introduzir a operação em novas cidades.
O desafio maior, segundo ele, está em fazer a operação girar com passageiros e clientes.
“Como a gente sempre foi motorista, é muito fácil para nós introduzir nas cidades, achar os grupos e conversar com as pessoas. O mais difícil é fazer girar, é cliente”, diz.
Delivery usa tráfego pago para atrair motoboys
No delivery, o UFO trabalha com estratégias de marketing digital para atrair motoboys. Felipe afirma que o tráfego pago nas plataformas da Meta funciona bem para recrutar entregadores e fortalecer a base da operação.
Aplicativo leva até um ano e meio para dar retorno
Segundo Felipe, uma operação regional de aplicativo costuma levar de um ano a um ano e meio para começar a dar retorno, dependendo da cidade.
“Mesmo quando o app começa a girar em três ou quatro meses, ainda há um período de maturação por causa dos investimentos em marketing, promoções para passageiros e incentivos para motoristas. Hoje, a operação já se paga”, explica
Grandes plataformas mudaram a estratégia
A principal dificuldade apontada por Felipe é a concorrência das grandes plataformas. Na avaliação dele, empresas como Uber e 99 têm tecnologia, capital e capacidade de subsídio em um nível que dificulta a disputa direta.
Por isso, a estratégia atual é evitar abrir operação de passageiros em cidades onde as grandes já estão muito presentes.
“Hoje a gente foge. Não fica abrindo em cidade que tenha as grandes. Não vale a pena”, afirma.
Delivery cresceu 48% no semestre
Embora o UFO também atue com passageiros, Felipe diz que hoje o que mais dá certo para a empresa é o delivery. A frente cresceu 48% no semestre e passou a receber mais atenção do que o transporte de passageiros.
Segundo ele, o UFO nasceu do delivery de moto e de carro.
Grupo tem três sócios
A operação é formada por três sócios, divididos entre suporte, operações, financeiro e administração. Felipe afirma que a empresa começou de forma amadora, mas foi se profissionalizando com o tempo, cursos e busca por mais conhecimento em negócios.
Hoje, ele cuida diretamente de tráfego pago e afirma que a empresa também conta com filmmaker para produção de conteúdo.
“Ninguém nasce empresário. A gente vai aprendendo com o tempo”, diz.
UFO também desenvolve automações
A empresa vem migrando parte da operação para automações. Segundo Felipe, setores do financeiro já funcionam de forma automatizada e foram validados com consultoria do Sebrae.
A UFO também criou uma frente voltada a soluções de automação para negócios, com produtos próprios e site dedicado.
Integração com iFood é parte do pacote
Felipe afirma que a empresa também desenvolveu integração com o iFood para pedidos de moto. A operação licenciada da UFO já pode ser entregue com escopo de gestão, marketing, redes sociais montadas, captação inicial de motoristas ou motoboys e sistema integrado.
Segundo ele, a marca passa por uma transformação com foco maior em automação e delivery.
Empreender mudou a visão do mercado
Ao comparar a vida de motorista com a de gestor, Felipe afirma que empreender no Brasil é difícil e, em alguns momentos, o dono da operação pode ganhar menos do que motoristas de alto rendimento.
“Teve hora que a gente preferiria ter ficado como motorista. Mas a gente se apaixonou pelo negócio, por fazer andar e por ser referência em inovação”, afirma.
Operação está em cidades do Paraná e Mato Grosso
O motor da UFO é Marechal Cândido Rondon, onde o grupo opera com UFO e LOG Urbano. Considerando licenciados, a operação está em cidades como Cascavel, Foz do Iguaçu, Palotina, Marechal Cândido Rondon, Quedas do Iguaçu, além de Nova Santa Helena e Marcelândia, no Mato Grosso.
A base reúne entre 2,5 mil e 2,8 mil motoristas e motoboys ativos.
Corrida mínima varia por cidade
Os valores variam conforme a praça. Em algumas cidades, a corrida mínima fica em R$ 7,80. Em Cascavel e Palotina, por exemplo, a mínima é de R$ 10. No delivery de moto, os valores podem variar entre R$ 4 e R$ 6.
O UFO atua com delivery de moto, mas não com motopassageiro.
Valor por quilômetro gira em torno de R$ 3
O valor médio por quilômetro também muda de cidade para cidade. Em Foz do Iguaçu, por ser uma cidade mais “esticada”, a média fica entre R$ 3 e R$ 3,50. Em Cascavel, fica por volta de R$ 2,60 a R$ 2,70. De forma geral, Felipe estima uma média de R$ 3 por quilômetro para motoristas.
