“Faturo cerca de R$ 12 mil, com 1/3 para combustível, 1/3 para locação do veículo e o restante como renda”, diz motorista de app

Motorista relata: “Em 2018, o multiplicador favorecia viagens longas. Hoje as viagens curtas são mais vantajosas.”

Homem dentro de um carro segura um smartphone exibindo um gráfico na tela, sorrindo levemente para a câmera.
Foto: Cristiano Franco para 55content

Ser motorista de aplicativo pode parecer uma alternativa simples para quem busca uma renda extra ou uma mudança de carreira, mas a rotina na estrada exige planejamento, estratégia e resiliência. Cristiano Franco, que trabalha como motorista desde 2018, compartilha sua experiência e os desafios do dia a dia ao volante. 

Nesta entrevista, ele fala sobre sua trajetória, rotina, faturamento, estratégias para otimizar ganhos e os impactos das mudanças no setor ao longo dos anos. Confira suas percepções e dicas para quem pensa em ingressar nessa profissão.


Cristiano, há quanto tempo você é motorista? Em qual cidade você trabalha? O que te levou a fazer esse serviço?

Cristiano: Eu sou motorista de aplicativo há sete anos. Comecei em fevereiro de 2018, no carnaval daquele ano, com a ideia de fazer um bico, um extra, porque eu trabalhava no ramo de vendas de automação de residências. Naquela época, eu morava na cidade de Igrejinha, no Rio Grande do Sul, e comecei trabalhando em Gramado. Aí, nesse feriado de carnaval, percebi que poderia ser uma opção de trabalho. Como em 2018 aconteceu a chamada “Marolinha”, que impactou o mercado imobiliário e reduziu muito o volume de vendas, precisei trocar de função. Tirei férias e trabalhei como motorista de aplicativo por um mês. Foi nesse período que percebi que poderia fazer essa transição de carreira e decidi abandonar meu antigo emprego para me dedicar integralmente ao transporte por aplicativo. Comecei em Gramado e, nos últimos anos, tenho trabalhado em Porto Alegre.

Como é a sua rotina? De que horas a que horas você trabalha? Quantos dias por semana?

Cristiano: Meu trabalho tende a ser todos os dias da semana. No entanto, não trabalho nos finais de semana que passo com minha filha. A cada 14 dias, trabalho 12, ou seja, um final de semana eu trabalho e no outro, não. Minha rotina varia conforme o dia da semana. De segunda a quinta-feira, começo entre 6h e 7h da manhã e sigo até atingir minha meta, o que pode ser entre 20h e 22h. Nos finais de semana, minha rotina muda: começo mais tarde, por volta do final da manhã e sigo até o início da madrugada, geralmente até 2h ou 3h da manhã.

Você segue alguma estratégia para trabalhar? Tem uma meta de faturamento?

Cristiano: Sim, sempre procuro identificar a movimentação da cidade, levando em conta o calendário de feriados e eventos, além do período do mês. No início do mês, as pessoas têm mais dinheiro e usam mais o aplicativo, sem pensar muito nos gastos. Já no final do mês, quando os cartões de crédito estão mais cheios e o dinheiro no bolso reduz, o uso diminui. Assim, maximizo meus ganhos no começo do mês e deixo mais folgado no final. Como trabalho com carro alugado, preciso pagar a semanal do aluguel, então minha estratégia é ajustada para garantir esse custo. Também observo os horários de pico e os locais de maior movimento para otimizar o tempo e o faturamento.

Qual é sua média de faturamento semanal e diário?

Cristiano: Minha meta é faturar entre R$ 400 e R$ 500 por dia, mas dependendo do dia da semana, pode ser um pouco menor, chegando a R$ 300. Em uma semana boa, consigo faturar entre R$ 2.000 e R$ 3.000.

Nos finais de semana o seu faturamento é maior?

