Jefferson Lima de Oliveira construiu a JL Transporte Executivo a partir de uma leitura prática das falhas do mercado de mobilidade executiva. Fundada em 2009, em Sete Lagoas (MG), a empresa nasceu antes da popularização dos aplicativos e, ao longo dos anos, passou por mudanças até chegar ao modelo atual, voltado principalmente ao transporte corporativo em diferentes regiões do país. Com frota própria, motoristas contratados e foco em segurança, monitoramento e padronização do atendimento, o empresário aposta em um serviço mais controlado e personalizado para se diferenciar no setor. Nesta entrevista, ele fala sobre a trajetória da empresa, os investimentos feitos na operação e os desafios de manter um negócio de transporte executivo em meio às transformações do mercado.
Como surgiu a JL Transporte e qual foi o seu caminho até chegar ao setor de mobilidade?
Jefferson: A JL Transporte nasceu em 2009, em Sete Lagoas, Minas Gerais. Naquele momento, ainda não existia aplicativo como existe hoje. O trabalho era feito de forma mais tradicional, com divulgação por rádio e outros meios mais simples, focado no transporte executivo.
A virada começou entre 2013 e 2014, quando percebemos que o mercado de mobilidade estava mudando. Naquele período, fomos pioneiros nesse modelo em Minas Gerais. Pouco depois vieram Uber e 99. Nós chegamos a construir uma reputação muito boa em cidades como Divinópolis e Sete Lagoas, mas ao longo do tempo vimos muitos motoristas migrarem para essas grandes plataformas.
Ao mesmo tempo, mantivemos uma linha de trabalho mais rígida. Sempre exigimos padrão de uniforme, crachá, documentação em dia e uma postura mais profissional dos motoristas. Com o tempo, fomos entendendo que o mercado caminhava para uma nova fase, com mais tecnologia embarcada e mais exigência em segurança. Foi aí que começamos a investir em outra lógica de operação, com vídeo telemetria, sistema de fadiga e uma gestão mais próxima.
A JL Transporte é um aplicativo de mobilidade ou um serviço de transporte executivo?
Jefferson: Hoje ela é um serviço estruturado de transporte executivo com tecnologia própria de operação. Não é grupo de WhatsApp. Existe um sistema, existe um aplicativo e existe uma gestão profissional voltada principalmente para empresas.
Nosso foco maior está no atendimento corporativo, mas aos poucos esse serviço também vem sendo procurado por pessoas físicas, justamente porque o mercado começou a perceber esse diferencial no padrão de atendimento e na segurança da operação.
Quantos motoristas fazem parte da operação hoje?
Jefferson: Em 2024 eu tomei uma decisão grande, que foi montar uma frota própria. Eu já vinha percebendo que muitos motoristas não conseguiam manter o padrão que a empresa exigia, então resolvemos investir em veículos e estruturar um modelo diferente.
Hoje trabalhamos com 100 veículos e 200 motoristas, normalmente em dois turnos por carro. Um motorista atua no período diurno e outro no noturno. Essa mudança alterou completamente a história da JL Transporte, porque deu mais previsibilidade, mais controle de padrão e mais segurança na operação.
Por que o nome JL Transporte?
Jefferson: JL vem de Jefferson Lima, meu nome. Depois de alguns problemas com marca no passado, optamos por manter algo ligado diretamente à minha identidade. Foi uma escolha prática e que acabou funcionando bem.
Quantos clientes a empresa atende atualmente?
Jefferson: Se eu falar em cliente pessoa física, são muitos. Mas no corporativo, hoje atendemos em média 68 empresas no Brasil. Esse é o nosso principal núcleo de operação.
Como funciona esse atendimento em diferentes estados?
Jefferson: Funciona por contrato e por demanda. Se uma empresa entra em contato e precisa de veículos em determinada cidade, a gente avalia a disponibilidade, organiza a operação e atende.
Hoje conseguimos atuar em várias regiões. Já fizemos operações em Manaus, Natal, Pernambuco, Rio de Janeiro, Bahia, Mato Grosso do Sul e outros locais. Muitas vezes a demanda vem de grandes empresas que já conhecem a nossa forma de trabalho e preferem contratar uma operação com padrão mais controlado.
O que motivou esse modelo mais rígido de gestão?
Jefferson: Foi a percepção de que o mercado precisava de mais controle e mais profissionalismo. Muita gente tem medo de usar transporte por aplicativo, especialmente por relatos de assédio, insegurança ou atendimento ruim.
Nós quisemos mostrar que era possível fazer diferente. Por isso investimos em transparência, uniformização, sistemas de monitoramento e treinamento constante. A ideia foi construir um serviço em que o passageiro se sinta seguro para entrar no carro.
Qual foi o investimento para chegar ao modelo atual da empresa?
Jefferson: Eu pesquisei muito antes de dar esse passo. Fui atrás de plataformas brasileiras, busquei referências fora do país e passei 15 dias nos Estados Unidos estudando outros modelos de mobilidade e gestão.
