“Faturei R$ 13.149 em março. Tirando R$ 5 mil do aluguel do carro elétrico e R$ 877 de energia, o resto foi quase R$ 7 mil lucro”, diz motorista de app e influenciador 

Rafael relata: “Teve sábado que faturei R$ 944: foram 15h de trabalho com 271 km rodados. Tem motorista que roda 14 horas e não bate nem 500 reais e acha que a culpa é do carro, do app ou da cidade”. 

Homem dirigindo carro com cinto de segurança afivelado, usando óculos escuros e camisa jeans.
Foto Rafael de Paula para 55content

De ex-professor a referência entre motoristas de aplicativo, Rafael de Paula, o @monsterdriver, virou a voz dissonante dentro da categoria. Em entrevista ao 55content, ele relata como saiu do desemprego para faturar mais de R$ 13 mil mensais com o app — e por que acredita que a maioria dos motoristas fracassa por falta de mentalidade e gestão. 

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Com críticas diretas à desorganização financeira dos colegas e ao conteúdo “vitimista” de parte dos influenciadores do setor, Rafael afirma: “Motorista brasileiro é bom pagador de boleto, mas péssimo gestor”. 

Ao longo da conversa, ele também revela bastidores da sua rotina em Curitiba, como passou a operar com carro elétrico, recusa parcerias com rifas e joguinhos, e comenta casos extremos de colegas que enfrentam dívidas com agiotas ou chegam ao ponto de tirar a própria vida. Para ele, o segredo está longe de ser só rodar mais: “Não importa como começa — o importante é como termina”.

O que te levou a trabalhar como motorista de aplicativo e como você se tornou influenciador da categoria? Isso foi planejado? Como é que isso aconteceu?

Rafael: Acho que como a maioria dos motoristas, comecei por necessidade. Fiquei desempregado na pandemia. Eu era professor desde os meus 16, 17 anos, dava aula de informática, especializado em Excel, e trabalhava numa escola voltada para isso. Mas com a pandemia, os cursos começaram a parar, ninguém mais investia em formação, tudo estava fechando. Lá pelo final de 2021, saí da escola e precisava encontrar uma nova fonte de renda.

O que me levou a ser motorista foi uma coincidência muito curiosa. Pedi um carro pelo aplicativo e o motorista que veio era o Igor, um cara que tinha sido dono de uma escola onde dei aula há 15 anos. Ele me reconheceu, puxou conversa, e no meio do papo, falei que estava desempregado. Eu nem cogitava ser motorista, porque tinha um amigo que era e só reclamava, dizia que não fazia dinheiro, que era horrível. Mas o Igor era diferente: ele sempre teve um padrão de vida muito bom, já foi dono de três escolas e outros negócios. Na hora pensei: “Se esse cara tá trabalhando com isso, é porque dá dinheiro”.

Perguntei quanto ele fazia, e ele me mostrou os faturamentos dele. Era fim de ano, então os números estavam altos: 13.500, 12.500. Eu ainda pedi para ver o mês mais fraco, e ele falou que não baixava de 10.500. Mesmo sem entender nada de custo, pensei: “Se ele fica com 50%, já são 5 mil líquidos. É mais do que eu ganhava como professor”.

Ali me deu o start. Voltei pra casa e falei pra minha esposa: “Vou ser motorista de aplicativo”. Ela argumentou que o fulano só reclamava, não fazia dinheiro, mas eu rebati: “Esse cara aqui sempre teve uma vida boa, me mostrou um faturamento de 14 mil. Se ele fica com metade, é 7 mil. Eu ganho 3, 3,5”. Ela ficou impressionada.

Então fui atrás: tirei o EAR da carteira, que na época estava toda enrolada, fiz reciclagem, ajeitei tudo com o dinheiro da minha rescisão. Isso foi em fevereiro. Comecei a rodar, mas foi bem na época do auge das restrições, tudo fechado. Às vezes ficava 1, 2 horas esperando uma corrida. Foi bem difícil no começo, levei uns 6, 7 meses só trocando figurinha: pagava aluguel do carro, combustível, sem saber meu custo real, sem nenhum tipo de controle.

