Pesquisas recentes colocam o endividamento entre os desafios financeiros enfrentados por trabalhadores de aplicativo no Brasil. Enquanto um levantamento divulgado pelo Tribunal Superior do Trabalho (TST) alerta para a vulnerabilidade de motoristas diante de custos mensais que podem superar R$ 5 mil, uma pesquisa da GigU, plataforma de gestão financeira e produtividade para quem trabalha por intermédio de aplicativos, aponta que 82,5% dos motoristas entrevistados possuem algum tipo de obrigação financeira em aberto e que sete em cada dez desses trabalhadores recorreram a empréstimos nos últimos 12 meses.

Os dados ganham contornos concretos nos relatos de representantes de motoristas e entregadores ouvidos pela reportagem. Entre os casos estão trabalhadores que chegam à atividade já endividados, recorrem a financiamento ou aluguel para obter um veículo e passam a depender da renda diária das plataformas para cobrir despesas do próprio trabalho e compromissos pessoais.

“São despesas, muitas vezes, recorrentes em todos os meses, e que o motorista já está no limite. A qualquer momento, a conta não vai fechar”, observa o diretor executivo e de Comunicação da Federação dos Motoristas por Aplicativos do Brasil (FEMBRAPP), Denis Moura.

TST calcula despesas superiores a R$ 5 mil

Os custos também aparecem em levantamento divulgado pelo Tribunal Superior do Trabalho (TST). Pelos cálculos apresentados, as despesas mensais chegam a R$ 5.566 para motoristas que utilizam carro próprio e a R$ 5.706 entre aqueles que trabalham com veículo alugado.

Os valores consideram um perfil de 22 dias trabalhados por mês, oito horas diárias e velocidade média efetiva de 25 quilômetros por hora em contexto urbano. Entre as despesas consideradas estão combustível, manutenção e depreciação do veículo, seguros, tributos, internet móvel, multas e alimentação.

O documento do TST alerta que motoristas de aplicativo apresentam maior risco de endividamento diante da instabilidade e da imprevisibilidade da atividade. A pesquisa também chama atenção para empréstimos oferecidos diretamente por plataformas de transporte, cujo pagamento pode ser descontado dos valores recebidos nas corridas em percentuais de até 30%.

Dívida pode começar antes mesmo do primeiro dia de trabalho

Entre os entregadores, o presidente da Associação dos Motofretistas de Aplicativos e Autônomos do Brasil (AMABR), Edgar Francisco da Silva, conhecido como Gringo Motoka, relata que parte dos trabalhadores chega à atividade depois de enfrentar dificuldades financeiras ou perder outra fonte de renda.

“Você vê muitos chegando ao aplicativos já endividados. As portas fecharam, ficou muito tempo desempregado”, conta.

Segundo Gringo, há também quem assuma novos compromissos financeiros justamente para conseguir começar a trabalhar.

“A pessoa se endivida para comprar um moto, por exemplo, no nome da irmã, depois tira um celular no nome do tio, e assim vai. Ele precisa pagar a conta, não pode simplesmente parar de trabalhar com os aplicativos.”

Para quem não consegue comprar uma motocicleta, uma das alternativas é o aluguel: “Quando não tem dinheiro nem para comprar uma moto, aluga uma. Às vezes, alugam com o nome sujo, mas aí vai ter que pagar de R$ 800 a R$ 2 mil por mês para para ter essa moto, e não vai ser dele”.

Gringo cita como exemplo um cálculo feito pela associação para o aluguel de uma motocicleta que custava R$ 16 mil. Com cobrança semanal de R$ 355 durante três anos, segundo ele, o trabalhador desembolsaria R$ 55.380 no total.

Financiamento e juros entram na conta dos motoristas

Na percepção da Federação dos Motoristas por Aplicativos do Brasil (FEMBRAPP), a dificuldade financeira aparece não apenas entre trabalhadores formalmente inadimplentes, mas também entre aqueles que acumulam compromissos mensais até praticamente esgotar a renda disponível.

