“No Uber Black meu ganho por km é de R$ 3, R$ 3,50, às vezes R$ 6 – o mesmo que eu fazia no Uber X em 2018”, diz motorista de app

Motorista de app desabafa: “Hoje eu ganho no Uber Black o mesmo que ganhava no UberX em 2018 – só que agora trabalho bem mais.”

Homem sorridente usando terno escuro e gravata azul com bolinhas brancas, em um ambiente formal com cortinas brancas e letreiro dourado ao fundo.
Foto Isaque Hiron para 55content

“Hoje, o que eu ganho no Uber Black é praticamente o que eu ganhava no X em 2018 – mas agora trabalho mais.” Com essa frase, Isaque Hiron resume o que muitos motoristas sentem: a estagnação dos ganhos diante de custos que não param de crescer. Motorista de aplicativo desde 2018, ele viveu a transição do UberX para o Black e acompanhou de perto as mudanças — e perdas — que o setor sofreu nos últimos anos.

Clique aqui parar entrar no grupo de Whatsapp do 55content e receber notícias fresquinhas sobre aplicativos de transporte

Nesta entrevista, Isaque compartilha sua trajetória, rotina intensa e visão crítica sobre as plataformas. Ele fala abertamente sobre as estratégias que utiliza para manter o faturamento, os altos custos com combustível e manutenção, e os desafios de trabalhar mais horas para ganhar o mesmo de antes.

Além disso, traz um olhar maduro sobre o futuro da profissão e um recado importante: só vale a pena ser motorista de app hoje se você encarar isso como profissão — e não como bico.Confira o relato completo abaixo:

Há quanto tempo você é motorista de app e como você começou a realizar esse serviço?

Isaque: Eu estou no aplicativo desde 2018. Comecei em maio. Na época, eu ainda trabalhava registrado — trabalhei muitos anos no McDonald’s, foram uns 10 anos lá. Para mim, era algo totalmente desconhecido, mesmo já estando há uns dois anos aqui no Brasil. Comecei nesse período, entre maio e junho de 2018, e, como ainda estava registrado, fiquei por cerca de um ano e dois meses trabalhando nos dois empregos: no Uber e no Mc.

Foi justamente essa sobrecarga que me fez sair da empresa. Eu atuava numa outra área no McDonald’s e, apesar de não ganhar mal, a Uber estava pagando valores bem interessantes na época. Eu até peguei o início do meu trabalho no app durante a greve dos caminhoneiros. Meus primeiros dias na Uber foram justamente nesse período. Acabei até ficando sem trabalhar porque não tinha gasolina, e, como tinha aquelas promoções de entrada, fiquei com medo de perdê-las por conta da paralisação.

Na época, eu tinha um Celta, um carro antigo, e troquei justamente para conseguir entrar na plataforma. Não tinha muito conhecimento sobre como funcionava, mas fui adquirindo com o tempo. Então, fiquei por um ano e dois meses nos dois empregos até me dedicar 100% à Uber — e, desde então, sigo no aplicativo.

E, Isaque, minha próxima pergunta é em relação à sua rotina. Eu gostaria de saber como você se organiza hoje com o trabalho de motorista de app. De que horas a que horas você trabalha? Você folga algum dia da semana? Você se organiza através de metas, tipo só volta para casa depois de faturar um valor específico como R$ 300, R$ 350? Como é isso?

Isaque: Hoje faz mais ou menos um ano que eu troquei de carro e migrei para o Uber Black. Eu também tenho um outro serviço de motorista que já faço há cerca de três anos. Não é algo fixo, mas também não é todo dia — é meio período, para uma casa de família.

Dentro desse serviço, encaixo meu trabalho com os aplicativos. Mas meu foco maior não é necessariamente em metas de valor, e sim na quantidade de horas que eu consigo trabalhar no dia. Eu não costumo trabalhar muitos dias na semana, mas sim muitas horas nos dias em que estou ativo.

Por exemplo, hoje eu estou nesse trabalho da casa de família, que é um serviço inteiro em uma obra. Começo às 8h30 e depois já venho para São Paulo. Fico até mais ou menos 23h, 23h30. Faço alguns intervalos de descanso, mas fico direto por São Paulo — almoço por aqui mesmo, não volto para casa.

Então, acabo pegando os dois horários de pico, tanto da manhã quanto da noite. Normalmente trabalho cerca de 15 a 16 horas nesses dias. E, como eu falei, costumo trabalhar quatro vezes por semana. Não sou de trabalhar muitos dias e, aos fins de semana, quase não trabalho. Em dias de rodízio, como hoje, raramente também.