Fui aprendendo muito com o próprio Igor. Com carro alugado, o custo é mais fácil de calcular: você paga R$ 600 por semana, divide pelos dias, sabe que é R$ 100 por dia. Já quem tem carro financiado, não sabe fazer essa conta direito, não guarda pra manutenção, não faz cálculo de IPVA, troca de óleo… É muito mais complexo. Com carro alugado, o custo é fixo, e acabou.

E como foi que você se tornou influenciador?

Rafael: Nosso trabalho é muito solitário. A gente fica 10, 12, 13 horas sozinho dentro do carro. Conversa, no máximo, com os passageiros. Aí eu comecei a relatar situações do dia a dia nos stories. No início, eu era muito estressado. Falo que fui um dos piores motoristas que já existiu, porque só reclamava. Não agregava nada pra ninguém. Mas a galera gostava, porque se via nas minhas falas.

Eu falava: “Esse passageiro foi folgado”, e o pessoal comentava: “É isso aí, passo por isso também”. Reclamava da tarifa e todo mundo concordava. Então eu atraía um público que também estava infeliz, e se sentia representado com as minhas reclamações. Até quem nem era motorista me seguia só pra rir dos meus surtos. Um amigo dizia: “Mano, é muito engraçado te ver com raiva! Choro de rir”.

Eu postava stories todos os dias, mostrando a rotina. Mas aí comecei a ganhar seguidores, e pensei: “Espera aí… em vez de ser o bobo da corte, fazendo só o que a galera quer — reclamar, falar mal de passageiro, falar mal da Uber — por que não mostrar o que realmente dá resultado?”.

Foi quando comecei a aprender a gerenciar melhor, ter resultados de verdade e, aos poucos, fui mudando o tom do conteúdo.

A maioria dos motoristas não conseguia fazer dinheiro e só reclamava. Foi aí que decidi ser o cara do contra. Pensei: “Se ninguém tá conseguindo, eu vou mostrar que dá”. Comecei a bater minhas metas e mostrar tudo nos stories: “Tô saindo agora, 6 da manhã, minha primeira corrida tem que ser assim, vou pra tal lugar”. Passei a compartilhar estratégias e mostrar minha rotina em detalhes.

O jogo virou. Em vez de ser o bobo da corte, passei a ajudar outros motoristas. Eles começaram a se inspirar e aprender a fazer resultado também. Porque muitos acham que é só ligar o aplicativo e sair pegando corrida. Não é. Tem gente que roda 12, 13, 14 horas e não bate nem 500, 600 reais. Faz 300 e acha que a culpa é do carro, do aplicativo, da cidade. Mas, na real, é a mentalidade.

Quando o motorista entende que mudar a cabeça muda tudo, o jogo muda. Não é só o trabalho, é como você encara o dia. Se você sai de casa reclamando, vai atrair passageiro que reclama, que atrasa, que dá problema. Aí faz uma corrida ruim, bate boca, se estressa, pronto: acabou o dia. Nosso trabalho exige calma.

Com o tempo, percebi que a maioria dos motoristas que faz grana de verdade já teve empresa, tem formação, tem visão de negócio. Não é aquele cara que “se quebrou na vida” e virou motorista porque “não tem mais o que fazer”. Esse perfil geralmente dá errado porque vem com mentalidade CLT, achando que vai rodar das 8h às 18h e ver o dinheiro cair. E não sabe fazer conta.

Se você perguntar pra 10 motoristas qual o custo por km, 9 não sabem. E o que sabe, calcula só o combustível. A conta de padeiro: “Meu carro faz 10km/l, pago R$ 6 no litro, então meu custo é R$ 0,60 por km”. Mas ele não inclui aluguel, IPVA, seguro, manutenção… Não sabe qual é o custo operacional real. Não faz o básico: dividir os custos mensais pelos dias trabalhados para saber quanto precisa fazer por dia.

Aí o cara fatura R$ 500 num dia, gasta R$ 150 de combustível e acha que teve R$ 350 de lucro. Só que não teve. Esse motorista vai quebrar. Mais cedo ou mais tarde, vai pedir ajuda no grupo do WhatsApp: “Bateram no meu carro, não tenho seguro, tenho quatro filhos”. A culpa é sempre de todo mundo, menos dele. Mas é falta de controle, falta de gestão.

