Em meio ao crescimento dos aplicativos regionais de mobilidade no Brasil, novas propostas têm surgido com foco em tecnologia, personalização e melhores condições para motoristas. É nesse contexto que nasce a ZenBee Mobi, liderada pelo CEO Roberto Felin Junior, com a proposta de criar um ecossistema completo que vai além do transporte por carros.

Com experiência de quase uma década no setor e passagem pela gestão pública, o empreendedor aposta em um modelo descentralizado, que permite adaptação local e maior repasse aos motoristas. Em poucos meses, a plataforma já alcançou dezenas de cidades e projeta expansão acelerada pelo país.

Nesta entrevista, Roberto detalha sua trajetória, explica o funcionamento do modelo da ZenBee Mobi e revela números de operação, estratégias de crescimento e perspectivas para o futuro da mobilidade regional no Brasil.

Como a sua trajetória profissional e pessoal te levou até a criação da ZenBee Mobi?

Roberto: Eu fui prefeito muito jovem, com 28 anos de idade, em Frederico Westphalen, no norte do Rio Grande do Sul. Naquela época, entre 2013 e 2016, já percebia os desafios da mobilidade urbana, mesmo antes de os grandes players estarem consolidados no mercado brasileiro. Já existia uma demanda por uma mobilidade mais inteligente, organizada e conectada com o desenvolvimento social e econômico das cidades.

Depois da minha passagem pela gestão pública, fui para a iniciativa privada no ramo de combustíveis, em Porto Alegre. Lá, por estar muito próximo da rodoviária, convivi com uma grande concentração de taxistas e motoristas de aplicativo. Foi nesse ambiente que comecei a entender melhor o setor e a enxergar as dores reais de quem trabalha com mobilidade urbana.

A partir de 2016 para 2017, passei a atuar de forma direta com aplicativo regional de mobilidade. Trabalhei por cerca de nove anos nesse segmento e, nos dois últimos, também participei da gestão em todo o Rio Grande do Sul. Com o tempo, fui percebendo lacunas tecnológicas e operacionais, além da necessidade de criar um ecossistema mais completo para atender cidades com realidades muito diferentes. Foi daí que nasceu a ideia da ZenBee Mobi.

Por que você decidiu criar um aplicativo próprio de mobilidade regional?

Roberto: Porque eu percebi que não bastava apenas ter um aplicativo funcionando. Era preciso construir uma operação inteligente, adaptável e sustentável. O mercado mostra que hoje é relativamente simples colocar um aplicativo no ar, mas é muito difícil mantê-lo vivo, competitivo e saudável a longo prazo.

A ZenBee Mobi nasceu justamente para preencher essa lacuna. Nós não queríamos ser apenas mais um aplicativo regional. Queríamos construir uma estrutura capaz de se adaptar à realidade de cada cidade, com tecnologia, suporte, marketing, operação e, principalmente, entendimento profundo das dores do motorista e do passageiro.

O que significa o nome ZenBee Mobi?

Roberto: O nome carrega bastante da filosofia da empresa. “Zen” vem de “zenit”, do latim, que remete ao ponto mais alto. Já “Bee” vem de abelha. A ideia era representar um ecossistema organizado, colaborativo, como uma colmeia, em que cada parte tem sua função e tudo trabalha de forma integrada.

A ZenBee Mobi é isso: um ecossistema de mobilidade, com estrutura colaborativa, organização e propósito. Cada cidade, cada líder local, cada motorista, cada serviço funciona como um favo dessa colmeia.

Hoje a ZenBee Mobi está presente em quais cidades e estados?

Roberto: Hoje nós já operamos em quatro estados brasileiros, com 16 cidades funcionando e outras 43 em treinamento para abertura. Estamos em cidades do Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Minas Gerais e Maranhão.

Entre os exemplos, posso citar Frederico Westphalen, Sarandi, Cachoeira do Sul, São Gabriel, Monte Carmelo, Palmitinho, Palmitos, Garopaba e São Luís do Maranhão. Eu gosto de citar cidades muito diferentes porque isso mostra justamente a capacidade de adaptação da ZenBee Mobi: conseguimos atuar em cidades pequenas do interior, em cidades turísticas do litoral e também em capitais.