Só saio nesses dias quando tem uma meta muito atrativa — o que está cada vez mais raro. Aos sábados, às vezes trabalho, mas aos domingos, no ano passado, devo ter trabalhado umas quatro ou cinco vezes. Neste ano, talvez umas duas. Às vezes trabalho quatro semanas no mês, às vezes cinco (o que é mais raro) e, em outras, apenas três.

Minha lógica é essa: quando eu saio para trabalhar, quero pegar o horário cheio do dia e da noite. Aproveito o movimento noturno também.

E trabalhando da maneira que você trabalha, dá para faturar mais ou menos quanto por dia e por mês?

Isaque: Quando eu trabalho quatro dias na semana, normalmente consigo fazer R$ 2.000 por semana. Se trabalho cinco dias, sobe para R$ 2.400 na semana.

E daí no final do mês, se você trabalha 16 dias, consegue uns R$ 8.000?

Isaque: Exatamente. Se trabalhar 4 dias por semana, dá 16 dias no mês, o que rende uns R$ 8.000, ou R$ 7.500, dependendo da semana. Mas, como trabalho com combustível, gasto bastante. Então, meu lucro líquido acaba ficando em torno de R$ 5.000 por mês. Uns R$ 3.000 vão só em combustível.

O ar-condicionado pesa bastante. E, pelo valor que recebemos, é complicado. A Uber não altera a taxa há uns três anos — na verdade, em algumas ocasiões até diminuiu. Enquanto isso, o nosso principal custo, que é a gasolina, subiu em média uns 40%.

Se a gente pensar que, em 2020, a gasolina custava entre R$ 4,50 e R$ 4,70, às vezes até com promoção, hoje você não encontra por menos de R$ 5,90 — isso na melhor das hipóteses.

R$ 5,90 é o que você costuma pagar na gasolina?

Isaque: Isso. Hoje eu costumo pagar por volta disso. Dá quase uns 35% do meu faturamento só de combustível.

E Isaque, quando você começou, você considera que era mais fácil ser motorista de aplicativo? Qual a sua opinião? Muitos motoristas falam que as tarifas são as mesmas ou até diminuíram, só que os custos aumentaram. Você concorda? Qual é a sua visão?

Isaque: É, o preço se manteve, né? Se você pegar o UberX, como eu falei, nesses seis anos que estou no app, lembro que a tarifa mínima era R$ 4. Depois teve um aumento interessante: foi para R$ 6,50 em um ano. Mas aí, logo depois, baixou para R$ 5,10 — isso antes da pandemia. Depois da pandemia, passou para R$ 5,62, em 2022. E desde então não teve nenhuma alteração. Então, nesse ponto da tarifa mínima, ela se manteve.

E quanto ao dinâmico, né, aquele modelo antigo com multiplicador — isso praticamente não existe mais. Só acontece em casos extremos, tipo uma chuva muito forte, como a que teve ontem, para ter um ganho um pouco acima do esperado.

E, em algumas corridas, como a gente vê até nos relatos de motoristas com canal no YouTube — inclusive que acompanho no blog de vocês —, tem casos em que diminuíram o valor para um ou outro passageiro, aí fica essa disputa. Quem aceitar, acaba pegando uma corrida com valor mais baixo.

A taxa da Uber, teoricamente, se mantém. Mas tem outro ponto importante: o percentual que a Uber cobra do passageiro. Há seis anos, o passageiro pagava R$ 8 numa corrida. E hoje, muitas vezes, continua o mesmo valor.

Então, as plataformas tentam manter esse valor para o passageiro, diminuem um pouco a taxa para isso, mas quem sofre somos nós, motoristas. Mantém-se o mesmo preço para o passageiro e o pagamento para o motorista também — principalmente nas corridas curtas, nas mínimas. Nas mais longas, às vezes muda bastante: tem hora que cobram muito, tem hora que cobram menos.

A minha próxima pergunta é: naquela época, mais ou menos, você tem alguma comparação do quanto você conseguia fazer versus agora, ou você não lembra desse valor?

Isaque: Então, eu trabalhei quase um ano e dois meses em dois empregos, então fazia horários menores. Normalmente eu trabalhava à noite. Quando saí da empresa, logo em seguida veio a pandemia, e aí tudo mudou muito, tanto em termos de preços quanto de concorrência nos aplicativos.