O diretor executivo e de Comunicação da entidade, Denis Moura, afirma que a situação ficou mais evidente a partir da experiência da federação com motoristas que tentaram acessar financiamento.

“Como ele já está no limite, quando há algum imprevisto, vem a dificuldade”, conta.

Segundo Moura, a disponibilidade quase imediata do dinheiro obtido nas corridas também pode esconder uma situação em que o trabalhador depende do que recebe naquele dia para continuar rodando.

“O indivíduo sai de manhã, por exemplo, e faz três corridas, então pega o dinheiro, bota a gasolina, faz mais três, depois almoça… mas ele não pode furar o pneu depois do almoço, porque não tem dinheiro para consertar.”

A FEMBRAPP também aponta o financiamento do veículo como uma das despesas relevantes: “A maioria dos carros são financiados. É difícil ter alguém com carro quitado e, quando o indivíduo está terminando de quitar, normalmente já está na hora de trocar o veículo. E, muitas vezes, ele troca sem o carro estar quitado”.

Na avaliação do representante, os juros são outro componente importante do endividamento, porque podem aparecer tanto no financiamento quanto no uso do cartão para despesas necessárias ao trabalho.

“O motorista paga, muitas vezes, o combustível com cartão de crédito. Se ele compra um carro financiado e não paga em dia, então, paga com juros. Tudo fica mais caro depois”, diz.

Levantamento mostra peso das dívidas no orçamento dos motoristas

De acordo com os dados divulgados pela GigU, 70,7% dos entrevistados recorreram a empréstimos nos últimos 12 meses, enquanto 82,5% afirmaram possuir dívidas.

O levantamento ouviu 1.576 trabalhadores, em junho de 2026, por meio de um questionário on-line enviado a trabalhadores de aplicativo que utilizam o aplicativo em todo o país. O convite foi distribuído por notificações no aplicativo e pelos canais da comunidade da empresa, alcançando mais de 149 mil usuários. Segundo esclarecem, a participação foi voluntária e não houve incentivo aos respondentes.

Um ponto importante, porém, é que a pesquisa não utiliza “dívida” como sinônimo de inadimplência ou de restrição em órgãos de proteção ao crédito. Foi considerada para a pesquisa qualquer obrigação financeira em aberto reconhecida pelo próprio trabalhador, inclusive parcelas que estão sendo pagas normalmente, conforme explica o Head de Marketing e Growth da GigU, Raul Peter:

“Queríamos medir o comprometimento real da renda, não o estágio final do problema. Então, entra desde a parcela do financiamento em dia até a conta doméstica atrasada”.

As dívidas bancárias e com cartão de crédito aparecem como principal motivo apontado por 51,2% dos entrevistados. Em seguida, estão os financiamentos, com 15,9%, e as contas domésticas, com 12,7%. Já o restante, se divide entre despesas como manutenção do veículo, saúde e combustível.

Peter ressalta que o percentual referente a bancos e cartões não representa todas as dívidas mantidas por esses trabalhadores. “O dado que pede mais cautela é o percentual de dívida bancária e cartão, que se refere ao motivo principal apontado por cada respondente, não ao total de dívidas de cada um. A maioria [dos trabalhadores] acumula mais de uma frente ao mesmo tempo, então esse 51,2% é um piso, não um teto.”

Acidente pode interromper renda e aprofundar dívida

Um dos exemplos relatados pela FEMBRAPP envolve um motorista que havia deixado de pagar a proteção veicular havia cerca de seis meses. Segundo Moura, o trabalhador entrou em contato com ele em busca de uma indicação para voltar a contratar o serviço, mas sofreu um acidente antes de concluir a contratação.

“Esse rapaz está em desespero. Se ele tivesse a proteção veicular, o carro teria dado perda total, o que também seria um problema por demorar a receber, mas, pelo menos, recebe de volta. Ele não tem mais o carro, não tem mais renda”, compartilha.