Como foi o processo de captação de motoristas e passageiros?

Roberto: Esse é um ponto fundamental. O grande erro de muitos aplicativos regionais é pensar apenas em colocar o aplicativo na rua e achar que ele vai se sustentar sozinho. Não vai. É preciso estrutura, marketing, suporte e pós-venda.

A captação de motoristas e passageiros depende de um trabalho muito bem coordenado entre tecnologia, operação local, mídia, relacionamento e planejamento. Nós temos uma equipe de marketing muito preparada, com coordenação da Fernanda Rodrigues, e isso foi essencial para nossa expansão.

Mas, mais do que isso, a ZenBee Mobi não tira o sonho de quem quer ter um aplicativo local. A gente entrega a estrutura pronta, mas o operador local continua tendo autonomia para cuidar da cidade dele. O que ele precisa é conhecer a realidade local, entender as dores dos motoristas e passageiros, e a nossa estrutura ajuda a transformar isso em operação.

Vocês trabalham com franquia?

Roberto: Não. A gente não trabalha com franquia no modelo tradicional. A pessoa não precisa “comprar uma franquia” para operar a ZenBee Mobi na sua cidade. O que existe é uma estrutura de parceria, em que o operador local entra com conhecimento da cidade e relacionamento, enquanto nós entregamos tecnologia, operação, marketing, suporte e ecossistema.

Nosso modelo é de construção conjunta. A cidade não é nossa “filial”. Ela é operada por alguém local, com autonomia, desde que mantenha os padrões de qualidade, segurança e atendimento.

Quais são os principais diferenciais da ZenBee Mobi?

Roberto: Eu destacaria três grandes diferenciais.

O primeiro é a adaptabilidade. A gente não entra numa cidade com uma fórmula engessada. Cada cidade tem sua realidade, sua necessidade, sua dor específica. Em cidade litorânea, podemos trabalhar com categorias voltadas ao turismo e ao surfe. Em uma capital, trabalhamos com categorias voltadas a autistas, crianças, cadeirantes e mobilidade assistida. Em cidades industriais, criamos categorias para trabalhadores.

O segundo é o ecossistema. A ZenBee Mobi não é apenas um aplicativo de corrida. É uma plataforma mais ampla, que inclui soluções financeiras, telefonia, micro mobilidade, seguros, patinetes, bicicletas elétricas e outros serviços que podem ser implantados conforme a realidade local.

O terceiro é o foco no motorista, sem agredir o passageiro. Esse equilíbrio é muito raro no mercado.

Quais categorias diferenciadas a ZenBee Mobi oferece?

Roberto: Todas as nossas categorias começam com “Bee”, em referência ao universo da marca. Então temos, por exemplo, BeeClássico, BeePopular, BeeExecutivo, BeeMulher, BeeCadeirante e BeeCuidado.

A BeeMulher permite que motoristas mulheres transportem exclusivamente passageiras mulheres, se assim preferirem. Já a BeeCuidado é uma categoria voltada para crianças, com motoristas treinados. São categorias pensadas para realidades específicas e para necessidades que muitas vezes os grandes players não atendem com sensibilidade.

Como funciona a remuneração dos motoristas na ZenBee Mobi?

Roberto: A gente sempre parte de uma premissa: o motorista precisa ser o maior beneficiado dentro do ecossistema. Por isso, nosso compromisso é sempre oferecer o maior repasse da cidade.

Mas a forma como isso é feito varia conforme a realidade local. Nós podemos trabalhar com percentual, assinatura ou valor fixo por corrida. Depende da concorrência e da estratégia daquela cidade.

Se numa cidade a concorrência trabalha com 85% para o motorista, nós vamos trabalhar com 90%. Se a lógica local pedir assinatura, a gente se adapta. Se for melhor trabalhar com valor fixo por corrida, também fazemos isso. Em algumas operações, por exemplo, o motorista pode pagar R$ 1,50 por corrida, independentemente do valor total.