Hoje, o que eu percebo é que faço o mesmo dinheiro que fazia antes, mas trabalhando muito mais horas. Como essa é minha primeira vez no Uber Black, acredito que, na época em que comecei, quem já era Black ganhava muito mais — valores até estratosféricos, eu acho.

O que eu ganho hoje no Uber Black é praticamente o mesmo que eu ganhava no UberX em 2018. O que aumentou foi o meu faturamento, porque mudei de categoria, não porque o valor em si melhorou. Naquela época, eu rodava com um carro sedan, tinha o UberX e o Select. Então, até conseguia ter um ganho legal.

A gasolina era bem mais barata também, custava menos de R$ 3 ou R$ 4. E mesmo com um carro não tão econômico — eu tinha um J3 —, ainda dava para tirar um dinheiro bom.

Entendi. Desde quando você está no Uber Black?

Isaque: Desde fevereiro de 2024, foi quando migrei para essa categoria.

Entendi. E hoje você trabalha só com a Uber ou também com outros apps?

Isaque: 99 é muito raro. Tem uma categoria chamada 99 Plus, mas não toca tanto aqui. Antes de eu trocar para o carro atual, que é um Kicks, eu tinha um Versa. Usava muito mais o 99 nessa época. Isso foi até o começo de 2024, antes de eu mudar para o Black, já que a 99 não tem essa categoria.

Naquela época, a 99 compensava mais, porque a tarifa mínima sempre foi um pouco melhor. E o modelo antigo de tarifa dinâmica também era mais vantajoso, dava para fazer um dinheiro legal. Mas hoje, 98% das minhas corridas são pela Uber. Em 2025, devo ter feito umas três ou quatro corridas no 99 até agora.

Eu percebo que, como passageira, às vezes chamo Uber ou 99 e vejo que a 99 está mais cara. Só que, quando chamo pela Uber, ninguém aceita ou aceitam e cancelam. Aí, acabo indo para a 99, mesmo mais caro, porque aí sim aceitam. Já viu isso acontecer?

Isaque: Sim, acontece. A 99, às vezes, está mesmo com o valor mais alto que a Uber. A Uber, de vez em quando, manda promoções, mas penaliza os motoristas na corrida. A 99 pode até cobrar mais do passageiro, mas, ainda assim, os motoristas acabam aceitando mais.

Na época em que eu rodava bastante com o 99, preferia ele ao UberX. A 99 é mais transparente em relação às taxas. Tem uma meta: se você faz 10 corridas na semana, a taxa não passa de 20%. Se ultrapassar, eles devolvem a diferença na semana seguinte, em forma de retroativo. Isso ainda acontece.

Já a Uber, não. A Uber é uma caixinha de surpresas. Às vezes manda uma corrida bacana, mas é uma em sete ou oito. Tem corrida no Black com valor praticamente igual ao Comfort.

Pois é, e às vezes, como passageira, acabo pedindo Black porque a diferença de preço para o X é pequena, e ninguém do X aceita. O Black, sim.

Isaque: É, aí quem sofre é o motorista. A Uber não tem um parâmetro claro de taxa. Essa taxa dinâmica variável foi colocada durante a pandemia e nunca mais saiu.

Hoje, você liga o app e, fora o valor da corrida mínima, o resto é imprevisível. Você não sabe quanto vai ganhar de fato. Por isso que a 99 às vezes aparece com valor mais alto: apesar de também mandar corridas esquisitas com preços absurdos, ela ainda mantém um padrão na taxa. Isso faz diferença.

E, Isaque, você comentou um pouquinho do seu custo com gasolina — entre 30% e 35%. Agora queria saber: quanto você gasta por dia com combustível?

Isaque: Quando eu abasteço o tanque cheio, normalmente gasto entre R$ 260 e R$ 280, dependendo do posto. Como a gente roda bastante pela cidade, acaba descobrindo onde o preço é melhor, onde dá para negociar ou ter alguma vantagem. Mas é muito difícil achar postos vendendo gasolina a R$ 6. Então, esse valor — R$ 260 a R$ 280 — é o que costumo gastar para encher o tanque.

Quando encho o tanque e gasto esse valor, normalmente consigo tirar R$ 700, até R$ 750 num dia. Isso depende de vários fatores, como pegar uma tarifa dinâmica ou se a Uber estiver num bom humor e mandar algumas corridas boas. Mas, se for seguindo a rotina como ela está hoje, esse é o faturamento. Se gastei toda essa gasolina ao longo do dia, saindo de manhã e indo até à noite, o bruto vai dar entre R$ 700 e R$ 750.