Cristiano: Aos finais de semana, as viagens longas aumentam bastante, mas o valor por quilômetro acaba diminuindo um pouco, porém ainda assim acaba sendo vantajoso. Até 2023/2024 os finais de semana, principalmente na madrugada, aumentavam bastante a renda do motorista. No final de 2024 até agora, tenho notado que a madrugada já não é mais tão vantajosa quanto antigamente. Já é de conhecimento de muitos motoristas que a madrugada tem maior movimento, o que deve ter aumentado, e muito, o número de motoristas na madrugada

Com que frequência você abastece? Quanto gasta por dia?

Cristiano: Costumo abastecer no final do dia, pois gosto de começar a manhã seguinte com o tanque cheio. Isso me permite aceitar viagens longas sem preocupação. Em média, gasto entre R$ 100 e R$ 150 diários com combustível.

Você mencionou um faturamento semanal entre R$ 2.000 e R$ 3.000. No final do mês, isso soma de R$ 10.000 a R$ 12.000?

Cristiano: Sim, esse é o faturamento bruto. Depois disso, preciso descontar custos como aluguel do carro, combustível, manutenção e alimentação.

Costumo trabalhar com uma média de 1/3 para combustível, 1/3 para locação e 1/3 de renda. Este valor pode variar quando há um volume muito grande de viagens diminuindo a parte da locação e aumentando o ganho do motorista. Pensar em viagens particulares é uma ótima opção para ter maior ganho com baixo custo

Você é motorista desde o carnaval de 2018. Acha que naquela época era mais fácil ser motorista de aplicativo?

Cristiano: Naquela época, as viagens não pagavam tão bem, mas havia menos motoristas na plataforma e os aplicativos ofereciam mais incentivos. O maior impacto nos ganhos veio com a mudança da estratégia de cobrança: antes, o multiplicador favorecia viagens longas, pois pagavam melhor. Hoje, com a dinâmica de preço fixo, as viagens curtas são mais vantajosas. Essa mudança fez com que muitos motoristas passassem a priorizar corridas curtas para garantir um rendimento melhor.

O aumento de motoristas e passageiros mudou algo no serviço?

Cristiano: Sim, hoje temos mais informações sobre o funcionamento do aplicativo, mas também mais riscos. No início, os passageiros eram, em geral, de uma camada mais privilegiada. Agora, com o aplicativo acessível a todas as camadas da população, aumentaram os problemas como inadimplência, cancelamento de corridas e até mesmo a insegurança, com casos de assaltos. Ao mesmo tempo, o aumento no número de motoristas reduziu a oferta de viagens, deixando o mercado mais competitivo.

Quais são as maiores dificuldades de ser um motorista de aplicativo?

Cristiano: As maiores dificuldades são a falta de previsibilidade de demanda e a instabilidade dos custos. O preço do combustível, peças e manutenção varia muito, enquanto nossa renda não acompanha essas flutuações. Além disso, não temos controle sobre o preço das corridas, pois é a empresa que define isso e também quanto ela fica com cada viagem. Essa falta de previsibilidade torna difícil manter uma renda estável ao longo do mês.

Que dicas você daria para quem está começando a ser motorista de aplicativo?

Cristiano: O mais importante é ter controle financeiro. Erros nesse aspecto podem acabar com a atividade. Se você já tem um carro próprio, quitado, isso permite alguma margem para erros. Mas se você depende de aluguel ou financiamento, qualquer erro financeiro pode se tornar um grande problema. É essencial entender os custos por quilômetro rodado e planejar bem os ganhos.

Você gostaria de acrescentar algo?

Cristiano: Gostaria apenas de reforçar que, nessa profissão, quanto mais o desemprego formal aumenta, mais pessoas entram para o setor. Muitos acham que subir de categoria, como do Uber Comfort para o Uber Black, pode ser vantajoso, mas é preciso cautela. As empresas de aplicativo tomam decisões que impactam diretamente os motoristas e nem sempre voltam atrás, mesmo com reclamações. Se for fazer um financiamento ou um upgrade de carro, é fundamental ter uma reserva financeira para evitar problemas caso algo dê errado.

Picture of Giulia Lang
Giulia Lang

Giulia Lang é líder de conteúdo do 55content e graduada em jornalismo pela Fundação Cásper Líbero.

Pesquisar