Hoje, considerando toda a estrutura, os veículos e o projeto completo, a empresa já soma algo em torno de R$ 4 milhões em investimento.
Os carros pertencem à empresa?
Jefferson: Sim. A frota é da empresa. E os motoristas trabalham como PJ. Esse formato facilitou a organização jurídica e operacional do negócio.
Hoje cada motorista recebe um valor fixo mensal de R$ 3 mil, além de comissão, que varia conforme o tipo de operação. Dependendo da solicitação, da distância e da permanência em outra cidade, esse valor pode aumentar.
Você tem sócios hoje?
Jefferson: Hoje não. Até cinco anos atrás eu tinha um sócio, mas infelizmente ele faleceu. Depois disso, eu segui sozinho na continuidade do projeto.
Como foi conseguir motoristas para essa nova fase da empresa?
Jefferson: Foi um desafio grande. Quando os carros chegaram, a primeira pergunta foi justamente: “E agora, onde estão os motoristas?”. A estrutura estava pronta, mas eu precisava de gente que se adaptasse ao modelo da empresa.
Eu selecionei alguns motoristas, inclusive em Balneário Camboriú, muitos deles vindos de aplicativos. Hoje, porém, eu evito contratar motorista com esse perfil, porque muitos chegam com vícios de linguagem, hábitos inadequados e um modelo de atendimento que não combina com a nossa proposta.
Dos que vieram desse mercado, alguns conseguiram se adaptar. Hoje temos 11 que eram desse perfil e se ajustaram à nossa gestão. No total, são 200 motoristas, e a grande maioria se manteve na empresa por causa da remuneração e do modelo de trabalho.
Quais são os principais diferenciais da JL Transporte?
Jefferson: O principal diferencial é o padrão. Nós temos vídeo telemetria, sistema de fadiga, treinamento quinzenal, controle de comportamento, uniformização e muito cuidado com atendimento.
A cada 15 dias fazemos reciclagem com grupos de motoristas. Não aceitamos que o motorista trate o passageiro com excesso de informalidade ou sem postura profissional. Tiramos esses vícios e treinamos para que o atendimento tenha respeito, discrição e constância.
Outro diferencial é a resposta rápida. Se um cliente reporta qualquer situação, nós conseguimos agir rápido. Isso tem chamado muita atenção de empresas grandes, porque elas estão acostumadas com um atendimento automático e distante em outras plataformas. Aqui não. Existe comunicação humana e resolução mais imediata.
Qual foi o momento mais difícil dessa trajetória?
Jefferson: O momento mais difícil foi justamente quando eu comprei os carros e percebi que precisava organizar toda a operação do zero. Foi aquele choque de olhar para o investimento e pensar: “Agora eu preciso fazer isso funcionar”.
Foi um momento em que eu fiquei perdido por alguns dias. Mas aí vieram orientações, ajuda de contatos estratégicos e a decisão de criar um modelo com valor fixo mais comissão. Quando essa lógica entrou em prática, a operação começou a andar.
Em que momento você percebeu que o negócio estava dando certo?
Jefferson: Quando começaram os elogios das empresas e a confiança foi aumentando. Empresas como Suzano, Eldorado e Gerdau passaram a valorizar muito essa combinação entre atendimento cuidadoso e resposta rápida.
O que elas mais percebem é que nós não deixamos o cliente sem retorno. Se acontece qualquer problema, a resposta vem logo. Isso pesa muito para empresas que precisam de previsibilidade e profissionalismo.
Como é sua rotina hoje na empresa?
Jefferson: Eu acompanho tudo de perto. Visito operações, viajo entre cidades, entro em campo, observo o dia a dia e procuro ver pessoalmente como as coisas estão acontecendo.
Eu costumo dizer que sou o tipo de gestor que pega no chifre do boi. Não fico só no escritório. Eu acompanho, observo e entendo as necessidades de cada operação no local. Essa presença acaba sendo um diferencial também.
Do que você mais se orgulha na sua trajetória?
Jefferson: De ter feito diferente. Eu acredito que, se a empresa não tiver algo próprio, algo que a diferencie do restante do mercado, ela não cresce.
Na JL, a gente procurou não copiar simplesmente o que os outros já fazem. Adaptamos o serviço, trouxemos tecnologia, criamos padrão, trabalhamos no silêncio e focamos no resultado. Eu me orgulho disso.
Você teve medo quando decidiu investir nesse modelo?
Jefferson: Eu sempre digo que, quando alguém entra em um negócio, não pode entrar dominado pelo medo. Se entrar assim, é melhor nem começar.
Claro que existe o pensamento de “será que vai dar certo?”, mas eu encaro isso como desafio. Se você traz inovação e faz algo diferente, a própria sociedade começa a reconhecer esse valor.
A JL atende em todo o Brasil?
Jefferson: Se houver demanda e operação viável, sim. Já atendemos em vários estados e podemos atender em outros. Vai depender da necessidade do cliente e da logística para colocar a operação em pé.