Isso só se a Uber mandar corrida ‘boa’?

Isaque: É. Mas como agora estou no Black, meu ganho por quilômetro normalmente gira entre R$ 3,00 e R$ 3,50. Às vezes chega a R$ 5 ou R$ 6, mas o padrão mesmo é R$ 3 a R$ 3,50. E isso, se for comparar, é o que eu fazia no X lá em 2018.

E minha próxima pergunta: na sua opinião, quais são as maiores dificuldades de um motorista de aplicativo hoje?

Isaque: Eu acho que é o tempo. O tempo hoje é o nosso maior ativo. E entendo bem a dificuldade de quem trabalha com carros mais baratos, tipo Mobi, Kwid… No meu caso, como trabalho menos dias, ainda consigo aproveitar um pouco mais da vida.

Mas tem motorista que roda seis dias por semana, folga só no dia do rodízio e, às vezes, nem isso. Trabalha 12 horas e fatura R$ 300. Então, a maior dificuldade mesmo é esse desgaste — você tem que ficar muito tempo online para conseguir ter um resultado razoável.

Hoje em dia, é praticamente impossível alguém trabalhar só no horário comercial, tipo das 8h às 17h, e sair com R$ 300 ou R$ 350 no bolso. Isso não acontece mais, nem no Black. Para conseguir passar dos R$ 300, tem que pegar os dois horários de pico.

Entendi. E só para confirmar: mais ou menos seu ganho líquido no final do mês chega a R$ 5.000, certo?

Isaque: Chega, sim. Se for considerar o custo da gasolina e alimentação — porque a gente come fora —, dá para tirar entre R$ 4.500 e R$ 5.000 limpo. Mas aí tem que considerar que existem outros custos, como manutenção do carro, seguro… Meu carro é financiado também.

Essas coisas eu nem costumo colocar na ponta do lápis como gasto mensal, porque são compromissos fixos que a gente já assumiu. Mas, se for descontar tudo mesmo, não sobra quase nada. No fim das contas, a gente vira um assalariado. Pega, por exemplo, alguém que é CLT e ganha R$ 2.500 — essa pessoa provavelmente tem aluguel, carro para pagar também… No fim, a realidade é parecida. Mas tirando só o custo direto com o carro e alimentação, consigo tirar R$ 4.500, R$ 5.000 limpo. Dá para tirar.

E você já trabalhou com carro alugado?

Isaque: Já, trabalhei um tempo. Na época era bem barato — antes da pandemia e também durante a pandemia, quando deram uns descontos bem legais. Fui bastante beneficiado nesse período, pagava aluguel bem em conta.

Mas depois veio a explosão no preço dos carros, aí ficou inviável. Já tem uns três anos que voltei a ter carro próprio.

E, Isaque, nesse seu faturamento, você já tira o custo do financiamento?

Isaque: No lucro líquido, eu ainda tenho que pagar o financiamento do carro, além da documentação — IPVA, seguro obrigatório, licenciamento… Também preciso manter o carro em dia com manutenção.

Mas esse tipo de custo eu considero como algo fora do lucro líquido, porque não são despesas que acontecem todo mês, principalmente manutenção. Meu carro é praticamente zero, então, por enquanto, não tem dado problema. Mas é preciso sempre estar prevenido com isso.

Não, sim, mas a minha pergunta é: nesse lucro final de R$ 5.000, você já está descontando o valor do financiamento ou não?

Isaque: Não, não desconto.

Ah, tá. É só tirando gasolina e alimentação, né?

Isaque: Isso, só alimentação e gasolina.

Quem é do X não chega, mas é aquela questão, Giulia. Eu, quando vou para a rua, fico 16, 17, 18 horas direto. Acordo às 5h da manhã, deixo minha esposa no serviço, a gente faz atividade junto, temos nossa rotina.

Aí deixo ela no trabalho e começo a rodar aqui em São Paulo. Normalmente paro umas 14h, fico offline por umas duas horas, dou uma cochilada para aguentar firme à noite, e volto às 16h30. Chego em casa por volta das 23h, às vezes um pouco antes, mas é raro — normalmente é depois das 22h, 22h30.

Então, você ganha, mas você trabalha muito?

Isaque: Sim, trabalho muito. Não faço 10, 12 horas, faço bem mais que isso. Só aos sábados, quando trabalho, que faço umas 10 ou 11 horas, porque pego só o horário da tarde para a noite.