Pergunta qual o custo de vida dele — aluguel, luz, água, internet, mercado — ele não sabe. Ele só pega o dinheiro do dia e vai mandando pra mulher: “Paga isso, paga aquilo”. Trabalha pra pagar conta. O motorista brasileiro é um bom pagador de boleto. Só que não sabe controlar.

Foi aí que percebi meu papel. Eu podia ajudar esse cara a ter controle financeiro. Como professor de Excel, criei uma planilha de planejamento financeiro. Já vendi mais de 15.000 planilhas. Motoristas preenchem metas, controlam custos, entendem onde estão errando.

Recebo mensagem quase todo dia de motorista me agradecendo: “Velho, eu tava pra desistir, achando que o problema era o app. Mas era eu que não tinha noção de nada”. O aplicativo não é perfeito, longe disso. Mas ele me mostrou que, se eu mudasse minha mentalidade, aprendesse a me organizar e buscasse novas fontes de renda, tudo mudaria.

Foi o que fiz. Saí do aluguel de carro, comprei meu carro. Morava numa região ruim pra trabalhar — gostava de rodar em Curitiba, mas morava na região metropolitana. Saía de casa antes das 6h, pegava corrida ruim só pra chegar até Curitiba, e às vezes nem conseguia corrida de volta. Rodava 30 a 35 km vazio.

Fiz as contas: por mês, eram 700 a 850 km rodados sem passageiro. Isso era, no mínimo, R$ 1.400 que eu deixava de fazer. Fora o combustível perdido. Falei pra minha esposa: “Isso não é vida. Não vejo você, nem o Miguel Noah (meu filho), fico fora o dia inteiro e ainda perco dinheiro”. Decidimos alugar a casa onde estávamos e nos mudar pra uma região boa de trabalho.

Fui morar a 3km de onde mora aquele amigo que me apresentou o app. Aí sim o jogo ficou justo. Mesma base, mesmo horário, mesma chance de resultado. A vida foi mudando assim. Às vezes a gente só reclama, mas não faz nada diferente pra mudar.

Motorista vive dizendo que a Uber não presta, que precisa aumentar a tarifa. Mas ou ele muda a forma de trabalhar, busca renda extra, aprende a se organizar, ou vai reclamar o resto da vida. Eu perdi 1 ano, 1 ano e meio só reclamando. Quando decidi mudar, tudo mudou.

Depois de 1 ano rodando e aprendendo, abri meu canal no YouTube. Pensei: “Agora que aprendi, posso ensinar”. Nunca comecei achando que ia ganhar dinheiro com isso. Vejo muita gente começando focado em ganhar com parceria, com conteúdo. Mas quando você foca só no dinheiro, ele foge.

Quando você faz com propósito, o dinheiro vem. Hoje, graças a Deus, tenho muitas parcerias — empresas que me procuraram. Mas recuso bastante também. Não divulgo rifa, nem joguinho tipo Tigrinho. Não divulgo nada que não acredito que vá ajudar motorista de verdade.

Vejo muito motorista viciado nisso, gastando dinheiro toda semana com essas coisas. É um dinheiro que poderia estar investindo em algo que traria retorno certo. Mas não, o cara aposta, sonha com o prêmio que vai mudar a vida dele. Só que, mesmo se ganhar, ele vai torrar. Porque não sabe administrar. Dinheiro fácil vai embora fácil.

Já vi muita gente ganhar prêmio e em um ou dois anos estar quebrado de novo. Falta educação financeira. Então foi assim, tudo aconteceu naturalmente. Nunca planejei ser influenciador. As coisas foram acontecendo, com trabalho, propósito e constância.

E agora falando um pouco sobre a sua rotina atual… Você comentou que mudou de casa para trabalhar em um lugar melhor. Como está a sua rotina hoje? De que horas a que horas você trabalha? Você volta algum dia da semana ou só volta depois de bater meta?

Rafael: Hoje minha rotina está bem diferente do que já foi. Inclusive, passei um tempo em João Pessoa, no Nordeste, trabalhando lá por conta da saúde do meu filho. Fiquei um ano naquela região, que realmente tem um cenário mais difícil — muitos motoristas reclamam. Mas mesmo lá eu conseguia fazer mais de R$ 2 por km, o que o pessoal dizia ser impossível. Conheci alguns motoristas locais que sabem rodar muito bem e me ajudaram bastante. Isso só reforçou a importância de estar cercado de pessoas boas.