O caso ilustra um dos fatores apontados pelo representante da entidade como particularmente difíceis para a categoria: o imprevisto. Como o veículo é simultaneamente patrimônio e instrumento de geração de renda, problemas mecânicos, acidentes, roubos e períodos sem poder trabalhar podem afetar os dois lados da conta.

O próprio diretor relata ter ficado 76 dias sem trabalhar com suas duas principais atividades depois que seu carro foi roubado: “Perdi as duas das minhas principais rendas, que são o transporte executivo e as plataformas. Perdi as duas de uma vez só. Essas coisas assim, os imprevistos, eu acho que também são graves problemas do motorista de aplicativo”.

Além dos imprevistos, no dia a dia dos entregadores, Gringo percebe que, quando a renda não é suficiente para cobrir todas as despesas, alguns gastos necessários à própria atividade começam a ser adiados.

“Ele deixa de pagar um mês, não faz um seguro de vida adequado, não paga mais o seguro da moto, já não se alimenta bem… e por aí vai”, narra.

Depreciação pode alimentar um novo financiamento

Para Gringo, uma das dificuldades entre os entregadores é calcular quanto do valor recebido representa efetivamente renda e quanto deveria ser reservado para manter a atividade.

“Acontece de o entregador imaginar que está só entrando num serviço, e não fazer a conta do investimento diário para continuar.”

Além do investimento inicial, o representante da entidade aponta despesas recorrentes com combustível, óleo, alimentação, pneus e outras peças, além da perda de valor da motocicleta ao longo do tempo.

“Tem todo o custo operacional para exercer a profissão. A depreciação é importante porque você colocou o seu patrimônio novinho à disposição para pagar para trabalhar nessa plataforma”, opina.

Esse desgaste da moto, segundo ele, pode gerar uma nova dívida quando chega o momento de substituí-la. Gringo ilustra que uma motocicleta comprada por R$ 20 mil passa a valer R$ 15 mil depois de três anos: “Nesse exemplo, onde que eu guardei esses R$ 5 mil da diferença? Eu não guardei. Então, o que eu faço? Financio outra moto. Aí estaria pagando duas motos, porque seria a nova mais os juros da anterior”.

“Isso que vai sufocando porque não é rápido, é bem gradativo”, complementa.

Renda bruta pode esconder os custos do trabalho

A dificuldade de separar faturamento e renda líquida aparece tanto nos relatos das entidades quanto nos dados da GigU. Nesse contexto, Gringo afirma que percebeu essa diferença ao calcular os próprios gastos depois de anos trabalhando com entregas.

“Eu olhava e pensava: ‘Caramba, eu não ganho mal, mas por que não tenho nada?’ Quando eu fui ver, o meu custo mensal era R$ 2.700. Isso, sem alimentação. Então, eu achava que gastava R$ 800 por mês. Só quando coloquei tudo ‘na ponta do lápis’ que notei.”

Na pesquisa da GigU, 55,9% disseram não separar as despesas do veículo do lucro pessoal. A empresa afirma ainda que, entre os usuários de sua ferramenta de cálculo, a margem real média é de 40,5%.

Peter relaciona essa falta de separação a decisões tomadas durante a própria jornada: “Quem não faz essa conta, subprecifica o próprio trabalho, aceita corrida que dá prejuízo, não provisiona manutenção e cobre o buraco com cartão. Combinado com os 44,8% que só batem a meta esticando a jornada e os 74,7% que nunca tiveram orientação financeira, o ciclo está desenhado.”

Dados de utilização da ferramenta Lucro Líquido da GigU também apontam o peso das despesas sobre o tempo de trabalho. Segundo a plataforma, um motorista médio roda 212 horas mensais, das quais 126 horas seriam necessárias apenas para pagar combustível, parcela do veículo, manutenção e seguro.

“Ele trabalha mais da metade do mês para o carro e para o banco antes de ganhar o primeiro real dele”, destaca Peter.

