Com mais de 20 anos de experiência, entregador fala sobre os desafios do trânsito, a união da classe e a realidade por trás das entregas.
Paulo César Martins, de 34 anos, trabalha com entregas desde o início dos anos 2000. Residente de São Bernardo do Campo, em São Paulo, ele começou na profissão entre 2003 e 2004, quando adquiriu sua primeira moto.
Segundo ele, a intenção era obter uma renda extra: “Eu sempre via a rapaziada com aquelas mochilas nas costas, fazendo uma grana. Eu pensava: ‘Eu consigo fazer isso’. Comprei minha moto, falei: ‘Vou pra cima!’”, relembra.
Naquela época, a profissão era diferente do que se vê atualmente: “Ainda não existia aplicativo. Para ser entregador, era algo vinculado a alguma pizzaria ou lanchonete do bairro”, explica Paulo. Ele afirma ter trabalhado assim por muitos anos.
Atualmente, a rotina de Paulo varia conforme o dia da semana. Durante os dias úteis, ele dedica cerca de 5 a 6 horas diárias às entregas. Nos finais de semana, a jornada aumenta significativamente: “Trabalho cerca de 14 a 15 horas diárias, isso somente de final de semana”, detalha.
Entre os principais desafios da profissão, ele destaca o trânsito: “Em São Bernardo, ele é bem complicado. A gente disputa espaço com os carros, o que é bem difícil. Muitos ainda não veem o motoboy de forma positiva”, conta. Paulo ressalta que a segurança no trânsito é um desafio constante para quem trabalha na região.
Sobre a diferença entre trabalhar em plataformas e atuar de forma independente, ele afirma que a autonomia é o principal fator. Fora das plataformas, os entregadores conseguem negociar valores e horários diretamente com os clientes: “Os valores oscilam, mas, às vezes, acabam compensando mais. Assim, trabalhamos menos horas e conseguimos uma renda melhor”, explica.
Paulo também comenta a relação com outros motoboys: “Sempre tem troca, a gente sempre aprende alguma coisa com alguém. A classe, no geral, é bem unida. Claro, tem um ou outro que não é assim, mas, no geral, a comunidade é unida”, diz ele.
Para Paulo, a profissão de motoboy está em crescimento constante. Ele acredita que a demanda por entregas deve continuar aumentando: “Não é à toa que muitos hoje optam por sair de um trabalho CLT para trabalhar com entregas. Isso jamais vai parar ou acabar”, avalia. Segundo ele, o crescimento foi mais expressivo no período da pandemia e no pós-pandemia.
Apesar de sua dedicação às entregas, Paulo também se preocupou com o futuro e buscou outras oportunidades: “Eu entrei para trabalhar como entregador, mas nunca pensei em ficar para sempre. Vai chegar uma idade em que não vou conseguir exercer essa profissão”, afirma.
Diante desse cenário, ele decidiu se formar em Tecnologia de Gestão Financeira e Contabilidade e hoje atua na área: “Voltei para o mercado de trabalho CLT. O que antes era minha renda principal, as entregas, hoje voltou a ser uma renda extra”, conta.
Ao comentar sobre a realidade da profissão, Paulo destaca que a rotina de um motoboy nem sempre é fácil, apesar do que muitas vezes é mostrado nas redes sociais: “Quem vê de fora, às vezes, acha que é sempre bom, que não há perigos ou dificuldades. Parece ser uma coisa muito fácil, porque muitos mostram só o lado bom da profissão. Mas não é fácil. É arriscado e é bem difícil”, alerta.
Paulo também fala sobre as incertezas da profissão, especialmente para quem depende exclusivamente dela: “Existem dias bons, em que há muito trabalho, e dias ruins, quando o trabalho é pouco. Às vezes, tem dias que você não tem nenhum trampo para fazer, e isso é bem complicado, principalmente se você tem as entregas como renda principal”, conclui.