Quando voltei para Curitiba, passei a morar no Bigorrilho, que é uma região de Black. Só que, na época, eu ainda estava com um carro que não fazia Black. Fiquei com aquilo na cabeça: “Poxa, se eu estou numa área de Black, se eu ligar o app daqui, pode tocar Black… vou testar”. Conversei com minha esposa e a gente decidiu: como só tínhamos um carro, ela ficaria com ele para levar nosso filho para escola, terapia e tudo mais. E eu alugaria um outro.

Coincidentemente, nesse período, apareceu uma empresa interessada em fechar parceria comigo para divulgar eletropostos para carros elétricos. Aí pensei: “Como é que eu vou divulgar um serviço que eu nem uso? Como vou falar sobre carro elétrico se nunca dirigi um?”. Foi aí que aluguei um carro elétrico, para fazer um teste real. Esse teste durou o mês inteiro de março — meu primeiro mês com carro elétrico — e mudou completamente a forma como eu trabalho.

Não me estresso mais. O passageiro do Black é outro perfil, é um público mais consciente, mais educado. Meus horários hoje são bem definidos: começo a trabalhar às 6h da manhã, já ligo o aplicativo de casa mesmo e, por estar numa área boa, as corridas já começam a tocar. Trabalho apenas nos melhores horários do dia. De segunda a quinta, rodo das 6h até, no máximo, 10h, porque depois disso o movimento cai bastante.

Nesse turno da manhã, busco fazer entre R$ 160 a R$ 200, com foco de R$ 40 a R$ 50 por hora. Em março, trabalhei 25 dias, 263 horas no total, e minha média por hora foi de R$ 49,88. Quase bati os R$ 50/hora, que era a minha meta.

O horário ocioso entre 10h e meio-dia eu uso para ir à academia ou volto pra casa, já que estou sempre por perto, a 2 ou 3 km de distância. Depois, volto a rodar ali por volta de meio-dia e meia, e sigo até umas 2h ou 3h da tarde. Se o movimento estiver bom ou se pegar uma corrida longa, como para o aeroporto, eu estico.

Mais tarde, por volta das 17h ou 17h30, volto para a rua e fico até bater a meta do dia, que costuma variar entre R$ 500 e R$ 600. Em março, minha média de faturamento diário foi de R$ 525,95. Teve dias que fiz R$ 900, R$ 800, R$ 700… mas também dias mais fracos, tipo R$ 380 ou R$ 480. E quando vejo que o dia não está rendendo, consulto minha planilha e digo: “Hoje não vai, não vou forçar, tô me estressando à toa”. Fecho o app e vou pra casa. No dia seguinte, começo cedo e compenso — trabalho 12, 13, 14, até 15 horas, se for necessário.

Isso é o que muita gente não entende. Às vezes o cara vê que trabalhei 15 horas num dia e critica, mas não sabe que, naquela semana, tirei dois dias de folga, ou só trabalhei de manhã em outros. Tudo é questão de controle. A planilha me mostra tudo: faltam 10 dias para o mês acabar? Ela diz quanto ainda preciso fazer por dia para bater a meta.

Em março, coloquei como meta R$ 14.000 de faturamento, mas, para cobrir minhas despesas, eu precisava de R$ 12.000. E por quê? Porque o aluguel do carro elétrico era de R$ 1.250 por semana, ou seja, R$ 5.000 no mês. Com R$ 12.000, já pagaria o aluguel do carro e ainda sobraria bastante. Fora isso, o custo de energia foi super baixo. Gastei apenas R$ 877 de carregamento, usando uma das empresas com o melhor custo-benefício aqui, a Ecoforte, que cobra R$ 1,12 o kWh. Pra você ter ideia, em Florianópolis, paguei R$ 2,50 — mais que o dobro.

Fechei o mês com R$ 13.149 de faturamento. Tirando os R$ 5.000 de aluguel do carro e os R$ 877 de energia, o restante foi praticamente 100% livre. E sobre alimentação, muita gente pergunta: “Mas você não come na rua?”. Não, porque minha alimentação faz parte da gestão da casa, não da gestão do carro.

