“Vale a pena ser motorista de app para quem não depende da Uber e possui trabalho CLT; ganho diário líquido do motorista é baixo”, diz Luis “Uber do Japa”

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Entrevista
Conversas com especialistas, gestores e profissionais do setor, com perguntas conduzidas pela equipe do 55content.
Uber do Japa, Luis
Foto: Luis Hatada para 55content

Luis Hatada diz que a cada ano que passa há mais motoristas de app devido ao desemprego fazendo com que cada ano seja financeiramente pior que o anterior. 

Em uma conversa com o 55content, Luis Hatada, motorista de aplicativo e influenciador, compartilha suas perspectivas sobre os desafios enfrentados pelos motoristas em 2024. 

Ele aborda questões como a regulamentação do setor, a crescente competição devido ao aumento de motoristas, e as mudanças nos aplicativos que impactaram negativamente a profissão. Hatada também destaca a importância de os motoristas se tornarem mais autônomos, aproveitando as oportunidades oferecidas pela flexibilidade do trabalho para diversificar suas fontes de renda e buscar conhecimento:

1. 2024 foi melhor ou pior para quem é motorista de aplicativo em relação a 2023? Por que?

2024 ficou marcado na mente dos motoristas, pelo menos da maioria. A questão da regulamentação, “vai ou não vai?”, “a prova é ou não é válida?”, e as manifestações. Acredito que foi um dos anos com mais manifestações em todo o Brasil.

Comparando 2024 com 2023, na minha opinião, não foi melhor, nem para mim, nem para vários motoristas, pelo que venho escutando. De forma geral, a cada ano que passa, sempre foi pior do que o anterior. Desde o início do aplicativo até hoje, a tendência é de queda. Ano após ano, cada vez que passa, o motorista fica mais tempo na rua.

Por que isso acontece? Porque o aumento de motoristas na rua cresce a cada ano devido ao desemprego, que é um fator. Outro ponto é a necessidade de renda. Com o aumento do desemprego, muitos optam por esse trabalho, até como renda extra. Isso também tem feito esse número crescer. Se a gente pesquisar mais a fundo, vai perceber que isso é realmente verídico.

Exceto o ano pós-pandemia, que foi 2022. Em 2022, tivemos uma alta crescente, porque foi pós-pandemia. Esse foi o ano em que a demanda aumentou, pois, com menos motoristas, os ganhos foram bem maiores.

Por quê? Porque estávamos em um período pós-pandemia e acredito que havia uma demanda reprimida em relação à economia. O pessoal começou a sair novamente, gastar, viajar e fazer várias coisas que a pandemia impediu. Tirando o ano de 2022, vemos uma queda ano após ano.

2. Qual foi o principal desafio para os motoristas de aplicativo em 2024?

Mudança positiva em 2024: Eu não vejo, mas acredito que o próprio motorista pode mudar. Ele pode se transformar em um grande empreendedor, aproveitando os pontos positivos que a profissão oferece.

Se o motorista enxergar essa possibilidade, acredito que aí está a grande mudança. Agora, mudanças vindas do governo ou do aplicativo, aquelas mudanças que o motorista não tem controle, essas não aconteceram. Eu realmente não vejo essa mudança positiva.

Porém, existe uma mudança que o próprio motorista pode fazer, porque depende dele. Se ele tiver essa perspectiva, conseguirá enxergar a possibilidade de aproveitar os pontos positivos do trabalho como motorista de aplicativo, como a liberdade de administrar seu tempo e atividades, podendo enxergar novas possibilidades. Isso, sim, é o principal.

Já as mudanças negativas, vindas do governo ou do aplicativo, não são boas. Também tivemos algumas mudanças no aplicativo que eu acredito que foram prejudiciais, como a mudança no dinâmico da Uber. O dinâmico chamado “picolé” era fixo e por corrida, e agora é por hora, o que parece bom à primeira vista, mas, na prática, é bem pior.

3. Qual foi a principal mudança positiva para os motoristas de aplicativo em 2024? E a negativa?

O primeiro ponto foi lidar com muitas informações falsas. Acho que isso foi um grande problema em 2024, com muitas pessoas passando notícias falsas, aproveitando da insegurança e da instabilidade dos motoristas em relação à regulamentação.

Muitas notícias falsas, como listas de carros que sairiam do Black, de carros que não estariam mais no Comfort, entre outras inverdades. Isso foi um dos principais problemas. Muitos motoristas já estavam com dúvidas e incertezas e chegaram ao ponto de perguntar: “Em quem posso acreditar?”.

Esse foi um dos pontos principais de 2024. Muitas inverdades, ou seja, pessoas tentando crescer ou ganhar mídia, muitas vezes sem serem do nicho de motoristas de aplicativo. Isso acabou afetando bastante os motoristas, que lidaram com essas notícias falsas enquanto tentavam trabalhar e garantir sua renda.

4. Valeu a pena ser motorista de aplicativo em 2024?

Valer a pena ser motorista de aplicativo é muito relativo. Vou dar dois exemplos. O motorista que começou em 2022 e pegou aquele ano de pós-pandemia, mesmo sendo iniciante, ganhou mais dinheiro e, em seguida, enfrentou uma queda mais acentuada do que alguém que começou há mais tempo, que teve uma queda mais gradual.