A ZenBee Mobi trabalha com mensalidade?

Roberto: Em algumas cidades, sim, mas não chamamos de mensalidade. Chamamos de assinatura, e ela gira em torno de R$ 250, dependendo da operação. Em outras cidades, o modelo é percentual. Em outras, valor fixo por corrida. O importante é que a remuneração final do motorista sempre seja a melhor possível dentro da realidade local.

Qual é o ticket médio das corridas na ZenBee Mobi?

Roberto: O nosso ticket médio hoje gira em torno de R$ 20 por corrida. E isso é importante porque mostra que não estamos apenas buscando volume de corrida. Estamos olhando para a qualidade da corrida, para o valor médio e para o retorno real que fica na mão do motorista.

Quanto o motorista ganha, em média, por quilômetro rodado?

Roberto: A gente trabalha com um piso de R$ 2 por quilômetro, podendo chegar a R$ 2,50 ou R$ 2,60, especialmente nas corridas mais longas, que exigem deslocamento e envolvem mais desgaste do veículo.

Esse cuidado é essencial porque não adianta fazer corrida barata demais e transferir todo o custo para o motorista. A depreciação do carro, combustível, manutenção e tempo de trabalho precisam entrar na conta.

Na cidade matriz, Frederico Westphalen, qual é o valor da corrida mínima?

Roberto: Na nossa matriz, a corrida mínima hoje é de R$ 7,50, cobrindo 1.000 metros. É um valor competitivo dentro da cidade, mas a diferença é que o repasse ao motorista continua sendo maior do que o dos concorrentes.

Quantos motoristas e passageiros cadastrados a ZenBee Mobi já possui?

Roberto: Hoje nós estamos com aproximadamente 1.000 motoristas cadastrados e quase 10 mil passageiros ativos, considerando os usuários que de fato usam o aplicativo. Se eu olhar apenas o total bruto de cadastros, esse número é maior, mas eu prefiro trabalhar com os dados reais de uso efetivo.

Quantas corridas a empresa realiza por mês?

Roberto: Hoje nós realizamos cerca de 50 mil corridas por mês. E nossa meta para a metade do ano é chegar a 3 mil corridas por dia, o que nos colocaria em um patamar de aproximadamente 150 mil corridas mensais.

Qual foi o faturamento bruto movimentado pela ZenBee Mobi até aqui?

Roberto: Em quatro meses de expansão, nós já nos aproximamos de R$ 1 milhão em faturamento bruto movimentado em corridas. E eu faço questão de destacar isso: a maior parte desse valor ficou com os motoristas e com os operadores locais. A ZenBee Mobi não foi desenhada para concentrar receita apenas no dono da plataforma.

Qual é a meta de vocês para este ano?

Roberto: A nossa meta para este ano é muito clara: chegar a 150 mil corridas por mês até junho ou julho. Se a gente alcançar esse número, com ticket médio de R$ 20, estaremos num patamar muito importante dentro do mercado regional brasileiro.

Qual foi o momento mais difícil desde a criação da ZenBee Mobi?

Roberto: O mais difícil não foi abrir a primeira cidade. Foi abrir a segunda. Porque a primeira, de certa forma, já tinha muito da nossa vivência e do nosso contexto. A segunda cidade exige que você prove que o modelo é replicável. E isso exige organização, processo, planejamento e equipe.

Depois que tu tens uma segunda cidade funcionando bem, começa a construir um modelo mais consistente de expansão.

Qual foi o momento em que você percebeu que a ZenBee Mobi estava dando certo?

Roberto: Eu não acredito muito em “virada de chave” única. Eu acredito num crescimento constante. Mas quando a gente olha para trás e vê um crescimento de 230%, quase R$ 1 milhão movimentado, um ticket médio bom, e vê que isso está ficando majoritariamente com os motoristas, aí fica evidente que estamos no caminho certo.

Qual foi a maior mudança que a empresa trouxe para você?