Eu sigo uma dieta e levo tudo comigo: marmitas com arroz e frango, arroz com tilápia, aveia, whey. Tenho todo meu controle alimentar e isso também ajuda no meu desempenho, no foco e até no bolso.

Esse é um custo pessoal, né? Porque, no fim, é como se vocês fossem uma empresa. O custo do carro é o custo da operação e a alimentação você teria de qualquer forma, sendo ou não motorista.

Rafael: Exatamente. A alimentação eu sempre vou ter, trabalhando ou não. Então ela entra na gestão da minha casa, não na do carro. Nesse mês, por exemplo, eu rodei 4.806 km e meu ganho por quilômetro ficou em R$ 2,74. Não é o ideal ainda, dá pra melhorar. Tenho um grupo com motoristas que fazem bastante dinheiro e o km deles ficou bem melhor que o meu, porque eles rodaram 100% no Black. Já eu, quando comecei, cometi o erro que muitos motoristas cometem: pensei que precisava fazer dinheiro rápido, pagar o aluguel do carro logo, e aí comecei a aceitar corridas de Comfort também.

O Black, diferente do que muita gente pensa, não é só ligar e esperar corrida. Tem que saber os pontos certos, os horários, o posicionamento ideal. E se você não estiver perto do passageiro, não toca — porque hoje em Curitiba tem muito motorista Black. Isso porque o preço de um carro para Black está praticamente igual ao de um carro de X e Comfort. Um C4 Cactus, por exemplo, que é o de entrada para o Black, custa cerca de R$ 60 mil, o mesmo preço de um Kwid, que só roda em X.

Aí o cara pensa: “Vou comprar um carro de Black, porque assim eu faço todas as categorias”. Mas esse é o erro. Quem vem para o Black tem que vir para fazer só Black. No começo, fiquei naquela de “preciso rodar tudo”, então ligava Comfort toda hora. Resultado: acabava aceitando corrida ruim, prejudicava minha taxa e perdia corridas boas de Black.

Foi quando um amigo falou: “Desliga o Comfort e foca só no Black”. Aos poucos fui aprendendo a me posicionar e trabalhar do jeito certo. Nas últimas duas semanas do mês, só fiz Black. Só ligava o Comfort em situações específicas, como quando caía numa região muito distante, tipo Piraquara, onde não toca Black, ou no aeroporto, caso ficasse mais de 10 minutos sem corrida. Ainda assim, usava o Comfort só para voltar e bem raramente.

Às vezes, mesmo caindo em locais ruins, prefiro voltar vazio do que pegar corrida ruim. Isso faz bem para minha cabeça, me traz menos estresse. O público do Comfort tende a avaliar pior, reclamar mais. Desde que comecei a fazer isso, minha taxa de aceitação e cancelamento melhoraram, minha nota também, e principalmente minha paz mental.

Mas nem todo motorista está pronto para isso. Tem gente no Black há anos que ainda não aprendeu a rodar direito. Porque não basta ter o carro, tem que saber trabalhar com ele. Tem cara que vem achando que é só ligar o app. Não é. E o custo do Black é mais alto — tem motorista alugando carro elétrico sem estar preparado. Já vi caso de gente pagando R$ 6.000 de parcela para ter um elétrico. A franquia do seguro de um carro elétrico é R$ 12.000. E o motorista acha que só precisa ter o valor do aluguel e do caução.

Mas não é assim. Tem que ter o dinheiro do aluguel da semana, de pelo menos duas ou três semanas, o caução e ainda a franquia, caso aconteça algum acidente. Senão, está contando com a sorte. E se der algum BO, vai ser grande. Muita gente faz loucura. O cara nem tem um faturamento mensal alto e se compromete com prestações altíssimas. Se ele ficar doente por duas semanas, perde o carro pro banco.

Não é todo mundo que pode rodar de carro elétrico. Tem que ter planejamento. Tem que morar bem posicionado, conhecer os pontos, saber fazer dinheiro. Não é se aventurar. Tem gente que vem de outra cidade achando que vai rodar e ganhar igual a quem já conhece o território. Aí quebra a cara. Já vi motoristas virem do Norte e Nordeste para cá, tentarem rodar, não se adaptarem ao clima, às pessoas — que aqui são mais fechadas — e voltarem dizendo que não conseguiram se encaixar.