Para esse motorista, com certeza não valeu a pena, a não ser que ele tenha feito algo diferente, não só dentro do aplicativo, mas fora dele, para aumentar sua renda. Agora, o segundo cenário é o de um trabalhador CLT, que ganhava um salário e meio e começou a trabalhar como motorista de aplicativo. Ele está ganhando mais, e no seu primeiro ano, com certeza, valeu a pena para ele.

Então, existem esses dois cenários. Agora, falando de mim, que é um outro cenário, para mim sempre valeu a pena. Tudo vale a pena, desde que você não seja apenas motorista de aplicativo, porque, se for, você não terá qualidade de vida. Vai ter que trabalhar muito, dependendo da renda que você quer levantar.

Se você analisar os ganhos por hora trabalhada, acredito que o trabalho como motorista de aplicativo não vale a pena, mas pode valer a pena, sim, dependendo da visão do motorista. O que quero dizer com isso é: “Ah, vou me programar, ficar não sei quantos anos aqui, para aproveitar o que o aplicativo tem de bom.” E o que o aplicativo tem de bom? A liberdade de ter controle sobre o tempo. Ter controle sobre o tempo possibilita muitas outras oportunidades de trabalho ou até uma outra fonte de renda.

Acho que é uma visão ampla. O motorista não pode se fechar à visão de “vale a pena” ou “não vale a pena”, porque, dependendo do cenário, isso pode ser muito diferente.

5. Quais as expectativas para 2025?

A expectativa geral, na minha visão, falando dos motoristas de aplicativo, eu acredito que não é boa. Até porque a regulamentação está batendo na porta e, uma hora ou outra, vai ser aprovada, mas vai levar mais um ano de reuniões e audiências. Acho que vai demorar até ser sancionada, mas isso vai acontecer.

E isso sempre traz um desânimo para a classe, porque não vemos nenhum benefício para o motorista, nenhum benefício para o trabalhador. O motorista tem consciência de que vai ter que pagar mais taxas, ou seja, suas despesas vão aumentar. Já é uma classe muito sofrida e desanimada, então não há boas expectativas.

Agora, falando de mim, tenho boas expectativas, porque utilizo justamente o que o aplicativo tem de bom, que é o controle sobre as horas de trabalho. Isso me permite ver novas possibilidades de trabalho. Para mim, ano após ano, as expectativas são sempre melhores, porque meu objetivo é não depender do aplicativo, mas usá-lo como uma renda extra. Quem sabe, no futuro, não depender mais dele?

6. O que todo motorista precisa começar a fazer no próximo ano?

O motorista precisa não depender mais dos aplicativos. Se pegarmos o ganho líquido do motorista após diversas horas na rua, veremos que o ganho diário dele é baixo. Quem administra mal acha que está ganhando mais do que realmente ganha.

O ponto principal é não depender mais dos aplicativos. A cada dia, devemos depender menos. Como? Conforme falei antes, é aproveitar o que o aplicativo tem de bom, que é a administração do tempo de trabalho, para enxergar novas possibilidades e, com isso, depender cada vez menos do aplicativo. O trabalho do motorista é muito operacional, braçal e físico. Ele trabalha muito e ganha pouco.

7. O que você mais deseja para esta profissão para o próximo ano?

Eu desejo, e é um desejo meu, que isso comece a acontecer, com muito esforço na mídia para que isso se concretize. O que desejo para os motoristas? Que comecem a perceber o quanto é importante aproveitar o trabalho como motorista de aplicativo para enxergar novas possibilidades.

De que forma? Investindo em conhecimento. Então, desejo que os motoristas invistam seus tempos ociosos em conhecimento, para que possam ver outras possibilidades, outras profissões e outras formas de ganhar dinheiro, de modo que o trabalho não seja tão físico, mas mais estratégico, técnico e tático.

Eles devem investir tempo em conhecimento para enxergar outras fontes de renda. Isso só será possível com muita dedicação da mídia, formando opinião sobre educação financeira e desenvolvimento pessoal. Somente assim, o motorista conseguirá entender que o movimento não deve vir dos aplicativos ou do governo, mas dele mesmo, para que consiga, de fato, não depender mais dos aplicativos. Esse é o maior desejo: o crescimento humano e o conhecimento financeiro.

8. O que o motorista precisa fazer para ganhar mais em 2025?

Bom, existem duas formas de o motorista ganhar mais em 2025. Uma delas é trabalhar mais, não tem outro caminho. A segunda é ter mais fontes de renda além do aplicativo. Aí ele pode ganhar mais, até no próprio veículo, durante o trabalho. Ele pode fazer isso sem precisar passar mais horas na rua.

Então, esse é o caminho: ou o motorista faz a mesma coisa que já faz e trabalha mais, ou ele aprende a empreender. O motorista escolherá o caminho, pois depende dele também ganhar mais, não só trabalhando mais, mas também com inteligência.

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Giulia Lang

Giulia Lang é líder de conteúdo do 55content e graduada em jornalismo pela Fundação Cásper Líbero.

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