Roberto: A principal mudança foi entender, com ainda mais profundidade, que mobilidade urbana não é apenas um negócio. É uma atividade que impacta vidas. Quando a gente conecta sonhos, desloca pessoas, cria renda e melhora a rotina de famílias inteiras, isso deixa de ser só um aplicativo e vira um instrumento social.

Do que você mais se orgulha na sua trajetória com a ZenBee Mobi?

Roberto: Eu me orgulho de perceber que a empresa já está mudando a realidade de algumas pessoas. O retorno financeiro é consequência. O mais gratificante é ver motoristas tendo melhor renda, líderes locais ganhando autonomia e cidades pequenas ou médias podendo ter uma mobilidade mais organizada e humana.

Você ainda dirige pela plataforma?

Roberto: Não de forma regular. Ao longo desses anos, eu já fiz corridas, senti um pouco do mercado, liguei o aplicativo como motorista para entender a ponta. Mas hoje o meu trabalho está muito mais focado em escutar os motoristas, entender as dores deles e construir soluções operacionais e estratégicas.

A ZenBee Mobi enfrenta problemas com corridas por fora?

Roberto: Sim, como qualquer plataforma enfrenta. Mas nós criamos mecanismos para que isso seja cada vez menos vantajoso. Temos taxímetro próprio, formas de remuneração melhores e categorias que aumentam o ganho do motorista. Então, financeiramente, muitas vezes já compensa mais ele abrir a corrida dentro do sistema do que fazer por fora.

Se ele ainda assim faz por fora, isso passa a dizer muito mais sobre o comportamento dele do que sobre a nossa operação.

O que mais incomoda você no mercado de mobilidade hoje?

Roberto: Me incomoda quando colegas de mercado tentam crescer destruindo a imagem dos outros. Esse comportamento de dizer “o meu é mais seguro”, “o meu motorista é melhor”, “o outro app não presta” me parece muito pequeno e, no fundo, ajuda os grandes players a crescerem ainda mais. O mercado regional precisa entender que a rivalidade desleal enfraquece todo mundo.

Quais críticas você mais ouviu no começo?

Roberto: A mais clássica foi: “não vai dar certo”. E, sinceramente, isso nunca me incomodou. Pelo contrário. Sempre tentei entender o que fazia a pessoa acreditar que não daria certo. Muitas vezes, ela estava traumatizada por experiências ruins com outras plataformas. Então, para mim, isso era mais um termômetro do mercado do que uma crítica em si.

Quais medos você teve ao lançar a empresa?

Roberto: Eu não diria medo. Eu tenho muito respeito pelo mercado, mas não medo. Já enfrentei eleição, pandemia, postos de gasolina, clínica médica, gestão pública e privada. O que a gente tem hoje é responsabilidade. A ZenBee Mobi não nasceu do improviso. Ela nasceu de planejamento, vivência e convicção.

Como você enxerga o futuro dos aplicativos regionais no Brasil?

Roberto: Se os aplicativos regionais não entenderem que precisam continuar valorizando os motoristas, muitos vão desaparecer. O maior risco hoje não é apenas a concorrência com os grandes players. É a repetição dos erros dos grandes players dentro do mercado regional.

Se o regional começar a tirar demais do motorista, oferecer pouco suporte e focar só em volume, vai morrer também.

O que os aplicativos regionais precisam fazer para conquistar mais mercado?

Roberto: Três coisas: planejamento, equipe estruturada e suporte real. Não adianta só abrir o aplicativo. Tem que saber operar, fazer pós-venda, cuidar do motorista, cuidar do passageiro e entender a realidade local.

Qual legado você quer deixar com a ZenBee Mobi?

Roberto: Eu quero deixar a prova de que é possível fazer mobilidade regional de qualidade, com preço justo, bom repasse aos motoristas e impacto real na vida das pessoas. Quero mostrar que cidades pequenas e médias também podem ter soluções inteligentes, humanas e eficientes. Se conseguirmos isso, já terá valido a pena.

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Giulia Lang

Giulia Lang é jornalista formada pela Fundação Cásper Líbero e há três anos cobre o mercado de mobilidade urbana e delivery pelo 55content.