O pessoal olha alguém faturando alto e acha que é só ligar o app. Não vê o esforço, a estratégia, as horas planejadas. Em São Paulo, por exemplo — a cidade com mais chamadas da Uber — tem gente que não faz dinheiro. E tem motorista no meu grupo que faz R$ 15 mil por mês. A diferença está na mentalidade.

Aquele cara que reclamava do patrão na CLT, dizendo que ganhava pouco por culpa do chefe, vem para o app e faz igual: a culpa é da Uber, do combustível, dos impostos — de todo mundo, menos dele. Esse cara não vai pra frente. O que muda tudo é a mentalidade.

Sobre a minha rotina de fim de semana, ela é um pouco diferente da semana. De segunda a quinta, sigo os horários de pico: das 6h às 10h, depois das 12h às 14h ou 15h, e à noite das 17h até às 23h, mais ou menos. Já na sexta, começo a rodar por volta do meio-dia e vou até o aplicativo travar. No sábado é a mesma coisa: começo ao meio-dia e trabalho até onde for necessário, 14, 15, 16 horas — o que for preciso para faturar bem.

Os sábados, aliás, foram absurdos neste último mês. Dia 8, por exemplo, trabalhei 15h20 e faturei R$ 817 rodando 303 km, com custo de apenas R$ 41 de energia. No sábado seguinte, dia 15, foram 15h de trabalho, 271 km e R$ 944 de faturamento. No dia 22, 15h30 rodando e R$ 901 de resultado.

Por que eu faço isso? Porque domingo é meu dia de descanso, de curtir a família. Gosto de almoçar com eles, ir ao parque, relaxar. Então me esforço no sábado para garantir o descanso no domingo.

Final de semana normalmente o movimento é maior, né?

Rafael: Sim, paga melhor. Tem mais demanda, mais eventos, muita dinâmica. Março, por exemplo, foi um mês atípico em Curitiba, com muitos shows e eventos. Quem trabalhou certo, faturou muito bem. Eu mesmo não fui o que mais faturou, nem de longe. Teve gente que fez muito mais. Foi um mês excelente, o contexto ajudou bastante.

E Rafael, você comentou que começou na pandemia, demorou um tempo até realmente começar a ganhar dinheiro… Quais são, na sua opinião, as maiores diferenças entre ser motorista naquela época e agora? Você acha que antes pagava mais ou hoje está mais fácil?

Rafael: Hoje está muito mais fácil. Naquela época, eu ficava até duas horas parado esperando uma corrida. E olha só: o valor das corridas não mudou. A tarifa é a mesma desde que entrei. Sempre foi ruim, continua sendo ruim. A diferença é que agora a gente aprendeu a driblar isso — trabalhando nos melhores horários, escolhendo os melhores bairros, sabendo que o começo do mês é mais forte em chamadas.

É como no comércio: no início do mês, as pessoas estão com dinheiro, compram, usam o app. No fim do mês, a grana acaba, o movimento cai. Então, se você deixa para bater meta no final do mês, está se sabotando. Hoje temos muito mais usuários, muito mais corridas. Sim, tem mais motorista também, mas para mim isso não é problema — porque a maioria não sabe trabalhar. Eles vão desistir.

O cara fica o dia todo na rua nos horários errados, se cansa, e quando chega o pico de verdade, como 10h da noite na saída de shopping, ele já foi embora pra casa. E é aí que eu estou na rua. Então, com planejamento e estratégia, dá pra se destacar fácil.

E outra coisa importante: esse trabalho não é para todo mundo. Assim como nem todo mundo pode ser dentista, médico, policial… por que motorista de aplicativo seria? Tem gente que entra só pelo dinheiro, mas não gosta de dirigir, não gosta de gente, não sabe manter o carro limpo. Já vi passageiro falando que o motorista fumava dentro do carro! Um absurdo. Esse tipo de pessoa não deveria estar aqui. Mas está. Porque a Uber não controla nada — nem passageiro, nem motorista. O que ela quer é lucro. Ela quer que a gente produza, só isso.

Então a dica é: não dependa 100% do aplicativo. Use como uma ferramenta, uma renda. Porque amanhã você pode ser bloqueado — e se tiver uma dívida de R$ 5.000 de parcela, faz o quê? É um risco enorme.