Também para Gringo, aumentar a jornada é justamente uma das respostas encontradas pelos trabalhadores quando a conta aperta. Segundo o representante, há entregadores trabalhando seis ou sete dias por semana e permanecendo até 12 horas por dia na atividade.

“Como a pessoa está ganhando menos, tem que trabalhar mais. E, cada vez, vai trabalhando mais.”

Acesso ao crédito esbarra também no comprometimento da renda: cartão e agiotas aparecem como alternativas

A dificuldade financeira não necessariamente aparece apenas quando o trabalhador deixa de pagar uma conta. Conforme observa Moura, mesmo motoristas sem restrições em órgãos de proteção ao crédito podem encontrar dificuldades para conseguir novos financiamentos devido ao nível de comprometimento da renda.

“As contas de fora do trabalho também comprometem a renda do motorista e a aquisição de crédito. Então, não é só o Serasa, as dívidas.”

A GigU faz uma ressalva nesse ponto: “A pesquisa não foi desenhada para comparar os motoristas de aplicativo com a população brasileira ou outros grupos profissionais”.

Quando o crédito tradicional fica mais difícil, Moura relata situações de motoristas que procuram alternativas mais arriscadas. Em um dos casos recentes que chegaram ao representante, uma motorista com mais de 60 anos começou a pedir contribuições de R$ 1 pelas redes sociais porque, conforme conta, acumulava contas atrasadas e uma dívida com agiota.

“Ela não é influenciadora, para chegar ao ponto de fazer isso, ela está desesperada”, diz.

Além dos empréstimos informais, Moura cita o próprio sistema financeiro como fonte de crédito que pode se tornar caro para o trabalhador: “O cartão de crédito tem juros muito altos, e os bancos oferecem muitos empréstimos”.

Orientação financeira aparece como uma das possíveis respostas

Na avaliação da GigU, a vulnerabilidade financeira observada entre os entrevistados está ligada à própria estrutura econômica da atividade.

“O que ela demonstra é mais específico e, para política pública, mais útil: o endividamento dessa categoria é estrutural, ligado à própria atividade. O trabalhador precisa de um ativo caro para gerar renda, financia esse ativo, paga combustível e manutenção sem previsibilidade de faturamento e não tem salário fixo para acessar crédito barato”, afirma Peter.

Para Moura, as plataformas poderiam contribuir com orientação financeira e maior previsibilidade dos valores recebidos pelos motoristas.

“As plataformas poderiam passar orientação financeira, eu acho que isso é fundamental. Também poderiam pagar de uma maneira justa em relação à previsibilidade, como era antes, com taxa e tarifa fixas.”

Em manifestação enviada anteriormente ao Extra, após a divulgação do levantamento do TST, a Associação Brasileira de Mobilidade e Tecnologia (Amobitec) afirmou não reconhecer os números como representativos da realidade dos motoristas e entregadores brasileiros e questionou a metodologia utilizada.

Na ocasião, a entidade citou uma pesquisa encomendada para o Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap), segundo a qual a renda líquida mensal dos motoristas que dirigem 40 horas semanais varia de R$ 3.083 a R$ 4.400, já descontados os custos e considerando diferentes estimativas de tempo de espera por corridas.

Procurada por esta reportagem para comentar especificamente os dados recentes sobre endividamento e o papel dos custos da atividade e do acesso ao crédito nesse cenário, a Amobitec não respondeu até a publicação.

Enquanto os diferentes levantamentos utilizam metodologias e conceitos distintos, os relatos das entidades apontam para uma questão comum: o veículo necessário para gerar renda também concentra uma parcela relevante das despesas e pode exigir novos compromissos financeiros ao longo da atividade.

Na percepção de Gringo, esse processo pode fazer com que o trabalhador fique cada vez mais dependente da própria atividade para pagar as obrigações assumidas.

“Ele vira refém, porque precisa pagar a conta”, avalia.

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