Com a alta demanda turística e estratégias, motorista de app em Foz do Iguaçu dribla a concorrência e eleva os ganhos no fim do ano.
Ricardo Prado é motorista de aplicativo há 4 anos em Foz do Iguaçu, Paraná. Após sofrer dificuldades com seu antigo trabalho e a chegada da pandemia, ele enxergou nas corridas uma nova possibilidade de complementar a sua renda.
Dessa forma, com o agravamento da pandemia, Ricardo fechou a sua empresa e focou nos aplicativos de transporte. “Aqui não tem fábrica, só hotel e restaurante, e eu sempre trabalhei em fábrica. Então fui ficando como Uber, porque ganha um pouco mais do que um salário mínimo.”
Rodando uma média de 10 a 12 horas por dia, Prado lamenta a situação dos empregos em sua região. Ele destaca que, fora dos aplicativos, os salários variam entre R$ 2 mil e R$ 4 mil, enquanto como motorista de app consegue faturar entre R$ 6 mil e R$ 8 mil, dependendo do mês.
Ele explica que, por se tratar de uma cidade turística, há muita sazonalidade, mas em meses bons é possível alcançar um faturamento de R$ 7 mil.
Como é ser motorista em Foz do Iguaçu?
Aqui em Foz do Iguaçu, a competitividade entre motoristas de aplicativo é muito grande, principalmente durante as férias. Nessa época, vem muita gente de fora, especialmente de cidades vizinhas, para trabalhar como Uber por causa do aumento no volume de corridas. Dezembro, por exemplo, é um mês em que o movimento cresce bastante, o que atrai ainda mais motoristas temporários.
Além disso, a região tem muitos estudantes de medicina, principalmente brasileiros que estudam no Paraguai, que é um polo de faculdades com custos mais baixos em comparação ao Brasil. Há estimativas – não confirmadas, mas frequentemente mencionadas – de que cerca de 30 mil estudantes brasileiros vivem na divisa.
Muitos desses estudantes, sustentados pelos pais, têm carro, dinheiro para aluguel e faculdade, mas querem um extra para ir a festas ou outros gastos pessoais. Então, usam os carros que os pais forneceram e começam a fazer Uber ou outro aplicativo como complemento de renda.
Isso faz com que o mercado fique saturado. Eu mesmo trabalho com quatro apps, mas há pelo menos uns 18 a 20 diferentes operando na região. Com tantos motoristas, a concorrência aumenta demais.
No entanto, quem sabe trabalhar consegue se destacar. Estou em grupos de motoristas de Uber, e vejo a diferença: há aqueles que conseguem trocar de carro todo ano, inclusive investindo em carros elétricos de R$ 150 mil, e há outros que, quando precisam trocar um pneu, pedem ajuda em vaquinhas pelo WhatsApp. Essa diferença ocorre principalmente pela forma como cada um administra o trabalho.
A Uber e os outros aplicativos pagam pela distância percorrida apenas a partir do momento em que o passageiro entra no carro. O tempo gasto para buscar o passageiro não é remunerado. Por isso, eu só aceito corridas em que o passageiro está próximo e uso aplicativos de apoio para calcular o custo por quilômetro rodado.
Só pego corridas que paguem acima de R$ 2,00 por quilômetro. Corridas de R$ 1,00 ou R$ 1,20, que são a maioria, eu rejeito.
O que acontece é que muita gente não faz essas contas. Eles aceitam qualquer corrida, acabam rodando muito mais e ganhando menos. Por exemplo, tem corridas para o aeroporto que eu não pego de manhã cedo, porque não há voos chegando, e eu teria que voltar sem passageiro. Para mim, isso não compensa.
Esse tipo de gestão é o que faz a diferença. Às vezes, eu trabalho menos, rodo menos e, ainda assim, ganho mais do que outros motoristas que fazem muito mais corridas, mas aceitam valores baixos.
Além disso, vejo no grupo de motoristas algumas estratégias que surgem. Outro dia, à noite, os motoristas combinaram de desligar os aplicativos assim que terminavam uma corrida. Quando o aplicativo percebe a falta de motoristas e a alta demanda, ele aumenta o valor das corridas, acionando a tarifa dinâmica. Assim, as corridas chegaram a triplicar de preço naquela noite.
No final, Foz do Iguaçu tem muita concorrência, especialmente na alta temporada, mas se o motorista souber trabalhar, escolher bem as corridas e administrar os custos, vale a pena. O problema é que muita gente – especialmente estudantes ou motoristas temporários – acaba aceitando qualquer corrida, rodando demais e lucrando pouco.
Você considera o faturamento justo na sua cidade?
Justo, não sei se seria o caso. Porque depois de alguns anos, você vai saber o estado do seu carro, o quanto que vai conseguir vender, para saber se, na totalidade, vale a pena.
No momento em que você roda, se considerar a desvalorização normal de um carro, vale a pena. Eu mesmo tenho faculdade, tenho pós-graduação. Numa indústria, eu ganhava muito mais que isso. Então, pelo conhecimento que eu tenho, acredito que não seja tão justo para mim.
Mas outra pessoa que não tem um segundo grau, mas dirige bem e sabe trabalhar, compensa para ele, porque não investiu em conhecimento. Então, acho que isso é muito relativo.
Sobre a sazonalidade, você mencionou que no final do ano há um aumento no número de corridas e também de motoristas. Como você lida com isso?
No final do ano, a demanda realmente aumenta muito. A gente tem turistas, eventos, compras de Natal na fronteira. E é claro que vem muito motorista de fora, o que aumenta a concorrência. Para lidar com isso, eu foco em aproveitar ao máximo os horários de maior movimento e as corridas mais rentáveis.
Qual o maior desafio de ser motorista de aplicativo em Foz do Iguaçu?
Eu acho que o maior desafio não é pelo nosso trabalho, mas pelo pessoal que vem de fora. Apesar de aqui em Foz do Iguaçu ser obrigado a fazer um cadastro na prefeitura e abrir MEI, não há fiscalização.