“A plataforma mostra ao motorista o valor por quilômetro já considerando o deslocamento até o passageiro, para evitar surpresa na aceitação da corrida”, explica o gestor;
Taxa média é de 15%
A taxa média cobrada dos motoristas é de 15%. O funcionamento da carteira varia conforme a forma de pagamento da corrida. Como há corridas pagas no cartão, muitos motoristas ficam com saldo positivo. Quando necessário, fazem recargas que variam de R$ 15 a R$ 100.
Motoristas de equipe fechada passam de R$ 10 mil
Felipe afirma que não tem o dado geral de faturamento médio dos motoristas em mãos, mas diz que já viu condutores da OG Urbano, em Marechal Cândido Rondon, passarem de R$ 10 mil brutos. Segundo ele, esse desempenho ocorre em operações de equipe fechada, não em modelos totalmente abertos.
No caso dos motoboys, a média gira em torno de R$ 3,5 mil a R$ 4 mil.
UFO faz mais de 35 mil corridas e entregas por mês
A operação realiza mais de 35 mil corridas e entregas por mês. O GMV estimado no semestre gira entre R$ 3,5 milhões e R$ 4 milhões, considerando corridas e entregas.
Felipe ressalta que esse valor não representa o faturamento direto da empresa, mas o volume bruto movimentado pela cadeia.
Corridas por fora são tratadas como realidade do setor
Felipe afirma que as corridas por fora são um problema recorrente, mas difícil de controlar. Para ele, a prática se tornou quase uma epidemia no setor e não deve ser resolvida no curto prazo sem fiscalização forte.
“Isso é uma realidade e eu não vejo solução tão cedo. Como você vai controlar?”, questiona.
Falta especialização para administrar plataformas
Ao falar sobre o que mais incomoda no mercado, Felipe cita a falta de pessoas especializadas em administrar plataformas de mobilidade e delivery.
“A gestão financeira de um aplicativo é mais complexa do que a de negócios tradicionais, porque envolve cupons, cashback, carteiras de clientes e motoristas, deslocamentos pagos, dívidas internas e intermediação de pagamentos”, diz.
Na visão de Felipe, muitos donos de aplicativos tratam dinheiro em carteira como caixa da empresa, quando na verdade esse valor pode representar uma dívida futura.
“Muitos donos de plataforma trabalham alavancados como se tivessem pegando dinheiro emprestado do banco e ninguém sabe disso”, afirma.
Gestão enxuta é caminho para regionais
Para Felipe, aplicativos regionais podem sobreviver se tiverem gestão, estratégia e estrutura enxuta. Ele afirma que uma operação local consegue rodar e cair no gosto do público, mas precisa estar preparada para a chegada de grandes plataformas e para mudanças no comportamento dos motoristas.
“Formar grandes estruturas de apoio nem sempre garante fidelidade dos motoristas. O condutor valoriza a independência e tende a buscar a plataforma onde houver mais chamadas ou melhor oportunidade no momento. O futuro dos pequenos é gestão: trabalhar enxuto, não trabalhar alavancado e não trabalhar inchado de despesa”, avalia.
Tecnologia regional ainda está atrás das grandes
Felipe considera que a tecnologia das plataformas regionais ainda é inferior à das grandes empresas. Ele cita como exemplo a falta de integração automática com clima, picos de demanda, dinâmicas, alertas para motoristas e promoções automáticas.
Segundo ele, hoje muitas dessas ações ainda dependem de operação manual.
“Se você não acorda cedo para olhar o tempo, perde o horário de pico, não atende o cliente e ele instala Uber ou 99”, diz.
Futuro, para Felipe, passa por delivery autônomo
Ao falar sobre os próximos anos, Felipe afirma que o futuro do setor deve passar por carros autônomos e, principalmente, delivery autônomo. O objetivo dele é posicionar a UFO na vanguarda desse mercado, com foco em automação e tecnologia.
No curto prazo, ele diz ver mais perspectiva no delivery do que no transporte de passageiros.
“Delivery e automação. No passageiro, a curto prazo, eu não vejo muita perspectiva”, afirma.
Legado é acompanhar o movimento do mercado
Para Felipe, mais do que deixar um legado tradicional, a prioridade é acompanhar a transformação do mercado. Ele acredita que a tecnologia e a automação devem mudar a forma como o setor opera, especialmente no delivery.
Segundo ele, empresas locais geram empregos locais, mas precisam se adaptar à mudança de comportamento do consumidor e ao avanço da tecnologia.
“Se um dia eu for deixar um legado, é pioneirismo em deliveries de drones e robôs autônomos para entrega”, conclui.