Quantas solicitações a empresa realiza por mês?
Jefferson: Nós não usamos muito o termo “corrida”, porque a nossa lógica é de solicitação por hora ou por operação. Mas, para dar uma noção, com 100 carros e duas solicitações por dia por veículo, já estamos falando de uma média bastante alta.
Há carros que fazem uma solicitação no dia, outros fazem três ou quatro. Então a média varia bastante, mas todos os carros trabalham diariamente.
Qual é a tecnologia usada hoje pela empresa?
Jefferson: Nós trabalhamos com um parceiro que indicou o código-fonte e faz a manutenção junto com uma equipe técnica. Não é uma plataforma improvisada, existe um acompanhamento de tecnologia e atualização constante do sistema.
Como funciona a remuneração dos motoristas?
Jefferson: O motorista tem um fixo mensal de R$ 3 mil e recebe comissão por operação. Essa comissão varia conforme o tipo de serviço. Uma viagem mais longa pode gerar 25% de comissão, por exemplo. Operações curtas têm outro cálculo.
Então a remuneração não é engessada. Ela acompanha o perfil da solicitação.
Quanto um motorista costuma ganhar na JL Transporte?
Jefferson: Hoje temos motoristas com rendimento entre R$ 6 mil e R$ 12 mil, com casos que já chegaram a R$ 22 mil no mês em operações maiores e mais exigentes.
Isso acontece, por exemplo, quando a empresa precisa de carro em regime de exclusividade, com dois motoristas se revezando durante 24 horas.
Existe uma solicitação mínima?
Jefferson: Sim. Hoje a solicitação mínima é de R$ 40. A quilometragem varia conforme o tipo de operação. Em trajetos asfaltados, a conta gira em torno de R$ 2,52 por km. Em situações mais complexas, como estrada de chão ou lama, pode chegar a R$ 3,40 por km.
O próprio sistema reconhece a área de operação e faz essa parametrização.
Qual é a média de valor por quilômetro nas operações?
Jefferson: Isso varia bastante, mas para te dar um exemplo concreto: hoje o Itaú solicitou uma operação em Balneário que durou pouco mais de duas horas, totalizou cerca de R$ 400 e rodou 83 km. Como havia ida, volta, tolerância e tempo parado, o sistema calcula tudo.
Então não é uma conta simples de corrida urbana. É uma lógica de operação executiva.
Como o motorista recebe?
Jefferson: O valor fixo é pago mensalmente. Já a parte variável cai conforme a operação é liquidada. O valor entra pela gestão de frota da empresa, e a comissão do motorista é repassada automaticamente.
Você consegue estimar quanto a empresa movimenta por mês?
Jefferson: Eu prefiro explicar pela lógica da operação. Se uma corrida gera em torno de R$ 446 e cada carro consegue fazer duas operações por dia, com 100 veículos isso dá uma ideia do tamanho da movimentação mensal.
Eu evito cravar um valor fechado, mas a conta permite chegar a uma estimativa bastante realista.
Você tem meta de expansão para 2026?
Jefferson: Eu tinha planos maiores, mas hoje estou mais cauteloso por causa do cenário regulatório e econômico. Já houve empresa pedindo mais 20 veículos, o que significaria mais 40 motoristas. Mas eu preferi segurar o investimento até entender melhor os rumos do mercado.
Como você vê o futuro do transporte executivo e dos negócios regionais?
Jefferson: Eu vejo crescimento, especialmente no transporte executivo. É um mercado que está crescendo de forma silenciosa. Tem gente em São Paulo com 20 unidades, outros com quatro, e várias pessoas começando a perceber que esse modelo pode dar resultado.
Ao mesmo tempo, é um setor que exige muita adaptação, muito padrão e muito cuidado com a gestão.
O que as empresas precisam fazer para permanecer no mercado?
Jefferson: Precisam ser diferentes. Não dá para fazer mais do mesmo.
Nós trabalhamos com Corolla e Spin, por exemplo, mas sempre buscamos colocar algum toque extra: multimídia, geladeira, água com gás, tablet, pequenos cuidados que transformam a experiência do usuário. Não é luxo exagerado, é atenção ao detalhe.
Quais são suas maiores incertezas para o futuro?
Jefferson: Eu não me vejo como alguém movido pelo medo, mas claro que acompanho com preocupação tudo o que envolve governo, regulamentação e mudanças no setor.
Ainda assim, eu prefiro olhar para isso como desafio. Acredito que o mercado ainda pode crescer muito, desde que o motorista entenda seu valor e o empresário saiba construir um serviço profissional.
Qual legado você quer deixar com a JL Transporte?
Jefferson: Eu não costumo pensar muito em legado de forma grandiosa. Mas acredito que uma empresa precisa deixar como marca o fato de ter buscado inovação, profissionalismo e diferenciação.
Se a JL ficar lembrada como uma empresa que trouxe tecnologia, cuidado e um serviço diferente do padrão que já existia, isso já é importante para mim.