E hoje você ainda acha que vale a pena ser motorista de aplicativo?

Rafael: Pra mim, vale. Mas não é pra todo mundo. Se o cara está há 3 ou 4 meses e não vê resultado, não está faturando bem, é porque está fazendo algo errado — ou simplesmente isso não é pra ele.

Tem motorista que fatura R$ 10.000 e fica com só R$ 3.000 porque roda demais, não controla o KM, tem custo alto. Isso não vale a pena. Então, pra alguns, compensa muito. Para outros, nem um pouco. O erro está em colocar todos os ovos na mesma cesta. Não dá pra depender só disso.

Você tem que usar o aplicativo — e não ser usado por ele. Tem que saber a hora de parar também. Conheço motorista que só começou a dar certo quando largou o carro financiado e passou a alugar. Por quê? Porque com o aluguel vem a cobrança semanal, o cara se obriga a ter disciplina. Quando era carro próprio, ele pagava uma parcela no início do mês e o resto ficava solto. Então tudo depende do perfil da pessoa.

E pra você, qual é a maior dificuldade: ser motorista de app ou influenciador? É conciliar os dois? É criar conteúdo?

Rafael: Essa pergunta é boa, porque muita gente fala: “Ah, o cara só dirige, por que tá cansado?”. Mas é muito mais do que dirigir. Eu rodo, gravo conteúdo, tenho que editar vídeo, responder seguidores, filtrar crítica. Porque quando a pessoa está infeliz, ela quer descontar em alguém — e ela vai descontar em quem aparece. E isso mexe com a nossa cabeça. Recebemos muitas mensagens ruins, que abalam mesmo.

Hoje, minha maior dificuldade é manter o YouTube. Às vezes passo o dia inteiro gravando, e no dia seguinte tenho que sair às 6h da manhã. Quando vou editar um vídeo que leva 4 horas? É puxado. Muita gente acha que é fácil, mas não é. Por isso que tem que monetizar, senão já teria largado tudo — Instagram, canal…

Mas, ao mesmo tempo, é prazeroso. Quando recebo mensagem de alguém falando “cara, graças ao teu stories eu não desisti”, isso me dá força. Teve gente que me contou que estava indo embora pra casa, viu meu story, voltou e bateu a meta. Isso muda o dia da pessoa — e às vezes até o casamento, porque sem dinheiro a relação entra em crise.

A pressão na rua é enorme. Inclusive, perdi um colega recentemente. Estava nos dois aplicativos, separou da esposa, tomava remédio, entrou em depressão e acabou tirando a própria vida. É pesado.

Outro dia, recebi mensagem de um motorista que está devendo mais de R$ 30.000 pra agiotas. Disse que a família teve que mudar de estado por conta das ameaças. E ele escreveu: “Graças aos teus stories ainda tenho esperança. Estou trabalhando duro, mas temo pela minha vida”.

Essas histórias são fortes. E saber que eu consigo ajudar, mesmo que um pouquinho, me dá orgulho. Minha esposa trabalha com proteção veicular e às vezes ela recebe mensagens de gente que contratou com ela e agradece: “Diz pro monstro que eu estava desistindo e melhorei minha vida depois que comecei a acompanhar ele”.

Isso me segura nos dias difíceis. Porque tem dia que dá vontade de largar tudo. Mas essas mensagens me lembram por que eu comecei.

O cara só tá te atacando porque, na verdade, ele não é uma pessoa ruim. Ele está numa fase ruim, e a pessoa que tá numa fase ruim não quer ver ninguém bem.

Exatamente. Se um cara ler essa matéria aqui e ver que eu fiz R$ 13.000 no mês, ele vai dizer que é mentira. Vai falar: “Esse cara é patrocinado pela Uber, isso aí é armação”. Sempre aparece alguém com esse tipo de discurso. Mas, na real, ele já não ganhava dinheiro antes. O problema não é a quantidade de motorista ou a concorrência — é a mentalidade dele. Enquanto ele não mudar isso aqui (a cabeça), não adianta.

É como se eu abrisse um mercado, estivesse vendendo bem, e de repente abrisse outro mercado na rua e eu dissesse: “Agora parei de vender por culpa do concorrente”. Não, cara. Tenho que me reinventar. O motorista é a mesma coisa. Mas é mais fácil botar a culpa nos outros.