E no Black, você é um motorista que normalmente cancela muitas corridas ou costuma aceitar?

Isaque: O Black não tem muita demanda de corrida. Normalmente, aceito 90% delas. Só quando está com muito movimento, tipo em dias de chuva forte, que tem muito trânsito, aí sim avalio melhor.

Porque nessas situações a Uber costuma mandar muita corrida ruim. Então você tem que pensar bem: se vai pegar trânsito, tem que valer a pena. Quanto maior for seu ganho por hora nesse período de chuva e trânsito, melhor. Caso contrário, eu recuso.

Mas, como não é sempre que chove ou que o trânsito está caótico, costumo aceitar as corridas da Uber no dia a dia, com exceção desses casos. As do Comfort eu recuso mais.

Então, quando está no dinâmico, tipo chuva e trânsito, você acaba aceitando as corridas só do Black?

Isaque: Isso, deixo ligado só o Black. Recuso mais as do próprio Black quando vejo que não vai compensar. Por exemplo, se mandam uma corrida para buscar a pessoa a 10 minutos de distância, mas com trânsito pesado, aí não vale a pena.

Às vezes o preço da corrida Black no dinâmico é o mesmo de quando não tem dinâmica. A gente já conhece os valores. Quando vejo que está com preço baixo e a distância não compensa, recuso na hora.

Então, nesses horários mais difíceis, costumo recusar mais as do Black, sim. Mas nos dias normais, aceito praticamente todas. Já as do Comfort, quando deixo ligado em outros horários, recuso com mais frequência. E o X, eu nem ligo — só quando estou indo embora para casa.

E minha próxima pergunta é: você ainda acha que o serviço de motorista de aplicativo vale a pena? E quais dicas daria para quem está começando?

Isaque: Eu acredito que sim, ainda vale a pena, mas tem que saber trabalhar. Quando digo “saber trabalhar”, falo de ter a malícia de escolher corridas boas, saber onde estar, em quais locais vale a pena ficar. Tem toda uma mecânica que a gente aprende com o tempo.

Mas não acho viável para quem quer fazer como renda extra. Ou você trabalha com a Uber ou não trabalha. Não dá para, por exemplo, ser CLT, sair do trabalho às 17h, ir direto para a Uber, rodar até 23h e depois acordar cedo de novo.

Na minha opinião, nem nos dias de folga vale a pena rodar só como extra. Quem quer ter uma renda extra deveria procurar outro tipo de trabalho ou então migrar de vez para a Uber — aí sim, você começa a ver o dinheiro entrando.

Se pegarmos a realidade do X, onde está a maior parte da demanda e dos motoristas, o que eles ganham limpo — R$ 2.500, R$ 3.000, R$ 3.500 — já é muito. E isso trabalhando bastante. É quase o valor de um salário CLT, com todos os benefícios que um trabalhador comum tem.

Na Uber, para fazer renda extra não compensa. Você gasta seu carro, perde muito tempo e não vê o dinheiro. Essa é minha opinião. Agora, para quem quer trabalhar só com isso, ainda dá para ganhar dinheiro — mesmo com todos os defeitos do sistema. Mas vai ter que trabalhar muito, muito mesmo.

No final das contas, se não compensasse de alguma forma, não teria tanto motorista na rua ainda, né?

É, Isaque, acho que da minha parte a gente cobriu tudo o que eu queria perguntar. Você gostaria de acrescentar mais alguma coisa?

Isaque: Sim. Eu acredito que, hoje, a situação dos motoristas se assemelha ao que está acontecendo com o iFood. Falta mais união entre os motoristas. O Brasil é o maior mercado da Uber no mundo.

A Uber apresenta números a cada três meses e, pelo menos, R$ 10 milhões de lucro líquido entram na conta deles só aqui. O Brasil é o principal país quando eles mostram o DRE — é quem mais consome o serviço.

Então, acredito que, se os motoristas se unirem de verdade para buscar melhorias, dá para fazer barulho, sim. Algo como o que aconteceu com os caminhoneiros, sabe? Um movimento que o país inteiro ficou sabendo.

Se fizermos um trabalho nesse sentido, dá para chamar a atenção da Uber — e da 99 também. Acredito que precisamos nos tornar uma classe mais unida nesse propósito.

Foto de Giulia Lang
Giulia Lang

Giulia Lang é líder de conteúdo do 55content e graduada em jornalismo pela Fundação Cásper Líbero.

Pesquisar