Ser influenciador tem seu lado bom e ruim. O lado bom é saber que estou transformando vidas — e, quanto mais vidas eu transformo, mais a minha vida se transforma. Hoje vivo coisas que nunca imaginei viver quando era professor. Morei um ano em João Pessoa, na beira-mar, uma experiência fantástica pra mim e pra minha família. Levei minha mãe pra Floripa, consegui proporcionar uma viagem de verdade pra ela, ficar num lugar bom, sair pra almoçar e jantar sem me preocupar com o valor. Isso é gratificante. Trabalhei pra isso.

A gente também precisa se presentear, senão fica só na pressão, só na correria. E isso enlouquece. Já pensei em parar de produzir conteúdo várias vezes. E, sinceramente, nem recomendo pra todo mundo. Meus amigos às vezes perguntam: “Pô, e aí, será que eu começo também?” — e eu falo: “Cara, se você não tiver cabeça forte, nem vem”. Porque a maioria dos motoristas está numa fase ruim e vai te atacar. E pode apostar: quem comenta coisa ruim, é porque está vivendo algo ruim. A crítica diz mais sobre ele do que sobre mim.

Hoje eu entendo isso. Se alguém comenta besteira em um post meu, ataca, eu sei que é porque ele tá na merda e precisa extravasar. A válvula de escape dele é atacar alguém. Eu só bloqueio. Não quero esse tipo de gente consumindo meu conteúdo. Não merece.

Sim, eu falo isso porque teve um motorista que fez até vídeo dizendo que a gente era influenciador patrocinado pela Uber.

Rafael: Pois é. Tem uns influenciadores que vivem só de notícia ruim. Falam o que o povo quer ouvir porque sabem que dá audiência. Eles inflamam a categoria: “Ah, a Uber é isso, é aquilo, tem influenciador vendido…”. Mas sabe qual é a real? Esses caras não têm nada de bom pra oferecer. Não têm planejamento, não têm controle financeiro, não fazem dinheiro no app — e muitos nem rodam mais. Só vivem de atacar, de fazer conteúdo ruim.

E conteúdo ruim atrai público ruim. E público ruim não compra nada. Pode ter 100 mil seguidores, pode ser canal grande… mas não vende. Porque quem só espalha negatividade não converte em vendas. As empresas percebem isso. Não querem se associar a esse tipo de imagem.

Já conversei com o Uber do Chefe, que é um cara que sempre tenta ajudar. Falei pra ele: “Mano, você agrega demais, publica conteúdo de valor, mostra resultado, e os caras ainda te atacam”. Ele me respondeu: “Não me importo. Quem aprende comigo, confia em mim. E confia tanto que compra o que eu indico, porque sabe que só recomendo coisa boa.”

Agora, quem só fala mal… você confiaria em alguém assim? Compraria algo de uma pessoa que só espalha desgraça? Nenhuma empresa séria vai investir nesses caras. Tem influenciador que aluga carro, vai pra São Paulo, tenta fazer parceria, e não fecha nada. Porque criou um público que só consome negatividade — e esse público rejeita qualquer coisa boa que ele tente trazer depois. Eu não quero ir por esse caminho.

Entendi, Rafael. Eu acho que fiz todas as minhas perguntas. Gostaria de saber se você tem algo a mais para acrescentar.

Rafael: Sim, tem uma frase que eu sempre deixo pros motoristas: não importa como começa, o importante é como termina.

Às vezes o dia começa ruim, você já pensa em desistir e ir embora pra casa. Mas, se você insiste, uma única corrida pode mudar tudo. Uma corrida leva a outra. Cada passageiro é uma oportunidade. O motorista precisa entender isso.

Já vi casos de gente que estava no limite, orando por uma nova chance, e de repente, numa corrida, começa a conversar com o passageiro e… pronto! Está contratado na empresa do cara. Já ouvi várias histórias assim. Por isso, reforço: não importa como seu dia começa — o que importa é como ele termina.

Foto de Giulia Lang
Giulia Lang

Giulia Lang é líder de conteúdo do 55content e graduada em jornalismo pela Fundação Cásper Líbero.

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